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Quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Dois livros e muitos colares de mesa

Dois livros e muitos colares de mesa

Ganhei dois livros, ambos de culinária, da Ediouro, cada um escrito por uma morena. Uma americana, a outra inglesa. Da primeira, até o ano passado, eu nunca tinha ouvido falar. Ela é mulher do comediante ícone da década de 1990, Jerry Seinfeld, e escreveu um livro sobre alimentação infantil. Jessica, ela se chama. A outra, todos nós conhecemos por conta da televisão, e o livro é Nigella Express, Receitas Rápidas e Saborosas. Os dois foram lançados praticamente juntos. Mas, em comum, além de autoras culinárias, publicadas no Brasil pela mesma editora, elas só têm as longas madeixas negras. E só. Uma é o oposto da outra.

Ouvi dizer que Nigella está escrevendo um livro de ficção. Há alguns anos, aliás. Não sei se desistiu ou se o processo é mesmo lento. O do livro de ficção, pois os de culinária são express. Acho que o de ficção seria uma delícia. De certa maneira, ela escreve sobre comida de um jeito romanceado. Gosto e gosto muito dos livros dela, dos programas de televisão, das analogias que ela faz, da forma que ela entende comida. E come com gosto. Não tem muito preconceito. Aliás, faz disso um diferencial. É só todo mundo achar cafona que ela adora. Fala sério: chucrute com salsicha, salada de macarrão e mortadela, bolo de sorvete... Todas receitas do livro Nigella Express, que, nas mãos dela, ficam incrivelmente apetitosas.

Esses dias, quase briguei com uma amiga no café por causa da Nigella. Isto é, primeiro preciso explicar que tenho um grupo de discussão: a gente debate e re-debate qualquer assunto. Qualquer um. Somos cinco mulheres e nos encontramos quase todos os dias no café da manhã. Coisa rápida. Mas sempre tem debate. E o acerca da Nigella não tinha nada a ver com comida. A questão era essa moda de bota-sandália, sabe? Dessas que cobrem a canela e deixam os dedos à mostra; cobrem o peito do pé, mas o calcanhar fica de fora. Uma dizia que não existe nada mais brega; a outra insistia que era chique, “até a Nigella usa!”, ela justificou.

Eu estava quieta no meu quadrado, mas resolvi opinar: Peralá, a Nigella pode ser tudo, mas chique ela não é! E aquele cabelo longo durinho de laquê?! Por quê? Por que raios fui questionar o bom gosto da Nigella? O debate pegou fogo! E olha que a gente põe na mesa assuntos cabeludos, negros, longos, mas sugerir que a outra é cafona... A gente fala sobre problemas dos filhos, dificuldade financeira, vida sexual, até falta dela pode entrar em pauta, mas criticar a Nigella...

Jessica Seinfeld tem cabelos lisinhos, sedosos, esvoaçantes. Tudo na vida dela parece perfeito. Três filhos, cabelo bom, marido divertido, rica, sabe cozinhar. Perfeita. Salvo o fato de que ela faz brownie de chocolate com espinafre para obrigar os filhos a comer folhas verde-escuro sem que percebam. Meio estranho, vai? Não é melhor ensinar a comer espinafre refogado com uvas-passas ou fazer o bom e velho creme de espinafre bem grossinho? Sei lá... Eu entendo que, quando as crianças são bem pequeninas, dá um desespero se eles não querem comer nada além de macarrão. E a sra. Seinfeld dá a receita para mães que acham que o filho não come.

O pediatra dos meus filhos tem resposta para tudo. Quando chega uma mãe dizendo que o filho não come, ele pergunta: “E cocô, ele tem feito?”. A mãe responde: “Ah, doutor, todos os dias...” Então está comendo; se não estivesse, não faria. Não é muito boa essa medida? Bom, eu acho. E sou contra ficar forçando filho a comer. Já viu criança de classe média desnutrida?

Voltando aos livros, ainda não falei sobre eles com o meu grupo de discussão. Deliciosos e Disfarçados – Como tornar a alimentação do seu filho saudável sem que ele perceba – é o nome do livro da Jessica. Isso me faz lembrar a história da ar-rrentina que morava em Búzios: “Si xô no digo que soy ar-rrentina, los otros ni percibem, tengo que mostrar mi pass-por-t!” Eu nunca consegui enganar os meus filhos.

Bom, as imagens acima não têm nada a ver com os livros, obviamente. São de um e-mail de uma leitora, que recebi enquanto escrevia este post. Yana faz porta-guardanapos com frutos brasileiros, principalmente do cerrado, catados manualmente por famílias da região. “Com esta matéria-prima, faço também colares de mesa.” COLARES DE MESA! Adorei o trabalho dela. Muito chique. E não é que enfeita mesmo? Com um colar desses na mesa, pode até servir brownie de chocolate com espinafre que eu não reclamo.

>> Postado por Rita Lobo 12:59

Segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Croquete, empadinha e cajuzinho

Croquete, empadinha e cajuzinho

Era o ano de 1995 quando ganhei da minha mãe Não é Sopa, de Nina Horta. Não por acaso, foi o ano em que o livro foi lançado. Por acaso, foi também o ano em que me formei em gastronomia. Para mim, o livro foi uma revelação: descobri o que eu queria ser-quando-crescer: queria ser a Nina Horta. Mas isso não dá. É pedir demais. Então, decidi que escrever sobre comida seria suficiente.

Logo em seguida, por um desses acasos da vida, passei a escrever para a Revista da Folha e, esporadicamente, para o jornal também. Quer dizer, não foi bem um acaso, foi graças ao meu amigo Matinas Suzuki Jr., por intermédio do Mário Vitor Santos, então editor da Revista. A Nina era colunista do jornal. E acho que, por isso, um dia nos conhecemos. Ela foi mais que simpática, papeou, papeou, e parecia inquieta com uma pergunta. Uma hora ela não resistiu e perguntou: “O que uma moça tão bonita quer fazer na cozinha?” Respondi em pensamento: fique tranqüila, beleza passa. Depois fomos almoçar, nos encontramos aqui e ali e, nos últimos 12 anos, devo tê-la encontrado uma dezena de vezes. No máximo.

Vira e mexe eu mando um oizinho daqui, e ela manda um oizinho de lá. Na semana passada, Nina veio almoçar na minha casa. Uma amiga em comum está tentando nos juntar num projeto que nenhuma das duas tem tempo de fazer, mas a gente vai dar um jeito. No meu caso, claro, só para poder estar mais perto dela.

A amiga em questão é do tipo que passa trote, como eu, aliás. Uma vive tentando pegar a outra. Ela se chama Letícia. Imagine uma gargalhada. Agora transforme essa gargalhada numa pessoa. Pronto, essa é a Letícia. Quando marcamos o almoço, ela me perguntou se precisava levar alguma coisa. Disse fazendo voz e sotaque de italiana do Brás: “quer que eu leve uma bandeja de empadinha ou de croquete?”. E eu respondi: “faz assim, ó: você traz as empadinha e manda a Nina trazer os croquete, mas avisa que eu não tô mais comendo fritura, então os croquete têm de ser assado. Os cajuzinho é por minha conta, tá?”

No dia do almoço, as duas chegaram em casa, não pontualmente, porque isso em São Paulo não existe mais. Nina chegou se desculpando que não deu para trazer os “croquete”, mas trouxe um maço de neen arrancado do jardim da casa dela. Neen é o segredo do brilho dos cabelos de Nina. Eles reluzem. Depois contou que a secretária passou a semana ligando para lembrá-la do diacho da bandeja e que, por mais que ela dissesse que era uma brincadeira, a secretária não acreditava. Dessa vez, quem caiu foi a secretária da Nina, coitadinha!

Passamos o almoço falando de absolutamente tudo, menos do projeto. Marcamos outro encontro. Ou vai ser na casa da Nina ou da Letícia, que tem uma mesa de pingue-pongue em lugar de mesa de jantar. Estou tão ansiosa que já estou até preparando as “coxinha” para o almoço. E vou me esforçar para chegar na hora.

>> Postado por Rita Lobo 18:50

Terça-feira, 08 de julho de 2008

Sopa Thai

Sopa Thai

Acabo de chegar de Paraty. Mas a Flip não será o assunto hoje. Nem os borrachudos, que tanto, tanto me amam. E, mesmo antes de começar o post, quero que fique claro: não tenho nada contra alemães. Nada. Mas uma alemã que não consegue organizar uma fila é algo curioso. Principalmente quando a fila é a da porta do restaurante dela. (Não, eu não descolei um lugarzinho para comer de joelhos porco com chucrute à beira-mar.) Thai Brasil é o nome do local.

Uma alemã fazendo comida thai em Paraty, por si só, já renderia um bom caldo. Mas o assunto também não é esse. Foi o atendimento de lá que achei realmente peculiar. Estávamos num grupo de dez pessoas. E não havíamos feito reserva, pois o restaurante não aceita. “É só chegar e sentar”, disse a voz do outro lado da linha. Será? Em plena Flip, quando até boteco meia-boca tem espera? Sim, é só chegar e sentar, depois de esperar na porta.

A muvuca era digna. Nada de gente com cara feia. Todo mundo educado, literatos à espera de alguém para escrever seus nomes numa lista de restaurante. Até que um freguês resolveu perguntar ao outro que parecia estar ali há mais tempo: “Quem está anotando a ordem de chegada?” O cliente antigo explicou: “Ninguém. Fique na fila; se vir alguém se levantando, corra, sente e a mesa é sua.”

Não, o sujeito devia estar brincando. Lá fui eu falar com uma garçonête ar-rrentina. Ela confirmou: “É, a chente até tentou organissar a espêra, mas nunca deu certo; quem sentar priméiro é o dono da messa. Vocês podem se organissar lá fora.”

Opa! Daqui para dentro eu organizo, daqui para fora, vocês é que se virem? Resolvido. A cotoveladas, fomos eliminando a freguesia que aguardava na porta. Um por um. Claro que não. Apenas esperamos confiantes. E os outros foram desistindo. Dez minutos depois, uma mesa vagou. Fomos andando até lá e nos sentamos, os dez, numa mesa para quatro. Em pouco tempo, junto com as bebidas, outra mesa e mais algumas cadeiras surgiram para acomodar com conforto o grupo. Afinal, dali para dentro, eles organizavam!

A garçonête ar-rrentina tirou o pedido. Foi fácil. Um prato de cada do cardápio. Salvo a sopinha thai, que parecia ser a favorita de todos. Mas decidimos que apenas três seriam suficientes. Aquele esquema: tudo no centro da mesa, e cada um come um pouquinho. A chente é freguês mas também sabe se organissar.

Tudo gostoso, fresquinho, com direito a ervas plantadas na horta da chef alemã. Curry verde de peixe, curry vermelho de camarão, arroz de jasmim, pad thai, o típico macarrão tailandês. E a clássica sopinha de leite de coco, capim-santo e frango. Como ainda não falei dela aqui? Era sobre a sopa que eu queria falar!

Há tempos não a preparo em casa. No meu extinto restaurante era um hit. Dia sim, dia não, tomava a sopinha. Mesmo assim, continuo achando a combinação de sabores dela surpreendente. É uma dessas receitas que, à primeira vista, podem parecer estranhas. Especialmente para alguém sem intimidade com comida tailandesa. Vale a pena experimentar. É uma excelente opção de entrada num jantarzinho entre amigos. Vamos à receita.

Sopa Thai

Para quatro pessoas você vai usar:

600 ml de caldo de galinha
2 saquinhos de chá de erva-cidreira (melhor ainda se usar capim-santo fresco)
400 ml de leite de coco
200 g de filé de frango cortado em cubinhos
1/2 xícara (chá) de cogumelos-de-paris cortados em fatias
1 pimenta dedo-de-moça
1 colher (sopa) de gengibre picado ou ralado
1/4 xícara (chá) de suco de limão
1 colher (sopa) de nampla (molho de peixe)
1 talo de cebolinha cortado em rodelinhas
10 folhas de coentro rasgadas com as mãos

Modo de preparo

1. Leve ao fogo alto uma panela média com o caldo de galinha (se for em cubinho, use apenas um). Quando ferver, junte os saquinhos de chá, ou a erva fresca, desligue o fogo e tampe a panela.

2. Corte os ingredientes conforme pedidos na receita. Frango em cubinhos, cogumelos em fatias etc. Atenção para a pimenta: corte na metade, no sentido do comprimento; com a ponta da faca, raspe as sementes e descarte; corte as metades em tirinhas finas, na diagonal. (As sementinhas em contato com a pele podem causar queimaduras, por isso, em seguida, lave bem as mãos e os utensílios usados.)

3. Retire os saquinhos de chá da panela, acrescente o leite de coco, o gengibre e ligue o fogo alto. Assim que ferver, abaixe o fogo para médio, junte os cubinhos de frango, os cogumelos, a pimenta, e deixe cozinhar por 5 minutos. Por último, acrescente o nampla. O suco de limão e as ervas frescas (cebolinha e coentro) são acrescentados na hora de servir. Sirva bem quente.

Sobre o nampla

É um molho de peixe fermentado, de aroma forte. Resultante do cozimento de anchovas e temperos diversos, o nampla está para a cozinha tailandesa como o shoyu está para a japonesa. Usado em praticamente todos os pratos, ele substitui o sal. É encontrado em lojas especializadas em produtos orientais.

A pergunta óbvia: dá para fazer a sopa sem nampla? Claro que dá, mas não fica a mesma coisa. Mas, pelo menos, você não será atacado por borrachudos nem vai ficar esperando em pé na porta da cozinha até a mesa vagar!

>> Postado por Rita Lobo 01:34

22 de junho de 2008

Pensamento derretido

Pensamento derretido

Não tenho escrito muito sobre o prazer de cozinhar. Este é o assunto de hoje. De cozinhar e de comer. E vai ser fácil. O ingrediente é chocolate.

Na semana passada, uma amiga me pediu para ajudá-la a fazer um almoço para 15 pessoas. Era coisa rápida. Uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Para mim, a sobremesa. Eu adoro a musse de chocolate preto e branco aqui do site. Não me lembro de ter comido musse melhor. E decidi prepará-la no dia anterior. (Ela fica melhor dormida na geladeira.)

Tarde da noite, lá fui eu para a cozinha. Banho-maria para derreter o chocolate, uma dúzia de gemas na batedeira formavam uma gemada cremosa, xícaras e colheres para não errar a medida dos ingredientes, que foram multiplicados por três. Salvo o conhaque, um pouco mais generoso. Noite fria, casa já silenciosa, crianças dormindo, a babá fechada no quarto dela para se concentrar na trama da novela. (Aliás, agora eu também tenho a minha novela: é a série diária Em Terapia, que passa na HBO, mas isso é assunto para outra hora. Não perdi um episódio sequer, acredita?)

A receita não é difícil, mas requer alguma destreza. E suja várias tigelas, espátula, batedor, batedeira... Basicamente, é preciso fazer uma gemada, derreter chocolate meio amargo, bater creme de leite e parar antes de virar chantilly, derreter manteiga e misturar com cacau em pó e com conhaque (tomar um golinho de conhaque, na minha opinião, também faz parte do preparo), fazer um pouco de raspas e muitos cubinhos de chocolate branco e, depois, misturar tudo. Na minha casa, não é receita para o dia-a-dia. Definitivamente. Frutas e olhe lá.

Transferi a mistura para um tigelão de vidro e coloquei na geladeira. Fechei a porta, virei para a bancada e vi que ela estava rindo da minha cara. Nem era muita bagunça, mas ela sabe que sempre tem alguém para me auxiliar. Não era o caso. E a bancada gargalhava. Achou que eu não saberia deixar a cozinha brilhando novamente. Tola.

Primeiro a tigela onde os ingredientes foram misturados. Uma espátula e, lentamente, fui lambendo todo o resto de musse que consegui. As pás da batedeira, a panela do banho-maria, a tábua e a faca que cortou o chocolate, todo mundo para o banho, com a mesma firmeza que falo com os meus filhos. Bucha na mão, detergente e, item por item, fui lavando confiante os utensílios que me ajudaram no preparo da musse.

À medida que a água da torneira escorria, os pensamentos iam se soltando do meu corpo, concentrado na limpeza. Palavras, pessoas, conexões, idéias, personagens, tudo fluía, feito chocolate derretido. O cansaço do dia deu lugar à leveza do raciocínio solto. Pensei na Noélia, cozinheira de casa: o que será que passa pela cabeça dela quando está na frente da pia?

Pano úmido no chão, guardei o rodo e coloquei a chaleira no fogo. Uma ducha rápida e eu estava pronta para dormir. Acabei não falando exatamente do prazer de cozinhar. Ou de comer. Mas limpar bagunça de chocolate também é bom. E a musse é um sucesso.

>> Postado por Rita Lobo 01:00

Quinta-feira, 05 de junho de 2008

Bela Helena

Bela Helena

A nutricionista Marcia Daskal falou sobre os alimentos afrodisíacos no blog Vitaminado. E eu fiquei pensando sobre o assunto. Quer dizer, veja bem, não que qualquer um de nós precise disso, não é mesmo? Mas falando sério, acho, de verdade, alguns sabores são mais sensuais que outros.

Eu me lembro direitinho do meu primeiro beijo. Estava apaixonada por um garoto da minha classe, mas, óbvio, não tinha coragem nem de falar com ele. Nas férias, fomos para um acampamento, e o auge era dançar música lenta, coladinho. O rosto coladinho, o corpo bem separadinho. Naquele tempo era assim, uai. E a trilha sonora tinha Kenny Rogers cantando You And I. (Ai, que vergonha!) O garoto me tirou para dançar, mas nada de beijinho. Nenhum dos dois teve coragem. Foi na volta do acampamento que nos despedimos com um beijo na boca. Nem sei quem beijou quem. Os dois ficaram surpresos. Coração na boca. E o garoto tinha gosto de pêra. Meu primeiro beijo teve gosto de pêra. Pronto, pêra tem gosto de beijo para mim. Mas não vale na salada, fatiada, com queijo roquefort e nozes. Tem que ser uma pêra comida na mão, roubada da fruteira da cozinha, em temperatura ambiente. Pêra saída da geladeira também não tem graça. Nem suco de pêra. Mas Poire Belle Hélène, aquela sobremesa do tempo do onça, que cobre com calda de chocolate peras cozidas, é sexy até não poder mais. O que poderia ser mais sensual? Pêra, a fruta que Eva ofereceu a Adão – ah, você acredita mesmo que uma maçã fez o que fez? – e chocolate, que, até hoje, enlouquece mulheres sãs.

Para deixar a sobremesa afrodisíaca, o ingrediente secreto é prepará-la a quatro mãos. Já pensou? Ela descasca duas peras, e fica perfumada com o líquido que escorre da fruta. Numa panela, ele coloca vinho branco, anis-estrelado, canela em pau, cravo e até uma pitada de pimenta-do-reino. Os dois tomam um gole do vinho da mesma taça e acomodam as peras na panela. Ele beija as mãos dela, que estão com gosto de pêra. Ela completa a panela com água e leva ao fogo para ferver.

Enquanto isso, tudo acontece. Mas a calda precisa ser feita. As mãos vão quebrando o chocolate numa tigelinha, que se encaixa na panela onde as peras estão cozinhando. Um banho-maria perfeito. Um pouco de creme de leite fresco e, aos poucos, os dois ingredientes vão aquecendo e se fundindo, até ganharem uma nova forma, de calda de chocolate densa, que perfuma a cozinha e a boca do casal. Quem resiste? Um dedo passa pelo chocolate e rouba um pouco da calda que ainda nem ficou pronta.

Ela quer intensificar os sabores e rega um fio de conhaque na tigela. Agora sim, está pronta. Mas a pêra ainda precisa de alguns minutos para terminar o cozimento. Eles observam a fervura e planejam o futuro, mesmo que seja o próximo minuto. Naquele momento, os pensamentos combinam tão bem quanto o sabor do chocolate e da pêra. Ele desliga o fogo, ela retira a fruta fervendo da panela. Ele rega um pouco de calda sobre ela, a pêra. Eles comem a sobremesa mais afrodisíaca de todos os tempos. Uma sobremesa feita a quatro mãos.

>> Postado por Rita Lobo 10:32

Segunda-feira, 02 de junho de 2008

Ovo mítico

Ovo mítico

A janela da minha casa ganhou vida própria: despencou no meu dedo, só porque eu quis fechá-la. A dor levou alguns instantes para chegar, mas o hematoma foi imediato. Um hematoma instantâneo, já viu? No pronto-socorro, as chapas informaram que não havia fratura. Mesmo assim, o médico quis colocar uma tala para proteger o machucado de um aperto de mão desavisado, um esbarrão, ou de qualquer outra janela espertinha que não me queira bem. Antes, porém, ele insistiu em escoar um pouco do sangue pisado. Era só fazer um pequeno furo na unha.

Ai, ai , ai, doutor, precisa mesmo? Precisar, não precisava. Mas iria aliviar. E para aliviar, tudo é válido. Vamos lá. Furinho na unha, sangue preto para fora. Eu deitada na maca, como se fosse uma paciente prestes a ser internada. É que tenho horror a sangue. Avisei que, se ficasse sentada, poderia desmaiar. E não seria a primeira vez.

Semanas depois, a dor do trauma foi dando lugar ao incômodo das pedrinhas de sangue solidificado entre a carne e a unha. No escritório, o trabalho parecia atravancado. É que a cada dois minutos espiava por debaixo da unha. Já podia ver o sangue duro querendo sair. Num ato impensado, peguei um clip, torci a ponta e, meticulosamente, fui extraindo todo o sangue pisado que repousava por ali.

À medida que as bolinhas iam saindo, sentia uma certa moleza invadindo o meu corpo. Repetia para mim mesma: “Sou de uma família de médicos, sou de uma família de médicos, não posso desmaiar com sangue pisado.” Tirei aquele sangue morto de dentro de mim.

No fim de semana, fui almoçar com meus filhos no clube. A comida lá não tem nada de especial, mas o picadinho é uma exceção. E, para a nossa sorte, era dia da especialidade. No bufê, arroz branco, farofa, banana à milanesa e ovo poché para acompanhar. Este último é um mistério culinário para mim.

Simplesmente não consigo fazer ovo poché. Aliás, café também não. Meu café é horroroso. Pode ser o melhor pó, uma máquina que só precisa apertar o botão. Se eu colocar a mão, o café fica com gosto de queimado. E ovo poché, fora uma ou outra vez na escola, em que fui obrigada, nunca mais consegui fazer. Um mistério. Sei explicar a técnica e até ensinar alguém a fazer. Vai ver que é uma síndrome de patroa que baixa em mim, sei lá. Deixei que ele se tornasse um preparo mítico. Desisti de fazer ovo poché.

Fiz o meu prato: picadinho, arroz e farofa; por cima de tudo, um glorioso ovo, branquinho por fora, com jeito de mussarela de búfala. Para os meus filhos, a mesma coisa, mas sem o ovo. Não sei bem por quê, talvez por medo da gema crua. Mesmo assim, na hora de comer, chamei a atenção deles: “Vejam que lindo o que vai acontecer”. Furei o ovo, e a gema brilhante escorreu pelo prato, tingindo de dourado grãos de arroz, pedacinhos de carne e flocos de farofa, como se fosse um sangue amarelo.

Olhei para as minhas mãos, que agora vivem com as unhas pintadas de preto, e não pude deixar de pensar: será que se a gema fosse vermelha eu teria caído dura? Até temperatura de sangue ela tem.

Gabriel fixou os olhos no meu prato: “Eu também quero esse ovo mole.” Fui ao bufê e voltei com um novinho, pronto para levar uma facada. Cheio de prazer, meu filho furou o ovo, deixou a gema escorrer, passou a colher no prato e, pela primeira vez, levou à boca aquele ovo com sabor de novidade.

Não achei que fosse gostar, mas ele raspou o tacho. Senti um certo prazer. Ele é sangue do meu sangue, gosta de ovo poché! Que besteira, pena que não dá para tirar esses pensamentos materno-narcisísticos com a ponta de um clip. Se bem que estou pensando seriamente em aprender, de uma vez por todas, a fazer um mítico ovo poché.

Com torrada e caviar, o dia está ganho. Numa Caesar, dá à salada ares de prato principal. Sobre english muffins, salmão defumado e regado com molho holandês, Paris nunca mais foi a mesma. (São os ovos benedicts do Coffee Parisien.) Aqui no Panelinha tem a receita clássica, com presunto. No site da Delia, a Ofélia inglesa, tem o passo-a-passo com o insuperável jeito de explicar da melhor autora culinária de todos os tempos. Em Delicious Days, blog que não sai da seção Panelinha indica, tem um truque para pessoas como eu: ele é cozido dentro de um saquinho plástico. Martha Stewart tem no blog dela um receita de poached eggs sobre poached fish, uma coisa meio variações sobre o mesmo tema, mas deve ser bom. No You Tube, Gordon Ramsey, com todo o seu carisma-para-inglês-ver, ensina o método clássico num vídeo moderninho.

>> Postado por Rita Lobo 23:05

18 de maio de 2008

Blueberry Curry

Blueberry Curry

Há mais de uma década, comprei um CD de Ravi Shankar. Às vezes, gosto de escutá-lo depois do jantar, como se fosse um digestivo, uma Averna ou um vinho do Porto. Mas há dias em que o som da cítara me enerva. Fico tão irritada que mando o CD de volta para a caixinha. Os meses se passam, até que tenho vontade de ouvir um pouco de música indiana de novo. E assim tem sido nos últimos dez anos.

Há tempos não tinha vontade de comer curry. Aliás, a minha última ida a um restaurante indiano virou um post aqui no blog. (Por curiosidade, verifiquei e faz exatamente um ano.) Ontem à noite, fiquei louca por um prato à base de curry.

Muita gente foi assistir à My Blueberry Nights e saiu do cinema com vontade de comer uma fatia de torta de mirtilo, na esperança de ter um beijo roubado por Jude Law. Bem, não que eu também não queira a minha fatia, mas saí com outra idéia fixa: queria uma boa refeição indiana. Voto vencido. Eu deveria ter comentado, antes de o filme começar, que acho Norah Jones, ou Geethali Norah Jones Shankar, a cara do pai, Ravi Shankar. Deu para entender a conexão? Juro que não tem nada a ver com Bollywood, apesar de a atriz principal ser cantora e participar da trilha sonora do filme.

Depois de duas horas assistindo à Norah Jones e lembrando de Ravi Shankar, meu apetite só tinha olhos para um chapati fumegante, um prato à base de curry polvilhado com coco ralado fresquinho, um kulfi de manga bem amarelo. Vejo uma coisa, lembro de outra, e lá vem um desejo de comer algo que, aparentemente, não tem ligação com nada. Mas é só procurar que tem. Sempre tem. (Acho que o meu apetite pensa que é analisado.)

No dia seguinte, porém – calma! não comi nada com curry no café da manhã –, fui a um brunch e dei de cara com um bolo lindo, bem caseiro, assado em fôrma de bolo inglês. Pedi uma fatia ao garçom antes mesmo de perguntar do que era. Sim, era de blueberry. E era gostoso. Mas não era uma torta. E o dono do café também não é parecido com o Jude Law.

* Se quiser ouvir um pouco de Ravi Shankar, clique no vídeo abaixo. E se o seu apetite também se animar com sabores indianos, veja no site da BBC mais de 50 receitas de Madhur Jaffrey, atriz nascida em Nova Déli e que ficou famosa no Reino Unido com seus apetitosos programas de culinária indiana. Já a receita da torta de blueberry, não vale a pena se iludir: aquele beijo, só em filme.

* Se quiser ouvir um pouco de Ravi Shankar, clique no vídeo abaixo. E se o seu apetite também se animar com sabores indianos, veja no site da BBC mais de 50 receitas de Madhur Jaffrey, atriz nascida em Nova Déli e que ficou famosa no Reino Unido com seus apetitosos programas de culinária indiana. Já a receita da torta de blueberry, não vale a pena se iludir: aquele beijo, só em filme.



>> Postado por Rita Lobo 22:24

Quarta-feira, 07 de maio de 2008

Mãe interior

Mãe interior

Não sei se isso acontece com você ou só com pessoas obsessivas como eu, mas, às vezes, umas frases grudam na minha cabeça. Enquanto não escrevo, elas não param de me azucrinar. Por sorte, o Dia das Mães está aí e, portanto, este post nem vai ficar tão descabido. Tem a ver com ser mãe. Mas não dos filhos... Para não ficar muito confuso, preciso explicar a origem.

Uma vez a cada dois meses, faço massagem. Mas não é uma massagem qualquer. É uma dessas que doem, mexem no corpo e na alma, e botam a gente para pensar. Sabe como é? Bom, na última, a massagista, que, logicamente, é meio bruxa, me disse a seguinte frase: “Seja para você mesma a mãe que você gostaria de ter”.

A frase causou impacto. Aliás, causou. Adoro essa gíria. A frase causou. Mas, aparentemente, só para mim. Cheguei ao escritório, repeti o mantra com ares de quem vai revelar o segredo da vida, e nada. Não repercutiu. Ninguém fez cara de “tive um insight”. Fiquei quieta, mas a frase não parou de falar. E, usando uma lógica bem portuguesa, se ela não se aquietou, é porque eu não devo estar sendo uma boa mãe para mim mesma. Não, não é bem isso. Acho que eu não sei o que é ser mãe de si próprio. Nem tenho certeza se isso é possível. Não será apenas uma imagem psicanalítica para confundir as mães de verdade?

Não sei. Estou ficando ainda mais confusa. Acho que vou ligar para minha mãe. Ainda sobre mães. Acabei não falando mais sobre as nossas receitas de biscoitos testadas especialmente para o dia delas. (Ou nosso.) A idéia é tentar disfarçar o lado comercial da data colocando a mão na massa. Então, são seis opções de presentinhos. Todos escolhidos por algum motivo.

Os clássicos palmiers, por exemplo, são muito, muito fáceis de fazer, se você comprar a massa pronta (e não conte para ninguém que a massa folheada não foi feita em casa). Eles duram muito tempo se mantidos em um recipiente hermeticamente fechado. E, também, lembram um coração. Não é bonitinho chegar na casa da sua mãe com uma caixinha recheada por palmiers feitos por você?

Os macarons são mais elaborados. Não são a melhor opção para quem nunca colocou o pé na cozinha. Mas é uma receita para quem gosta de cozinhar e que vai se divertir testando diferentes tons para cada fornada. O biscoitinho bicolor é o mais aromático de todos. Antes mesmo de ir ao forno, a cozinha já está perfumada pelo cacau em pó.

Os cookies de laranja banhados em chocolate têm uma combinação clássica de sabores, mas na boca é surpreendente. O modo de preparo das tuilles faz a gente se sentir como cozinheiras de antigamente. Elas saem do forno e repousam sobre o rolo de macarrão para ganhar o formato de telha.

Quem gostava de brincar de massinha quando era criança vai adorar os biscoitos 1, 2, 3. Farinha, açúcar e manteiga na tigela. Amassa, amassa até fazer uma bolota. Depois, enrolar até formar cobrinhas, cortar os biscoitinhos, marcar com garfo e levar para assar.

Acho que no sábado vou preparar todos eles para mim mesma. Vou causar com os meus biscoitinhos e, quem sabe, descubro dentro de mim a mãe que eu gostaria de ter.

>> Postado por Rita Lobo 13:32

Segunda-feira, 05 de maio de 2008

Sabores da fazenda

Sabores da fazenda

Minha avó Maria Rita nasceu numa fazenda em Queluz, cidade na divisa do Estado de São Paulo com o Rio de Janeiro. Por sorte, veio para a capital paulista ainda pequena. (Sorte porque, se não tivesse vindo para cá, ela não teria conhecido meu avô Lobo, e meu pai não teria nascido, logo, eu também não.) Por outro lado, junto com a mudança da família Nogueira Garcez (este é o sobrenome da minha avó) veio para a cidade a minha única chance de ter alguma ligação com a terra.

Pensando bem, talvez seja exatamente este o motivo pelo qual eu goste tanto de fazenda, como se brotasse em mim uma saudade de algo que eu não vivi. Para mim, o campo é sempre mágico, inspirador. A mente corre solta. “Avoa”. Os dias ficam com gosto de sonho. Sabe aquela pergunta típica de começo de namoro: “você gosta mais de praia ou de campo?” Pois é, mesmo gostando de praia, eu sou “de campo”. (Tenho uma tia que vive dizendo que adora cheiro de cocô de cavalo. Eu não chego a tanto.)

Fui passar o feriado numa fazenda próxima à Fazenda Pinhal. Há anos a Sofia, herdeira do local, me fala para visitá-la. A propriedade foi tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e, depois de muita restauração, aliás, primorosa, foi transformada em um pequeno hotel, que faz parte da Associação Roteiros do Charme. Resolvi almoçar lá.

Quase caí para trás. Há tempos não via um lugar tão esplendoroso. Os jardins, o pomar, as ruas de musgo, as alamedas de jabuticabeiras, o túnel de primaveras. Uma cidade utópica esculpida na mata nativa, há mais de um século, pela Condessa do Pinhal, tataravó da Sofia. A arquitetura cafeeira, os móveis de época, os quadros do Império, há tanto para falar sobre a Fazenda. Mas é sobre o livro que eu quero contar. Ou melhor, sobre as receitas dele.

Não sei muito bem o que eu estava fazendo em 2005 que não comprei, logo no lançamento, Fazenda do Pinhal, Caderno de receitas e histórias de família. Mas, de certa forma, foi bom. A leitura fica ainda mais saborosa depois de ter conhecido o lugar. “Num grande caderno, escrito à mão, os amigos foram deixando as suas receitas preferidas”, conta Helena Carvalhosa, autora do livro, mãe da Sofia e bisneta da Condessa do Pinhal.

Confesso que, para mim, é um exercício ler receitas sem ir formatando na cabeça. Faço isso há mais de uma década! “Bata todos os ingredientes e leve para assar.” Penso: bata como? Na batedeira, à mão, com fouet, com colher, com garfo? Qual a assadeira? Retangular, uma fôrma redonda, com furo, sem, untada, polvilhada? Sempre me coloco no lugar de quem não sabe cozinhar. Mas, neste caso, exatamente por não ter um padrão – dá para ouvir cada um dando a sua receita – o livro ficou tão interessante. Não é um livro para aprender a cozinhar. É um livro para quem gosta de cozinhar.

São umas duzentas receitas. Tem de tudo. Clássicos, invenções, comida de dia-a-dia, pratos especiais. Tudo parece saboroso. Comida com bom gosto. E cada um dá a receita do seu jeito. Na sopa de beterraba, deixada no caderno por Melanie Farkas, não há a quantidade dos ingredientes. Mas tem o preparo e dicas ótimas: “na hora de servir, colocar duas gemas cruas; sem a carne (músculo), juntar creme de leite azedo; em vez de ralar a beterraba, peneirar tudo e colocar dill (endro) e creme na hora de servir.”

Arroz à moda árabe, asa de galinha chinesa, bitel tonel, camarões grelhados, carne assada com molho ferrugem, ceviche, coalhada, frango com maracujá, guacamole, pão sueco, pesto, peixe assado, picadinho, picanha, vaca atolada, vatapá, caldo verde, sopa de abacate, rocambole de chocolate, rosquinhas... Fiquei tão animada com as receitas que acabei nem falando que o livro é um capricho só: papel, formato, fotos, ilustrações, projeto gráfico. Mas, na minha opinião, este “caderno de receitas” da Fazenda Pinhal tem a maior qualidade que um livro de receitas pode ter: dá vontade de ir para a cozinha. Se bem que, fiquei mesmo é com vontade de passar uma longa temporada na Fazenda. Quem sabe nas férias.

>> Postado por Rita Lobo 09:39

Quarta-feira, 23 de abril de 2008

23 de Abril

23 de Abril

Quando eu era pequena, ficava fascinada com o ritual noturno de beleza da minha mãe. Um creme para limpar a pele, careta para retirar a maquiagem da parte de baixo dos olhos, água para enxaguar. Algodãozinho com tônico, creme no rosto e pescoço, movimentos circulares. Um pinguinho de creme na ponta do dedo anular para passar ao redor dos olhos. Delicadamente.

Às vezes, me olho no espelho e vejo a minha mãe. A mesma careta, o mesmo jeito de espalhar os cremes. O mesmo ritual antes de dormir. Queria ter o nariz igual ao dela, uma pintura de Modigliani. Acho que, com o passar dos tempos, está ficando mais parecido.

Muitas vezes faço de tudo para não ficar parecida com ela, como se a adolescência nunca terminasse. Mas há coisas que, se eu pudesse, faria igualzinho a ela. Olho para a minha filha e sinto um amor tão forte que chega a doer. Um aperto no peito. Tento imaginar se um dia passa. Muda. Diminui. Fico pensando se a minha mãe sente o mesmo por mim.

Ela pensa que eu não tenho medo de nada. Ela não sabe que eu prefiro nem pensar em como a vida é frágil. Nem pensar. Só de pensar morro de medo. Como todas as mães.

Não era nada disso que eu iria escrever, era para contar que, logo mais, vamos começar a falar de Dia das Mães. A Iná, do blog Aprendiz de cozinheiro, escreveu um texto lindo, lindo sobre sabores de infância. Mas ainda não entrou no ar. A Andrea Kaufmann, para finalizar a série de Pessach, acabou falando sobre ser mãe judia. Eu ainda não comecei a escrever nada, mas já testamos novas receitas para a data.

Estou pensando o dia todo na minha mãe. É o aniversário dela. E, sei lá por que, falo para todo mundo que encontro. Até para quem não a conhece.

Saí com a Dora, minha filha, para comprar o presente da vovó Beth. Dois passos e encontramos com a Dahoui, chef do restaurante À Cote. Ela está com viagem marcada para Israel. Nunca foi. Está animadíssima. Mas Noáh, a filhota, vai ficar. E hoje é aniversário dela, da pequena. “Da minha mãe também!”

Mais dois passos e lá vem o elegantérrimo Salvatore Loi, empurrando o carrinho da filha, que já tem três dentes! Ele é chef do Grupo Fasano. Conta sobre as novidades, os novos empreendimentos. Digo que é aniversário da minha mãe. Ele fala sobre a avó que tinha 1,30 metro de altura.

É fim de tarde e os chefs estão passeando pelos Jardins. Pais e mães com seus filhos, que ainda têm a vida toda para descobrir os sabores da vida. Quem sabe, no futuro, eles enxerguem neles um pouco de nós e sintam o delicado conforto de saber de onde eles vêm. Quem sabe...

>> Postado por Rita Lobo 20:25

Quinta-feira, 17 de abril de 2008

Brigadeiro da moda

Brigadeiro da moda

Na minha infância, brigadeiro era feito com uma lata de leite condensado, uma colher de manteiga e duas de achocolatado. Panela, colher de pau, uns bons minutos mexendo em fogo médio e outros esperando esfriar, o suficiente para não queimar a língua. Mas, de todo modo, a gente acabava se queimando.

Meu filho Gabriel fez 6 anos ontem. Queria porque queria uma festa no bufê. Não entende por que “todos” os amiguinhos já tiveram seu dia de glória entre coxinhas, bolinhas de queijo, minipizza e outros salgadinhos, que só de pensar me causam arrepio. (Coxinha, minha gente, não dá! So sorry. Minha enteada diz que fica deprimida só de ver alguém na padaria pedindo coxinha. Para ela, não dá para entender o gosto por esse salgadinho: “não é entrada, não é prato principal, não é sobremesa, não serve para o café da manhã, não é lanchinho, não é nada. E ainda é ruim.” E, na minha opinião, ela tem razão.)

Resolvi dizer que eu mesma nunca tive uma festa num bufê. “Mas, mãe, quando você era criança não tinha aniversário?” Expliquei que minha mãe passava a manhã arrumando o salão de festas, comprava sucos, a empregada fazia sanduichinhos, bolo e, todos juntos, enrolávamos centenas de brigadeiros.

Ele ficou fascinado. Decidimos fazer uma festinha para enrolar brigadeiros. Convidamos apenas parentes e amigos bem próximos. Era uma espécie de happy hour infantil. Bolo para as crianças, champanhe para os adultos. Mas não sem antes servir um jantar: crianças à mesa, adultos espalhados pela casa. Na seqüência, bolo e brigadeiro para todos.

Por algum motivo, em vez de fazer o brigadeiro de sempre, desta vez resolvi fazer outra receita. Foram duas latas de leite condensando, uma lata de leite, três colheres de manteiga, duas de chocolate em pó. Demora mais para dar o ponto. Mas vale cada minuto. É o melhor brigadeiro que já comi na vida. A receita da infância virou passado. Mas as festinhas de antigamente viraram moda aqui em casa.

>> Postado por Rita Lobo 20:53

Segunda-feira, 14 de abril de 2008

Peixe fora d'água

Peixe fora d'água

De repente, só ouço falar em autonomia. Minha filha, Dora, tem apenas 3 anos. Mas desde a primeira reunião de pais e mestres na escola, autonomia é palavra-chave. Autonomia para cá, autonomia para lá. E, confesso que, no começo, fiquei um pouco chocada. Gabriel vai fazer 6 anos. Tudo bem. Autonomia é mais que bem-vinda. Mas será que esse tanto de autonomia para um criança de 3 anos é mesmo positiva?

Deve ser. Então, nós, pais, aprendemos na escola que devemos incentivar que os filhos façam tudo o que eles podem sozinhos: comer, tomar banho, se secar, se trocar... E eles também são ensinados que só devem pedir ajuda em última instância.

E, de fato, é muito bom para os pais não ter que dar comida na boca dos filhos, especialmente no domingo à noite, depois de uma tarde correndo no parque. O que acontece com a energia dessas crianças que, simplesmente, não acaba? Eu sempre fico sem saber o fim da história dos livrinhos que leio para eles. Muito antes da última página eu já estou dormindo.

Mas back to the cold cow (lembra daquele livro que traduzia expressões intraduzíveis?), autonomia, às vezes, também pode ser um problema. Dora não aceita mais ajuda para se vestir. O problema é que ela ainda não sabe se vestir. E não estou me referindo à combinação de cores, estilos, e de forma alguma estou insinuando que minha filha não tenha gosto! Muito pelo contrário. Ela escolhe sempre roupas fofas e nunca corre o risco de errar: tudo é rosa, e se não for, ela não usa.

A questão aqui é que são 10 minutos para colocar a meia, mais 10 para colocar a calça, uns 20 para vestir a blusa. Até que ela lembra que blusa é o item mais difícil e aprendeu que pode pedir ajuda. E lá se foram aqueles 40 minutos que nós duas poderíamos usar para dormir mais um pouquinho pela manhã... E, de qualquer maneira, não conheço ninguém com a minha idade que não consiga se trocar sozinho. Precisa aprender tudo com 3 anos?

Está bem, vou contar a verdade: eu adoro dar banho nos meus filhos, secá-los, trocá-los, dormir com eles na minha cama. Vivo reclamando que eles não querem voltar para a minha barriga, brinco que eles são bebezinhos e, de vez em quando, ainda canto nana neném na hora de dormir. Mas não teria coragem de falar isso a menos de dez quarteirões da escola. Estou me sentindo uma mãe autônoma. Um peixe nadando contra a maré.

>> Postado por Rita Lobo 17:49

Quinta-feira, 10 de abril de 2008

Café estrelado

Café estrelado

Já escrevi várias vezes sobre o meu vício por café. Mais especificamente pelo café Suplicy. De manhã, antes de levar meus filhos à escola, em casa, tomo café da manhã sem café. Suco, pão, banana e, às vezes, ovo. E, diariamente, faço meu pitstop no Suplicy antes de ir para o escritório. Até tomo café em outros lugares. Mas não gosto.

O dono do café, Marco Suplicy, não chega a ser meu amigo. Mas depois de tanto tempo tomando café sob o mesmo teto, criamos alguma intimidade. Hoje, assim que cheguei, Marco me disse que ele tinha acabado de sair. Ele? Ele quem?, perguntei.

- Até disse para ele te esperar... – disse Marco com um certo ar de suspense e um sorrisinho no canto da boca.

Por um segundo duvidei de mim mesma e tive certeza de ter perdido algum compromisso importante, marcado com semanas de antecedência. Fiz um esforço. Nada. Nadica de nada rings a bell.

- Marco, quem veio aqui hoje cedo? – perguntei com um tom um pouco mais sério que o normal.

Era Pierce Brosnan. Saiu publicado por aí que ele veio gravar o comercial de um carro, que está hospedado no Emiliano e que foi jantar no D.O.M., do Alex Atala. Imaginei que seria divertido escrever um post contando que, logo pela manhã, esbarrei com o 007, ou melhor, com Thomas Crown, e que ficamos de papo, numa conversa informal, como dois velhos freqüentadores do mesmo café.

Combinei com Marco que, se alguém perguntasse, ele iria confirmar que me viu papeando com Pierce Brosnan. Ele caiu na risada e respondeu que confirmaria, mas, antes, eu teria que confirmar que ele foi ao Suplicy.

Era tudo mentira! Ai, mas que lorota boa. E eu caí direitinho. A verdade é que Marco cruzou com ele andando na rua e desejou tão intensamente que ele tivesse tomado um cafezinho no seu estabelecimento que eu nem duvidei da história. Infelizmente, ele não foi ao café hoje. Melhor assim, não preciso ficar pensando sobre o que eu não disse a ele. Até porque, não teria nada para falar.

Esse café fofíssimo da foto, com Saturno e estrelas, não foi feito no Suplicy. Mas achei que ilustra bem o sentimento de que um bom café pode fazer a gente viajar. Não é, Marco? Agora o melhor da história. Uma amiga me contou que cruzou com ele, a poucos quarteirões dali, tomando café da manhã no Le vin. Será verdade?

>> Postado por Rita Lobo 17:09

Quinta-feira, 03 de abril de 2008

Paladar educado

Paladar educado

Hoje pela manhã subi na balança e me dei conta de que continuo com o mesmo peso de oito anos atrás. E antes que você pense que este post trata-se de um golpe baixo, e que quero convencer você de que o Panelinha não engorda, vou logo avisando que este site não emagrece. Mas não pude deixar de pensar que a minha alimentação e também as receitas aprovadas pelo Panelinha foram ficando cada vez mais saudáveis.

Sou filha de pais magros, mas durante o período do curso de gastronomia, que fiz em Nova York, engordei 6 quilos em menos de seis meses. Isso prova que mesmo o metabolismo de uma pessoa sem “tendência” a engordar não agüenta excessos constantes. Até meus dedos ficaram inchados! Mas juro que não estou cuspindo nos pratos que comi. Todos eles foram importantes para a formação do meu paladar. Posso dizer que, durante aquele ano, comi tudo, mas tudo que tive vontade. Aperitivo, entrada, prato principal, sobremesa, cafezinho. E grappa de vez em quando. Ah, os vinhos...

Naquela época, o meu interesse era apenas um: sabor. Na hora de comer, e também de cozinhar. Se com bacon a comida fica mais saborosa, por que não? Mas os anos foram se passando, os filhos vieram, e comida deixou de ser fonte de prazer, apenas, e virou fonte de saúde. Sem abrir mão do sabor, claro.

Os croissants deram lugar a uma saborosíssima variedade de pães integrais, com linhaça, com gergelim, até focaccia. As saladas de grãos começaram a brotar no cardápio da minha casa. Muita lentilha, grão-de-bico, feijão de todos os tipos. E, naturalmente, as receitas do Panelinha também foram ficando mais saudáveis.

A verdade é que a educação do paladar nunca se conclui. E tudo passa pela consciência, pela razão. Fazemos escolhas, e o paladar acompanha. Ou, pelo menos, é assim que deveria ser. Hoje, acho que um paladar culto não é aquele que prefere ostras à salmão. Aliás, sinceramente, acho muito mais importante saber apreciar integralmente uma fatia de abacate que uma barra de chocolate de origem.

>> Postado por Rita Lobo 11:54

Segunda-feira, 31 de março de 2008

Dia da Mentira

Dia da Mentira

Só para brincar, decidimos aproveitar este 1º de abril para falar umas mentirinhas na home page do site. Então, bolo de chocolate não engorda, pizza também não, goulash fica pronto em 5 minutos e crianças vão adorar a nossa receita de tofu com gengibre ralado. Se bem que, esta última, tenho lá minhas dúvidas se é mesmo mentira.

No sábado passado, meu irmão deu um pulo em casa antes de ir ao Cirque du Soleil. Na hora de sair, receoso de magoar meus filhos, que provavelmente iriam gostar do programa, decidiu dizer que estava indo à ópera. Óbvio que as crianças não iriam querer assistir a uma ópera! “Mas, mamãe, o que é ópera?”

Achei mais fácil colocar um CD do que tentar explicar. Peguei uma dessas coletâneas de árias famosas interpretadas por grandes cantores. Box at The Opera Anthology é o nome dela. Escolhi um dos três CDs aleatoriamente, coloquei no aparelho de som e meu irmão saiu de fininho.

Meus filhos ficaram quietinhos por alguns instantes. “Que língua eles estão falando?”, foi a primeira pergunta. Era italiano. Gabriel queria saber se havia alguma ópera em inglês e por que aquela era em italiano. E, assim de bate e pronto, respondi que achava que era Verdi. Ele ficou com o olhar fixo em mim, esperando uma resposta melhor. Dora, no auge da sabedoria de uma criança de 3 anos, interveio: “Gabriel, Ver-di, a-ma-re-lo, a-zul, ro-sa, entendeu?”

Eu cai na risada. Mas os dois continuaram sérios, seriíssimos. E, para a minha total surpresa, permaneceram atentos à música até o fim da primeira ária. E depois ouviram a próxima, e a próxima, até que na última faixa do CD, seguido de um “brrravo”, vieram as palmas. Da gravação, e dos meus filhos.

Parece mentira, mas não é. Aliás, graças à mentirinha do meu irmão, neste fim de semana talvez tenha brotado nos meus filhos o gosto pela ópera, que, provavelmente, nenhum discurso, por mais verdadeiro que fosse, poderia despertar. Agora só falta eles me pedirem tofu em vez de batata frita. A valer pela ópera, não custa oferecer.

>> Postado por Rita Lobo 22:43

Segunda-feira, 03 de março de 2008

Break

Break

Uns dias antes da minha viagem de férias ao Atacama, a mãe de um coleguinha do meu filho, na porta da escola, me disse que queria ter um trabalho como o meu.

Fiquei imaginado que ela estava querendo dizer que também gostava de comida (de cozinhar, de comer, de pesquisar, de falar, de escrever...). Mas antes que eu tivesse tempo de concluir o que, exatamente, no meu trabalho ela gostava, a moça foi logo dizendo: “Eu também queria ter um trabalho que não precisasse trabalhar muito”. Na hora, ou melhor, às 7 horas da manhã, não entendi muito bem, dei um sorrisinho e me despedi.

Pensei comigo mesma: Mas será que ela acha que o Panelinha brotou de uma árvore? Ou que as receitas surgiram como num passe de mágica? Na cabeça dela, os livros e e-livros devem ficam prontos num piscar de olhos. Os blogs, então, pulam para dentro do site! Sem falar nos projetos comerciais, nos anunciantes, nas parcerias, nos contratos de patrocínio... Ela deve imaginar que sejam firmados num papo na fila do supermercado.

Fui tomar o meu café e a imagem dela ficou me perturbando. Comecei a sentir um pouco de raiva. Raivinha. Tá bom, fiquei irritadíssima. Será que, por me ver diariamente na porta da escola, ela acha que eu não trabalho muito? Ou será que para ela “essa coisa de internet” é muito fácil? Já sei: culinária é “coisa de mulher” e, por isso, não dá trabalho. Vai saber.

Mentalmente, fiquei dando uma série de respostinhas para ela. Só para você saber, não é por acaso que o meu escritório, o meu estúdio, a escola dos meus filhos e a minha casa ficam no mesmo bairro. É por isso, minha senhora, que posso levar e buscar as crianças e almoçar com elas todos os dias. Mais tarde, já em casa, eu ainda resmungava em silêncio, eu nunca consigo voltar para casa antes das 19 horas, e quando as crianças vão dormir, eu volto para o computador!

Durante a viagem, confesso que nem lembrei da mãe do coleguinha do meu filho. Mas foi só eu chegar que dei de cara com ela na escola, já toda arrumada para o trabalho. Depois de uns dias de férias, dei risada de mim mesma pensando que, de um jeito meio sem jeito, ela estava tentando fazer um elogio. Talvez quisesse dizer que, no site, tudo parece tão fácil que não deve dar muito trabalho para fazer. Não sei o que ela faz, mas imagino que, como eu, ela também tenha uma rotina puxada.

A verdade é que, para nós, mulheres, mães, que trabalham, em casa ou fora, sobra pouco tempo. E não estou falando de ir ao cabeleireiro ou de fazer massagem. É tempo para não fazer nada, sem ter que se preocupar com o que vai ter para o jantar, tempo para pensar, para deixar a mente ousar outras soluções. É tempo para dormir, passar o dia na piscina, relaxar o corpo, ou cansá-lo num longo passeio de bicicleta pelo parque, numa caminhada sem destino ou atravessando um deserto a cavalo.

Cada vez mais, acredito que todas as mulheres, vez ou outra, deveriam tirar umas férias de tudo. Trabalho, claro, mas filhos e maridos também. Férias com uma amiga, ou com um grupo de amigas. Mesmo que seja apenas por um fim de semana.

Gostaria de pensar que este fosse o intuito do Dia Internacional da Mulher: um dia para nos lembrarmos que temos que cuidar de nós mesmas.

Esta semana, a mãe do coleguinha do meu filho vai amar a programação do Panelinha. A pauta é valorizar os momentos que dedicamos a nós mesmas. Entre as atrações, o nosso novo e-livro, SPA EM CASA, que marca a estréia da série Cadernos Femininos, composta por seis volumes.

Em SPA EM CASA, a equipe do site passou um dia inteiro testando receitas caseiras de beleza, comendo lanchinhos funcionais, falando pelos cotovelos e dando muita risada. Tudo foi devidamente fotografado e anotado e o resultado é um guia para você transformar a sua casa em um spa. E sábado que vem, Dia Internacional da Mulher, vai ser o dia ideal para isso. E fique tranqüila, não dá muito trabalho!

>> Postado por Rita Lobo 17:51

Terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Sal do Atacama

Sal do Atacama

Há tempos, fiz um jantar na minha casa e um dos convidados disse que iria levar uma amiga. Para a minha alegria, era a Iná (uma das nossas aprendizes de cozinheira). Os dois trouxeram um pote de sal, mais precisamente de Fleur de Sel de Guérande, um vaso de ervas plantadas e um bilhetinho escrito pela Iná: “De doce basta a vida!”

Pois bem, agora que Iná, Silvia, Marcia e Andrea dominaram o Panelinha, resolvi tirar uns dias de férias e vim parar no meio do deserto. Aliás, um deserto de sal.

São Paulo e San Pedro de Atacama, no Chile, estão praticamente na mesma latitude. Para chegar até aqui, porém, é necessário pegar um vôo até Santiago, umas 4 horas em direção ao sul do Chile, depois outro até Calama, mais 2 horas para o norte, sem contar as 2 horas de espera no aeroporto. São muitas horas (desnecessárias) de viagem e, depois, mais 1 hora de carro, deserto adentro. Já era quase hora do jantar quando cheguei ao hotel, mas decidi tomar apenas uma taça de vinho, chileno, por supuesto. Bem cedinho, no dia seguinte, iria a cavalo até o Vale da Morte. E fui. Rapidamente descobri a razão do nome do local: voltei muerta! Duas horas a cavalo sob o sol do deserto requer um pouco mais de treino. À tarde, resolvi fazer um passeio mais light: uma volta no Salar do Atacama.

Antes de continuar, quero pedir a sua permissão para hablar en portuñol. Ou mejor, hablar, djá estoy hablando, quiero escribir. Com todo o respeito aos nossos vizinhos de América del Sur, mas parte da diversão da viagem és hablar en portuñol.

Nada a ver: quando eu era pequena, meu pai adorava colocar um LP com a história do Pinocchio para meus irmãos e eu ouvirmos; o detalhe é que era em espanhol. Pinocchio no quiere estudiar, y ademas miente. E essa maldita frase está cravada na minha mente. Basta alguém perguntar qualquer coisa que tenho vontade de responder: Pinocchio no quiere estudiar, y ademas miente.

Mas volviendo ao sal, apesar de toda a moda em torno dele, os atacamenhos não voltaram atrás: eles deixaram de extrair e de comercializar o sal daqui há quase duas décadas. O processo era muito caro. E, hoje, quem quiser experimentar o exótico sal do Atacama tem que fazer como djo. Afinal, de dulce, djá basta a bida, berdá?

>> Postado por Rita Lobo 17:35

Terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Comida fria

Comida fria

Acho que vou conseguir voltar a comer comida quente no jantar. Não que eu goste de comida em temperatura ambiente, eu não. Mas esse horário de verão estava acabando comigo. Eu acordava cansada, passava o dia exausta e chegava verde de fome em casa, bem na hora do jantarzinho dos meus filhos.

Faminta e cansada, eu não tinha forças para fazer nada ou sequer para esquentar a comida na panela, acredita? Foram meses comendo restos de comida fria. Tá bom, eu estou exagerando, mas deu para ilustrar.

Como num passe de mágica, ontem cheguei do escritório cheia de disposição para brincar com as crianças, esquentei o meu jantar e depois ainda fui ao cinema. Queria tanto ver Juno, mas acabei vendo Elizabeth – A era de ouro. E Cate Blanchett é linda, ótima atriz (boa até demais), pode levar o Oscar. Mas o melhor do filme é o andar do Rei Felipe II da Espanha. Não vou mentir: não gostei muito do filme. Ainda estou enfeitiçada por Reparação, que me recuso a colocar um “Desejo” no título. Assisti ao filme com um amigo num dia e, no outro, com uma amiga que ainda não tinha visto, mas tinha lido o livro.

Ainda sobre a temperatura da comida, ouvi dizer que os dois extremos não são muito saudáveis. E seguidos um do outro, uma feijoada borbulhante e um gole de caipirinha bem gelada, é pior ainda. Será? Parece que o choque térmico é muito irritante para o esôfago. Também me disseram que comida requentada fermenta mais e, por isso, também não faz bem à saúde.

A cozinheira da minha casa morre de rir quando eu pego uma panela quente e solto um, “ai, tá quente!” Ela diz que nem parece mão de cozinheira. Ela tira assadeira do forno sem pano, pega panela fervendo... Nada queima a mão dela. Havia um tempo, quando eu tinha restaurante, que minha mão era mais calejada. Quer dizer, eu me queimava, mas não com qualquer panela quente. Tinha que ser descuido bom, desses que a queimadura forma bolha. Tudo é questão de costume.

Estou com medo de voltar a comer comida quente e queimar a língua. Pensando bem, nunca gostei de comida muito quente. Faço a sopa esfriar, espalho o risoto no prato. Até café demoro para tomar. E quibe frio, tem coisa melhor? Já experimentou charutinho de uva gelado? O quente fica até ruim. Torta de frango também entra na minha lista de comidas quentes que frias ficam ainda mais gostosas. Isso sem falar naquelas que são frias por natureza, como carne louca. (Ah, esqueci de contar, toda semana tem uma expressão nova aqui no escritório e a mais recente é: “volta pro pão, carne louca!”. É excelente para usar no trânsito.)

Pensando bem, também gosto de ver filmes frios. Sabe aqueles filmes que fizeram muito sucesso mas na época você não viu? Acho que vou fazer uma listinha para comemorar o fim do horário de verão. Mas pipoca fria nem pensar!

>> Postado por Rita Lobo 15:45

Sexta-feira, 08 de fevereiro de 2008

O livro das vidas

O livro das vidas

Sobre a mesa do meu escritório estava um envelope branco, com o meu endereço escrito à mão. Dentro dele havia um livro preto, e dentro do livro um bilhete amarelo. O subtítulo do livro explica que se trata de uma seleção de obituários do New York Times. O bilhete era do organizador da obra e, também, coordenador da Coleção Jornalismo Literário, da Companhia da Letras, a qual o volume pertence. No bilhete, Matinas Suzuki Jr. sugere que eu leia um texto específico e lembra que a tradução da receita de cheesecake, que ele me pediu para fazer, era para um dos obituários. (Era de um tal Harry Rosen, “fundador do Junior’s Restaurant, estabelecimento do Brooklyn famoso pelo cheesecake”, que morreu mas não levou a receita para o túmulo.)

Os textos são primorosos. O livro é brilhante, desses que a gente pega para dar uma folheada e não consegue mais parar de ler. E, contrariamente ao que se possa pensar, não é mórbido ou deprimente. De forma surpreendente, o livro faz pensar sobre a própria vida, além de proporcionar uma leitura de primeira.

Por uma dessas coisas da vida, bem ao lado do envelope, sobre a minha mesa de trabalho, está uma página do Caderno 2, do jornal Estado de S.Paulo. Não se trata da seção de obituários, mas o título da nota é: “A morte do violonista Antônio Rago”. E o texto diz: “Morreu na quinta-feira, em São Paulo, aos 91 anos, o violonista Antônio Rago, autor de mais de 400 composições e um dos responsáveis pela introdução do violão elétrico no Brasil.”

A nota continua dizendo que o corpo foi cremado, que ele estava internado desde novembro, que era filho de italianos, e assim vai. Mas, naturalmente, a nota não conta que ele viveu uma vida bem vivida, que sempre fez o que quis, que passou a vida tocando o seu violão e, talvez, por isso, tenha sido uma pessoa tão feliz.

A nota diz que ele nasceu na Bela Vista, mas não explica que, apesar de ter se mudado de lá ainda jovem, sempre sentiu-se em casa no Bixiga. E era lá que ele, religiosamente, encontrava os amigos para almoçar aos domingos. Era lá também que ele comprava pão italiano, nhoque, vinho, pernil assado, apesar dos dotes culinários da esposa, que, mesmo sendo húngara de nascimento, especializou-se na culinária italiana por causa dele. E, obviamente, a nota não termina dizendo que, além de Julia, esposa por 62 anos, Antônio Rago deixa três filhos, Elisabeth, Margareth e Antônio, seis netos, Marina, Laura, Mariana, Guilherme, Fábio e eu.

Talvez pelo fato do meu avô ter morrido há tão pouco tempo, O livro das vidas, assim como os mortos, pareça melhor do que de fato ele é. Mas eu duvido. Assim como tenho minhas dúvida se algum dia vou conhecer alguém tão alegre quanto era o meu avô Rago.

>> Postado por Rita Lobo 16:07

Quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Um medalhão para Elisabeth

Um medalhão para Elisabeth

Para muita gente, a bandeira da Inglaterra na capa de um livro de culinária não é exatamente um atrativo. Mas foi justamente ela que me chamou a atenção para Great British Menu Cookbook. Já estava me dirigindo ao caixa quando avistei a bandeira. Atravessei a livraria com olhar fixo na capa, dei uma folheada sem vergonha, lendo apenas os títulos das receitas, e decidi comprá-lo, sem muita análise. Quer dizer, além da capa, o papel sem brilho (que eu adoro!), branco e bem grossinho, também contou pontos na decisão; as fotos dos pratos, lindas, em páginas inteiras, causaram lá seu impacto; e, além do mais, entre os cardápios, havia um de Nick Nairn, o mais famoso chef escocês, com quem já cozinhei para um programa de televisão. Comprei, coloquei o livro na minha estante e me esqueci dele por algumas semanas.

Minha tia “inglesa” chegou de férias (digo inglesa entre aspas porque ela nasceu no Brasil e, para nós, os familiares, ela é brasileira. Por outro lado, as três décadas em Londres, o cabelo ruivo e seu discreto senso de humor fazem dela uma mulher com jeitão bem inglês). Fui visitá-la na casa da minha avó. Ela conta que um dos meus primos virou vegetariano e cai na risada. “Ele é um péssimo vegetariano, não come legumes!” Diz que faz para ele um minestrone bem rico, e ele deixa de lado no prato todos os cubinhos de abobrinha e de cenoura. “Nem peixe ele come. Vou voltar a fazer feijão. Lentilha ele come.” Pergunto à tia Beth se quinoa também virou moda na Inglaterra. Digo que é uma boa opção para vegetarianos. E grão-de-bico é bom para variar a lentilha e o feijão. Ela conta que comprou até hambúrguer de soja da marca Linda McCartney. (Todo mundo sabe, mas não custa lembrar que, um pouco antes de morrer, a senhora Paul McCartney, vegetariana fervorosa, lançou uma marca de comida vegetariana pronta.) Minha tia, antes de vir para o Brasil, avisou ao filho: “Não se esqueça que a Linda McCartney está no congelador.” Very british.

Mas voltando ao Great British Menu, tia Beth diz que foi um sucesso na Inglaterra. Já está na segunda edição. Ou melhor, não exatamente o livro, a série de televisão. Na primeira (a do livro que comprei), catorze chefs, representando diferentes regiões da Grã Bretanha, competiram para fazer um almoço para a Rainha Elisabeth (a primeira edição da série foi ao ar em 2006, quando the Queen completou 80 anos).

Esta semana, minha tia vai jantar em casa. Estou em dúvida se preparo um jantar com receitas do livro inglês e faço banquete de rainha para ela, ou se elaboro um menu vegetariano, no estilo Linda McCartney. Acho que vou de Linda. Just for a laugh. Vou preparar uns medalhões de ricota que fazem o maior sucesso. Como a receita não está aqui no Panelinha, vou colocar aqui para quem estiver pensando em fazer um jantar levinho e bem saboroso.

Medalhões de ricota para outra Elisabeth

Ingredientes

1 xícara (chá) de trigo para quibe
1 xícara (chá) de ricota
½ xícara (chá) de queijo parmesão
1 colher (sopa) de salsinha picada
1 colher (sopa) de hortelã picada
2 gemas
1 colher (sopa) de cebola
noz-moscada a gosto
sal a gosto
1 colher (sopa) de azeite de oliva

Modo de preparo

1. Numa tigela, coloque o trigo e cubra com o dobro de água. Deixe hidratar por 30 minutos. Escorra a água e aperte o trigo com as mãos para extrair todo o líquido.

2. Com um garfinho, amasse bem a ricota. Misture ao trigo hidratado. Junte também o parmesão, a salsinha, a hortelã, as gemas, a cebola e tempere com noz-moscada e sal. (Eu gosto de caprichar na noz-moscada.)

3. Com as mãos, faça 6 medalhões de cerca de 7 cm de diâmetro e 1,5 cm de altura. Transfira-os para uma assadeira, cubra com filme e leve à geladeira até a hora do jantar.

4. Preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média). Leve uma frigideira antiaderente (que caiba 3 medalhões com folga) ao fogo médio. Coloque metade do azeite e, quando estiver quente, doure 3 medalhões dos dois lados. Transfira os medalhões para uma assadeira e leve ao forno preaquecido, apenas não esfriar enquanto prepara os outros 3 medalhões.

OBS: ainda não decidi quais serão os acompanhamentos ou o molho. Mas depois eu conto.

>> Postado por Rita Lobo 17:34

20 de janeiro de 2008

Rocambole a seis mãos

Rocambole a seis mãos

Hoje meus filhos estavam com a macaca. Tudo, tudinho era motivo de briga. Mas só percebi quando já estávamos no café. Apesar do dia cinzento e chuvoso, achei que seria bom mantermos a nossa tradição de tomarmos café da manhã fora no domingo. Dora calçou as galochas cor-de-rosa, Gabriel as amarelas e lá fomos nós, sob nossos guarda-chuvas coloridos, até o local onde eu tomaria o meu capuccino sossegadamente, enquanto assistiria aos meus lindos filhos comendo muffins, tomando chocolate frio e saboreando aquele momento simples e alegre. (Depois, iríamos correndo e rindo da chuva ainda mais forte até a livraria, onde folhearíamos os livros que, num futuro breve, se tornariam os nossos favoritos de toda uma época.) Mas a brigaiada começou antes mesmo de chegarmos ao café. E consegui terminar o capuccino por pura obstinação. Nada de livraria. A chuva, porém, de fato se intensificou. Voltamos marchando cabisbaixos para casa.

Chegamos ensopados e fomos direto à área de serviço encostar os nossos frustrados guarda-chuvas. Eles não haviam conseguido nos salvar daquela água que não parecia vir somente do céu. Disse aos meus filhos que eles deveriam ir para o quarto pensar no comportamento deles. Mas no caminho da área para os quartos há a cozinha. “Mas, mãe, e se a gente fizesse um bolo?”

Quem resiste ao pedido de uma menina de 3 anos para fazer bolo? “De chocolate, mamãe” – emendou Gabriel. Claro, eles sempre querem chocolate. Para tomar, para comer e, também, para cozinhar. Eles também gostam do bolo de limão. Mas não havia manteiga suficiente nem para um bolo de chocolate nem para o bolo de limão.

Quando eu tinha a idade dos meus filhos, talvez um pouquinho mais velha, uns 7 anos, aprendi a fazer bolo sozinha. Antes, as etapas eram divididas com a cozinheira. Quebrar os ovos era tarefa dela, batê-los era minha, peneirar açúcar e farinha, exclusivamente minha, untar a assadeira, também. Levar e tirar o bolo do forno, só ela podia. Até que um dia tentei, no outro me queimei e, quando vimos, eu já assava o bolo sozinha. Sabia a receita de cor e salteado. Mesmo assim, o preparo sempre tinha sabor de aventura. Será que vai dar certo?

A massa era sempre a mesma: pão-de-ló. O recheio é que mudava. Podia ser de doce de leite, de brigadeiro branco, de geléia de framboesa ou de laranja, o sabor preferido do meu pai. Mas com a geléia de laranja não dava para servir café. Quer dizer, minha mãe não gostava da combinação café e laranja. E meu pai não tomava chá. Então, era bolo servido com suco de laranja. E ficava gostoso. Sempre no fim de tarde, quase sempre no fim de semana.

Achei que seria uma boa oportunidade de ensinar meus filhos a preparar o pão-de-ló da minha infância. Cinco ovos, cinco colheres de açúcar e cinco colheres de farinha. Às vezes, apenas uma colher de farinha de trigo era substituída por fécula de batata. Truque da minha avó Rita para deixar a massa ainda mais leve. Uma colherinha de essência de baunilha também podia entrar no preparo. Muito fácil, muito rápido.

Primeira etapa: separar todos os ingredientes e untar a assadeira retangular pequena com manteiga e polvilhar com farinha. Missão cumprida. Segundo passo: separar as gemas das claras. “Mãe, eu já sei fazer isso!” – disse Gabriel com toda a segurança que um garoto de 5 anos pode ter. Ele pegou o ovo com delicadeza, bateu na borda da tigela com firmeza, fez uma rachadura na casca e apertou as duas metades com tanta força que espirrou clara e gema em tudo que estava ao redor. Mais uma tentativa. Outra. E lá se foi meia dúzia de ovos para o lixo. Por enquanto, decidimos que separar as claras das gemas continua sendo uma tarefa minha.

Dora passou o açúcar e a farinha pela peneira. Eu decidi bater as claras à mão, em vez de usar a batedeira. Gabriel quis me ajudar. Mostrei o movimento, segurei a mão dele com o fouet e batemos as claras juntos, até espumar. Depois, ele tentou continuar sozinho, certo de que estava fazendo o movimento à perfeição. Peguei outro fouet e batemos as claras à quatro mãos. Será que vai dar certo? (Você já ouviu dizer que bolo feito por mais de uma pessoa não cresce?)

Dora colocou o açúcar às colheradas. Depois vieram as gemas, uma a uma, e por último a farinha, misturada com uma colher. Transferi a massa para a assadeira, e eles rasparam a tigela. Eu já tinha preaquecido o forno em temperatura baixa.

As crianças voltaram a brincar tranquilamente. E eu fiquei curiosa para ver se o bolo daria certo. Tantos anos se passaram e o preparo do pão-de-ló continua tendo sabor de aventura. Por outros motivos, claro.

Depois de 30 minutos, ele saiu do forno exatamente como deveria: crescido e levemente dourado. Virei a assadeira sobre um pano de prato úmido e polvilhado com açúcar, espalhei geléia de morango e enrolei a massa para formar o rocambole. O bolo ficou igualzinho ao da minha infância, mas somente hoje descobri que, além de gostoso, ele ainda afasta a macaca.

>> Postado por Rita Lobo 20:06

Quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Sabores cariocas

Sabores cariocas

Como dizem os cariocas, “hoje é quinta-feira, a semana está praticamente encerrada”. E eu ainda não escrevi sobre o fim de semana que se passou. A semana está corrida. Desde sábado. Gabriel participou do primeiro torneio de tênis dele. Estava ansioso. Não era bem uma competição. Era mais uma apresentação para pais de crianças de 5 a 7 anos. Lá fomos nós, animadíssimos, para o clube. E o mais animado era o avô que, finalmente, encontrou alguém que herdou o gosto dele pelo tênis. Ele vibrava intensamente a cada bolinha acertada. E eu também. Mais discretamente do que ele. Mas o match point, para mim, foi quando minha filha entrou na quadra (Dora é quase 2 anos mais nova que Gabriel) e o irmão não teve dúvidas: pegou a mão dela e mostrou como segurar a raquete; depois pediu ao professor para jogar a bolinha e fez o movimento com ela. Uma, duas vezes. Até ela acertar. Game. Eu me senti vitoriosa! Como é bom ver irmãos unidos. Deve ser um desejo comum entre as mães. Filhos unidos.

Meu pais ficaram com as crianças, e meu marido e eu fomos para o aeroporto. Pegamos um avião para o Rio. Como sempre, fiquei arrasada durante o vôo. Não dá mais para voar sem pensar em acidentes. Não neste país. A única coisa que me fez relaxar foi o lanchinho. Eu estava verde, mas verde de fome. Iria pousar e me dirigir diretamente ao Maracanã. Não haveria tempo para jantar. Comi aquela coisa que eles chamavam de sanduíche. Era um pão sabor borracha recheado de isopor aromatizado com peru, uma espécie de geléia de abacaxi e algo semelhante a algum derivado de leite, talvez um requeijão. Comi. Matei a fome. E tive certeza que iria morrer. Esse pensamento, estranhamente, me trouxe paz. Talvez eu não morresse em um acidente aéreo.

Sting já estava no palco, cantando e entretendo a multidão. Sting canta boa parte da trilha sonora da minha adolescência, que, contrariamente ao que se espera, não foi vivida antes dos 20 anos. Com 15 eu já estava trabalhando. E era super responsável. Mas depois dos 18 anos... Vivi tardiamente a adolescência. Durou uns dois anos. Fiquei ouvindo aquela banda como se eles estivessem tocando só para mim. Aliás, eu e o sujeito ao meu lado, que não conseguia manter em segredo a própria viagem. Ele não parou de conversar com Sting durante o show inteiro. “Cara, você é o cara, você é demais, putz cara...” Que meda! Dei dois passinhos pra lá.

Depois, queria jantar na Capricciosa, a pizzaria carioca que faz paulistano ficar com vergonha. (Eu acho deprimente, mas a verdade é que a margherita gourmet de lá é a melhor pizza do Brasil. Pelo menos das que eu já comi. Aliás, eu e o Rogério Fasano, que confirma a minha afirmação.) Mas estava lotada. Meia volta e entramos na porta ao lado. Mr. Lam, um restaurante chinês para inglês nenhum botar defeito. (É que eu queria comer pizza. A comida estava bem boa.)

No dia seguinte, tinha churrasco na minha casa. Acordei e fui ao supermercado. No Rio, não dá para planejar o cardápio. É melhor ver o que tem de bom nas prateleiras. Fiquei mal acostumada com a Casa Santa Luzia, em São Paulo. Lá, tem tudo. Só lá. Mas no mercado carioca tinha picanha, salsicha de vitela e vários peixes. Todas as carnes que eu precisava para o almoço. Os tomates-cereja estavam bonitos, os cogumelos-de-paris também. Erva-doce só tinha uma. Serve. Batata, cebola e uma novidade: farofinha de farinha de milho amarela com bacon e milho verde. Receita da minha amiga Patrícia, que estava hospedada em casa. Para o meu enteado, batata rústica, salteada com alecrim. Para o meu marido, salada de batata com cebola-roxa frita e vinagrete de mostarda. Para Esther, os cogumelos foram fatiados e salteados com a erva-doce picadinha, que no Rio é funcho. Era para acompanhar os peixes.

Os tomates-cereja ganharam uma versão de pesto, bem safado, feito com castanha-de-caju, manjericão da horta, alho, azeite, nada de parmesão e, para virar molho de salada, um fio de vinagre balsâmico. Tudo rapidinho, bem saboroso.

Pronto, carnes na grelha, acompanhamentos saindo da cozinha, amigos queridos ao redor da mesa e a dúvida que não me deixa relaxar: será que volto hoje de carro para São Paulo ou pego o primeiro vôo de amanhã? (Os aviões estavam todos lotados naquele dia.) Não é fácil ser mãe. Mas é uma vitória. Voltei na segunda. Mas não pretendo viajar sem as crianças nunca mais! A não ser que eles insistam.

Última: Gabriel me perguntou, "Mãe, quem manda nessa casa?" E eu respondi, "Mas que pergunta, meu filho... Quem manda na casa é a mulher!" Ele olhou descrente e retrucou: "Fala sério, mãe."

>> Postado por Rita Lobo 02:10

Quarta-feira, 05 de dezembro de 2007

A carne não é fraca

A carne não é fraca

Quando minha mãe voltou de um médico dizendo que comer carne à noite atrapalha o sono, decidi fazer o teste. (E dormir bem, por algum motivo, virou uma prioridade na minha vida. Acho que cansei de acordar exausta.) E não é que faz diferença? Muita diferença. Para mim, é fácil de entender que o tempo de digestão das carnes é muito longo e o estômago também precisa descansar enquanto dormimos. Mas a nutrição é algo mais complexo. Nada a ver: eu tinha uma cozinheira que não se conformava que o cafezinho com 20 colheres de açúcar que ela tomava engorda. “Como é que café engorda, D. Rita? O médico disse que eu não posso pôr tanto açúcar... Mas o açúcar não dissolve no café? E café não é líquido? Pensei que líquido não engordasse...”

Não sei bem se é somente a carne vermelha, ou todos os tipos de carne, mas a combinação de aminoácidos da proteína ativa o sistema nervoso, que deixa o corpo em estado de alerta. Ou seja, a gente dorme pronto para acordar. Qualquer barulhinho e o sono vai embora.

De uns tempos para cá, a regra na minha casa ficou assim: o jantar é cedo e leve e, de preferência, sem carnes. (Bifão só na hora do almoço.) Pode ser lasanha de legumes, suflês mil, sopas frias no calor, saladas de grãos, nhoque de tudo quanto é jeito e macarrão feito na hora. Sempre integral. (A marca Delverde é ótima.) O fusili com abobrinha e ricota (do meu livro Culinária para bem estar, receitas antiTPM) é um coringão. E toda semana faço uma nova versão dele. Em lugar da ricota, já coloquei queijo de cabra do tipo feta. Bom demais! Uma outra vez adicionei cogumelos-de-paris fatiados. Cada vez faço uma pequena alteração. (Na foto, feita pelo queridíssimo fotógrafo André Porto, eu estava preparando a versão original para a revista Gloss.)

Dentro do possível, cortei carnes do cardápio noturno. Digo dentro do possível porque como é que eu poderia recusar a sugestão do chef Salvatori Loi, do Fasano, no jantar de aniversário da minha amiga Fernanda? Era uma paleta de cordeiro que fica assando durante 7 horas. Neste caso, eu me preparo psicologicamente para não dormir bem. Não é incrível como tudo na vida é uma questão de escolha? Quando eu era garota e fazia alguma coisa irresponsável, meu pai dizia, “minha filha, você tem que arcar com os ônus e bônus de suas decisões”. ADORO essa frase. Não dá para jantar às 10 da noite, comer cordeiro, beber vinho, se jogar na sobremesa, tomar café e dormir feito uma pedra, acordar mais magra, mais disposta e mais feliz. Bom, dependendo do cordeiro, dá para acordar mais feliz.

>> Postado por Rita Lobo 21:34

Segunda-feira, 03 de dezembro de 2007

Café da manhã

Café da manhã

Precisei de quase uma semana para desintoxicar e entender que o meu vício até que é bom para mim. Nos primeiros dois dias fiquei lesada, mas dormi muito bem à noite. Nos dias seguintes, apenas um leve desanimo. Sábado, um acidente de percurso. Tinha uma conversa de trabalho, bem informal, marcada para as 18 horas. Acontece que minha amiga E. veio do Rio com a família e nós fomos almoçar. Vinho espumante para começar, um tinto leve, pinot noir, para acompanhar o prato principal e Porto depois da sobremesa. Alegria instaurada. O almoço se estendeu até a hora da reunião. E por mais informal que ela fosse, não dava para chegar naquele estado. Café. Duas xícaras de café. Puro. Não é isso que se faz?

A conversa foi bem, obrigada. Voltei para casa, coloquei meus filhos para dormir e fiquei fazendo companhia para a minha insônia a noite toda.

No dia seguinte, domingo, pude dormir até mais tarde. Mas acordei sonhando com um café. Ou melhor, um cappuccino. E, por favor, não imagine que estou me referindo a essas misturas estranhas de leite em pó, café solúvel e bicarbonato de sódio. Nem muito menos a essa moda de café com leite e pedaços de chocolate no fundo da xícara (pelo menos não em jejum e sem TPM). E não me venha com canela no meu café! Acordei com vontade de tomar uma dose de café expresso com o triplo de leite bem, mas bem cremoso. Em outras palavras, um cappuccino.

Será que uma dose de cafeína pela manhã poderia tirar o meu sono à noite? Decidi fazer o teste. Não, não pôde. E, de verdade, acho que passei o dia com mais disposição. Fiz as pazes com o café. Ainda não são 10 horas da manhã. Vou tomar o meu cappuccino. Talvez um latte para variar.

>> Postado por Rita Lobo 09:17

Quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Descafeinada

Descafeinada

Ontem fui tomada por um estranho pensamento. Vou parar de tomar café. Era cedo, eu ainda estava no banho. Enquanto esfregava a cabeça com shampoo, tentava entender de onde vinha aquele estranho desejo às avessas. Eu adoro café. Tomo uns cinco por dia. Pode ser cappuccino. Ou latte. Uma vez fui passar um fim de semana na casa de uns amigos que não tomam café: passei dois dias dormindo de olhos abertos. Lesada. Foi quando descobri que este não é apenas um gosto, mas um vício.

Eu preciso de café. Mas depois do banho, o pensamento continuava tão forte que se tornou uma certeza. Um pensamento que nem me consultou, me invadiu e decidiu que eu iria abrir mão do meu único vício. Até pensei em uma despedida, um último cafezinho da manhã, mas não tive coragem. Tomei chá, um chá incrível: green tea and blackcurrant, da London Fruit & Herb Company (isto é, chá verde com groselha). Sem cafeína.

Apesar de mim, a decisão estava tomada. Mesmo assim, queria entender os motivos. E eu sei que não tem nada a ver com saúde. Está certo que esse tanto de café não faz bem a ninguém. E que, aparentemente, para mulheres, café é pior que para homens, que metabolizam cafeína mais facilmente.

Quando era mais jovem, passei uma longa temporada em Paris. Seis meses. Lá, desenvolvi uma teoria: café dá celulite. A cada expresso tomado, sentia uma nova celulite nascendo. Elas brotavam nas minhas pernas. Mas não tinha nada a ver com o café. Eram os anos se passando.

Fiquei pensando que, talvez, meu organismo precisasse de uma desintoxicação. Só podia ser isso. Acredito piamente que ele se expresse através de vontades. Não tem dias que a gente quer comer peixe e outros em que carne é a pedida?

Mas ainda não estava convencida. Outra possibilidade era um simples desejo de testar os meus limites. Viver sem café. Mesmo que por um curto período de tempo, apenas pelo prazer de saber que posso viver sem ele. Acho que é isso.

Ontem não tomei café. Hoje também não. Fiquei sonolenta. Mas à noite dormi feito uma pedra, coisa que há muito tempo não acontecia. Prometo que não vou transformar o blog no diário de uma ex-viciada em cafeína. Em tempo: descobri um bolo de chocolate que dispensa cafezinho. Não é o “Melhor Bolo de Chocolate do Mundo”. É da PÃO, aquela padaria na Rua Bela Cintra, 1618, que fecha aos domingos, segundas e feriados. Mas quando está aberta, vende pães integrais incríveis, serve sanduíches deliciosos e também um dos melhores bolos de chocolate que já comi. Será que nem me livrei de um vício e já criei outro?

>> Postado por Rita Lobo 11:42

Quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Conforte-me com batatas

Conforte-me com batatas

Cozinhar na praia é diferente. Os tempos são outros. O da gente, e o da comida. A água custa a ferver. Mas a gente nem percebe, não fica vigiando. Uma hora ela ferve. O vaivém das ondas influi na nossa percepção das horas. E a altitude altera os tempos de cozimento dos ingredientes.

No fim de tarde, véspera do feriado, Fernanda e eu fizemos o cardápio para a viagem. Maridos, filhos, babás e nós, as mulheres, cozinheiras. Tinha que ter comida para todo mundo, claro. Mas o objetivo era aproveitar a perspectiva de chuva para fazer da comida o nosso programa.

A Fernanda, além de minha amiga, daquelas que as nossas avós diriam, fulana é amiga íntima de beltrana, é também assessora de imprensa do Panelinha. Nós trabalhamos no mesmo escritório, nossos filhos estudam na mesma escola, freqüentamos o mesmo clube e ainda sobra assunto para falar no fim de semana. A modéstia dela a impede de contar por aí que fez curso de confeitaria em Nova York. Aliás, na mesma escola que eu, mas em outros tempos.

Fizemos uma espécie de planilha, bem rabiscada, com os pratos que faríamos em cada almoço e jantar. Tínhamos que pensar em sete refeições, mais café da manhã e lanchinhos da tarde, e sair correndo do escritório para o supermercado. (Ele fecha aos domingos e feriados.)

Risoto, que é rapidinho de fazer e não dá trabalho, foi escolhido para ser a primeira refeição. Resolvemos preparar um de limão e servir com fatias de salmão defumado. Endro é par perfeito para salmão, e a erva-doce é da família do endro. Deu vontade de completar o prato com erva-doce assada. Nunca tinha feito. Ficou bom. Bem bom. A erva-doce, cortada em quatro partes no sentido do comprimento, assou por quase 1 hora, temperada com um pouco de azeite e sal. Uns 10 minutos antes de sair do forno ganhou um banho de suco de laranja. Escandalosamente bom. Caramelado. Em tempo: as variações de temperatura, salmão frio, risoto e erva-doce quentes, também deram um certo charme ao prato.

Fernanda faz rosbife como ninguém. É uma receita da avó dela. Entrou no cardápio. Foi o almoço do domingo. Ela polvilha um pouco de açúcar na carne. E os outros truques não estou autorizada a contar. Eu preparei as batatas e um molho bem gordo com creme de leite, mostarda de Dijon e geléia de laranja com gengibre. E também uma saladinha que, para dizer a verdade, nasce pronta: tomate-cereja em metades e pepino em rodelas. Para temperar, sal, limão e azeite. Mas é das batatas que eu preciso falar.

Tinha me esquecido de como eu gosto delas. Confortam-me muito mais do que maçãs. Para mim, porém, batatas boas são aquelas que mais um pouco, queimavam. Precisam ficar bem douradas, crocantes e não importa se são fritas, assadas ou salteadas. Ou então prefiro fazer um bom purê. As do feriado levaram umas 2 horas para ficar do jeito que eu queria. Eram dez batatas médias que, depois de bem lavadas, foram para a panela com água salgada, como se fosse do mar.

Até a água começar a ferver nem sei quanto tempo se passou. Deu para tomar uma taça de vinho branco, contar uma história inteira sobre uma outra amiga nossa e só depois a água começou a borbulhar. Mas acho que ela estava esperando o fim do causo. Demorou tanto que as batatas já estavam pré-cozidas.

Na tábua, foram cortadas em quatro partes no sentido do comprimento. Enquanto isso, uma frigideira gigante (na verdade uma panela para fazer paella) esquentava com um pouco de azeite. Eu sei, o certo é usar óleo, mas fim de semana pode. Ele perde o valor nutricional, mas a comida ganha em sabor. Com a casca para baixo, as batatas começaram a dourar. Depois, vira para cá, vira para lá e elas saltearam de todos os lados. À medida que ficavam prontas, eram arrumadas em outra frigideira, a de ferro pintado de branco, que vai sem fazer feio à mesa. Mas as batatas ainda não estavam prontas. Faltavam uns 20 ou 30 minutos no forno para dourar mais um pouquinho. Um tempo que, no dia-a-dia, nunca dá para esperar. Mas na praia o tempo é outro. E o tempo é um pequeno luxo culinário que transforma simples batatas em pratos que fazem o tempo parar.

>> Postado por Rita Lobo 23:14

Quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Um chá para Maria Rita

Um chá para Maria Rita

A freguesia aqui do blog acompanhou um pouco dos preparativos para reunir os Lobo ao redor de Maria Rita, minha avó, a matriarca da família. Ela tem mais de 90 anos, é mãe de dez filhos, avó de vinte e tantos netos e tem quase vinte bisnetos. Por isso, um almocinho em família é algo que não acontece espontaneamente. Com agregados, somamos mais de sessenta pessoas.

Há tempos não nos juntávamos. Somente em pequenos grupos. Minhas primas Alice, Luciana, Mônica e eu decidimos organizar uma reunião. Fizemos o RSVP e, com a lista de participantes nas mãos, dividimos as tarefas fraternalmente entre todos. A idéia era que ninguém tivesse muito trabalho nem precisasse arcar com muitas despesas.

Foram cento e cinqüenta tarteletes de frutas frescas da Luciana, a torta de ameixa e nozes da tia Lucila, uma travessa gigante de brownies de chocolate da tia Regina, o meu bolo de limão, uns 60 sanduichinhos variados da Camila e da tia Ercília, a quiche da Patrícia, salgadinhos de queijo e papoula da tia Gilda, uma centena de brigadeiros que deveriam ter sido feitos pela Alice, a prima que não sabe cozinhar, mas nem isso ela fez. Pediu para a nossa tia Cláudia, madrinha dela, comprar os docinhos prontos. Não pense, porém, que isso é picuinha minha. É apenas uma maneira de revelar, por linhas tortas, o apreço que tenho pela prima caçula, que nem mais caçula é. (Mas continua sendo a mais divertida e bem-humorada da família.) Só um detalhe, adivinhe a data que ela escolheu para se casar? No dia do meu aniversário, claro. Isso já faz alguns anos. Mas eu não esqueço.

Ainda para as crianças (o brigadeiro foi incluso por causa delas, que fique claro), outra centena de pães de queijo trazidos pela minha mãe e pela Gisela, 50 sachês de café expresso para os adultos, 4 litros de leite para o café, suco de uva da Fernanda, refrigerantes trazido pelo Bartô (um dia preciso mostrar aqui o trabalho do meu primo, ele é artista plástico dos bons) 3 sacos de gelo, uma caixa de vinho tinto e apenas uma caixinha de chá, que deu nome à reunião familiar: o chá da vovó Rita. Ah, o chá foi a Alice quem trouxe. E trouxe de Londres. A gente continua com essa mania de trazer chá da Inglaterra, mesmo sabendo que pode comprar no supermercado da esquina.

De Londres, também, veio um e-mail que pegou de jeito as primas que faziam parte do “comitê organizador”. Era a nossa tia, estava chateada por não poder participar. Marcelo, irmão do meu pai, na qualidade de Lobo mais velho, imediatamente respondeu em nome das netas da Maria Rita e sugeriu um repeteco em janeiro, quando a nossa tia estará no Brasil. Até aí, tudo bem. Assunto encerrado, apesar do aperto no coração. (A tia Beth é disputadíssima entre as primas, todas competimos para ver quem é a sobrinha favorita.)

Acontece que a Mônica, minha prima, acabou de voltar de uma longa temporada morando na capital inglesa. Acho que ficou por lá uns 5 anos. E, talvez por isso, ela tenha sentido na pele a tristeza da nossa tia. Sentiu tanto, tanto, que não conseguiu ir ao encontro. E se não fosse assim, não seria uma reunião familiar. Apesar do sangue em comum, cada um sente, pensa e reage de um jeito. E é bom poder se expressar, mesmo que seja não falando nada.

Além da comida, alugamos uma centena de cada um dos seguintes itens: prato de sobremesa, garfinho, colher e xícara de chá pequenina (usada também para café e capuccino), taça de vinho tinto (usada para todas as bebidas) 3 jarras para água e sucos, uma tina para gelar tudo rapidinho. Compramos copinhos descartáveis para as crianças e esquecemos de embalagens de alumínio para quem quisesse levar para casa um pouquinho do sabor do encontro.

Contamos com uma mãozinha das auxiliares da vovó e da minha cozinheira, mas não deixamos de contratar duas supercopeiras que, em minutos, esterilizaram todo o material locado com álcool, arrumaram o salão, colocaram os salgadinhos para esquentar e serviram os 54 parentes da minha avó, que nem acreditava que tantos de seus descendentes fossem mesmo dar um pulo na casa dela para tomar um cafezinho. Quer dizer, acho que ela não estava acreditando: não se lembrou de assar o tão aguardado bolo de fubá da dona Maria Rita. Fica para a próxima.

>> Postado por Rita Lobo 13:57

Quinta-feira, 08 de novembro de 2007

Campos da infância

Campos da infância

Todo mundo já passou pela experiência de voltar a um local da infância e ficar um pouco decepcionado: ou não era tão grande, ou não era tão belo, ou simplesmente não era do jeito que a gente lembrava. Durante anos, mês de julho era sinônimo de temporada na casa de campo dos meus avós. E nós adorávamos. Na adolescência, a simples menção ao lugar era suficiente para me dar coceira. Não ia nem amarrada. Anos mais tarde, meus pais herdaram a casa e não tiveram dúvida: colocaram à venda. Os filhos não queriam mais ir para lá. Mas não é da casa dos meus avós que vou falar.

Pertinho da Alcatéia (as casas da família Lobo costumam ter nome), ficava a chácara da família da tia Lucila. E era para lá que meus irmãos e eu gostávamos de escapar depois do almoço. Isto é, primeiro fazíamos uma paradinha para tomar o, então, melhor chocolate quente do mundo. Depois, seguíamos a cavalo para a, então, chácara mais linda de todo o universo. Tinha um gramado sem fim, lago coberto de vitória-régia, um bosque de eucalipto, quadra de tênis, bolo mármore na mesa e uma casa perfeita. Parecia cenário de filme. Na época, o termo politicamente correto não existia e a coleção de caça ficava à mostra nas paredes: onças, alces, acho que até banquinho de pata de elefante tinha.

Na semana passada, minha prima nos convidou para passar uns dias na chácara. Além de nós, foram também outras quatro famílias. Éramos dez adultos e sete crianças. Uma festa desde o café-da-manhã. Mas antes de chegar à casa, uma paradinha para o chocolate.

Ele continua com gosto de infância. E por isso é bom. Mas como é doce! O paladar também cresce. Do melhor chocolate do mundo só restou o apego à infância. Não era araucária o nome daquele todo enrugadinho? Agora é rama. Rama de chocolate ao leite, de chocolate branco e de chocolate meio amargo. Até este último é doce. Está mais para meio que para amargo. Encerrada a sessão chocolate, entramos no carro e fomos em direção à chácara. Será que eu ainda sei o caminho? Foram uns bons 20 anos desde a última vez que estive por lá. Será que a casa é uma casinha? Crianças vêem as coisas de uma maneira bem particular. Passo pela casa dos meus avós, que não é mais dos meus avós, mas não há como me referir a ela de outra maneira. Por sorte, os atuais proprietários fizeram um bom trabalho. Por fora, está mais bonita do que nunca.

Subimos a estradinha ladeada por hortênsias que nos levam até a chácara. Como a casa é grande! Olho para os meus filhos e me sinto do tamanho deles. Gabriel entra na sala e fica encantado com a onça. Quer saber como fizeram para deixá-la tão magrinha, assim chata na parede. “Eles tiraram a carninha dela, foi mãe?” Mas não fala com pesar. Ele ainda não conhece o termo politicamente incorreto. Ele observa a casa e me pergunta se é antiga. Respondo que é de 1941. Ele não entende muito bem o que isso quer dizer, mas repara que é forrada de madeira. “A madeira também deve ser bem antiga... Como é que se chama aquele bichinho que come madeira antiga?” Fico me perguntando por que um menino de 5 anos quer saber se a casa tem cupim. Dora está hipnotizada com a lareira. Mas, não deixa de perguntar para cada um que passa: “Você mora aqui?” Ela quer saber quem é a dona da casa.

Estamos em novembro, mas a temperatura fora é de inverno. E chove. Como chove. O lago é ainda mais bonito que o da memória. Crianças não se impressionam com a beleza natural. Ou, talvez, eu não notasse a natureza. Os meus filhos estão encantados com o local. Meu marido está impressionado com o enorme alce empalhado, que fica nos vigiando lá de cima do mezanino. E o alce deve estar impressionado como eu cresci.

Minha prima e eu vamos juntas para a cozinha preparar o jantar. Para as crianças, a caseira vai fazer macarrão. E os adultos vão comer risoto. (Nós duas fizemos o menu do fim-de-semana com antecedência.) O risoto é simples, de queijo com raspas de limão. Já no prato, ganha fatias de presunto cru e figo salteado na manteiga. Mas na hora, resolvemos refogar a cebola no bacon, acrescentamos alho-poró fatiado fininho e, além das raspas, colocamos um pouco do suco de um limão. Então ficou assim: 70 g de bacon, 2 cebolas picadinhas, um talo de alho-poró fatiado, 1 k de arroz arbóreo, meia garrafa de vinho branco e caldo de legumes, que a gente vai colocando até dar o ponto. Um pouquinho antes de sair da panela, o risoto ganha raspas de 4 limões, suco de apenas 1, o maior deles, e uma quantidade vergonhosa de queijo parmesão ralado. Não me pergunte quanto. Antes disso, lavamos e secamos 10 figos, que foram salteados em metades numa frigideira com um tico de manteiga. Espalhamos dez pratos pela bancada da cozinha: uma segurava o panelão de risoto e a outra servia com uma concha. Rapidamente arranjamos as fatias de presunto cru no risoto e sobre elas colocamos as metades de figo, que perfumavam da cozinha até a sala de jantar.

Fizemos também duas saladas: uma de endívias com vinagrete de mostarda, e a outra de shitake grelhado com mussarela de búfala e alface romana. Para esta segunda, fizemos uma vinagrete com redução de balsâmico. E no lugar de sobremesa, uma degustação de chocolates, mas não aqueles da infância: os incríveis chocolates preparados pela minha prima Luciana.

No dia seguinte, caminhada até a cidade. Apenas as primas. Luciana, Camila e eu. No caminho, por coincidência, encontramos com os atuais proprietários da casa dos meus avós. Eles dizem que será uma desfeita não irmos visitá-los. Eu fico animadíssima. Quero ver com os olhos de hoje como enxergo a casa da infância. Mas não foi dessa vez. Fica para a próxima. E não foi desfeita não!

Na segunda-feira seguinte, meus pais foram almoçar em casa. Conto com gosto sobre o fim-de-semana. Como a viagem é curta! Menos de duas horas. Pergunto ao meu pai por que ele vendeu a casa. Ele dá risada e responde: “Você foi a primeira a dizer que deveríamos vendê-la.” Mas acontece que eu não tinha dois filhos naquela época, pai! E todo mundo já passou pela experiência de querer levar os filhos para os mesmos lugares da própria infância. Quem sabe, qualquer hora, os donos da casa da minha avó não alugam a Alcatéia para nós? Decepção mesmo é descobrir que os campos da infância são muito melhores do que a gente lembrava.

>> Postado por Rita Lobo 01:27

Segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Vale-livro?

Vale-livro?

Por favor, gostaria de saber se você ministra cursos, onde e se há uma agenda para o próximo ano. Gostaria de presentear minha Mamma, que é sua fanzoca, no Natal, com uma espécie de "vale-aula" para 2008.
Obrigada!

Gigli

Gigli,

Serve um livro? Prometo que quando fizermos umas aulas no Estúdio, aviso. Enquanto isso, Cozinha de Estar, meu primeiro livro, e Culinária para bem estar, o mais recente, estão disponíveis nas melhores casas do ramo...
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