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Terça-feira, 17 de novembro de 2009
Aromas de Casablanca
No começo do mês, minha Dora fez aniversário. Ela ganhou bolo, brigadeiro, a visita de parentes e amigos e também alguns presentes. Como mãe da aniversariante, ganhei um livro. E o Gabriel, por ser irmão, ganhou outro.
Um pouco antes da hora de dormir, a minha cama virou um ringue. “Hoje a mamãe vai ler o meu livro”, dizia um. “Não, o meu”, berrava o outro. Decidi colocar um fim na luta. “Quer saber, cada um vai ler o seu, ou melhor, se quiserem, escolham se leio o meu livro em voz alta ou voz baixa.”
Os dois ficaram quietinhos, pensaram sobre o assunto, trocaram olhares e o Gabriel respondeu, “pode ler em voz média, mãe”. Caí na risada e tentei explicar que ler em voz baixa significa ler em silêncio. Mas não houve jeito: eles me convenceram de que ler em voz baixa significa ler sussurrando.
Li a primeira página de A Casa do Califa em voz média. Mas a modulação deve ter sido tão suave que no fim do capítulo as crianças já estavam sonhando com carneirinhos marroquinos. Eu só consegui largar o livro por nocaute. O sono me derrubou depois de umas cinquenta páginas. Foi o suficiente para saber que Tahir Shah, autor inglês de origem afegã, estava sufocado pelo tom cinzento de Londres, e sentia-se miserável no pequeno apartamento em que vivia com Rachana, sua mulher grávida de um menino, e a pequena Ariane. Ele queria encontrar uma terra onde as crianças pudessem conhecer o significado de honra e orgulho; queria deixar para traz os pseudo-amigos e o aprisionamento dos compromissos sociais desnecessários; e também sonhava em morar numa casa com dimensões respeitáveis. Queria provar que a vida era bem maior do que as quatro paredes da sala daquele apartamento.
Ainda criança, o autor passava férias no Marrocos com os pais. “Foi uma fonte de cor para minha higienizada infância inglesa”, ele diz ao listar alguns dos motivos pelos quais escolhe o norte da África para morar. Tahir e a mulher investem todo o dinheiro que tem numa mansão em ruínas em Casablanca, e na reforma da casa, que acaba levando cerca de um ano.
A questão da reforma, naturalmente, me trouxe muito interesse, uma vez que acabo de concluir a reforma dentro das minhas quatro paredes em São Paulo. Mas não foi exatamente esse o motivo pelo qual não consegui mais desgrudar do livro.
Como os bons cadernos de viagem, ele oferece uma porta para uma viagem interna, uma reflexão sobre as próprias crenças, valores, sobre o equilíbrio entre tentar dominar a vida e ser dominado por ela. Mas isso pode ser apenas uma viagem de minha parte. O que interessa aqui para nós é comida. E apesar de não ser um livro de culinária ou gastronomia, ele é recheado de sabores marroquinos.
Cuscuz, tagines, cordeiro, bastilla, abóboras ensopadas, chá de hortelã, café preto feito piche. Dez dias depois do aniversário do Dora, terminei de ler A Casa do Califa. Mas a vontade de sentir um pouco dos sabores marroquinos não passou.
Há muitos anos, fui passar uma semana no Marrocos. A semana durou quinze dias, depois um mês, depois mais alguns dias. As cores dos mercados, os aromas das cidades, a variedade das cerâmicas, os tapetes, bandejas, tudo para mim era fascinante. No início, achava um constrangimento ter de oferecer metade do preço sugerido para comprar um simples copo de chá. Rapidamente, percebi que constrangimento maior, quase uma ofensa, era não barganhar. Foi um aprendizado divertido. Voltei carregada para casa, apaixonada pelos novos objetos. Mas, acima de tudo, encantada com a culinária local.
No meu primeiro livro, Cozinha de estar, escrevi um pouco sobre ela. Considero a cozinha marroquina muito feminina. É cheia de camadas de sabor, generosa, sem frescura. Ao mesmo tempo, é complexa, combina especiarias, um pouco de ervas, muito limão em conserva, carne de cordeiro, aves. Mas tem como base um colo de cuscuz. Ele recebe sem discriminação qualquer ensopado, de carne, de legumes, aceita todos, recebe com carinho, e suaviza com respeito o mais potente dos sabores. Não é como iogurte, que neutraliza, ou água, que sai lavando, ou como a batata, que jura de pés juntos trazer para si o excesso de sal imposto pelo cozinheiro inexperiente. O cuscuz é como uma boa mãe, que estimula as características individuais de cada filho, mas imprime suavemente a marca dela em cada um.
Os meus filhos nunca experimentaram comida marroquina. Cuscuz, sim. Sempre. Mas usado de maneira singela, adaptado ao dia a dia de casa com crianças pequenas, que precisam de comida na mesa pelo menos três vezes ao dia. Não dá para viajar, dar um pulo no Marrocos em plena terça-feira. Mas este fim de semana começa na sexta. Quem sabe no feriado não aproveitamos todos para dar um mergulho nos aromas de Casablanca?
Veja aqui a receita do cordeiro marroquino da foto e também uma pequena seleção de receitas com cuscuz.
>> Postado por Rita Lobo 13:10
Quinta-feira, 08 de outubro de 2009
Dia das Crianças
Meus filhos, como boa parte das crianças que conheço, adoram pizza. Eu também gosto. Para eles, porém, uma fatia de pão lambuzada de catchup, coberta com um pouco de queijo, já caracteriza uma pizza. Espero que, com o tempo, isso passe. Por ora, o paladar infantil pode ser uma vantagem no Dia das Crianças.
Sem querer, no fim de semana passado, acabei fazendo um preview do próximo dia 12. Meu aniversário foi no fim do mês e, no último domingo, resolvi comemorar com um lanche para as crianças. Quer dizer, adultos também podiam participar, mas o foco do cardápio era o paladar dos pequenos.
Improvisei na bancada da cozinha uma estação de pizza. Atenção: gostaria de relembrar que era uma festinha para as crianças. Por isso, não se iluda. Estação de pizza pode remeter a uma massa caseira, descansada desde o dia anterior, um molho de tomate apuradíssimo, queijo da melhor qualidade e outras opções de ingredientes, como manjericão fresquíssimo, talvez uma mussarela de búfala derretendo de tão macia. Não foi nada disso.
Toda vez que os meus sobrinhos vêm jantar em casa, no fim da refeição, em vez de oferecer sobremesa, o meu filho Gabriel pergunta: “Quem quer pizza?” Eu fecho os olhos. Os primos abrem um sorriso de canto a canto. Você já deve ter imaginado que se trata de catchup espalhado num pão de forma, coberto com uma fatia de queijo prato. Para piorar, como o Gabriel não gosta de sabores torrados, em vez de forno, a “pizza” vai para o microondas. Na primeira vez, quase tive um ataque: pão no microondas, não! Pronto, virou um hit. A criançada ama fazer e comer.
Quando vi que não tinha mais jeito, eles até comiam o jantar depressa para chegar a hora da “pizza”, sugeri ao Gabriel que experimentasse um outro modo de preparo, menos gororobesco. Em lugar de colocar o pão no micro, poderia usar uma frigideira. Ele gostou da ideia. Fez uma vez e, na sequˆncia, percebeu que na minha sugestão havia uma falha. “Mãe, o pão fica com gosto de queimado.” Ele virou a “pizza” de ponta cabeça: o queijo em contato com a frigideira derrete rapidamente, e o pão apenas esquenta, sem dourar. Depois é só virar sobre um prato. Mais uma vez, achei um horror. Mais uma vez, as crianças amaram.
Então, a estação de pizza do meu aniversário, coordenada pelo Gabriel, consistia em uma pilha de pão de miga, outra de pão árabe, queijo prato ralado e também em fatias, mussarela e, sim, catchup. Apenas para esclarecer: gosto de catchup, mas não com qualquer coisa que se assemelhe a uma pizza. Mas para ver as crianças se divertindo – e como elas se divertiram! -, vale qualquer coisa, até pizza com catchup.
Confesso que não experimentei nenhuma das criações dos pequenos, mas pela cara das crianças, deviam ser as melhores pizzas de todos os tempos. Para adultos frescos como eu, que são difíceis de comer, do tipo “minha mãe não come nada, nem nuggets, nem pizza com catchup, não toma refrigerante...”, tinha outras opções de lanchinhos. Presunto cru, saladinha de tomate-cereja com manjericão, salada de feijão-branco com atum e limão, torradinhas e pães, alguns tipos de queijo e duas coisitas saídas do forno, batata bolinha e cubinhos de abóbora. Eu sei, falando assim, batata bolinha e cubinhos de abóbora, dá vontade de optar pelo cardápio das crianças. Mas não seja infantil, escute o preparo.
A batatinha é aferventada por uns 10 minutos, em água bem salgada, como se fosse do mar. Depois, ela é cortada em metades e vai para uma assadeira; toma um banho de azeite, uma chuva de alecrim debulhado; a assadeira vai para o forno em temperatura média, sem papel-alumínio, e fica lá por uns 30 minutos. Uma mexidona nas batatas e mais meia hora para que assem por igual, até ficarem bem douradas, quase queimadas, e murchas. Às vezes, um pouco mais de tempo se faz necessário. Elas ficam bem crocantes. Não pode ter pressa. Quando saem do forno, entram na assadeira as bolinhas de mussarela de búfala, cortadas em metades, do mesmo tamanho das batatinhas. Mais um pouco de azeite e sal grosso por cima de tudo. Uma boa misturada e vai tudo para uma travessa. Ou melhor, divida em duas e coloque uma em cada extremo da mesa. Chega a dar briga de tão bom.
A abóbora é ainda mais simples. Precisa ser a japonesa. Os cubos não têm que ser exatamente do mesmo tamanho. O aspecto rústico aqui não é problema. Ela não precisa cozinhar em água, vai direto para a assadeira. Também ganha um banho de azeite, como as batatas, e, em vez de alecrim, a erva certa é a sálvia. Muitas folhas. Se forem grandes, rasgue com as mãos e salpique por cima dos cubos. Contrariamente às batatas, na abóbora gosto de colocar um pouco de sal, antes de assar. Parece que ela desidrata um pouquinho e fica ainda mais caramelada. Depois de meia hora, uma mexidinha, e mais meia hora no forno. Quando estiver bem dourada, pontas queimadas e tudo, ela vai para uma travessa. Mais um pouco de sal e pimenta-do-reino, sempre moída na hora. Em casa, servi assim. Queijos, frios, torradas e saladas faziam parte do lanchinho dos adultos. Mas ela pode ganhar um fio de balsâmico e também lascas de parmesão. Faz qualquer adulto ficar feliz feito criança.
No próximo dia 12, além do catchup, vou fazer um molho de tomate. Quem sabe preparamos também uma massa caseira de pizza. Um ou outro ingrediente fresco pode entrar no cardápio. Mas não sei se isso vai acabar com o sabor da transgressão. Talvez seja disso que eles gostem.
>> Postado por Rita Lobo 13:40
Terça-feira, 22 de setembro de 2009
Figos por e-mail
Quando estava terminando meu último livro, e só faltava entregar a página de agradecimentos, concluí que as pessoas que mais tinham me ajudado eram os leitores aqui do blog. Muita gente manda e-mails, comenta, pergunta, e isso acaba me incentivando a escrever. Fiz uma pesquisa rápida e selecionei dez leitores que haviam escrito algo marcante para mim naquele período. O lançamento foi há bastante tempo, mas ontem recebi um e-mail da Clarissa.
“Querida Rita,
Fui ao shopping esta manhã comprar uma camiseta branca para a escolinha do meu filho... Entrei numa livraria e finalmente comprei seu último livro, A conversa chegou à cozinha. Ele estava envolto em plástico e não consegui dar uma olhada. Já em casa, imagine a minha cara quando encontrei meu nome na página de agradecimentos! Fiquei um tempinho olhando para ter certeza que não estava vendo coisas...”
Terminei de ler o e-mail e aproveitei para dar uma olhada no blog da Clarissa. Não me lembro de ter reparado no perfil dela antes – estou sempre de olho nas receitas –, mas achei a maior graça no fato de termos exatamente as mesmas origens: húngaros e italianos de um lado, espanhóis e, no meu caso, portugueses do outro.
Fuçando mais, achei um monte de fotos de pratos que ela tinha preparado com receitas do Panelinha. Eu adoro ver as nossas receitas sendo usadas! Foi a minha vez de mandar um e-mail. E ela me respondeu assim: “Curioso termos a mesma ascendência... Será que vem daí a obsessão por comida? Por falar nisso, já devorei o livro! Adorei reler algumas crônicas (que já havia lido no blog) e descobrir novas receitas. As minhas preferidas são (não necessariamente nessa ordem): Tudo se ilumina, Ópera para crianças, Sabendo levar, Bela Helena e Tobi. O namorado da minha irmã tem um whippet chamado Magrinho, e o Enrico, meu filho, faz misérias com ele... Ontem, recebi um casal de amigos e me inspirei no seu risoto de alho-poró e limão servido com presunto cru e figo salteado. Sucesso absoluto! Junto com o risoto, servi o salmão em papillote do Panelinha e uma salada caprese! Veja a foto.
Clarissa, adorei o prato; fiquei com água na boca só de ver o figo. Aliás, no jantar de Rosh Hashaná na minha casa, queria fazer um centro de mesa com maçãs, tâmaras, romãs e figos. Pedi para a minha assistente ir lavando as frutas e, quando vi, os figos estavam submersos numa tigela d’água!
Não, não! Não é assim que se lava figo! Eles ficam encharcados e perdem o sabor! O forno estava bombando com batatas, erva-doce, frango e eu não tive dúvidas: coloquei as frutinhas numa assadeira para deixar uns segundos no calor, na esperança de amenizar o estrago. Quase meia hora depois, senti o perfume intenso dos figos pela cozinha. Tinha me esquecido completamente deles!
O centro de mesa perdeu os figos, mas ganhou ameixas bem vermelhinhas. Já a sobremesa, além de bolo de mel, sorvete e chocolates, ganhou os figos assados. Mais simples de fazer que os salteados, ainda mais saudáveis e igualmente gostosos. Talvez até mais! Especialmente com um fio de mel. Obrigada pelo seu e-mail.
>> Postado por Rita Lobo 23:15
Segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Trigo secreto
A Eneida me mandou um e-mail intitulado “Sintonia de setembro”. Ela conta que, desde o começo do mês, basta pensar numa pessoa que a dita cuja aparece; ela deseja uma coisa e parece que tudo conspira para que aconteça. Not bad! Depois, ela explica como a sintonia se estendeu aqui para o blog: “Abri a geladeira e tinha um creme de leite fresco dando sopa. Vi também algumas batatas sobrando. Bingo: batatas gratinadas, que há tempos não comia. No dia seguinte, hora de dar uma olhada no Panelinha. Qual a minha surpresa? Dona Rita falando sobre a volta do creme de leite e batatas gratinadas! Segunda sintonia: lendo a coluna da Nina Horta fiquei me perguntando se a campanha que lancei pessoalmente na noite de autografo do seu último livro tinha dado certo. Isso mesmo! Não sei se você lembra, mas uns dias antes do lançamento, você publicou um post sobre a salada de trigo que a Nina, muito gentil, tinha mandado para você. Mas nada da receita. Quando vi a Nina chegando à livraria naquela noite, não tive dúvida; como quem não quer nada, apresentei-me e anunciei a campanha: Oooohhh dona Nina Horta, passa para a Rita a receita da sua salada! Mas sabemos que isso não aconteceu. Na semana passada, quando li a coluna da Nina, que aliás adoro, pensei na tal salada. Aliás, nunca esqueci este assunto. Hoje pela manhã, surpresa! Li seu blog e vi que você também não esqueceu, afinal, ‘somos brasileiras e não desistimos nunca’, viu dona Nina... Hahaha! Estamos todos em sintonia. E eu estou adorando o mês de setembro, não só porque é o mês do meu aniversário, mas porque as coisas estão acontecendo e queria dividir esta minha sensação com você e, espero, a receita da salada trigo também.”
Eneida, fiquei feliz com o seu e-mail. Compartilho com você a sensação e, também, o mês de aniversário! Então, aqui vai o meu presente.
Bazargan, a receita secreta da salada de trigo com molho de romã
Serve 10 pessoas
Ingredientes
300 g de trigo para quibe
10 colheres (sopa) de azeite
4 colheres (sopa) de xarope de romã
suco de 1 limão
8 colheres (sopa) de extrato de tomate
1 colher (chá) de coentro moído
1 colher (chá) de cominho em pó
1/2 colher (chá) de pimenta da Jamaica
200 g de nozes bem picadas
1 maço de salsinha picada
sal a gosto
Modo de fazer
1. Numa tigela, coloque o trigo e cubra com o dobro de água. Deixe hidratar por 1 hora. Passe o trigo por uma peneira com trama fina, apertando bem com uma colher para escorrer bem a água. Se preferir, abra um pano de prato num escorredor de macarrão, escorra a água, faça uma trouxinha e torça para secar o trigo.
2. Numa tigela grande, junte o azeite, o xarope de romã, o suco de 1 limão, o extrato de tomate, o coentro moído, o cominho em pó, a pimenta da Jamaica e tempere com sal. Com um fouet (batedor de arame) misture bem até que o molho fique liso.
3. Junte o trigo à tigela com o molho e misture bem. Verifique o tempero. Se for necessário, adicione mais sal. Leve à geladeira por cerca de 3 horas.
4. Preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média). Numa assadeira, leve as nozes picadas ao forno por 10 minutos. Retire e transfira para um prato para não queimar na assadeira quente.
5. Na hora de servir, misture as nozes e a salsinha picada. Fica uma delícia com coalhada seca.
>> Postado por Rita Lobo 20:20
Quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Bolo de mel para Rosh Hashaná
Não costumo comprar livros de culinária por comprar. E, para dizer bem a verdade, minha biblioteca nem é tão extensa. É boa, mas não é excessiva. Posso dizer, porém, que conheço intimamente os livros. Sei que tal receita é de um, que o outro tem combinações boas de sabores, o outro não tem boas receitas mas as ideias de cardápio são excelentes e assim vai. Uma das poucas exceções é o livro The Essencial Book of Jewish Festival Cooking, de Phyllis Glazer e Miriyam Glazer.
Há muitos anos, comprei o livro numa ida a Nova York, trouxe na mala e coloquei na estante, ao lado do The Book of Jewish Food, de Claudia Roden. Talvez por isso mesmo, nunca mais olhei para ele. Este segundo é, na minha opinião, o melhor de livro de culinária judaica de todos os tempos e, obviamente, qualquer outro ao lado dele fica parecendo menos importante. Mas a verdade é que, com Rosh Hashaná aí - a comemoração acontece no próximo fim de semana -, resolvi dar uma olhada no livro das irmãs Glazer, específico de receitas e tradições das datas comemorativas judaicas.
Quase caí para trás. Só de bater os olhos nos nomes das receitas, fiquei babando. Exemplos: frango assado com figos; batata-doce e maçã assada; pão integral com azeitona e alecrim; ensopado de cordeiro com grão-de-bico, romã, abóbora e coentro. Deu para ter uma ideia? Não sei você, mas é bem o tipo de comida que eu gosto.
Muito bem, no capítulo dedicado ao ano novo judaico, há um bolo de mel que fiquei com vontade de fazer. Em vez da versão tradicional, um bolo escuro, as autoras propõem uma massa clarinha, bem fofa, não muito doce, apesar de ser um bolo de mel, e com nozes para dar sabor e textura. Acabei fazendo algumas alterações na receita. Por exemplo, ela não pede para enfarinhar as nozes, mas isso faz diferença porque impede que afundem à medida que o bolo vai assando; a original leva gengibre em pó, mas eu não tinha e coloquei pimenta da Jamaica; em vez de assar por 1h15, dividi a massa em duas fôrmas de bolo inglês de 22 cm e deixei assar por 40 minutos. Ah, e coloquei um ovo a menos. A primeira fôrma saiu do forno e acabou em menos de 15 minutos. A outra escondi para amanhã. A receita adaptada está a seguir. A ideia é comer mel para invocar um ano mais doce, mas só de deixar o fim de tarde perfumado, já vale o preparo.
Bolo de mel para Rosh Hashaná
Ingredientes
1 xícara (chá) de nozes picadas
½ colher (sopa) de farinha de trigo
5 ovos
½ xícara (chá) de óleo de canola
1 ¼ de xícara (chá) de mel
¼ colher (chá) de canela
¼ colher (chá) de pimenta da Jamaica
2 xícara (chá) de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento em pó
½ xícara (chá) de açúcar
Modo de fazer
1. Preaqueça o forno a 180º C (temperatura média). Unte com manteiga e polvilhe com farinha duas fôrmas de bolo inglês de 22 cm.
2. Coloque as nozes picadas num assadeira e leve ao forno para assar por 10 minutos. Retire do forno, transfira as nozes para um prato. Quando esfriar, misture ½ colher (sopa) de farinha na nozes. Coloque numa peneira e retire o excesso de farinha. Volte as nozes para o prato e reserve. Isso serve para que as nozes não afundem na massa enquanto o bolo estiver assando.
3. Reduza a temperatura do forno para 150º C (temperatura baixa).
4. Separe as claras das gemas. Passe a farinha e o fermento pela peneira.
5. Na batedeira, bata as claras em neve. Quando começarem a espumar, junte o açúcar aos poucos, sem parar de bater, até que as claras fiquem firmes.
6. Na outra tigela da batedeira, junte o óleo, o mel, as gemas e as especiarias. Bata em velocidade alta, até ficar uma mistura fofa. Diminua a velocidade, e aos poucos junte a farinha com o fermento peneirados. Bata bem, até que a massa homogênea.
7. Coloque metade das claras na massa de mel e continue batendo. Desligue a batedeira e misture a metade restante delicadamente com um espátula, em movimentos circulares, de baixo para cima.
8. Misture as nozes e divida a massa nas fôrmas preparadas. Leve para assar por 40 minutos. Espete o palito: se sair limpo, está pronto, caso contrário, deixe assar mais uns minutinhos. Tire do forno e deixe esfriar por 5 minutos antes de virar.
>> Postado por Rita Lobo 19:00
13 de setembro de 2009
Boa forma num passe de mágica
Rita, parabéns pelo site Panelinha, ele é maravilhoso, as receitas são ótimas (e muito bem explicadas) e tenho me divertido tanto com os seus vídeos da reforma! As suas tiradas são divertidas e a sua "camerawoman" também é muito engraçada! (Aliás, quem é essa figura?)
Gostaria de perguntar como é que você faz para manter a forma mesmo fazendo receitas tão deliciosas. Leio sempre no seu blog que não falta bolo e outras delícias na sua casa. Então, fico me perguntando como é que você faz… Até a Nina Horta já disse que não é fácil ficar magra cozinhando bastante.
Você toma cuidado com as quantidades ou você não tem tendência nenhuma para engordar? Eu pergunto isso porque sou do tipo que engorda só de começar a olhar a receita, então sempre estou em busca de uma dica "mágica" que me ajude a não engordar! Obrigada por esse site tão delicado e pela sua simpatia e inteligência.
Samantha Maimone
Samantha, muitíssimo obrigada pelo seu e-mail. Curioso você mencionar a Nina Horta e depois perguntar como faço para manter a forma. Se dependesse dela, da Nina, eu não estaria magra, mas morta de fome!
Há meses, quase um ano, ela me enrola para não dar uma receita. Já até falei sobre isso aqui no blog. Virou ideia fixa. Vivo sonhando com a salada de trigo com romã do bufê dela. Mandei e-mail pedindo, liguei implorando, chorei, fiz juras de amor, nada resolveu. Dona Nina não me passa a receita. Ela até me mandou uma tigela da salada; acho que faz qualquer coisa para não precisar ensinar o preparo do prato. Até que, semanas atrás, nos encontramos numa festa. Fofocamos, tricotamos, bebemos um pouco de vinho, e eu tive coragem de explicar que precisava fazer a salada por motivos de força maior. No dia seguinte, ela me mandou um e-mail dizendo que iria revelar a fórmula. Um, dois dias e nada. Daí veio outra mensagem explicando que ela já tinha visto na minha casa o livro que tem a salada... A Nina resolveu brincar de gincana comigo!
Lá fui eu abrir livro por livro atrás da dita cuja. Mais uns dias, ela me mandou outro e-mail com os ingredientes listados e a promessa de, em seguida, enviar o preparo. Isso já faz mais de um mês. Ontem, uma luz divina alumiou a minha mente e abri o livro certo: encontrei a receita. Vou prepará-la assim que comprar todos os ingredientes. E, depois, explico tudinho aqui. E ainda mando um pratinho para a Nina.
Sobre a “mágica”, Samantha, que eu saiba, não existe. Mas minha tia que emagreceu 10 quilos em pouco tempo, e não engordou mais, diz que o segredo está na mastigação. Ela não fez dieta, não deixou de comer nada, mas passou a mastigar de 40 a 50 vezes cada garfada. Há uma série de teorias sobre os motivos pelos quais mastigar bem os alimentos emagrece, mas se eu ficar explicando isso aqui, não vai parecer mágica, vai? E, como não tem contra-indicação, não custa nada começar. Para a minha tia funcionou. Feito mágica.
>> Postado por Rita Lobo 19:47
Quarta-feira, 02 de setembro de 2009
A volta do creme de leite
Tive uma longa discussão com um amigo jornalista de moda. Ele estava em êxtase com as tendências do verão 2010. “Jeans délavé vai ser tudo!”, exclamava ele com brilho, ou melhor, glitter no olhar. Ai, não, socorro, só falta ser baggy! Uma calça baggy délavé vai ser duro de engolir, quer dizer, de vestir, pensei eu. Ele não vê a hora de comprar uma calça ou jaquetinha nova.
Pode reparar: tudo que é muito cafona numa estação, duas ou três depois vira hit. Eu fico até meio tonta com o vaivém tão frenético. Às vezes, demora um pouco, mas sempre volta. De um jeito diferente, mas volta. Senão, ninguém precisava comprar mais nada: era só pegar do armário da mãe, da avó, ou do próprio, dependendo da idade.
Aqui da minha cozinha, fiquei pensando que não vejo a hora de o creme de leite voltar à moda. Que coisa mais brega ele ter sido banido dos nossos pratos com tanta veemência. Óbvio que ele não pode ser usado como era na culinária francesa na década de 1970. Precisa ser aplicado de outro jeito. Less is more. Em quantidade e freqüência. Na minha alimentação, por exemplo, ele nunca deixou de existir porque nunca foi excessivo. Salvo no clube, quando eu era criança.
Às vezes, no fim de semana, a família toda almoçava por lá. Depois, meus pais pediam o café, a conta e meus irmãos e eu ficávamos torcendo para o garçom trazer também o chantilly. Naquele tempo, no clube, o café não era servido com biscoitinhos, mas chantilly nunca faltava. O café chegava e, segundos depois, nós pedíamos bis: “Queremos mais chantilly!” Daí, minha mãe dizia: “Não é chantili que se fala, dois éles em francês não se pronuncia, é chantií.” Alguém sempre rebatia que no Brasil era chantili e, no fim, eu e meus irmãos pedíamos mais um pouco de chantilin. “Chantilin?”, ela fazia cara de desgosto, mas deixava escapar um sorrisinho no canto da boca. Mas a pronúncia era a única discussão; se podíamos ou não comer mais creme, não era uma questão.
Óbvio que o jeito de comer, e de cozinhar, mudou. E precisa mudar, evoluir, se aprimorar, andar de mãos dadas com tudo de novo que a nutrição apresenta e ainda ganhar uma pitada de técnicas novas que os chefs descobrem, inventam. Mas, como diria dona Márcia, tirar o chantilly do morango das crianças, não dá. Muito menos o dos adultos.
É verdade também que, fora o morango com chantilly das crianças, uso pouquíssimo creme de leite. E sempre que uso, é fresco. Acho que nem tenho na despensa creme de leite em lata ou caixinha. E nunca, nunquinha na minha vida comprei creme de chantilly pronto. Aquele da latinha, então, nem pensar. Prefiro comer espuma de barbear, mesmo. E essas invenções que a gente vê pela internet, como chantilly feito com claras em neve e uma lata de creme de leite? Isso sim deveria ser banido. Vi uma outra receita que pedia para colocar dez colheres de açúcar em meio litro de creme de leite. Eca!
Eu prefiro bater o creme com um fouet, na tigela de vidro que já vai para a mesa, mas ele pode ser feito na batedeira. Não faz diferença, mas chantilly necessariamente é feito com creme de leite fresco e um pouco de açúcar; no máximo duas colheres para meio litro. E ele precisa estar bem gelado. E não pode ser excessivamente batido porque talha. Em casa, ele chega à mesa e logo acaba. (Quase que não deu tempo de fazer a foto.)
Outra preparação que também anda muito fora de moda, mas que estou morrendo de vontade de fazer, é a batata gratinada. Finas rodelas de batatas espalhadas no refratário, um banho de creme de leite fresco, sal, pimenta-do-reino, noz-moscada e horas no forno até ficar tudo bem douradinho. Até comprei um mandolim novo para fazer as fatias bem fininhas. Não precisa de queijo, molho branco, nada disso. Batata, creme de leite fresco, sal, pimenta e noz-moscada. (Repeti os ingredientes para ficar bem claro que não precisa de queijo.) Acho que lá em casa vai ser tendência. E se a condição para fazer batata gratinada no verão 2010 for usar jeans délavé, até topo mandar fazer um avental novo. Caso contrário, vou deixar para usar o jeans no próximo retorno da tendência. Enquanto isso, vou torcendo para descobrirem no creme de leite fresco uma enzima responsável pelo retardamento do envelhecimento de adultos. Daí ele volta à moda e não sai nunca mais.
>> Postado por Rita Lobo 13:23
Sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Culinária verde
Cozinha verde virou um tema recorrente na minha vida, em casa e no trabalho. Aqui no blog, já escrevi alguns posts sobre o assunto. Na reforma da minha cozinha, decidi pôr em prática conceitos como proveito da iluminação solar, extração de ventilação natural, distribuição correta de equipamentos e escolha de materiais ecologicamente corretos. Tem muito mais, porém, vou deixar para falar disso no blog da reforma.
Cozinha verde também foi o tema de uma série de oito workshops que fiz para arquitetos. A ideia inicial era falar sobre a cozinha ecologicamente correta sob o ponto de vista da culinária e debater o tema no âmbito da arquitetura. Mas eu não perco a oportunidade de fazer as pessoas encostarem a barriga no fogão: propus que os encontros terminassem com todos preparando o almoço. Eram apenas vinte e cinco pessoas por vez. E nada como colocar a mão na massa para absorver melhor um conceito.
Antes de elaborar a “receita verde” - e que fique claro que a culinária verde não tem nada a ver com comida vegetariana -, resolvi definir os conceitos. O primeiro deles saiu do nosso bom e velho blog One is fun. Lá, todas as receitas são individuais. E, definitivamente, porções únicas são ecologicamente corretas: elas não desperdiçam recursos naturais e energéticos (como água, gás e até os ingredientes), pois são na medida, não sujam muitos utensílios, não sobra comida. Isto quer dizer que, na cozinha verde, as receitas precisam ser mais precisas. Um casal sem filhos, por exemplo, não deveria ter na geladeira uma lasanha para doze pessoas. O preparo gasta mais gás, mais energia quando voltar para a geladeira e ninguém aguenta comer o mesmo prato seis vezes na semana. Ou seja, metade iria acabar no lixo. Mas nem toda preparação é ideal para porções individuais. A própria lasanha é um bom exemplo. Ninguém vai se dar ao trabalhão de fazer o prato em porção única!
Um ingrediente veio à cabeça, o cuscuz marroquino. Contrariamente ao macarrão, por exemplo, que cozinha em um monte de água que depois vai para o ralo, ele só precisa do suficiente para hidratar os grãos e ainda cozinha no vapor. Assim que a água ferve, basta regar o cuscuz e deixar hidratar por 5 minutos. Não desperdiça nem água nem gás. E dá para fazer o tanto exato. Meia xícara serve muito bem uma pessoa. Então ficou definido, o acompanhamento seria cuscuz marroquino.
A questão é que, além de verde, a receita também tinha que ter uma graça, tinha que poder ser individual, mas seria feita por vinte e cinco pessoas ao mesmo tempo! Lembrei-me do salmão em papillote. Ele assa em apenas 10 minutos e pode ser feito com os mais variados legumes e ervas. Cada um faz do jeito que quer, quase tudo vai bem, só precisa respeitar uma regra: além do salmão, o papillote precisa de um pouco de gordura, como manteiga ou azeite, um pouquinho de líquido, que pode ser vinho, leite de coco, suco de maracujá, água, qualquer coisa. Os legumes enriquecem, as ervas também, mas não são necessários para o cozimento. Sal e pimenta, na minha opinião, são. Obrigatórios.
Para facilitar, deixei o pré-preparo feito. Isto é: cenoura, tomate, cebola, cogumelo-de-paris, erva-doce, salsão, salsinha, cebolinha, endro e mais uma série de outros ingredientes já lavados e cortados. Afinal, não era uma aula de culinária, mas um encontro para pensarmos juntos soluções para questões ambientais na cozinha.
Foram oito encontros. Mais de duzentas versões do mesmo prato, nenhuma igual a outra. Muitas ideias para deixar a cozinha mais verde e um modelo de jantar muito divertido. Outra hora eu conto detalhadamente para quem quiser reproduzir em casa.
As imagens deste post são das fotógrafas Andrea Ribeiro e Marina Ribeiro.
>> Postado por Rita Lobo 18:13
28 de junho de 2009
Férias de inverno
Meus filhos estavam contando os dias para o fim das aulas. Férias. Fé-ri-as, mamãe. Eles nem sabem direito o que vão fazer com tanto tempo livre. Nem eu. (Não, não, eu não estou com tempo livre: quis dizer o tempo livre deles.) Além da reforma da minha casa, que você pode acompanhar no outro blog, também estou mudando de escritório. Tudo muito corrido. Mas quero me programar para também não saber o que fazer com um pouco de tempo livre. Sei lá, uma semana dedicada ao dolce far niente? Seria muito bom.
A memória é um bicho estranho (eu sei, memória não é bicho). Tenho na lembrança viagens de férias que duravam o mês todinho. Em janeiro, trinta dias na praia. Em julho, na montanha. Talvez ficássemos apenas quinze dias, quem sabe, uma semana, mas já disse que a memória é um bicho estranho.
Minha mãe precisava nos arrancar da areia para o almoço. E mesmo depois de termos comido empadinha, raspadinha e tudo mais que passassem vendendo na praia, continuávamos com fome. Mar dá fome. Sol, também. E fazíamos a travessia a nado do Lázaro à Domingas Dias. Nesta última, não havia nenhuma casa naquele tempo. A nossa ficava na praia ao lado, bem na areia. E nós não queríamos outra vida. Além dos meus irmãos, Fábio e Guilherme, tinha sempre um bando de primos e amigos para brincar. E às vezes brigar.
Gui, meu irmão caçula, hoje é médico, um cara sério, seriíssimo. Fábio, o mais velho, é o arquiteto que se viu obrigado a fazer o projeto da reforma da minha casa. Ele quase não faz reformas. Faz projetos grandes, enormes, bem maiores que aquele forte apache que nós construíamos com Playmobil. Estou vendo aqueles meninos magrelinhos brincando no chão; sinto gosto de groselha, cheiro de Noskote e, mesmo assim, a pele vermelha arde até não poder mais. Não acredito que os meus primeiros fios de cabelo branco já estejam nascendo. (Será que é verdade que no lugar de um fio arrancado nascem três? Então, lá vêm mais três. Não resisti. Puxei.)
Certamente não vou poder passar um mês na praia, ou no campo, com meus filhos. Não agora, pelo menos. Quem sabe um dia. Não o mês todo, mas quinze dias seguidos. Ainda não consegui planejar muito bem qual semana será dedicada exclusivamente às férias. Por sorte, a memória é um bicho estranho. Talvez, quando eles estiverem com idade suficiente para lembrar nostalgicamente das férias da infância, só se lembrem de que naquele julho a mãe pôde ficar uma semana inteirinha com eles. In-tei-ri-nha! E também se lembrem dos cookies de chocolate, que na minha casa já estão ficando com gosto férias de inverno.
>> Postado por Rita Lobo 18:51
14 de junho de 2009
Cambalhotas na horta
Tenho recebido e-mails aos montes sobre cozinha verde. O assunto não se encerrou, mas hoje vou dar um tempo. Da cozinha. Não do verde. Verde aqui em outro sentido, o mais primitivo e também mais saboroso. O verde das folhas, das ervas, do pimentão, da horta, das saladas que a gente imagina quando pensa numa salada boa, que tem gosto de frescor e textura crocante.
No fim de semana, fui para o sítio de uma amiga. Uma hora de estrada e estamos num lugar muito distante. Gramado sem fim, lago, cavalos, galinheiro, um coelho, forno à lenha, caseira que faz macarrão fresco e crianças que, à noite, ficam com sono de tanto pular durante o dia.
No meio do gramado fica a cama elástica. Minha amiga, que tem a mesma idade que eu, ainda não se convenceu de que não é a Nadia Comaneci. O pula-pula não é para as crianças. Mas são elas que aproveitam. Tia M. dá saltos mortais que só de olhar me deixam cansada. Nós somos amigas de infância. E desde sempre estava decidido: quando crescêssemos, virássemos gente grande com filhos e tudo, ela ficaria a cargo da educação esportiva das crianças de todas nós. Na prática, a vida não é assim. Mas no sítio, ela é quem ensina a dar cambalhota no ar. Eu fecho os olhos.
É hora de dar uma caminhada até a horta e o galinheiro. Há tempos eu não ia até lá. Apesar de o sítio não ter nada de meu, nem sequer uma grama de terra, a minha memória não sabe disso. O local faz parte de tantas das lembranças da adolescência que a minha memória pensa que é dona daquela horta e se orgulha toda de ver as folhas brilhando sob o sol do inverno. Já estamos no inverno? Não importa, está frio, daqueles que a gente fica implorando às crianças que não tirem os casacos. As mães é que pagam o pato depois.
Não havia mais patos no lago. Mas a galinha cega, de um olho só, foi a sensação da visita ao galinheiro. Ela é mansa, explicam as crianças já depenando a ave. Coitada, só porque é cega, já transformaram a bichinha em mascote. Quando eu era criança, parei de comer frango por um tempo. É que minha bisavó, Margit, resolveu me chamar para ajudá-la a preparar o almoço, que começava com um facão entre a cabeça e o corpo da galinha, que depois de muitas horas aparecia ensopada no prato. Quase virei vegetariana. Mas os nossos filhos nem percebem que aquele bicho é o mesmo que poderia estar no prato deles. E, por enquanto, não precisam saber. Desde que comam, podem continuar achando que aquela galinha cega existe apenas para animar a visita ao galinheiro.
Na horta as crianças começam a caçar cenoura. E agora é a minha vez de dar pulos. Certamente menos exuberantes que os da minha amiga. A salsinha é tão crocante que não precisa de trigo. Parece um pé de tabule. Cheia de textura e com sabor quase ardido de tão fresca. Dispensa o caldo do limão. A berinjela ainda é bebê e talvez por isso esteja enfeitada com flor. É linda e lilás a flor da berinjela. Eu pareço uma criança. E as crianças não dão muita bola para a horta. Mas se divertem com a mãe comendo pedaços de folha sem lavar. Dora pede para experimentar uma folha de manjericão. Tem gosto de pizza, mamãe. Gabriel separa as folhas do prato. Nem na pizza nem na horta quer comer manjericão. Ele não sabe o que está perdendo. Ou melhor, está tudo certo. Eu precisei de muitos anos até descobrir que salsinha fresca e outras coisas da horta me fazem ter vontade de dar cambalhotas no ar. Imaginárias, que fique claro.
>> Postado por Rita Lobo 16:14
Segunda-feira, 01 de junho de 2009
Cozinha verde
Meu irmão fez aniversário na semana passada, mas o bolo foi no domingo. Dora, Gabriel e eu resolvemos levar uma bandejinha de brigadeiros. Já falei aqui sobre essa receita, mas vou repetir porque, para ela, não tem competição. O melhor brigadeiro do mundo é assim: 1 lata de leite condensado, a mesma medida de leite, 1 colher (sopa) de manteiga e 2 de chocolate em pó. Já testei com creme de leite, com cacau, com conhaque, sem conhaque... Nenhuma é melhor. E ainda é mais fácil de fazer. Mexendo sem parar, pode ficar em fogo alto. Vai rapidinho, não queima e não faz gruminhos. Rende cerca de 40 brigadeiros. Para o meu irmão, fizemos 10 gigantes e comemos a outra metade, antes mesmo de enrolar. Mas não era sobre o brigadeiro que eu ia falar.
Meu irmão e eu conversamos sobre sustentabilidade na construção e na arquitetura. O assunto é ótimo, mas vai ficar para o outro blog, o da reforma. Fiquei pensando, porém, como é que o conceito pode se aplicar à cozinha; como podemos fazer uma culinária que seja saudável não só para as pessoas, mas também para o planeta. Uma cozinha verde.
O lixo. Sim, ele é o primeiro que vem à cabeça. E, de fato, é chocante o tanto de lixo que uma cozinha pode produzir. E não só o orgânico. Já está dito e redito, mais que explicado, que devemos ir ao mercado com as nossas “ecobags” (ô birra que tenho desse nome), que devemos dar preferência a produtos acondicionados em embalagens recicláveis ou recarregáveis e evitar aqueles revestidos com muitas embalagens. (É mais ou menos assim: você compra para o seu filhote meia dúzia de cenouras orgânicas para fazer uma papinha bem saudável; as cenouras vêm numa bandeja de isopor, material não-reciclável, que é embalada em filme, com a etiqueta da marca; depois de passar no caixa, a bandejinha de isopor embalada em filme com a etiqueta vai para uma sacola plástica do supermercado. Então, seu filho toma a sopinha orgânica, e o lixo ganha uma bandeja, meio metro de filme... Bom, a sacolinha plástica a gente usa para forrar a lixeira!)
Muy bien. Nossos filhos, tendo ou não tomado sopinha orgânica desde o nascimento, já aprenderam na escola que o lixo deve ser reciclado. Em casa, eles separam papéis de metais, metais de vidros, vidros de plásticos... Mas só temos uma lixeira. Exageros à parte, pelo menos eu estou aprendendo a reciclar. É um objetivo. Mas ainda é novo. E ao mesmo tempo que dá vontade de colocar tudo no mesmo saco, a sensação de auto-vergonha-alheia é imediata. (Sabe como é, né?) Acho que, em alguns anos, será como se hoje você visse uma pessoa jogando uma lata de refrigerante pela janela do carro. Não dá vontade de passar bem pertinho e gritar: porco!
Agora, além das “ecobags”, vamos todos usar as “recycling bags”. Não é a melhor solução? São mais bonitinhas que as lixeiras plásticas e bem mais fáceis de carregar. A pessoa pode aproveitar a caminhada da segunda-feira para depositar no parque as garrafas de vinho que consumiu no fim de semana. Pelo menos em São Paulo, a maioria dos parques são postos de coleta seletiva de lixo...
Se eu fritasse batata, já saberia que o óleo usado deveria ir para uma garrafa pet. A garrafa pet seria levada até algum centro de coleta (repare a lixeira marrom nas grandes redes de supermercados). A questão do óleo é que, por ser mais leve que a água, quando volta aos rios fica na superfície e impede a oxigenação das águas. Peixes e microorganismos morrem e a água fica contaminada. Aliás, você já deve ter ouvido, mas dizem que 1 litro de óleo contamina 1 milhão de litros de água.
No momento, tenho achado a questão do lixo a mais dramática. Mas, aparentemente, o maior problema é mesmo a água. E não só a questão da contaminação. O desperdício também é crítico. Estamos mais acostumados a racionar energia, pois já passamos por apagões. Mas o uso consciente da água está no topo da lista da cozinha verde. Ou seja, um dos itens mais importantes da cozinha verde é, na verdade, azul.
Economizar água, especialmente na cozinha, é um assunto delicado. (Fala sério, banho no inverno até que dá para economizar, mas deixar de lavar a cenoura da sopinha do seu filho?) Já pensou ter de cozinhar o macarrão com metade da água?
Nas cozinhas profissionais já estão sendo adotadas torneiras de acionamento mecânico por pedais. Elas possibilitam a redução do consumo de água. Assim como a lava-louças. Os modelos mais novos são planejados para usar menos água e, pelo que andei vendo, chegam a economizar mais da metade da água usada quando lavamos a louça manualmente.
Tem ainda a questão da energia, do material das panelas, das medidas dos ingredientes, o assunto é vasto, e a semana está só começando. Estou pensando muito neste tema. Por isso, quero falar mais sobre ele. Quem quiser opinar, já sabe: rita@panelinha.com.br.
Voltando aos brigadeiros do meu irmão, meus filhos arrumaram eles numa bandejinha de palha, embrulharam com papel reciclado (ou seja, que era de outro presente) e amarraram com um laço que, tenho a impressão, era de algum enfeite de Natal. E para levar até a casa do tio Fábio, nada de sacolinha plástica!
>> Postado por Rita Lobo 00:50
Segunda-feira, 20 de abril de 2009
Navegar é preciso
Será Calie o seu nome? O e-mail não estava assinado, mas o endereço eletrônico era esse. Então é à Calie que vou me dirigir. Eu fiquei emocionada e envaidecida com a sua mensagem. E me identifiquei com você. Também tenho filhos pequenos, minha mãe é pesquisadora e professora universitária, como você, e eu também ando cozinhando, e recebendo amigos, bem menos do que eu gostaria. (E, no meu caso, também ando escrevendo menos do eu deveria.) Por isso, “o livro com umas quinhentas páginas para serem degustadas lentamente”, que você sugere, pelo menos em breve não tem muita chance de sair. Mas fiquei toda contente com as suas palavras. Apesar de o Panelinha existir há mais de 9 anos, e diariamente eu receber um montão de e-mails, sempre fico surpresa como pessoas que não se conhecem podem ter intimidade, como se fossem amigas que tomam longos cafés da manhã.
A Franey e eu recentemente nos conhecemos pessoalmente. Numa das nossas trocas de e-mails, ela comentou que estaria no Rio durante a Páscoa. Ela mora numa cidadezinha na Alemanha, e eu em São Paulo. Eu também iria para o Rio. Achamos que seria uma boa oportunidade para nos encontrarmos. Marcamos um café numa chocolateria na Dias Ferreira, no Leblon, e ficamos papeando por duas horas. Ela me trouxe um presentinho fofíssimo, uma caixa de açúcar em forma de barquinho.
Hoje, quando fui fotografar o barquinho boiando no café, meus filhos apareceram e ficaram maravilhados com o novo açúcar. Lembrei que a Franey ainda não tem filhos, a Calie tem dois, mas aparentemente, elas duas, eu e você temos muito em comum. Estamos todas atrás de boas receitas para as nossas cozinhas, é verdade, mas principalmente para as nossas vidas. Vamos testando, nos testando, experimentando, acertamos um temperinho aqui, outro ali, às vezes mudamos radicalmente um ingrediente, deixamos de comer outro, pelo menos durante um tempo, incluímos um pouco de pimenta, tiramos a pimenta, mas vamos navegando, às vezes com mais precisão, de olho na bússola, em outras, apenas aproveitamos os bom ventos. Mas estamos todas no mesmo barco. E quando uma naufraga, como o barquinho de açúcar que vai sendo sugado pelo café, tem sempre outra por perto para dar uma mexida e mostrar que o café só ficou mais doce depois do sufoco.
>> Postado por Rita Lobo 14:57
Terça-feira, 14 de abril de 2009
Bolo de cenoura integral
A receita deste post, o meu bolo de cenoura favorito, não tem nada a ver com essa deliciosa torta de ricota da foto. Mas nem sempre o que se come é o que se vê. Então o causo é o seguinte. Hoje resolvi trabalhar em casa. Dora, minha filhota, sentou no meu colo e ficou “clicando os botões do computador para aprender a trabalhar”. Tentei dissuadi-la. Escrever com uma mãozinha a mais digitando aleatoriamente torna o processo mais complexo. “Mas, mamãe, eu quero trabalhar; você vai me ensinar muitas coisas?” Respondi que sim, que aos poucos ensino tudo o que sei. Ela então olhou bem séria para mim e perguntou: “Até os bolos, mamãe?”
Tive vontade de passar o resto do dia abraçada com ela. Por trás da simplicidade da pergunta, para mim, há um simbolismo muito rico. Gosto de pensar que uma casa com bolo na mesa é um lar. Nem por isso fazemos bolo em casa todos os dias. Bolo é também comida especial, ou de fim de semana, ou para ocasiões em que a casa e a alma precisam de um perfuminho extra.
Na semana passada, a Noelia, cozinheira de casa, encontrou um antigo caderno. Ela não sabia, mas o bolo de cenoura que estava anotado lá era um dos meus favoritos. (Pensei que tinha perdido a receita.) Ele não tem nada a ver com aquele clássico de liquidificador, coberto com calda de chocolate. É mais rústico, com mais camadas de sabor, mais textura, integral, bem úmido e pode ser servido com uma cobertura de cream cheese que, na minha opinião, deixa o bolo com jeitão de festa.
Comi feito criança, um pedaço após o outro. Dora também. Quando percebi, o bolo acabou, e eu não fiz uma foto sequer. E agora, será que passo a receita sem a foto?
O interfone tocou e o porteiro avisou que tinha uma caixa para mim. O meu colega André fez e mandou duas verdadeiras delícias: uma torta de peras e a outra de ricota. Divinas! Ele também mandou as receitas. Mas são bem técnicas. Ele é professor de confeitaria. Então, preciso adaptar aqui para o Panelinha. Se eu disser nos ingredientes “600 g de creme de confeiteiro”, amanhã minha caixa de e-mail entope! Mas como é que se faz o creme de confeiteiro?
Comi um pedaço da torta. Ai, a foto! Pausa para a foto. Então hoje tem foto sem receita, e receita sem foto. (Tomara que isso sirva de pressão para o André mandar a receita detalhadinha para a gente.) Corto três fatias, coloco os pratos na mesa. A Dora e o Gabriel começam a brigar para ver quem vai ficar no meu colo. Finjo que estou brava. Conto até três e digo que cada um vai sentar no seu lugar. Eles fazem bico e não percebem que por trás da minha cara séria tem a mãe mais feliz do mundo, comendo torta de ricota e sentindo gosto de lar.
Bolo de cenoura integral
175 g de açúcar mascavo
2 ovos grandes
120 ml de óleo de girassol
200 g de farinha integral
½ colher (chá) de fermento em pó
1 colher (chá) de canela em pó
uma pitada de noz-moscada
raspaa de uma laranja
200 g de cenoura ralada
175 de uvas-passas
manteiga para untar e farinha de trigo para polvilhar
Modo de preparo
1. Unte uma fôrma de bolo com furo com manteiga e polvilhe com farinha de trigo. Preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média).
2. Na batedeira, junte o açúcar, os ovos e o óleo e bata por 5 minutos, em velocidade alta.
3. Enquanto isso, passe por uma peneira a farinha, o fermento e as especiarias. Diminua a velocidade da batedeira e junte os ingredientes peneirados ao creme de ovos. Bata apenas para misturar.
4. Desligue a batedeira e misture com uma colher a cenoura ralada e as uvas-passas.
5. Transfira a massa para a fôrma preparada e leve ao forno preaquecido para assar por cerca de 40 minutos.
Cobertura (opcional)
250 g de cream cheese
20 g de açúcar
2 colheres (chá) de essência de baunilha
Na batedeira, junte todos os ingredientes e bata até formar um creme bem fofinho. Quando o bolo estiver frio, espalhe a cobertura e sirva a seguir.
>> Postado por Rita Lobo 13:19
Segunda-feira, 30 de março de 2009
Beijo na boca
Macarrão ao alho e óleo, teoricamente, é comida que, se os dois escolherem, dá para beijar depois. Já sanduíche, seja qual for o recheio, na minha opinião, não é comida de namoro. Bala seguida de beijo vai bem. Menta, tangerina, violeta. Já experimentou bala de violeta? Elas são populares na Inglaterra, mas as clássicas são de origem francesa. Flavigny é a marca. E eles fabricam também pastilhas de flor de laranjeira, de rosas, de anis. Um sonho.
Nesse mesmo sonho, com aromas roxo e lilás, entram fragrâncias da minha marca favorita de perfumes, Penhaligon’s. Eles fazem o meu perfume, Blenheim Bouquet , e também colônias de flor de laranjeira, de rosa e de violeta. Aliás, Violetta. É esse o nome do perfume. Para mim, ele tem ao mesmo tempo cheirinho de infância e de vovó. De infância porque eu usava uma água perfumada que não era Penholigan’s mas tinha aroma de violeta. (Descobri isso comendo a minha primeira Flavigny, que tinha o gosto do meu antigo perfume.) Violeta é flor de vovó e tem cheirinho de senhoras com cabelo de algodão-doce lilás. Um raro aroma que une na mesma nota o começo e o fim da vida. Mas é do beijo na boca que eu vou falar.
Violeta cristalizada tem sabor de encanto. Coisa de moça, de princesa. E com brilho. Entre o começo e o fim da vida, tem a idade adulta; se tudo der certo, ela é recheada de beijos. Na boca. Se nem tudo der certo, tem a violeta cristalizada, que muitas vezes pode ser melhor que um beijo.
L. voltou de viagem com a minha tão sonhada caixa de marroni. Na Itália, marron glacê faz par com violetas cristalizadas. Então, os marrons são embalados um a um, e as violetas vêm polvilhadas por cima deles. A caixa é fechada, e o casamento de sabores fica selado.
Hoje pela manhã, depois de um sonho mais para roxo que para lilás, comi um marron fresquinho, recém-chegado de Milão. Na sequência, uma violeta. Os sabores se beijaram na minha boca. E eu sonhei acordada. Ele come um marron. Ela, uma violeta. And the rest is history.
>> Postado por Rita Lobo 20:20
Terça-feira, 24 de março de 2009
Marrons, rosbife e a macedônia verde-limão
Desde o nascimento dos meus filhos, minhas viagens ficaram mais esparsas. Bem esparsas. Ou talvez antes eu viajasse muito. Mas acredito piamente que um dos segredos da vida é reconhecer a fase em que estamos vivendo. Filhos pequenos não combinam com longas viagens ao exterior. Por sorte, os filhos da minha amiga L. já estão bem crescidinhos. Ela viaja bastante e me manda e-mails saborosíssimos. Essa semana está na Itália. É de lá que vêm as fotos dos marrons, ou melhor, marroni. Estou torcendo para que ela tenha comprado meia dúzia para mim. Por que outra razão ela me mostraria essas fotos? Para me dar inveja? Para deixar a amiga com água na boca? Não, não creio que ela faria isso comigo. Ela manda fotos, eu viajo com os e-mails dela e, no final, posso saborear um recuerdo da viagem. Se bem que tem fotos de queijos, presunto... Ela ficaria detida na alfândega se trouxesse tudo isso. Mas não é para mim, seu delegado, é para a minha amiga Rita.
Voltando às crianças, ontem foi aniversário de seis anos da minha sobrinha. Ela contou para a minha mãe que a outra avó, mãe da minha cunhada, é muito rica. Minha mãe ficou curiosa e quis saber mais. Ela explicou: “Vovó Beth, você já viu a geladeira da vovó Maria Inês? É lotada de comida, cheia, ela é muito rica.”
Já na casa da minha mãe, comida é mais na medida. Ela não é de muita fartura. Não sabe cozinhar, não gosta de cozinha e, tenho a impressão, se pudesse, não entraria lá nem para pegar água. Mas isso é chute. No imaginário dela, não há prato mais complicado de fazer que rosbife. Por isso, quando a última cozinheira foi embora, ela correu para contratar outra que soubesse fazer o clássico assado inglês. A moça chegou para a entrevista e minha mãe só tinha uma pergunta: “Sabe fazer rosbife?” Aliviada, a candidata respondeu: “Sei.” Pronto. Foi contratada. Começou no mesmo dia. Minha mãe avisou que tinha uma peça de filé mignon na geladeira e que o almoço deveria ser servido às 13 horas.
No horário combinado, minha mãe sentou à mesa, e a cozinheira trouxe duas travessas: uma de bife, outra de arroz. Minha mãe, então, perguntou: “Mas cadê o rosbife?” Com a maior naturalidade, ela respondeu: “Ué, tá qui o roz e o bife.” Certo, roz-bife.
Esse post está parecendo livro infantil de piada. Aliás, uma das leituras favoritas do meu filho. Então, para terminar, mais uma historinha verídica. Antes de viajar, minha amiga L. foi jantar na casa de outra amiga. Acho que eram três casais. A anfitriã não é muito de cozinhar, então, resolveu se aconselhar com um antigo livro de receitas, o único da casa. Foi de lá que tirou a sobremesa, uma macedônia de frutas. “Hummm, parece simples”, deve ter pensado. “É só picar, misturar um licor e servir.” Primeiro o abacaxi, depois maçãs, bananas, uvas. Tudo que ela tinha na geladeira foi para a tigela. De frente para o móvel onde ficam as bebidas, ela finalmente achou um uso para aquele licor azul, que há anos estava esperando por uma oportunidade de mostrar todo o seu talento. Regou as frutas generosamente e levou à geladeira.
O jantar estava indo as mil maravilhas. Hora da sobremesa. Ela resolveu se certificar de que havia feito tudo certo e releu a receita. Notou que não tinha prestado atenção na última linha. “Sirva frito.” Nem passou pela cabeça dela que poderia ser um erro de digitação, que alguém tivesse deixado um t a mais. Sirva frio, talvez? Mas, não. Ela não titubeou. Rapidamente, regou com azeite a maior panela que achou, esperou esquentar bem e despejou de uma vez as frutas com o licor azul, que em alta temperatura ficou verde-limão. Ou algo assim. Infelizmente L. não tirou nenhuma foto. Acho que as crianças iriam gostar de uma salada de frutas verde-limão. Mas essa vou deixar para a cozinheira nova da minha mãe testar.
>> Postado por Rita Lobo 18:25
Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Os sete docinhos
Nos últimos anos, décadas talvez, venho me treinando para ser uma pessoa que gosta de frutas. Quer dizer, o treinamento começou muito antes, com papinhas e saladinhas de frutas e essas coisas que as mães dão aos seus filhotes. Comigo não foi diferente. Minha mãe tentou desde o início. Mas ainda criança, a única fruta de que eu realmente gostava era abacate. De preferência, batido com sorvete de creme. Depois descobri a pera, a manga, a banana, até maçã hoje em dia eu como. E figo, no momento, é das minhas frutas favoritas. Mamão definitivamente fica melhor com limão; e o abacaxi também se deu bem com raspinhas. Então eu gosto de figo e gosto de limão.
Ontem, Lurdinha e eu nos encontramos na porta do Fasano e fomos andando até o Le vin para tomar um drinquito antes do jantar. Em vez de suco de uva e água com gás, um vinho tinto leve, “frutado”. Se bem que, pessoalmente, não vejo ligação nenhuma entre vinho e frutas, a não ser a própria uva. Frutado para mim é um recipiente cheio de frutas picadinhas.... (Estou zoando só para deixar evidente que tenho uma certa implicância com esses termos enogastronômicos, até os mais simples.) Outro dia, no próprio Le vin, perguntei ao sommelier se um vinho era melhor ou pior que o outro: “Bem, o segundo é mais simples que o primeiro.” Ai, meu santo, assim fica difícil de escolher. Eu gosto de simplicidade, mas tenho a impressão que, neste caso, simples quer dizer pior. Não dá para dizer qual é melhor e pronto?! Não, não dá.
Mas voltando à caminhada entre o Hotel Fasano e o restaurante Le vin, passamos de fronte (Lurdinha fala assim, de fronte, e sempre que estou com ela, adoto) do recém-inaugurado Le Bouteque, do chef Erick Jacquin. No térreo, fica a pâtisserie-moderninha comandada pela chef Amanda Lopes, e no andar de cima, um bistrô. Não subimos. Mas decidimos experimentar uns docinhos: o delicioso macaron de banana caramelada, o não-tão-delicioso macaron de cheesecake (que para a Lurdinha tem gosto de Quick morango), umas carolinas-prestígio (com recheio de coco e chocolate) que têm a apresentação bem bonitinha, mas um pouquinho de gosto de Quick coco (se Quick sabor coco existisse, claro), uma tartelete quadradinha de limão, um docinho de musse de chocolate com laranja, um bombom de chocolate com laranja e um outro de figo com limão. Bombom de figo com limão! Eu gosto de figo e gosto de limão!
Bom, verdade seja dita, deixei os bombons para o fim. E, talvez, tenha ido com muita sede ao pote. Mas os doces são mini-mini, e achei que dava para comer a metade de cada um dos sete docinhos sem nem sentir cócegas no estômago. E deu. O fato é que, na vez do bombom de figo com limão, o meu paladar ficou tão confuso que não entendeu nada. Ou simplesmente descobri que não gosto de figo com limão, especialmente com chocolate. Lurdinha também ficou confusa. Mas o macaron de banana caramelada não deixou nenhuma dúvida: frutado, caramelado e delicioso. O hit do Carnaval nos Jardins!
>> Postado por Rita Lobo 13:07
08 de fevereiro de 2009
Drink de verão
A garrafa de água com gás estava lado a lado com a de suco de uva. As duas na porta da geladeira, como sempre. O suco é natural, às vezes orgânico. E a água é sempre com gás e em garrafinhas pequenas, dessas de 300 ml; as maiores perdem as bolhas muito antes que eu consiga tomar a garrafa toda. Mesmo no verão. Não gosto muito de água. É neutralidade demais para o meu gosto. E isso já foi um problema na minha vida. Mas para todo problema há, pelo menos, uma solução.
As bolinhas ajudaram muito: não têm gosto, mas dão textura. Já contabilizei, então, pelo menos um copo a mais por dia. Outra medida, essa não planejada, é que deixei de tomar líquidos durante o almoço (jantar geralmente tem vinho). Depois de uma hora, dá uma sede danada e tomo a minha garrafinha num gole só. No escritório, uma vez por dia, me obrigo a tomar um copo, sem gás, como se fosse remédio. Se estiver muito quente, o dia, não a água, tomo dois. Mas pela manhã, agora que sou praticamente uma atleta e faço quase 25 minutos de rotex, tomo uns três copinhos daqueles que moram ao lado do bebedor. Atleta e hidratada!
Pois é, e lá estava a água com gás ao lado do suco de uva. Fim de tarde quente, começo de noite abafado. Olhei bem para as duas garrafas e tive a frisante, ops!, brilhante idéia (que você já deve ter sacado desde a primeira frase do post e eu demorei mais de 30 anos para juntar uma coisa com a outra)... “Buona sera, signorina”, foi o que o copo me falou assim que o suco encontrou com água. Suco de uva com água com gás tem gosto de Itália!
Nunca tinha tomado, nem aqui nem lá. Mas logo no primeiro gole tive vontade de correr para o armário e pegar um vestido floral, bem clarinho, ideal para um fim de tarde na Emília-Romana, onde é feito o Lambrusco, vinho espumante tinto e adocicado, certamente primo do meu novo coquetel não-alcoólico (se bem que uma dose de grappa pode funcionar). Não é possível que ninguém tenha pensado em colocar no mesmo copo suco de uva e água com gás. É tão chique! É tão cocktail party. Sparkling, dear! Mas é na Emília-Romana que estão meus pensamentos, ou meu paladar. Mais especificamente em Ravena, onde comi até cansar, sempre no fim de tarde, uma piadina quentinha, saindo da chapa. Piadina é uma espécie de pão-meio-pizza que, em vez de assado no forno, fica na chapa ou na grelha por 4 minutos. Iria muito bem com uma taça de suco de uva frizzante. Uma fatia de presunto cru também não seria ruim. Mas isso é só para terminar o dia quente e refrescar a noite abafada. As vezes a felicidade está sob o nosso nariz, quer dizer, dentro da nossa geladeira, e a gente não percebe, menina. Meu novo drink de verão está escolhido.
>> Postado por Rita Lobo 23:28
Segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Botões, lágrimas e caviar
Há uns tempos, fui viajar com uma amiga e no vôo (agora é voo, né?) havia um extenso menu de filmes. Ela selecionou um, eu demorei um pouquinho para escolher; quando virei para o lado, para perguntar o nome do filme que ela estava assistindo, me deparei com a pessoa aos prantos. De chacoalhar o corpo na poltrona do avião. Ponta do nariz vermelha e tudo.
Na semana passada, com outro filme, foi a minha vez. O Curioso Caso de Benjamin Button nem bem havia começado e lágrimas escorriam dos meus olhos. Dos dois. Nem foi aquela coisa uma-lagriminha-no-canto-do-olho. Não. Dos dois.
Meu irmão que é médico não gostou: “não dá para se identificar com um personagem cuja doença não existe...”. Fácil de entender, se o sujeito é médico. Porém, aquela minha amiga da viagem também não achou nada de mais no filme: “é muito sofrimento por algo irreal”. É verdade. É tudo mentira. Mas é uma mentira tão bem contada que não dá para não pensar com os próprios botões.
É uma bagunça inverter a ordem da vida: o fulano nasce velho e morre bebê. É sem pé nem cabeça. Mas o filme faz pensar nas relações, nas formas de amar, no medo de sofrer, no medo de envelhecer, de morrer, nos vários papéis que desempenhamos, querendo ou não, nas nossas vidas e nas escolhas que fazemos. Já não valeu o ingresso?
Uma filha, no leito de morte da mãe, está se despedindo. Assim começa o filme. E, para mim, relação mãe e filha é sempre emocionante. Muitas lágrimas. Apesar de ter filhos, ainda sou filha, no sentido primário de que tenho uma mãe para cuidar de mim, caso eu precise, e mesmo sabendo que essa relação um dia pode (ou vai) se inverter, confesso que ainda não pensei muito no assunto. Mas o filme faz pensar. E a história ainda nem começou.
Não ia falar de comida, mas a pipoca estava ótima. Brincadeira. Não prestei atenção na pipoca nem no relógio. O que, na minha opinião, é o melhor sinal de que o filme é ótimo. Mas eu é que não vou ficar contando a história. Só uma cena, para abrir o apetite: o ainda velho Brad e estranha Tilda Swinton (sabe quem é? Aquela de As Crônicas de Narnia e Queime Depois de Ler) estão juntos à mesa. Estão na Rússia, num hotel, só os dois. Ela oferece caviar e vodca a ele. E o ensina a comer, degustar, sentir lentamente o sabor e, com o caviar ainda na boca, tomar um gole de vodca. O filme não é todo feito de cenas assim, saborosas. Mas a vida também não. E isso é verdade. E se deixar emocionar, mesmo que seja por uma mentira, por algumas horas, não faz mal.
>> Postado por Rita Lobo 23:23
25 de janeiro de 2009
Humor lunar
Não quero me gabar, mas parece que meu humor voltou ao normal. Foram necessárias umas 50 gotas de vitaminas do complexo B, dois comprimidos de vitamina C efervescente, duas caipiroscas de lima, uma codorna assada, risoto, um ravioloni com trufas, espetinhos de polvo, sushis de vieira, ouriço, atum gordo e peixe serra, algumas taças de prosecco, outras de vinho tinto, uns tantos cafés e mais 20 minutos de rotex (acho que é esse o nome da máquina de exercícios que mói a pessoa após 5 minutos de uso), cerca de 3 horas de caminhada e um isotônico sabor morango e maracujá, tudo isso dividido em 48 horas. Ah, e a companhia de amigos queridos.
Então, sobre as vitaminas do complexo B, há alguns anos, um médico sugeriu que as crianças e eu tomássemos antes de irmos para a praia, pois funciona como repelente. Passamos a semana rodeados por borrachudos, pernilongos e voltamos sem nenhuma picada. Um sucesso. Notei também que, além de descansada, e sem picadas, eu fiquei mais animadinha, bem-humorada. Associei o humor à ingestão da vitamina, que de fato é um antidepressivo natural. Pronto. Fiz o que ninguém deve fazer e me auto-receitei umas gotas para curar o tédio que me corroia e, certamente, me prenderia ao edredon no fim de semana. (Meus filhos estão viajando e a fase do como-é-bom-um-tempo-só-pra-mim já passou e estou com o saco na lua! Fina, né?)
Agora a codorna, que não foi só uma codorna. Jean é meu amigo de longa data. Dizem que é o meu melhor amigo, o favorito, mas não é verdade: apenas temos mais afinidade. Pelo menos gastronômica. Saímos para jantar. Éramos um grupo. (Somos um grupo.) Cada um pediu o que quis, e eu, além de mal-humorada, estava com preguiça de olhar o cardápio. Jean, gentilmente, fez o pedido. Eis que chega à mesa um prato com os melhores sushis que já comi naquele restaurante: peixe serra servido com uma misturinha de gengibre ralado e cebolinha picada, vieira com limão siciliano e sal grosso, uni (ouriço) e toro (atum gordo). Eu mesma nunca tinha feito um pedido tão bom no Kosushi. É de afastar qualquer mau humor.
No dia seguinte, lá fomos nós ao Due Cuochi. Apesar de já estar com o humor melhorado, não tive a oportunidade de olhar o menu. Nem pisquei e minha amiga Flavia já tinha pedido prosecco para mim. Uma gentlewoman. Já eu, em vez de fazer a fina, mandei brasa no antepasto: focaccia de abobrinha, pão de lingüiça, tapenade, mussarela de búfala, lascas de parmesão...
A entrada era o ravioloni de espinafre com uma gema de ovo crua no meio que, na primeira garfada, escorre e se mistura ao sabor da trufa. Depois, a codorna. Desossada, recheada, assada e servida com risoto. Raspei o prato principal, ra-pei. Nem queijo nem doce para sobremesa. “Só vamos terminar o vinho, obrigada.”
Antes do fim de semana terminar, uma passadinha no Adega Santiago. Até hoje, tudo que comi lá estava bom. E os espetinhos de polvo e lula não foram exceção. Espetadas, como eles chamam. Mais tostadas, caipiroscas e quilos na minha balança. Que nada! Às vezes, o descontrole leva ao descontrole.
Eu como de tudo, mas como pouco. Comi muito. Fiquei me sentindo pesadona. Resolvi sair para caminhar. Três horas depois, cheguei ao clube. Estava nova. Revigorada. Um isotônico e, pela primeira vez, senti um súbito desejo de usar aquela máquina que simula passos na escada, se a escada fosse na lua. Subi descontroladamente, passo após passo, até sentir a cabeça na lua, pensamentos soltos, mente leve, aberta.
Sabe que eu gostei? Sem dúvida manda o mau humor para o espaço. Se acordar em condições, amanhã vou fazer de novo. Vou começar a semana fazendo ginástica. Amanhã as crianças voltam. E a vida volta ao normal. Escola, trabalho, refeições caseiras sempre, uma codorna de vez em quando, vinho tinto quando possível. E, quem sabe, subir a escada lunar para elevar o humor e não pesar na balança.
>> Postado por Rita Lobo 21:34
Quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Aniversário de SP
Há alguns anos, morei numa casa próxima ao Parque do Ibirapuera. A casa era linda, a cozinha dela também. Mas era casa, e eu sou de apartamento, constatação feita somente após alguns meses já instalada no novo lar. Gosto de jardim, mas não gosto de ter de cuidar do jardim. Tem o diacho do alarme, que dispara sempre de madrugada e faz o coração chegar à boca. E os cachorros. Casa só é casa quando tem cachorro. E casa só é lar quando tem bolo. Eu adoro cachorro. E adoro bolo. Mas acho que, dois filhos, dois cachorros, um jardim, e ainda um bolo no forno, é muita coisa para mim. O alarme tocou, e eu mudei da casa.
Naquela época, porém, aos domingos, no fim de tarde, tinha música no parque. Sempre as mesmas. Todo santo domingo a trilha do parque tocava. Um inferno para os moradores da região. A cidade era administrada pela dona Marta. (Aliás, nunca comentei isso aqui, mas como é que pode uma, então, prefeita que não consegue sequer dizer o nome da cidade? San Paulo, não. São Paulo. São, são, são, testando, um, dois, três. Porque se São é San, som é são.) O sol se punha, e o são, ops!, o som começava: “Sem São Paulo, ôôô, o meu dono é a solidão, diga sim, que eu digo não.” Ai, dona Marta...
Foram vários fins de semana. Meses, talvez. Eu amo São Paulo, gosto até de passar férias por aqui, mas o aniversário da cidade me incomoda, lembra música no parque. “Feliz aniversário, envelheço na cidade...” Eram horas e, para culminar: “São Paulo que amanhece trabalhãaandú, São Paulo que não sabe adormecer”. Será que é por isso que eu me sinto tão culpada quando resolvo dormir até mais tarde? Será que esse refrão está cravado no subconsciente do paulistano que sofre de insônia? Vambora, vambora, olha hora, vambora!
Outro problema que eu tenho com o aniversário da cidade é que me faz pensar em comida ruim de cantina de quinta; sabe aquela macarronada que passou do ponto há pelo menos duas horas? Talvez os meus problemas sejam fruto da minha falta de informação. Muito tempo lendo receita dá nisso. Resolvi pesquisar na internet.
Primeira notícia relevante: “Problemas com patrocinadores fizeram com que no próximo domingo (25) o bairro do Bixiga não tenha o tradicional bolo que, em 2009, teria 455 metros de comprimento.” Ufa! Já pensou o sabor desse bolo??? Depois vi que haverá o 12º Troféu Cidade de São Paulo. É uma corrida de rua. Socorro! Até no domingão eu preciso ser lembrada de que não ando cuidando da minha forma?
Recebi também um e-mail com os restaurantes que resolveram “elaborar pratos para homenagear a cidade”. Um deles vai fazer “Bife Ancho servido com papas suflês e molho chimichurri”. Não entendi, é para nos lembrarmos do Favre?
O outro vai fazer um “prato praiano, o badejo ao molho de amoras e cava”. Bem, seria uma referência à ausência do mar na cidade? Ou uma maneira de dizer que, mesmo sem mar, os peixes dos cardápios paulistanos são incríveis? Estou confusa. Acho que são muitas comemorações numa data só: aniversário de São Paulo, véspera do ano-novo chinês, e você ficou sabendo do eclipse solar? Vai ser no dia 26.
Quando fui comprar meus óculos para proteção total dos olhos, os eclipse-glasses, fiquei sabendo que também teria de comprar um passagem para Sumatra ou Bornéu ou ainda pegar uma embarcação do nada para lugar nenhum no oceano Índico. Diz que, astrologicamente, o eclipse pode indicar um “período em que serão tomadas medidas restritivas destinadas, principalmente, a projetos e modificações no campo financeiro”. NO ME DIGAS. Uma loucura. Então vamos todos meditar, comemorar, nos preparar para o eclipse, e eu vou logo ali tratar do meu mau humor com um bolo em camadas de chocolate e já volto.
>> Postado por Rita Lobo 13:51
Terça-feira, 20 de janeiro de 2009
As peras e o acordo ortográfico
Rita, também andei questionando essas superstições de ano-novo. De 2007 para 2008 fiz um escândalo porque uma tia insistia em trazer coxas de frango (justo as coxas... que ciscam!) para o churrasco de ano novo. Não deixei! O feitiço virou contra o feiticeiro: mesmo sem o bicho cisquento, 2008 foi uma lástima pra mim. Daí, de 2008 para 2009 resolvi que não faria nenhuma mandinguinha... mentira! Na última hora resolvi comer as 12 uvas e estou torcendo para que elas me tragam muuuuuuuuuuuita prosperidade (para repor a catástrofe de 2008)! Mas a idéia de não fazer nenhum ritual comestível acabou virando um post pro meu blog... Se não conhece, ainda não leu, não perca mais tempo (hehehe)! Ele é bem divertidinho (...e a dona, super modesta!!). Passe por lá: www.claraemneve.blogspot.com . Preciso dizer que amo o Panelinha?! Ok, eu digo... todos já sabem: amo demais o Panelinha! E todos seus filhotes, crias e amiguinhos! Amo e vicio todos meus amigos.
Beijos!
Fabiane Catarse
Catarse (que ótimo o seu sobrenome!),
Acabei de ler os quatro últimos posts do seu blog. Adorei. Na minha opinião, pode continuar com a “modéstia”: o seu texto é muito divertido! Gostei das “Receitas antiqüíssimas feitas com lingüiça no liqüidificador!” em comemoração, ou não, ao início do novo acordo ortográfico da língua portuguesa. Também estou com uma certa dificuldade para escrever que a receita de pêra ao vinho agora é de pera. Eu acabo lendo: péra, espera, peraí. Mas, de fato, era meio chato lembrar que a pêra tinha acento, e as peras, não. Esquisitinho. Se bem que tem muita família com um irmão loiro, e outro, moreno; não é porque têm o mesmo pai e a mesma mãe que precisam ser iguais. (E também não precisam ter o mesmo pai e a mesma mãe para ser da mesma família.) Uma é plural e a outra singular. Mas eu já tinha me acostumado com a pêra e as peras. Mas, agora, vai ser a pera e as peras. E continua não valendo as pera.
As variedades, porém, continuam indiferentes ao acordo: não vá usar pêra d'água, ops, pera d'água para fazer um doce com cozimento longo. Peraí. Neste caso, vamos continuar usando a pera portuguesa, independentemente da mudança ortográfica. Não sei se você viu, mas seu blog já está nos indicados aqui pelo Panelinha. Obrigada pelo seu e-mail e parabéns pelos textos. E aproveitando as peras, aqui vai o link para uma das minhas sobremesas favoritas: polenta doce com pêra e calda de vinho tinto. (Ai, que preguiça de alterar esses acentos!)
>> Postado por Rita Lobo 23:35
Segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Ano-novo chinês
No próximo dia 26, os chineses comemoram o início do ano de 4707. Como nós, eles também vestem roupas novas, fazem resoluções, desejam boa sorte e celebram na véspera com mesa farta para família. Para eles, porém, frango assado está no topo da lista de alimentos da sorte e o fato de o animal ciscar é irrelevante. Servido inteiro, ele representa o desejo de que a família fique unida. O ano-novo celebra também o início da primavera e, obviamente, rolinhos de primavera é que não podem faltar: eles são como lentilha, representam fortuna, prosperidade, e ainda têm formato de barra de ouro!
Pronto: família unida, próspera, o que mais? Um peixe assado, com cabeça e cauda, para que o ano comece e termine bem. Espertos, esses chineses. E é servido no começo e no fim da refeição. Aliás, tenho a impressão de que peixe é o alimento de ano-novo; está presente nas comemorações de vários calendários. Católicos, judeus, budistas, todos comem peixe, mais ou menos pelos mesmos motivos. Definitivamente é um ingrediente que não pode faltar à mesa. Representa abundância, fertilidade, amor, e ainda é saudável! Então, para mim, esse vai ser o ano do peixe. Quer dizer, na alimentação. No calendário chinês é o ano do boi, do boi da cara preta, um horror para quem tem medo de careta. E a careta da crise é bem feia, mas o ano do boi é também o ano do trabalho. O boi, além de trabalhador, é o signo da paciência, da amizade, da lealdade. O ano do boi é o ano de arrumar a casa, de dentro e de fora, organizar a vida, disciplinar a mente. E isso não é pouca coisa.
Então está criada uma nova tradição chino-baiana: a lavagem de casa, como a do Bonfim, no ano-novo chinês. Água, vassoura, escovão, aspirador, jogar fora tudo que está parado há anos no armário, criar coragem e colocar no lixo todos os pratos lascados, doar livros para a biblioteca do bairro, assumir que não vai mandar consertar o cabo daquela panela e passá-la para frente, limpar a casa, a alma e perfumar tudo com água de cheiro. Água de rosas, no meu caso.
Vermelho e dourado são as cores da sorte na China. Branco é a cor da roupa da baiana. Então vai ser branco, vermelho e dourado a cor do jantar do próximo dia 25, véspera do ano-novo chinês. Casa limpa, alma lavada, crianças já se preparando para o início do ano letivo. Pais concentrados para o ano, que agora começa antes do carnaval. À mesa, um bom frango assado, e também um peixe. Talvez o frango no jantar e o peixe para o almoço do dia seguinte. Rolinhos de primavera, bem dourados, que para não deixar a casa com cheiro de fritura vão ser do delivery. Ah, já ia me esquecendo dos noodles, eles são essenciais para uma vida longa. E não podem ser partidos. Na China não dá sorte. Aqui é falta de educação. A minha única dúvida agora é se também preciso servir lentilhas. Será que pode misturar tantas tradições? Bem, se você é brasileiro, pode.
>> Postado por Rita Lobo 19:16
Segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Vinho e comida
Olá Rita,
Desde que me deram a dica de consultar o Panelinha para pegar receitas, minha vida mudou. Bom, pelo menos na cozinha. Eu sempre fiz o básico, sem muito glamour ou requinte. Atualmente, estou sempre procurando algo para surpreender as numerosas boquinhas nervosas que tenho em casa.
Semana passada, estive na segunda à noite no Ráscal e experimentei uma terrine de queijo de cabra maravilhosa. Para obter a receita, pedi para conversar com a chef, que, apesar de solícita, apenas explicou "an passant" como fazia. Dentre outros ingredientes, falou do chantilly, leite, queijo de cabra, iogurte, talvez, e amêndoas e também disse que era necessário deixar de um dia para outro na geladeira. Mandei um e-mail para eles pedindo a receita certinha, mas não obtive resposta.
Então pensei em você. Se eles não podem ou não querem me ensinar talvez você saiba como fazer ou descubra como é esta receita. Esta terrine fica bem aerada. E foi servida com morangos para acompanhar as saladas do bufê.
Uma vez por mês, reunimos alguns amigos e promovemos uma degustação de vinhos. O próximo será na minha casa. Quero fugir um pouco do queijo com vinho e servir esta terrine. Acho que vai ser uma agradável combinação. O que você acha?
Um super abraço,
Maria da Penha
Maria da Penha,
Acho que também fugiria do “queijo e vinho”, que, para mim, não formam uma boa combinação. Já notou como pesa? Especialmente quando o vinho é tinto. Ainda mais no verão!
Li seu e-mail e me lembrei de um livro chamado Vinho e Comida - Um Guia Básico e Contemporâneo das Melhores Combinações de Vinho e Comida. Você conhece? Não é novo, deve ter uns dez anos, a autora é inglesa, Joana Simon, e aqui foi publicado pela Companhia das Letras.
Já vou avisando que tem um lado ruim: por ter sido escrito, inicialmente, para o mercado inglês, dá muita ênfase aos vinhos europeus, que chegam caros ao Brasil, bem menos acessíveis que bons produtos dos nossos vizinhos, pouco citados pela autora. Mesmo assim, é um livro excelente porque, além das sugestões de combinações, explica conceitos, regras e, também, como quebrá-las. Ensina o que avaliar na hora de combinar comida com vinho; explica princípios, como peso, intensidade, fala sobre acidez, doçura, tanino. Há um capítulo sobre os efeitos, na harmonização, de cada técnica de cozimento, como fritar, refogar, grelhar etc. Outro sobre as uvas e vinhos. E, finalmente, “combinações clássicas internacionais”. Bouillabaisse com um rosé seco, como do Languedoc; Escabeche com um Rioja branco e seco; cotecchino com lentilhas acompanhado de um Lanbrusco tinto. Há uma série de sugestões, divididas por região. Bordeaux, Borgonha, Languedoc, Provença, Ródano, Loire, Alsácia... E ainda nem saímos da França. Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Suíça. Depois da Europa, Estados Unidos, America do Sul, Austrália e Nova Zelândia. E, também, sugestões de vinhos para combinar com pratos indianos, chineses, tailandeses e japoneses.
Voltando ao seu jantar, no livro, ela fala sobre a dificuldade de harmonizar vinho com queijo: “A idéia de que vinho e queijo são pares perfeitos é um grande mito. Na verdade, o queijo é um dos alimentos mais problemáticos para a combinação com vinho. Nada de surpreendente. Afinal, ele costuma ter sabor intenso e forte; em geral apresenta muita gordura; pode possuir elevada acidez; é quase sempre muito salgado; e pode ter textura viscosa, que reveste o interior da boca”.
E eu concordo. Nem sei exatamente por que “queijo e vinho” virou um clássico. Por isso, a terrine, apesar de parecer bem gostosa, talvez não seja a opção mais fácil. De qualquer maneira, aqui no Panelinha temos uma receita, sem dúvida bem diferente da que você comeu, mas também muito gostosa: terrine de aspargos e queijo de cabra. E, neste caso, escolha um Sauvignon Blanc chileno, que vai bem com aspargos e com queijo de cabra. Obrigada pelo seu e-mail.
>> Postado por Rita Lobo 00:01
Sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
E-mail da Carolina
Olá, Rita,
Adoro o site, sempre uso as receitas, deliciosas e fáceis. A primeira que testei foi o fettuccine Alfredo. Foi em um domingo. Todos amaram! Depois que soube, pelo blog, do lançamento do seu livro novo, A Conversa chegou à cozinha, comecei a procurar nas livrarias. Encontrei na Cultura do Shopping Villa-Lobos, que aliás tinha uma mesa com todos os seus livros expostos... Comprei, fui ao cinema e, depois de jantar, voltei para casa. Por volta das 23h, comecei a ler. Só parei quando acabou. Que delícia! Literalmente devorei!
Resolvi escrever, pois adorei as histórias, as receitas, tudo, e queria te dizer isso, queria que soubesse que foi delicioso ler o seu livro e que ele despertou em mim uma vontade enorme de me dedicar mais à culinária em 2009.
Abraço,
Carolina Fernandes
Carolina, é curiosa essa ligação entre leitor e autor. Muitas vezes, depois de ler um livro, eu também tenho vontade de me comunicar com quem o escreveu, mas, confesso, nunca tive coragem (quer dizer, fora com a Nina Horta, que já até cansou de me ouvir dizer que eu amo o livro dela). Então, fico muito emocionada quando alguém me escreve para dizer que gostou, que não parou de ler, que deu vontade de cozinhar. Foi a própria Nina quem disse, na apresentação do meu livro, que a beira do fogão é onde toda escritora de culinária quer ver seu leitor. É a mais pura verdade.
Havia um tempo que eu tinha medo de cozinhar. Já era formada em gastronomia e tudo. Mas tinha medo de errar. Talvez fosse receio de transformar bons ingredientes numa mistura incomestível e, por estragar algo tão sagrado, ser castigada pelos deuses da alimentação. Brincadeira. Não era algo tão imponente. Era medo de passar por boba, incapaz, sei lá. Mesmo se estivesse simplesmente testando uma receita, como se a essência da experimentação não fosse acerto e erro, muitas vezes, na mesma proporção.
Às vezes, ainda sinto um frio na barriga com o calor do fogão. E se o bolo sair murcho? E se o pernil ressecar? E não estou me referindo a jantares para grandes comemorações. (Claro que, de fato, é mais chato explicar para uma mesa cheia que o jantar vai ser pizza.) Pode ser um jantarzinho qualquer, apenas para a família, muitas vezes, inclusive, sem a menor vontade de cozinhar. Nem sempre cozinhar é prazeroso, aliás, pode até ser um porre, uma chatice. Um esforço físico e mental. Mas quando o prato está pronto, fumegante sobre a mesa, e vira fonte de vida e de prazer para os comensais, ele também alimenta o cozinheiro de uma sensação de vitória. Seja o macarrãozinho para os filhos ou a ceia de Natal. Cozinhar, para mim, é a confirmação de que a vida é maior, mais forte, que ela segue em frente, apesar dos nossos erros, independentemente das nossas perdas, das dores, das tristezas. Cozinhar deixa o corpo vivo, a mente livre e tem gosto de vitória.
Sempre sinto uma pontinha de pena quando alguém me diz com um certo orgulho que não sabe nem fritar um ovo. Deve ser muito frustrante nunca ter comido um prato feito por si próprio. E deve ser ainda pior achar que não consegue nem fritar um ovo, a ponto de nunca tentar. Eu também, Carolina, esse ano quero cozinhar mais. E ler mais. E, se tudo der certo, escrever mais também. Obrigada pelo seu e-mail.
>> Postado por Rita Lobo 18:38
Sexta-feira, 09 de janeiro de 2009
Peru da sorte
Alguns assuntos. O primeiro, bem rapidinho. Pedi à caseira na praia que comprasse um tender bolinha para a ceia de ano-novo. Ela comprou, tirou da embalagem e me chamou para temperar. “Ema, esse tender tá tão branquinho...” Ela respondeu que achava que sairia do forno com a cor certa, bem douradinho. Ema é uma mulher incrível, paranaense, filha de ucranianos, mãe de quatro filhos e cheia de histórias para contar. Ficamos nós duas preparando a ceia para a minha família e papeando sobre as superstições da data. Algumas horas depois, havíamos concluído que o importante era comer lentilhas, romãs, uvas e carne de porco. Já estava na hora de tirar o tender do forno, mas ele continuava clarinho. Comecei a fatiar a carne e, certamente, aquilo não era um tender! Ema correu para a lixeira e achou a embalagem: tender de peru! “Mas eu estava com os meus óculos...”, ela disse levando a mão à testa.
“Socorro, Ema, além de não comer carne de porco, ainda vamos comer peru!” Ela não titubeou e contou mais uma de suas histórias: “A minha mãe, lá no Paraná, não passava um ano-novo sem comer cabeça de porco, dizia que o bicho anda pra frente... e a cada ano a vida dela piorava, andava pra trás...” Bom, não comi carne de porco, mas me entupi de lentilha, romã e uva e ainda aprendi que existe tender de peru.
Sobre o último post, a minha amiga entendeu a indireta e, finalmente, leu O Pedante na Cozinha, livro que, aparentemente, segundo eu mesma, foi escrito para mim, sem conhecimento do autor, Julian Barnes. A boa notícia é que ela amou, leu em duas noitadas (porque livro bom a gente não consegue fechar e a noite vira uma noitada) e agora posso indicar o livro tranquilamente. Por outro lado, o fato de ela ter gostado levanta suspeitas sobre o destinatário: talvez ele não tenha sido escrito para mim... “Não, não, Rita, não tenho a menor dúvida que é para você: as referências, o tipo de humor, as questões sobre escrever receitas...” Ufa, agora somos duas a acreditar que Julian Barnes estava pensando em mim...
Por último, quero agradecer os vários e-mails que tenho recebido. São e-mails longos e lindos. Li cada um e agradeço muito pelo carinho de todos. Num deles, há um trecho tão bonito e tão sincero que decidi publicar aqui: “Todo dia quando chego da escola, tenho de fazer o jantar [das filhas] enquanto elas brincam e brigam também... Aliás, na maior parte do tempo, brigam e acabam deixando o momento bem estressante. Um dia, a menor se instalou ao meu lado na pia da cozinha e disse que gostaria de me ajudar. Logo veio a maior querendo fazer a mesa do jantar. Assim, passamos um tempo muito gostoso, provando os ingredientes, sentindo os aromas e o mais importante: sem nenhuma briguinha e com as duas me fazendo companhia. Isso tem sido uma experiência e tanto, claro que o jantar demora um pouco mais pra sair, mas não trocaria por nada esses momentos com minhas filhotas pipocas.”
Mirtes, tenho uma memória de elefante e sei direitinho quem você é: a moça de roupa floral vermelha! (Ela também conta no e-mail que esteve no lançamento do meu livro...) Fiquei pensando que, às vezes, a intenção é mais importante que o ingrediente. Claro que gostaria de ter comido uma fatia de tender que não fosse de peru no ano-novo. Mas passar o ano-novo ao lado dos meus filhos, e cozinhando para eles, é o ingrediente mais importante que eu possa pensar. Obrigada pelo seu e-mail. Bom ano e boa sorte para todos nós.
>> Postado por Rita Lobo 01:19
28 de dezembro de 2008
A mesa em tempos de crise
Livros estão no topo da lista de presentes mais trocados entre os meus familiares. Em qualquer data comemorativa. Por algum motivo estranho, porém, neste Natal, não ganhei nenhum. Quer dizer, nem tão estranho assim: combinamos que só as crianças iriam receber presentes. Mas para minha mãe, independentemente da idade dos filhos, entramos na categoria crianças; então, uma chance para você adivinhar o que eu ganhei dela, além dos vinhos obrigatórios. Vamos lá... Se você lê o blog com alguma freqüência, não será difícil. Um pijama! Por sinal, bem bonitinho. Já está em uso. Já tenho um pijaminha novo, mas estou sem livro para ler na cama.
Ontem, recorri à minha estante em busca de uma leiturinha fácil para a hora de dormir. Passei o olho para cá e para lá, uni, duni, te... Nada. Até pensei em reler O Pedante na Cozinha, de Julian Barnes. Sem dúvida, a melhor leitura de 2008. Mas emprestei para uma amiga. É que gostei tanto, tanto, que comecei a achar que, sem saber, o autor havia escrito para mim. Pedi a ela que lesse e avaliasse se o livro é mesmo bom ou se são meus olhos; ela nunca terminou ou não quis comentar, não devolveu, e eu continuo sem saber se o livro é bom para todos ou só para mim.
Olhei mais um pouquinho e parei num livro que, pelo título, suponho, já ganhei uns quatro: How to Cook a Wolf, um clássico da literatura culinária, escrito por MFK Fisher, talvez a maior autora do gênero. Infelizmente, nenhuma das pessoas que me presentearam sabiam da existência da tradução, Como Cozinhar um Lobo, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Resolvi reler. Levei um susto logo nas primeiras páginas.
Ele foi escrito durante o racionamento da Segunda Guerra. É sobre comer bem em tempos difíceis, de escassez. Um choque como um livro de 1942 seja tão atual em 2008, quase 2009. Há conceitos perfeitos para o momento em que vivemos. Apesar da suposta blindagem brasileira (sei, sei), acho difícil que a crise não chegue à mesa. Até por princípios. Estamos todos repensando os nossos orçamentos, cortando os excessos, reavaliando as necessidades, nos preparando para o inverno, mesmo sonhando com o verão, e aprendendo a conviver com as incertezas da existência explicitadas por uma crise financeira.
No primeiro capítulo, Fisher questiona o conceito nutricional da refeição balanceada para concluir que o melhor é “balancear o dia, e não cada refeição do dia”. Não é uma proposta excelente para qualquer que seja a situação financeira da pessoa? E também funciona para quem trabalha fora, para quem não sai de casa, para quem gosta de comer bem, para quem come por obrigação.
Às vezes, chego em casa para almoçar e fico abalada com a minha própria mesa: arroz, lentilha, tabule, sobrecoxa de frango assada com batatas, um peixinho cozido a vapor com legumes na manteiga e uma salada de folhas verdes. Já cansei de explicar que não precisa, e não pode, fazer esse tanto de comida. Tenho pavor de servir dois tipos de carne na mesma refeição. “Ah, mas as crianças não comem...” Não comem porque têm escolha. Acho mais fácil educar crianças do que adultos. Onde já se viu fazer frango e peixe na mesma refeição? Pior: batata e arroz está terminantemente proibido. Administrar, seja lá o que for, requer energia.
Não sei se já contei essa história alguma vez, mas quando eu tinha uns 20 anos, o irmão da minha melhor amiga, que continua sendo a minha amiga da vida toda, ia se casar. A data estava marcada para logo após um feriado prolongado. Minha amiga e eu decidimos passar o feriadão cuidando da beleza num SPA. Explicamos que não queríamos emagrecer, só não engordar. Eram quatro dias. Logo no primeiro, um choque de quantidades. Ou falta dela. A salada resumia-se a umas poucas folhas de alface americana, três fatias finas de pepino, um tomate cereja e um molho, acredito, à base de água. O molho é brincadeira, mas o resto é verdade. Depois tinha o prato principal. Micro. E muita caminhada, ginástica e hidro-ginástica e atividades estranhas que envolviam pedras quentes sobre o corpo e uma musiquinha de fundo com passarinhos e som de cachoeira que nos dava uma vontade incontrolável de ir ao banheiro. Bom, to make a long story short, é claro que a gente só durou dois dias no SPA. Eles não entenderam que nós só queríamos ficar lindas e radiantes para o casamento. Bons tempos. Mas, pela primeira vez na vida, senti na pele, ou no estômago, como somos excessivos na alimentação. Não deixou de ser uma lição.
Equilibrar o dia, em vez da refeição, parece uma boa saída. Em tempos de crise financeira e crise nutricional. Ou a obesidade também não é uma crise americana? De vez em quando, jantar uma fatia de pão com um pedaço de queijo não faz mal a ninguém. Depois falo mais do livro. Enquanto isso, se der para alguém ler O Pedante na Cozinha e comentar comigo, ficarei muito agradecida.
>> Postado por Rita Lobo 19:09
Segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Doce de Natal
Tenho uma grande amiga que, por osmose, está ficando parecida comigo. Ou eu com ela, não sei bem. Sempre perguntam se somos irmãs. Respondo que sim, só que de pai e mãe diferentes. Este ano, vamos comemorar o Natal juntas, na minha casa. A família dela e a minha. Nossos filhos são amigos, e nossos pais também. Mas não somos uma família, e isso vai deixar o Natal mais animadinho. Eu sei, eu sei, o certo é dizer que a família se basta, noite feliz e tudo mais, porém, na minha opinião, qualquer festa fica melhor com amigos.
Comprei um tender com osso, um tender bolinha, um peru inteiro e um peito de peru. Este último é para fazer uma experiência: assar na mesma assadeira que o peru e cobrir com bacon para não ressecar; vamos ver se assim o peito toma jeito, ou melhor, gosto. Comprei um pouco a mais de tudo, pois o almoço do dia 25 também vai ser em casa. Com as sobras da noite anterior, que fique claro. Não estou tão animada assim com o Natal.
A ceia está decidida. Peru, tender, chutney de abacaxi, arroz basmati com leite de coco, farofa de milho e salada de castanhas portuguesas. A questão agora são os presentes. Por sorte, ninguém teve tempo de fazer compras. Por sorte porque resolvemos que só as crianças vão ter vez; é para elas que comemoramos o Natal. Assim não fica aquela obrigação de fazer cara de que adorou o par de meias, que estava precisando mesmo de um pijaminha novo (no meu caso, até que seria verdade). E a gente investe nas bebidas; tem coisa pior que festa com vinho ruim? Eu não gosto. Aliás, acaba de me ocorrer uma idéia: como minha mãe vai ficar arrasada com a política de não-presentes para adultos, vou dizer que ela pode presentear com vinhos (que serão obrigatoriamente consumidos na noite). Ótimo, está resolvido.
Aí tem a questão das copeiras. Sabe quanto elas cobram para trabalhar no Natal? Mais que um salário mínimo. Eu vou cozinhar. Estou dispensada de tirar a mesa. E me recuso a pagar essa fortuna. Escolhi meu presente de Natal: quero que Papai Noel tire a mesa e lave a louça. Só isso. Não. E seque também. Lembra que tem almoço no dia seguinte?
De uns anos para cá, para mim, Natal tem gosto de tâmaras. É uma das minhas sobremesas favoritas. Sabe aquelas tâmaras moles que só chegam ao mercado essa época do ano? Não precisa fazer nada. Nem lavar nem descascar nem cozinhar. São divinas. Como duas ou três e não troco por nada. Troco sim. Lembrei de uns doces que ganhei. Sabe aqueles docinhos árabes? Pois é, não tem nada a ver com eles. Tem a mesma cara, o mesmo nome, mas é algo completamente diferente. (Pensei neles, obviamente, por causa das tâmaras, que também são típicas do oriente médio.) O nome da marca é Semiramis. São feitos em Damascos, na Síria, e vêm embalados grudadinhos um no outro numa caixa com uma rosa vermelha. Não sei se tem à venda no Brasil. Ganhei de um restaurateur. São verdadeiras jóias, delicados, não são doces como os que conhecemos por aqui. São crocantes na mordida e desmancham na boca. Sabor de manteiga boa. O ninho de pistache é emocionante. Acho que foram os melhores doces que comi em 2008. Acho não, foram. Mas acabou. Não sobrou nada, nem um fiozinho para o Natal. Tudo bem. Ceia não combina com doce árabe. Deixa o doce guardado na memória e bola para frente que a torta de nozes já está no forno.
>> Postado por Rita Lobo 19:34
Segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Todo mundo usa
Minha filha ficou com dor de garganta e, por isso, fiquei, de dia, trabalhando em casa. À noite, ela pediu para dormir na minha cama. Eu sei, é errado, isso não se faz, mas A-DO-RO quando meus filhos pedem para dormir na minha cama. Claro que só deixo de vez em quando. E com dor de garganta é de vez em sempre. Não precisa nem pedir. Bom, para encurtar a história, à tarde, eu estava no computador, Gabriel lendo um livro de dinossauros e Dora assistindo à televisão, bem baixinho. Cada um concentrado na sua atividade. Num intervalo comercial, ela ouviu o slogan: “Havaianas, todo mundo usa”. Imediatamente se levantou, veio andando em minha direção e disse, abanando o dedo indicador: “Mamãe, eu não uso”.
Gabriel, sem tirar os olhos do livro, comentou: “Eu também não uso, meu avô não usa, minha avó não usa, meu pai não usa...” Dora olhou bem sério para mim e disse: “Mamãe, acho melhor você ligar para o moço da televisão e avisar que não é todo mundo que usa”.
Por coincidência, achei essa ilustração antiga feita pelo Filipe Jardim, uma opção de imagem para alguma página do meu primeiro livro, Cozinha de estar. Acabamos não usando. Mas fica claro que uso Havaianas e tomo café. O que interessa aqui, porém, é o “todo mundo”. Claro que a mensagem é que todo o tipo de gente usa, e não que todas as pessoas do mundo usam. Mas não quis estender a conversa com os meus filhos. Achei ótima a argumentação deles, o fato de eles não aceitarem como certo qualquer coisa que vejam na televisão.
Fiquei pensando sobre o conceito “todo mundo” na culinária. Todo mundo gosta de chocolate. Não é verdade. Muita gente gosta, mas não é todo mundo. Todo mundo gosta de arroz. Eu gosto, mas não faço questão, acredita? Todo mundo gosta de quê? Não consigo pensar em nada. Tenho um palpite, porém. Batata. Não conheço alguém que não goste de batata. Acho que é daí que vem a expressão “é batata”. E é um ingrediente popular, que “todo mundo” pode comprar. E cozinhar.
Gabriel não gosta de purê de batata, mas gosta de batata frita. Eu não gosto de batata cozida a vapor, mas gosto de todos os outros tipos. Especialmente as queimadas. Batata assada até queimar as pontas, temperada com alecrim, sal grosso. Ou aquela batata libanesa feita pela Leila, do restaurante Arábia. É uma espécie de purê rústico, que, em vez de leite e manteiga, leva azeite e, por cima, cebola frita com salsinha. Um sonho. Purê de batata bem feitinho, temperado com noz-moscada, também é comida de desejo. E, por incrível que pareça, é rara. Vira e mexe as pessoas inventam de colocar queijo, requeijão, temperos estranhos. Aí não dá. Batata salteada com curry também é uma delícia. Salada de batata com mostarda também. Aqui no Panelinha tem um monte de receitas gostosas (no canal receitas, digite batata para ver as opções).
Bom, se você chegou até aqui, leu o post todinho, bem que poderia me mandar um e-mail dizendo se você conhece alguém que não gosta de batata. Até lá, continuo achando que é o ingrediente que todo mundo gosta. Todo mundo usa.
>> Postado por Rita Lobo 18:56
Quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Trigo com romã
Você vai ficar com a impressão de que eu quero me exibir. Não é bem isso. Mas se eu não contar a história como ela aconteceu, o fim não faz sentindo. Acontece que, na sexta-feira passada, fui jantar na casa de uma amiga. Não era um jantar qualquer, era algo muito especial. Mas, antes de chegar ao jantar, preciso comentar sobre as amêndoas. Eram várias tigelinhas espalhadas pelas mesas. Peguei uma amêndoa com a mão, levei à boca e, antes mesmo de dar uma mordida, levei um susto: amêndoas assadas com sal e alecrim; você já experimentou? Uma explosão de sabor. Um combinação incrível. Talvez seja algo corriqueiro, mas eu nunca tinha comido. Não sei se a receita leva mais alguma coisa, talvez claras de ovo para os temperinhos grudarem bem ao assar.
Era um jantar grande em torno de um rabino, mais ou menos setenta pessoas. Não sabia se a comida era feita em casa, aliás, coisa rara, raríssima, num jantar grande assim. Mas não quis deixar de elogiar o petisco, antes de o serviço religioso começar. Disse à minha amiga que estava com medo de nem conseguir comer outra coisa, já tinha acabado com várias tigelinhas. “É Ginger!”, ela respondeu.
Ou seja, o jantar era feito pelo bufê da Andrea Rinzler e da Nina Horta. Imediatamente parei com as amêndoas; tinha de reservar lugar para os quitutes judaicos que seriam servidos após o Cabalat Shabat.
Um pouco mais de uma hora depois, almas lavadas, pensamentos soltos e todos prontos para uma taça de vinho e um pedaço de chalá. Na sala de jantar, uma mesa com muito mais do que isso: vareniques, guelfite fish, salmão defumado, salada de pepino, arenque e, ali no meio, salada de trigo com romã.
Há anos, muitos anos, não comia essa salada. Por que raios fiquei tanto tempo sem comer essa salada de trigo com romã? É das coisas mais gostosas que se pode comer. Basicamente, porque não sei fazer.
Liguei para a Nina e pedi a receita. Ela respondeu: “Puxa, que bom, tava boa a salada, é? É bem o tipo de comida que você gosta, não? Meio vegetariana...” (Agora vem a parte em que parece que eu quero me exibir.) Dias depois, chega à minha casa uma tigela, tigelona, da salada. Não consegui parar de comer. Comi até lamber o molho. E só depois de comer o último grão me dei conta de que ela mandou um pote de salada mas não me deu a receita. Danada.
>> Postado por Rita Lobo 23:10
Segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O aniversário da Dora
Na semana passada, Dora, minha filhota, completou 4 anos. Ela queria fazer uma festa. Aliás, há meses só falava nisso. Eu sugeri que convidássemos os amiguinhos da escola para comer bolo e brigadeiro em casa. Ela achou ótimo e disse que também iria chamar os primos e os outros amigos (que são os amiguinhos herdados, filhos de amigos meus).
Duas semanas antes, aproveitei um sábado para comprar lembrancinhas, copos, pratos, talheres e guardanapos – adivinhe? – cor-de-rosa. Já deixei os balões com gás hélio encomendados e não resisti: comprei algumas caixas de forminhas de flores de papel-crepom rosa-choque e verde-limão. Assim, o “tema” da festa ficou definido: rosa e verde. Quase uma festa da comunidade da Mangueira.
Dias antes, encomendei o bolo que ela queria: Hello Kitty por fora, chocolate e brigadeiro por dentro. Mas pedi que as flores fossem verde-limão. (Lembra? A festa tem cores pré-definidas.) Da minha amiga Regina, encomendei miniquibe e miniesfirra, que os meus filhos insistem em chamar de espirra. “Mamãe, eu só gosto de espirra fechada de carne”, avisa o Gabriel. Eu gosto da folhada, mas só em dia de festa, é um pouco gordurosa. Para os adultos, sanduíche de falafel, que a Regina insiste em chamar de falefel, e deve estar certa: ela é de origem libanesa, e eu não.
Pronto: comida árabe, doces brasileiros, bolo de Hello Kitty, tudo cor-de-rosa e verde-limão, suco, somente suco de uva e água para as crianças (não consigo fazer concessões aos refrigerantes nem em dia de festa), e sangria para os adultos.
Às quatro em ponto, os convidados começaram a chegar. Meia hora depois, a festa estava completa. “Que coragem!”, era um dos comentários mais comuns. Crianças correndo pela casa, o corredor virou uma enorme tela branca para o quadro coletivo que os pequenos iam pintando. “Tio Adilson”, monitor do clube que partiu para carreira solo, coordenava as brincadeiras. Música para dançar, tatuagens, mesinhas para pintar. A Dora e o Gabriel felizes da vida com a festa em casa. E eu mais ainda, por ter escapado do bufê. Hoje, Dora acordou perguntando quando será o próximo aniversário dela. Só no ano que vem, filha. “Ai, mamãe, vai demorar tanto... Mas a gente faz uma festinha no seu aniversário, né?”
>> Postado por Rita Lobo 18:06
Quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Bookshelf
Logo depois que eu nasci, meus pais se mudaram para os EUA. Período curto, apenas para a conclusão dos estudos de meu pai. Eu era um bebê de 2 meses. Meu irmão, Fábio, um garoto de 4 anos. O Gui ainda não existia. E lá fomos nós. Não me lembro de absolutamente nada (e se alguém disser que tem lembranças de quando tinha menos de um ano de idade, sinto em dizer, não acredito).
Hoje resolvi dar uma mexida na minha estante de livros. Comprei alguns novos, ganhei outros, e todos estavam empilhados na minha mesa. Puxei o Better Homes and Gardens New Cook Book, talvez o primeiro livro de culinária comprado pela família recém-chegada ao estrangeiro. De dentro dele, cópias xerox, bem amareladas, saíram voando. Peguei os papéis do chão e, para minha surpresa, reconheci de imediato a caligrafia das anotações. As diversas cores – caneta azul, vermelha, lápis grafite – indicavam o uso recorrente das páginas e, conseqüentemente, das receitas. Era a letra do meu pai, matemático, que parece escrever com números. Fácil de reconhecer.
Fast salads ideas é a seção mais rabiscada. Avocado-cranberry salad, cheese-peach salad, beet-topped lettuce. Parece que era isso que os meus pais comiam quando queriam uma saladinha rápida. Ah, Waldorf salad também tem uma marcação. Depois vêm saladas com frutas: abacaxi com cenoura; uva-passa e maionese; salada de laranja para o inverno. Mas as anotações indicam que a campeã era a Avocado bowl. Endive, que na década de 1970 não tinha nem o cheiro no Brasil, causou enorme estranheza. Será chicória ou escarola?, pergunta-se meu pai. Grapefruite, não esquecer de comprar. Pomegranate seeds, sementes de romã. E assim vai. Além dos ingredientes diferentes, havia também os termos culinários. Apesar de falar bem inglês, acho que não estava familiarizado eles. Dash é pitada, sprinkle é salpicar. Tudo anotadinho.
Fiquei tentando juntar a figura do meu pai hoje, um senhor, cheio de qualidades, mas que não pega nem um copo de água na cozinha, com esse rapaz, que fazia anotações nas receitas, provavelmente levava aquelas páginas para o supermercado, como se fosse uma lista de compras, devia ajudar a minha mãe com os afazeres domésticos e, quem sabe, fazia uma ou outra receita, mesmo que fosse uma “idéia de salada rápida”.
Naquele ano, meus pais eram alguns anos mais novos do que eu hoje. Com essas velhas folhas de papel nas mãos, por alguns instantes, estamos todos na mesma cozinha, uma cozinha de que não me lembro, com aspectos dos meus pais que, talvez, eu não tenha conhecido. Neste momento, temos todos a mesma idade. Podemos falar de igual para igual. Mas eu nem sei sobre o que conversar.
Ligo para o meu pai. Temos que falar sobre alguns assuntos esta manhã. Ele está me auxiliando na conclusão de um negócio. Rapidamente a imagem do jovem na cozinha vai embora. É com o senhor experiente que falo. Terminamos a conversa. Antes de desligar ele me pergunta: Você sabe a diferença entre depressão e recessão, né? Recessão é quando o vizinho está desempregado, depressão é quando eu estou desempregado. Acho que me enganei, o garoto dentro dele estava aí o tempo todo.
>> Postado por Rita Lobo 09:52
Quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Dois livros e muitos colares de mesa
Ganhei dois livros, ambos de culinária, da Ediouro, cada um escrito por uma morena. Uma americana, a outra inglesa. Da primeira, até o ano passado, eu nunca tinha ouvido falar. Ela é mulher do comediante ícone da década de 1990, Jerry Seinfeld, e escreveu um livro sobre alimentação infantil. Jessica, ela se chama. A outra, todos nós conhecemos por conta da televisão, e o livro é Nigella Express, Receitas Rápidas e Saborosas. Os dois foram lançados praticamente juntos. Mas, em comum, além de autoras culinárias, publicadas no Brasil pela mesma editora, elas só têm as longas madeixas negras. E só. Uma é o oposto da outra.
Ouvi dizer que Nigella está escrevendo um livro de ficção. Há alguns anos, aliás. Não sei se desistiu ou se o processo é mesmo lento. O do livro de ficção, pois os de culinária são express. Acho que o de ficção seria uma delícia. De certa maneira, ela escreve sobre comida de um jeito romanceado. Gosto e gosto muito dos livros dela, dos programas de televisão, das analogias que ela faz, da forma que ela entende comida. E come com gosto. Não tem muito preconceito. Aliás, faz disso um diferencial. É só todo mundo achar cafona que ela adora. Fala sério: chucrute com salsicha, salada de macarrão e mortadela, bolo de sorvete... Todas receitas do livro Nigella Express, que, nas mãos dela, ficam incrivelmente apetitosas.
Esses dias, quase briguei com uma amiga no café por causa da Nigella. Isto é, primeiro preciso explicar que tenho um grupo de discussão: a gente debate e re-debate qualquer assunto. Qualquer um. Somos cinco mulheres e nos encontramos quase todos os dias no café da manhã. Coisa rápida. Mas sempre tem debate. E o acerca da Nigella não tinha nada a ver com comida. A questão era essa moda de bota-sandália, sabe? Dessas que cobrem a canela e deixam os dedos à mostra; cobrem o peito do pé, mas o calcanhar fica de fora. Uma dizia que não existe nada mais brega; a outra insistia que era chique, “até a Nigella usa!”, ela justificou.
Eu estava quieta no meu quadrado, mas resolvi opinar: Peralá, a Nigella pode ser tudo, mas chique ela não é! E aquele cabelo longo durinho de laquê?! Por quê? Por que raios fui questionar o bom gosto da Nigella? O debate pegou fogo! E olha que a gente põe na mesa assuntos cabeludos, negros, longos, mas sugerir que a outra é cafona... A gente fala sobre problemas dos filhos, dificuldade financeira, vida sexual, até falta dela pode entrar em pauta, mas criticar a Nigella...
Jessica Seinfeld tem cabelos lisinhos, sedosos, esvoaçantes. Tudo na vida dela parece perfeito. Três filhos, cabelo bom, marido divertido, rica, sabe cozinhar. Perfeita. Salvo o fato de que ela faz brownie de chocolate com espinafre para obrigar os filhos a comer folhas verde-escuro sem que percebam. Meio estranho, vai? Não é melhor ensinar a comer espinafre refogado com uvas-passas ou fazer o bom e velho creme de espinafre bem grossinho? Sei lá... Eu entendo que, quando as crianças são bem pequeninas, dá um desespero se eles não querem comer nada além de macarrão. E a sra. Seinfeld dá a receita para mães que acham que o filho não come.
O pediatra dos meus filhos tem resposta para tudo. Quando chega uma mãe dizendo que o filho não come, ele pergunta: “E cocô, ele tem feito?”. A mãe responde: “Ah, doutor, todos os dias...” Então está comendo; se não estivesse, não faria. Não é muito boa essa medida? Bom, eu acho. E sou contra ficar forçando filho a comer. Já viu criança de classe média desnutrida?
Voltando aos livros, ainda não falei sobre eles com o meu grupo de discussão. Deliciosos e Disfarçados – Como tornar a alimentação do seu filho saudável sem que ele perceba – é o nome do livro da Jessica. Isso me faz lembrar a história da ar-rrentina que morava em Búzios: “Si xô no digo que soy ar-rrentina, los otros ni percibem, tengo que mostrar mi pass-por-t!” Eu nunca consegui enganar os meus filhos.
Bom, as imagens acima não têm nada a ver com os livros, obviamente. São de um e-mail de uma leitora, que recebi enquanto escrevia este post. Yana faz porta-guardanapos com frutos brasileiros, principalmente do cerrado, catados manualmente por famílias da região. “Com esta matéria-prima, faço também colares de mesa.” COLARES DE MESA! Adorei o trabalho dela. Muito chique. E não é que enfeita mesmo? Com um colar desses na mesa, pode até servir brownie de chocolate com espinafre que eu não reclamo.
>> Postado por Rita Lobo 12:59
Segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Croquete, empadinha e cajuzinho
Era o ano de 1995 quando ganhei da minha mãe Não é Sopa, de Nina Horta. Não por acaso, foi o ano em que o livro foi lançado. Por acaso, foi também o ano em que me formei em gastronomia. Para mim, o livro foi uma revelação: descobri o que eu queria ser-quando-crescer: queria ser a Nina Horta. Mas isso não dá. É pedir demais. Então, decidi que escrever sobre comida seria suficiente.
Logo em seguida, por um desses acasos da vida, passei a escrever para a Revista da Folha e, esporadicamente, para o jornal também. Quer dizer, não foi bem um acaso, foi graças ao meu amigo Matinas Suzuki Jr., por intermédio do Mário Vitor Santos, então editor da Revista. A Nina era colunista do jornal. E acho que, por isso, um dia nos conhecemos. Ela foi mais que simpática, papeou, papeou, e parecia inquieta com uma pergunta. Uma hora ela não resistiu e perguntou: “O que uma moça tão bonita quer fazer na cozinha?” Respondi em pensamento: fique tranqüila, beleza passa. Depois fomos almoçar, nos encontramos aqui e ali e, nos últimos 12 anos, devo tê-la encontrado uma dezena de vezes. No máximo.
Vira e mexe eu mando um oizinho daqui, e ela manda um oizinho de lá. Na semana passada, Nina veio almoçar na minha casa. Uma amiga em comum está tentando nos juntar num projeto que nenhuma das duas tem tempo de fazer, mas a gente vai dar um jeito. No meu caso, claro, só para poder estar mais perto dela.
A amiga em questão é do tipo que passa trote, como eu, aliás. Uma vive tentando pegar a outra. Ela se chama Letícia. Imagine uma gargalhada. Agora transforme essa gargalhada numa pessoa. Pronto, essa é a Letícia. Quando marcamos o almoço, ela me perguntou se precisava levar alguma coisa. Disse fazendo voz e sotaque de italiana do Brás: “quer que eu leve uma bandeja de empadinha ou de croquete?”. E eu respondi: “faz assim, ó: você traz as empadinha e manda a Nina trazer os croquete, mas avisa que eu não tô mais comendo fritura, então os croquete têm de ser assado. Os cajuzinho é por minha conta, tá?”
No dia do almoço, as duas chegaram em casa, não pontualmente, porque isso em São Paulo não existe mais. Nina chegou se desculpando que não deu para trazer os “croquete”, mas trouxe um maço de neen arrancado do jardim da casa dela. Neen é o segredo do brilho dos cabelos de Nina. Eles reluzem. Depois contou que a secretária passou a semana ligando para lembrá-la do diacho da bandeja e que, por mais que ela dissesse que era uma brincadeira, a secretária não acreditava. Dessa vez, quem caiu foi a secretária da Nina, coitadinha!
Passamos o almoço falando de absolutamente tudo, menos do projeto. Marcamos outro encontro. Ou vai ser na casa da Nina ou da Letícia, que tem uma mesa de pingue-pongue em lugar de mesa de jantar. Estou tão ansiosa que já estou até preparando as “coxinha” para o almoço. E vou me esforçar para chegar na hora.
>> Postado por Rita Lobo 18:50
Terça-feira, 08 de julho de 2008
Sopa Thai
Acabo de chegar de Paraty. Mas a Flip não será o assunto hoje. Nem os borrachudos, que tanto, tanto me amam. E, mesmo antes de começar o post, quero que fique claro: não tenho nada contra alemães. Nada. Mas uma alemã que não consegue organizar uma fila é algo curioso. Principalmente quando a fila é a da porta do restaurante dela. (Não, eu não descolei um lugarzinho para comer de joelhos porco com chucrute à beira-mar.) Thai Brasil é o nome do local.
Uma alemã fazendo comida thai em Paraty, por si só, já renderia um bom caldo. Mas o assunto também não é esse. Foi o atendimento de lá que achei realmente peculiar. Estávamos num grupo de dez pessoas. E não havíamos feito reserva, pois o restaurante não aceita. “É só chegar e sentar”, disse a voz do outro lado da linha. Será? Em plena Flip, quando até boteco meia-boca tem espera? Sim, é só chegar e sentar, depois de esperar na porta.
A muvuca era digna. Nada de gente com cara feia. Todo mundo educado, literatos à espera de alguém para escrever seus nomes numa lista de restaurante. Até que um freguês resolveu perguntar ao outro que parecia estar ali há mais tempo: “Quem está anotando a ordem de chegada?” O cliente antigo explicou: “Ninguém. Fique na fila; se vir alguém se levantando, corra, sente e a mesa é sua.”
Não, o sujeito devia estar brincando. Lá fui eu falar com uma garçonête ar-rrentina. Ela confirmou: “É, a chente até tentou organissar a espêra, mas nunca deu certo; quem sentar priméiro é o dono da messa. Vocês podem se organissar lá fora.”
Opa! Daqui para dentro eu organizo, daqui para fora, vocês é que se virem? Resolvido. A cotoveladas, fomos eliminando a freguesia que aguardava na porta. Um por um. Claro que não. Apenas esperamos confiantes. E os outros foram desistindo. Dez minutos depois, uma mesa vagou. Fomos andando até lá e nos sentamos, os dez, numa mesa para quatro. Em pouco tempo, junto com as bebidas, outra mesa e mais algumas cadeiras surgiram para acomodar com conforto o grupo. Afinal, dali para dentro, eles organizavam!
A garçonête ar-rrentina tirou o pedido. Foi fácil. Um prato de cada do cardápio. Salvo a sopinha thai, que parecia ser a favorita de todos. Mas decidimos que apenas três seriam suficientes. Aquele esquema: tudo no centro da mesa, e cada um come um pouquinho. A chente é freguês mas também sabe se organissar.
Tudo gostoso, fresquinho, com direito a ervas plantadas na horta da chef alemã. Curry verde de peixe, curry vermelho de camarão, arroz de jasmim, pad thai, o típico macarrão tailandês. E a clássica sopinha de leite de coco, capim-santo e frango. Como ainda não falei dela aqui? Era sobre a sopa que eu queria falar!
Há tempos não a preparo em casa. No meu extinto restaurante era um hit. Dia sim, dia não, tomava a sopinha. Mesmo assim, continuo achando a combinação de sabores dela surpreendente. É uma dessas receitas que, à primeira vista, podem parecer estranhas. Especialmente para alguém sem intimidade com comida tailandesa. Vale a pena experimentar. É uma excelente opção de entrada num jantarzinho entre amigos. Vamos à receita.
Sopa Thai
Para quatro pessoas você vai usar:
600 ml de caldo de galinha
2 saquinhos de chá de erva-cidreira (melhor ainda se usar capim-santo fresco)
400 ml de leite de coco
200 g de filé de frango cortado em cubinhos
1/2 xícara (chá) de cogumelos-de-paris cortados em fatias
1 pimenta dedo-de-moça
1 colher (sopa) de gengibre picado ou ralado
1/4 xícara (chá) de suco de limão
1 colher (sopa) de nampla (molho de peixe)
1 talo de cebolinha cortado em rodelinhas
10 folhas de coentro rasgadas com as mãos
Modo de preparo
1. Leve ao fogo alto uma panela média com o caldo de galinha (se for em cubinho, use apenas um). Quando ferver, junte os saquinhos de chá, ou a erva fresca, desligue o fogo e tampe a panela.
2. Corte os ingredientes conforme pedidos na receita. Frango em cubinhos, cogumelos em fatias etc. Atenção para a pimenta: corte na metade, no sentido do comprimento; com a ponta da faca, raspe as sementes e descarte; corte as metades em tirinhas finas, na diagonal. (As sementinhas em contato com a pele podem causar queimaduras, por isso, em seguida, lave bem as mãos e os utensílios usados.)
3. Retire os saquinhos de chá da panela, acrescente o leite de coco, o gengibre e ligue o fogo alto. Assim que ferver, abaixe o fogo para médio, junte os cubinhos de frango, os cogumelos, a pimenta, e deixe cozinhar por 5 minutos. Por último, acrescente o nampla. O suco de limão e as ervas frescas (cebolinha e coentro) são acrescentados na hora de servir. Sirva bem quente.
Sobre o nampla
É um molho de peixe fermentado, de aroma forte. Resultante do cozimento de anchovas e temperos diversos, o nampla está para a cozinha tailandesa como o shoyu está para a japonesa. Usado em praticamente todos os pratos, ele substitui o sal. É encontrado em lojas especializadas em produtos orientais.
A pergunta óbvia: dá para fazer a sopa sem nampla? Claro que dá, mas não fica a mesma coisa. Mas, pelo menos, você não será atacado por borrachudos nem vai ficar esperando em pé na porta da cozinha até a mesa vagar!
>> Postado por Rita Lobo 01:34
22 de junho de 2008
Pensamento derretido
Não tenho escrito muito sobre o prazer de cozinhar. Este é o assunto de hoje. De cozinhar e de comer. E vai ser fácil. O ingrediente é chocolate.
Na semana passada, uma amiga me pediu para ajudá-la a fazer um almoço para 15 pessoas. Era coisa rápida. Uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Para mim, a sobremesa. Eu adoro a musse de chocolate preto e branco aqui do site. Não me lembro de ter comido musse melhor. E decidi prepará-la no dia anterior. (Ela fica melhor dormida na geladeira.)
Tarde da noite, lá fui eu para a cozinha. Banho-maria para derreter o chocolate, uma dúzia de gemas na batedeira formavam uma gemada cremosa, xícaras e colheres para não errar a medida dos ingredientes, que foram multiplicados por três. Salvo o conhaque, um pouco mais generoso. Noite fria, casa já silenciosa, crianças dormindo, a babá fechada no quarto dela para se concentrar na trama da novela. (Aliás, agora eu também tenho a minha novela: é a série diária Em Terapia, que passa na HBO, mas isso é assunto para outra hora. Não perdi um episódio sequer, acredita?)
A receita não é difícil, mas requer alguma destreza. E suja várias tigelas, espátula, batedor, batedeira... Basicamente, é preciso fazer uma gemada, derreter chocolate meio amargo, bater creme de leite e parar antes de virar chantilly, derreter manteiga e misturar com cacau em pó e com conhaque (tomar um golinho de conhaque, na minha opinião, também faz parte do preparo), fazer um pouco de raspas e muitos cubinhos de chocolate branco e, depois, misturar tudo. Na minha casa, não é receita para o dia-a-dia. Definitivamente. Frutas e olhe lá.
Transferi a mistura para um tigelão de vidro e coloquei na geladeira. Fechei a porta, virei para a bancada e vi que ela estava rindo da minha cara. Nem era muita bagunça, mas ela sabe que sempre tem alguém para me auxiliar. Não era o caso. E a bancada gargalhava. Achou que eu não saberia deixar a cozinha brilhando novamente. Tola.
Primeiro a tigela onde os ingredientes foram misturados. Uma espátula e, lentamente, fui lambendo todo o resto de musse que consegui. As pás da batedeira, a panela do banho-maria, a tábua e a faca que cortou o chocolate, todo mundo para o banho, com a mesma firmeza que falo com os meus filhos. Bucha na mão, detergente e, item por item, fui lavando confiante os utensílios que me ajudaram no preparo da musse.
À medida que a água da torneira escorria, os pensamentos iam se soltando do meu corpo, concentrado na limpeza. Palavras, pessoas, conexões, idéias, personagens, tudo fluía, feito chocolate derretido. O cansaço do dia deu lugar à leveza do raciocínio solto. Pensei na Noélia, cozinheira de casa: o que será que passa pela cabeça dela quando está na frente da pia?
Pano úmido no chão, guardei o rodo e coloquei a chaleira no fogo. Uma ducha rápida e eu estava pronta para dormir. Acabei não falando exatamente do prazer de cozinhar. Ou de comer. Mas limpar bagunça de chocolate também é bom. E a musse é um sucesso.
>> Postado por Rita Lobo 01:00
Quinta-feira, 05 de junho de 2008
Bela Helena
A nutricionista Marcia Daskal falou sobre os alimentos afrodisíacos no blog Vitaminado. E eu fiquei pensando sobre o assunto. Quer dizer, veja bem, não que qualquer um de nós precise disso, não é mesmo? Mas falando sério, acho, de verdade, alguns sabores são mais sensuais que outros.
Eu me lembro direitinho do meu primeiro beijo. Estava apaixonada por um garoto da minha classe, mas, óbvio, não tinha coragem nem de falar com ele. Nas férias, fomos para um acampamento, e o auge era dançar música lenta, coladinho. O rosto coladinho, o corpo bem separadinho. Naquele tempo era assim, uai. E a trilha sonora tinha Kenny Rogers cantando You And I. (Ai, que vergonha!) O garoto me tirou para dançar, mas nada de beijinho. Nenhum dos dois teve coragem. Foi na volta do acampamento que nos despedimos com um beijo na boca. Nem sei quem beijou quem. Os dois ficaram surpresos. Coração na boca. E o garoto tinha gosto de pêra. Meu primeiro beijo teve gosto de pêra.
Pronto, pêra tem gosto de beijo para mim. Mas não vale na salada, fatiada, com queijo roquefort e nozes. Tem que ser uma pêra comida na mão, roubada da fruteira da cozinha, em temperatura ambiente. Pêra saída da geladeira também não tem graça. Nem suco de pêra. Mas Poire Belle Hélène, aquela sobremesa do tempo do onça, que cobre com calda de chocolate peras cozidas, é sexy até não poder mais. O que poderia ser mais sensual? Pêra, a fruta que Eva ofereceu a Adão – ah, você acredita mesmo que uma maçã fez o que fez? – e chocolate, que, até hoje, enlouquece mulheres sãs.
Para deixar a sobremesa afrodisíaca, o ingrediente secreto é prepará-la a quatro mãos. Já pensou? Ela descasca duas peras, e fica perfumada com o líquido que escorre da fruta. Numa panela, ele coloca vinho branco, anis-estrelado, canela em pau, cravo e até uma pitada de pimenta-do-reino. Os dois tomam um gole do vinho da mesma taça e acomodam as peras na panela. Ele beija as mãos dela, que estão com gosto de pêra. Ela completa a panela com água e leva ao fogo para ferver.
Enquanto isso, tudo acontece. Mas a calda precisa ser feita. As mãos vão quebrando o chocolate numa tigelinha, que se encaixa na panela onde as peras estão cozinhando. Um banho-maria perfeito. Um pouco de creme de leite fresco e, aos poucos, os dois ingredientes vão aquecendo e se fundindo, até ganharem uma nova forma, de calda de chocolate densa, que perfuma a cozinha e a boca do casal. Quem resiste? Um dedo passa pelo chocolate e rouba um pouco da calda que ainda nem ficou pronta.
Ela quer intensificar os sabores e rega um fio de conhaque na tigela. Agora sim, está pronta. Mas a pêra ainda precisa de alguns minutos para terminar o cozimento. Eles observam a fervura e planejam o futuro, mesmo que seja o próximo minuto. Naquele momento, os pensamentos combinam tão bem quanto o sabor do chocolate e da pêra. Ele desliga o fogo, ela retira a fruta fervendo da panela. Ele rega um pouco de calda sobre ela, a pêra. Eles comem a sobremesa mais afrodisíaca de todos os tempos. Uma sobremesa feita a quatro mãos.
>> Postado por Rita Lobo 10:32
Segunda-feira, 02 de junho de 2008
Ovo mítico
A janela da minha casa ganhou vida própria: despencou no meu dedo, só porque eu quis fechá-la. A dor levou alguns instantes para chegar, mas o hematoma foi imediato. Um hematoma instantâneo, já viu? No pronto-socorro, as chapas informaram que não havia fratura. Mesmo assim, o médico quis colocar uma tala para proteger o machucado de um aperto de mão desavisado, um esbarrão, ou de qualquer outra janela espertinha que não me queira bem. Antes, porém, ele insistiu em escoar um pouco do sangue pisado. Era só fazer um pequeno furo na unha.
Ai, ai , ai, doutor, precisa mesmo? Precisar, não precisava. Mas iria aliviar. E para aliviar, tudo é válido. Vamos lá. Furinho na unha, sangue preto para fora. Eu deitada na maca, como se fosse uma paciente prestes a ser internada. É que tenho horror a sangue. Avisei que, se ficasse sentada, poderia desmaiar. E não seria a primeira vez.
Semanas depois, a dor do trauma foi dando lugar ao incômodo das pedrinhas de sangue solidificado entre a carne e a unha. No escritório, o trabalho parecia atravancado. É que a cada dois minutos espiava por debaixo da unha. Já podia ver o sangue duro querendo sair. Num ato impensado, peguei um clip, torci a ponta e, meticulosamente, fui extraindo todo o sangue pisado que repousava por ali.
À medida que as bolinhas iam saindo, sentia uma certa moleza invadindo o meu corpo. Repetia para mim mesma: “Sou de uma família de médicos, sou de uma família de médicos, não posso desmaiar com sangue pisado.” Tirei aquele sangue morto de dentro de mim.
No fim de semana, fui almoçar com meus filhos no clube. A comida lá não tem nada de especial, mas o picadinho é uma exceção. E, para a nossa sorte, era dia da especialidade. No bufê, arroz branco, farofa, banana à milanesa e ovo poché para acompanhar. Este último é um mistério culinário para mim.
Simplesmente não consigo fazer ovo poché. Aliás, café também não. Meu café é horroroso. Pode ser o melhor pó, uma máquina que só precisa apertar o botão. Se eu colocar a mão, o café fica com gosto de queimado. E ovo poché, fora uma ou outra vez na escola, em que fui obrigada, nunca mais consegui fazer. Um mistério. Sei explicar a técnica e até ensinar alguém a fazer. Vai ver que é uma síndrome de patroa que baixa em mim, sei lá. Deixei que ele se tornasse um preparo mítico. Desisti de fazer ovo poché.
Fiz o meu prato: picadinho, arroz e farofa; por cima de tudo, um glorioso ovo, branquinho por fora, com jeito de mussarela de búfala. Para os meus filhos, a mesma coisa, mas sem o ovo. Não sei bem por quê, talvez por medo da gema crua. Mesmo assim, na hora de comer, chamei a atenção deles: “Vejam que lindo o que vai acontecer”. Furei o ovo, e a gema brilhante escorreu pelo prato, tingindo de dourado grãos de arroz, pedacinhos de carne e flocos de farofa, como se fosse um sangue amarelo.
Olhei para as minhas mãos, que agora vivem com as unhas pintadas de preto, e não pude deixar de pensar: será que se a gema fosse vermelha eu teria caído dura? Até temperatura de sangue ela tem.
Gabriel fixou os olhos no meu prato: “Eu também quero esse ovo mole.” Fui ao bufê e voltei com um novinho, pronto para levar uma facada. Cheio de prazer, meu filho furou o ovo, deixou a gema escorrer, passou a colher no prato e, pela primeira vez, levou à boca aquele ovo com sabor de novidade.
Não achei que fosse gostar, mas ele raspou o tacho. Senti um certo prazer. Ele é sangue do meu sangue, gosta de ovo poché! Que besteira, pena que não dá para tirar esses pensamentos materno-narcisísticos com a ponta de um clip. Se bem que estou pensando seriamente em aprender, de uma vez por todas, a fazer um mítico ovo poché.
Com torrada e caviar, o dia está ganho. Numa Caesar, dá à salada ares de prato principal. Sobre english muffins, salmão defumado e regado com molho holandês, Paris nunca mais foi a mesma. (São os ovos benedicts do Coffee Parisien.) Aqui no Panelinha tem a receita clássica, com presunto.
No site da Delia, a Ofélia inglesa, tem o passo-a-passo com o insuperável jeito de explicar da melhor autora culinária de todos os tempos. Em Delicious Days, blog que não sai da seção Panelinha indica, tem um truque para pessoas como eu: ele é cozido dentro de um saquinho plástico. Martha Stewart
tem no blog dela um receita de poached eggs sobre poached fish, uma coisa meio variações sobre o mesmo tema, mas deve ser bom. No You Tube, Gordon Ramsey, com todo o seu carisma-para-inglês-ver, ensina o método clássico num vídeo moderninho.
>> Postado por Rita Lobo 23:05
18 de maio de 2008
Blueberry Curry
Há mais de uma década, comprei um CD de Ravi Shankar. Às vezes, gosto de escutá-lo depois do jantar, como se fosse um digestivo, uma Averna ou um vinho do Porto. Mas há dias em que o som da cítara me enerva. Fico tão irritada que mando o CD de volta para a caixinha. Os meses se passam, até que tenho vontade de ouvir um pouco de música indiana de novo. E assim tem sido nos últimos dez anos.
Há tempos não tinha vontade de comer curry. Aliás, a minha última ida a um restaurante indiano virou um post aqui no blog. (Por curiosidade, verifiquei e faz exatamente um ano.) Ontem à noite, fiquei louca por um prato à base de curry.
Muita gente foi assistir à My Blueberry Nights e saiu do cinema com vontade de comer uma fatia de torta de mirtilo, na esperança de ter um beijo roubado por Jude Law. Bem, não que eu também não queira a minha fatia, mas saí com outra idéia fixa: queria uma boa refeição indiana. Voto vencido. Eu deveria ter comentado, antes de o filme começar, que acho Norah Jones, ou Geethali Norah Jones Shankar, a cara do pai, Ravi Shankar. Deu para entender a conexão? Juro que não tem nada a ver com Bollywood, apesar de a atriz principal ser cantora e participar da trilha sonora do filme.
Depois de duas horas assistindo à Norah Jones e lembrando de Ravi Shankar, meu apetite só tinha olhos para um chapati fumegante, um prato à base de curry polvilhado com coco ralado fresquinho, um kulfi de manga bem amarelo. Vejo uma coisa, lembro de outra, e lá vem um desejo de comer algo que, aparentemente, não tem ligação com nada. Mas é só procurar que tem. Sempre tem. (Acho que o meu apetite pensa que é analisado.)
No dia seguinte, porém – calma! não comi nada com curry no café da manhã –, fui a um brunch e dei de cara com um bolo lindo, bem caseiro, assado em fôrma de bolo inglês. Pedi uma fatia ao garçom antes mesmo de perguntar do que era. Sim, era de blueberry. E era gostoso. Mas não era uma torta. E o dono do café também não é parecido com o Jude Law.
* Se quiser ouvir um pouco de Ravi Shankar, clique no vídeo abaixo. E se o seu apetite também se animar com sabores indianos, veja no site da BBC mais de 50 receitas de Madhur Jaffrey, atriz nascida em Nova Déli e que ficou famosa no Reino Unido com seus apetitosos programas de culinária indiana. Já a receita da torta de blueberry, não vale a pena se iludir: aquele beijo, só em filme.
* Se quiser ouvir um pouco de Ravi Shankar, clique no vídeo abaixo. E se o seu apetite também se animar com sabores indianos, veja no site da BBC mais de 50 receitas de Madhur Jaffrey, atriz nascida em Nova Déli e que ficou famosa no Reino Unido com seus apetitosos programas de culinária indiana. Já a receita da torta de blueberry, não vale a pena se iludir: aquele beijo, só em filme.
>> Postado por Rita Lobo 22:24
Quarta-feira, 07 de maio de 2008
Mãe interior
Não sei se isso acontece com você ou só com pessoas obsessivas como eu, mas, às vezes, umas frases grudam na minha cabeça. Enquanto não escrevo, elas não param de me azucrinar. Por sorte, o Dia das Mães está aí e, portanto, este post nem vai ficar tão descabido. Tem a ver com ser mãe. Mas não dos filhos... Para não ficar muito confuso, preciso explicar a origem.
Uma vez a cada dois meses, faço massagem. Mas não é uma massagem qualquer. É uma dessas que doem, mexem no corpo e na alma, e botam a gente para pensar. Sabe como é? Bom, na última, a massagista, que, logicamente, é meio bruxa, me disse a seguinte frase: “Seja para você mesma a mãe que você gostaria de ter”.
A frase causou impacto. Aliás, causou. Adoro essa gíria. A frase causou. Mas, aparentemente, só para mim. Cheguei ao escritório, repeti o mantra com ares de quem vai revelar o segredo da vida, e nada. Não repercutiu. Ninguém fez cara de “tive um insight”. Fiquei quieta, mas a frase não parou de falar. E, usando uma lógica bem portuguesa, se ela não se aquietou, é porque eu não devo estar sendo uma boa mãe para mim mesma. Não, não é bem isso. Acho que eu não sei o que é ser mãe de si próprio. Nem tenho certeza se isso é possível. Não será apenas uma imagem psicanalítica para confundir as mães de verdade?
Não sei. Estou ficando ainda mais confusa. Acho que vou ligar para minha mãe. Ainda sobre mães. Acabei não falando mais sobre as nossas receitas de biscoitos testadas especialmente para o dia delas. (Ou nosso.) A idéia é tentar disfarçar o lado comercial da data colocando a mão na massa. Então, são seis opções de presentinhos. Todos escolhidos por algum motivo.
Os clássicos palmiers, por exemplo, são muito, muito fáceis de fazer, se você comprar a massa pronta (e não conte para ninguém que a massa folheada não foi feita em casa). Eles duram muito tempo se mantidos em um recipiente hermeticamente fechado. E, também, lembram um coração. Não é bonitinho chegar na casa da sua mãe com uma caixinha recheada por palmiers feitos por você?
Os macarons são mais elaborados. Não são a melhor opção para quem nunca colocou o pé na cozinha. Mas é uma receita para quem gosta de cozinhar e que vai se divertir testando diferentes tons para cada fornada. O biscoitinho bicolor
é o mais aromático de todos. Antes mesmo de ir ao forno, a cozinha já está perfumada pelo cacau em pó.
Os cookies de laranja banhados em chocolate têm uma combinação clássica de sabores, mas na boca é surpreendente. O modo de preparo das tuilles faz a gente se sentir como cozinheiras de antigamente. Elas saem do forno e repousam sobre o rolo de macarrão para ganhar o formato de telha.
Quem gostava de brincar de massinha quando era criança vai adorar os biscoitos 1, 2, 3. Farinha, açúcar e manteiga na tigela. Amassa, amassa até fazer uma bolota. Depois, enrolar até formar cobrinhas, cortar os biscoitinhos, marcar com garfo e levar para assar.
Acho que no sábado vou preparar todos eles para mim mesma. Vou causar com os meus biscoitinhos e, quem sabe, descubro dentro de mim a mãe que eu gostaria de ter.
>> Postado por Rita Lobo 13:32
Segunda-feira, 05 de maio de 2008
Sabores da fazenda
Minha avó Maria Rita nasceu numa fazenda em Queluz, cidade na divisa do Estado de São Paulo com o Rio de Janeiro. Por sorte, veio para a capital paulista ainda pequena. (Sorte porque, se não tivesse vindo para cá, ela não teria conhecido meu avô Lobo, e meu pai não teria nascido, logo, eu também não.) Por outro lado, junto com a mudança da família Nogueira Garcez (este é o sobrenome da minha avó) veio para a cidade a minha única chance de ter alguma ligação com a terra.
Pensando bem, talvez seja exatamente este o motivo pelo qual eu goste tanto de fazenda, como se brotasse em mim uma saudade de algo que eu não vivi. Para mim, o campo é sempre mágico, inspirador. A mente corre solta. “Avoa”. Os dias ficam com gosto de sonho. Sabe aquela pergunta típica de começo de namoro: “você gosta mais de praia ou de campo?” Pois é, mesmo gostando de praia, eu sou “de campo”. (Tenho uma tia que vive dizendo que adora cheiro de cocô de cavalo. Eu não chego a tanto.)
Fui passar o feriado numa fazenda próxima à Fazenda Pinhal. Há anos a Sofia, herdeira do local, me fala para visitá-la. A propriedade foi tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e, depois de muita restauração, aliás, primorosa, foi transformada em um pequeno hotel, que faz parte da Associação Roteiros do Charme. Resolvi almoçar lá.
Quase caí para trás. Há tempos não via um lugar tão esplendoroso. Os jardins, o pomar, as ruas de musgo, as alamedas de jabuticabeiras, o túnel de primaveras. Uma cidade utópica esculpida na mata nativa, há mais de um século, pela Condessa do Pinhal, tataravó da Sofia. A arquitetura cafeeira, os móveis de época, os quadros do Império, há tanto para falar sobre a Fazenda. Mas é sobre o livro que eu quero contar. Ou melhor, sobre as receitas dele.
Não sei muito bem o que eu estava fazendo em 2005 que não comprei, logo no lançamento, Fazenda do Pinhal, Caderno de receitas e histórias de família. Mas, de certa forma, foi bom. A leitura fica ainda mais saborosa depois de ter conhecido o lugar. “Num grande caderno, escrito à mão, os amigos foram deixando as suas receitas preferidas”, conta Helena Carvalhosa, autora do livro, mãe da Sofia e bisneta da Condessa do Pinhal.
Confesso que, para mim, é um exercício ler receitas sem ir formatando na cabeça. Faço isso há mais de uma década! “Bata todos os ingredientes e leve para assar.” Penso: bata como? Na batedeira, à mão, com fouet, com colher, com garfo? Qual a assadeira? Retangular, uma fôrma redonda, com furo, sem, untada, polvilhada? Sempre me coloco no lugar de quem não sabe cozinhar. Mas, neste caso, exatamente por não ter um padrão – dá para ouvir cada um dando a sua receita – o livro ficou tão interessante. Não é um livro para aprender a cozinhar. É um livro para quem gosta de cozinhar.
São umas duzentas receitas. Tem de tudo. Clássicos, invenções, comida de dia-a-dia, pratos especiais. Tudo parece saboroso. Comida com bom gosto. E cada um dá a receita do seu jeito. Na sopa de beterraba, deixada no caderno por Melanie Farkas, não há a quantidade dos ingredientes. Mas tem o preparo e dicas ótimas: “na hora de servir, colocar duas gemas cruas; sem a carne (músculo), juntar creme de leite azedo; em vez de ralar a beterraba, peneirar tudo e colocar dill (endro) e creme na hora de servir.”
Arroz à moda árabe, asa de galinha chinesa, bitel tonel, camarões grelhados, carne assada com molho ferrugem, ceviche, coalhada, frango com maracujá, guacamole, pão sueco, pesto, peixe assado, picadinho, picanha, vaca atolada, vatapá, caldo verde, sopa de abacate, rocambole de chocolate, rosquinhas... Fiquei tão animada com as receitas que acabei nem falando que o livro é um capricho só: papel, formato, fotos, ilustrações, projeto gráfico. Mas, na minha opinião, este “caderno de receitas” da Fazenda Pinhal tem a maior qualidade que um livro de receitas pode ter: dá vontade de ir para a cozinha. Se bem que, fiquei mesmo é com vontade de passar uma longa temporada na Fazenda. Quem sabe nas férias.
>> Postado por Rita Lobo 09:39
Quarta-feira, 23 de abril de 2008
23 de Abril
Quando eu era pequena, ficava fascinada com o ritual noturno de beleza da minha mãe. Um creme para limpar a pele, careta para retirar a maquiagem da parte de baixo dos olhos, água para enxaguar. Algodãozinho com tônico, creme no rosto e pescoço, movimentos circulares. Um pinguinho de creme na ponta do dedo anular para passar ao redor dos olhos. Delicadamente.
Às vezes, me olho no espelho e vejo a minha mãe. A mesma careta, o mesmo jeito de espalhar os cremes. O mesmo ritual antes de dormir. Queria ter o nariz igual ao dela, uma pintura de Modigliani. Acho que, com o passar dos tempos, está ficando mais parecido.
Muitas vezes faço de tudo para não ficar parecida com ela, como se a adolescência nunca terminasse. Mas há coisas que, se eu pudesse, faria igualzinho a ela. Olho para a minha filha e sinto um amor tão forte que chega a doer. Um aperto no peito. Tento imaginar se um dia passa. Muda. Diminui. Fico pensando se a minha mãe sente o mesmo por mim.
Ela pensa que eu não tenho medo de nada. Ela não sabe que eu prefiro nem pensar em como a vida é frágil. Nem pensar. Só de pensar morro de medo. Como todas as mães.
Não era nada disso que eu iria escrever, era para contar que, logo mais, vamos começar a falar de Dia das Mães. A Iná, do blog Aprendiz de cozinheiro, escreveu um texto lindo, lindo sobre sabores de infância. Mas ainda não entrou no ar. A Andrea Kaufmann, para finalizar a série de Pessach, acabou falando sobre ser mãe judia. Eu ainda não comecei a escrever nada, mas já testamos novas receitas para a data.
Estou pensando o dia todo na minha mãe. É o aniversário dela. E, sei lá por que, falo para todo mundo que encontro. Até para quem não a conhece.
Saí com a Dora, minha filha, para comprar o presente da vovó Beth. Dois passos e encontramos com a Dahoui, chef do restaurante À Cote. Ela está com viagem marcada para Israel. Nunca foi. Está animadíssima. Mas Noáh, a filhota, vai ficar. E hoje é aniversário dela, da pequena. “Da minha mãe também!”
Mais dois passos e lá vem o elegantérrimo Salvatore Loi, empurrando o carrinho da filha, que já tem três dentes! Ele é chef do Grupo Fasano. Conta sobre as novidades, os novos empreendimentos. Digo que é aniversário da minha mãe. Ele fala sobre a avó que tinha 1,30 metro de altura.
É fim de tarde e os chefs estão passeando pelos Jardins. Pais e mães com seus filhos, que ainda têm a vida toda para descobrir os sabores da vida. Quem sabe, no futuro, eles enxerguem neles um pouco de nós e sintam o delicado conforto de saber de onde eles vêm. Quem sabe...
>> Postado por Rita Lobo 20:25
Quinta-feira, 17 de abril de 2008
Brigadeiro da moda
Na minha infância, brigadeiro era feito com uma lata de leite condensado, uma colher de manteiga e duas de achocolatado. Panela, colher de pau, uns bons minutos mexendo em fogo médio e outros esperando esfriar, o suficiente para não queimar a língua. Mas, de todo modo, a gente acabava se queimando.
Meu filho Gabriel fez 6 anos ontem. Queria porque queria uma festa no bufê. Não entende por que “todos” os amiguinhos já tiveram seu dia de glória entre coxinhas, bolinhas de queijo, minipizza e outros salgadinhos, que só de pensar me causam arrepio. (Coxinha, minha gente, não dá! So sorry. Minha enteada diz que fica deprimida só de ver alguém na padaria pedindo coxinha. Para ela, não dá para entender o gosto por esse salgadinho: “não é entrada, não é prato principal, não é sobremesa, não serve para o café da manhã, não é lanchinho, não é nada. E ainda é ruim.” E, na minha opinião, ela tem razão.)
Resolvi dizer que eu mesma nunca tive uma festa num bufê. “Mas, mãe, quando você era criança não tinha aniversário?” Expliquei que minha mãe passava a manhã arrumando o salão de festas, comprava sucos, a empregada fazia sanduichinhos, bolo e, todos juntos, enrolávamos centenas de brigadeiros.
Ele ficou fascinado. Decidimos fazer uma festinha para enrolar brigadeiros. Convidamos apenas parentes e amigos bem próximos. Era uma espécie de happy hour infantil. Bolo para as crianças, champanhe para os adultos. Mas não sem antes servir um jantar: crianças à mesa, adultos espalhados pela casa. Na seqüência, bolo e brigadeiro para todos.
Por algum motivo, em vez de fazer o brigadeiro de sempre, desta vez resolvi fazer outra receita. Foram duas latas de leite condensando, uma lata de leite, três colheres de manteiga, duas de chocolate em pó. Demora mais para dar o ponto. Mas vale cada minuto. É o melhor brigadeiro que já comi na vida. A receita da infância virou passado. Mas as festinhas de antigamente viraram moda aqui em casa.
>> Postado por Rita Lobo 20:53
Segunda-feira, 14 de abril de 2008
Peixe fora d'água
De repente, só ouço falar em autonomia. Minha filha, Dora, tem apenas 3 anos. Mas desde a primeira reunião de pais e mestres na escola, autonomia é palavra-chave. Autonomia para cá, autonomia para lá. E, confesso que, no começo, fiquei um pouco chocada. Gabriel vai fazer 6 anos. Tudo bem. Autonomia é mais que bem-vinda. Mas será que esse tanto de autonomia para um criança de 3 anos é mesmo positiva?
Deve ser. Então, nós, pais, aprendemos na escola que devemos incentivar que os filhos façam tudo o que eles podem sozinhos: comer, tomar banho, se secar, se trocar... E eles também são ensinados que só devem pedir ajuda em última instância.
E, de fato, é muito bom para os pais não ter que dar comida na boca dos filhos, especialmente no domingo à noite, depois de uma tarde correndo no parque. O que acontece com a energia dessas crianças que, simplesmente, não acaba? Eu sempre fico sem saber o fim da história dos livrinhos que leio para eles. Muito antes da última página eu já estou dormindo.
Mas back to the cold cow (lembra daquele livro que traduzia expressões intraduzíveis?), autonomia, às vezes, também pode ser um problema. Dora não aceita mais ajuda para se vestir. O problema é que ela ainda não sabe se vestir. E não estou me referindo à combinação de cores, estilos, e de forma alguma estou insinuando que minha filha não tenha gosto! Muito pelo contrário. Ela escolhe sempre roupas fofas e nunca corre o risco de errar: tudo é rosa, e se não for, ela não usa.
A questão aqui é que são 10 minutos para colocar a meia, mais 10 para colocar a calça, uns 20 para vestir a blusa. Até que ela lembra que blusa é o item mais difícil e aprendeu que pode pedir ajuda. E lá se foram aqueles 40 minutos que nós duas poderíamos usar para dormir mais um pouquinho pela manhã... E, de qualquer maneira, não conheço ninguém com a minha idade que não consiga se trocar sozinho. Precisa aprender tudo com 3 anos?
Está bem, vou contar a verdade: eu adoro dar banho nos meus filhos, secá-los, trocá-los, dormir com eles na minha cama. Vivo reclamando que eles não querem voltar para a minha barriga, brinco que eles são bebezinhos e, de vez em quando, ainda canto nana neném na hora de dormir. Mas não teria coragem de falar isso a menos de dez quarteirões da escola. Estou me sentindo uma mãe autônoma. Um peixe nadando contra a maré.
>> Postado por Rita Lobo 17:49
Quinta-feira, 10 de abril de 2008
Café estrelado
Já escrevi várias vezes sobre o meu vício por café. Mais especificamente pelo café Suplicy. De manhã, antes de levar meus filhos à escola, em casa, tomo café da manhã sem café. Suco, pão, banana e, às vezes, ovo. E, diariamente, faço meu pitstop no Suplicy antes de ir para o escritório. Até tomo café em outros lugares. Mas não gosto.
O dono do café, Marco Suplicy, não chega a ser meu amigo. Mas depois de tanto tempo tomando café sob o mesmo teto, criamos alguma intimidade. Hoje, assim que cheguei, Marco me disse que ele tinha acabado de sair. Ele? Ele quem?, perguntei.
- Até disse para ele te esperar... – disse Marco com um certo ar de suspense e um sorrisinho no canto da boca.
Por um segundo duvidei de mim mesma e tive certeza de ter perdido algum compromisso importante, marcado com semanas de antecedência. Fiz um esforço. Nada. Nadica de nada rings a bell.
- Marco, quem veio aqui hoje cedo? – perguntei com um tom um pouco mais sério que o normal.
Era Pierce Brosnan. Saiu publicado por aí que ele veio gravar o comercial de um carro, que está hospedado no Emiliano e que foi jantar no D.O.M., do Alex Atala. Imaginei que seria divertido escrever um post contando que, logo pela manhã, esbarrei com o 007, ou melhor, com Thomas Crown, e que ficamos de papo, numa conversa informal, como dois velhos freqüentadores do mesmo café.
Combinei com Marco que, se alguém perguntasse, ele iria confirmar que me viu papeando com Pierce Brosnan. Ele caiu na risada e respondeu que confirmaria, mas, antes, eu teria que confirmar que ele foi ao Suplicy.
Era tudo mentira! Ai, mas que lorota boa. E eu caí direitinho. A verdade é que Marco cruzou com ele andando na rua e desejou tão intensamente que ele tivesse tomado um cafezinho no seu estabelecimento que eu nem duvidei da história. Infelizmente, ele não foi ao café hoje. Melhor assim, não preciso ficar pensando sobre o que eu não disse a ele. Até porque, não teria nada para falar.
Esse café fofíssimo da foto, com Saturno e estrelas, não foi feito no Suplicy. Mas achei que ilustra bem o sentimento de que um bom café pode fazer a gente viajar. Não é, Marco? Agora o melhor da história. Uma amiga me contou que cruzou com ele, a poucos quarteirões dali, tomando café da manhã no Le vin. Será verdade?
>> Postado por Rita Lobo 17:09
Quinta-feira, 03 de abril de 2008
Paladar educado
Hoje pela manhã subi na balança e me dei conta de que continuo com o mesmo peso de oito anos atrás. E antes que você pense que este post trata-se de um golpe baixo, e que quero convencer você de que o Panelinha não engorda, vou logo avisando que este site não emagrece. Mas não pude deixar de pensar que a minha alimentação e também as receitas aprovadas pelo Panelinha foram ficando cada vez mais saudáveis.
Sou filha de pais magros, mas durante o período do curso de gastronomia, que fiz em Nova York, engordei 6 quilos em menos de seis meses. Isso prova que mesmo o metabolismo de uma pessoa sem “tendência” a engordar não agüenta excessos constantes. Até meus dedos ficaram inchados! Mas juro que não estou cuspindo nos pratos que comi. Todos eles foram importantes para a formação do meu paladar. Posso dizer que, durante aquele ano, comi tudo, mas tudo que tive vontade. Aperitivo, entrada, prato principal, sobremesa, cafezinho. E grappa de vez em quando. Ah, os vinhos...
Naquela época, o meu interesse era apenas um: sabor. Na hora de comer, e também de cozinhar. Se com bacon a comida fica mais saborosa, por que não? Mas os anos foram se passando, os filhos vieram, e comida deixou de ser fonte de prazer, apenas, e virou fonte de saúde. Sem abrir mão do sabor, claro.
Os croissants deram lugar a uma saborosíssima variedade de pães integrais, com linhaça, com gergelim, até focaccia. As saladas de grãos começaram a brotar no cardápio da minha casa. Muita lentilha, grão-de-bico, feijão de todos os tipos. E, naturalmente, as receitas do Panelinha também foram ficando mais saudáveis.
A verdade é que a educação do paladar nunca se conclui. E tudo passa pela consciência, pela razão. Fazemos escolhas, e o paladar acompanha. Ou, pelo menos, é assim que deveria ser. Hoje, acho que um paladar culto não é aquele que prefere ostras à salmão. Aliás, sinceramente, acho muito mais importante saber apreciar integralmente uma fatia de abacate que uma barra de chocolate de origem.
>> Postado por Rita Lobo 11:54
Segunda-feira, 31 de março de 2008
Dia da Mentira
Só para brincar, decidimos aproveitar este 1º de abril para falar umas mentirinhas na home page do site. Então, bolo de chocolate não engorda, pizza também não, goulash fica pronto em 5 minutos e crianças vão adorar a nossa receita de tofu com gengibre ralado. Se bem que, esta última, tenho lá minhas dúvidas se é mesmo mentira.
No sábado passado, meu irmão deu um pulo em casa antes de ir ao Cirque du Soleil. Na hora de sair, receoso de magoar meus filhos, que provavelmente iriam gostar do programa, decidiu dizer que estava indo à ópera. Óbvio que as crianças não iriam querer assistir a uma ópera! “Mas, mamãe, o que é ópera?”
Achei mais fácil colocar um CD do que tentar explicar. Peguei uma dessas coletâneas de árias famosas interpretadas por grandes cantores. Box at The Opera Anthology é o nome dela. Escolhi um dos três CDs aleatoriamente, coloquei no aparelho de som e meu irmão saiu de fininho.
Meus filhos ficaram quietinhos por alguns instantes. “Que língua eles estão falando?”, foi a primeira pergunta. Era italiano. Gabriel queria saber se havia alguma ópera em inglês e por que aquela era em italiano. E, assim de bate e pronto, respondi que achava que era Verdi. Ele ficou com o olhar fixo em mim, esperando uma resposta melhor. Dora, no auge da sabedoria de uma criança de 3 anos, interveio: “Gabriel, Ver-di, a-ma-re-lo, a-zul, ro-sa, entendeu?”
Eu cai na risada. Mas os dois continuaram sérios, seriíssimos. E, para a minha total surpresa, permaneceram atentos à música até o fim da primeira ária. E depois ouviram a próxima, e a próxima, até que na última faixa do CD, seguido de um “brrravo”, vieram as palmas. Da gravação, e dos meus filhos.
Parece mentira, mas não é. Aliás, graças à mentirinha do meu irmão, neste fim de semana talvez tenha brotado nos meus filhos o gosto pela ópera, que, provavelmente, nenhum discurso, por mais verdadeiro que fosse, poderia despertar. Agora só falta eles me pedirem tofu em vez de batata frita. A valer pela ópera, não custa oferecer.
>> Postado por Rita Lobo 22:43
Segunda-feira, 03 de março de 2008
Break
Uns dias antes da minha viagem de férias ao Atacama, a mãe de um coleguinha do meu filho, na porta da escola, me disse que queria ter um trabalho como o meu.
Fiquei imaginado que ela estava querendo dizer que também gostava de comida (de cozinhar, de comer, de pesquisar, de falar, de escrever...). Mas antes que eu tivesse tempo de concluir o que, exatamente, no meu trabalho ela gostava, a moça foi logo dizendo: “Eu também queria ter um trabalho que não precisasse trabalhar muito”. Na hora, ou melhor, às 7 horas da manhã, não entendi muito bem, dei um sorrisinho e me despedi.
Pensei comigo mesma: Mas será que ela acha que o Panelinha brotou de uma árvore? Ou que as receitas surgiram como num passe de mágica? Na cabeça dela, os livros e e-livros devem ficam prontos num piscar de olhos. Os blogs, então, pulam para dentro do site! Sem falar nos projetos comerciais, nos anunciantes, nas parcerias, nos contratos de patrocínio... Ela deve imaginar que sejam firmados num papo na fila do supermercado.
Fui tomar o meu café e a imagem dela ficou me perturbando. Comecei a sentir um pouco de raiva. Raivinha. Tá bom, fiquei irritadíssima. Será que, por me ver diariamente na porta da escola, ela acha que eu não trabalho muito? Ou será que para ela “essa coisa de internet” é muito fácil? Já sei: culinária é “coisa de mulher” e, por isso, não dá trabalho. Vai saber.
Mentalmente, fiquei dando uma série de respostinhas para ela. Só para você saber, não é por acaso que o meu escritório, o meu estúdio, a escola dos meus filhos e a minha casa ficam no mesmo bairro. É por isso, minha senhora, que posso levar e buscar as crianças e almoçar com elas todos os dias. Mais tarde, já em casa, eu ainda resmungava em silêncio, eu nunca consigo voltar para casa antes das 19 horas, e quando as crianças vão dormir, eu volto para o computador!
Durante a viagem, confesso que nem lembrei da mãe do coleguinha do meu filho. Mas foi só eu chegar que dei de cara com ela na escola, já toda arrumada para o trabalho. Depois de uns dias de férias, dei risada de mim mesma pensando que, de um jeito meio sem jeito, ela estava tentando fazer um elogio. Talvez quisesse dizer que, no site, tudo parece tão fácil que não deve dar muito trabalho para fazer. Não sei o que ela faz, mas imagino que, como eu, ela também tenha uma rotina puxada.
A verdade é que, para nós, mulheres, mães, que trabalham, em casa ou fora, sobra pouco tempo. E não estou falando de ir ao cabeleireiro ou de fazer massagem. É tempo para não fazer nada, sem ter que se preocupar com o que vai ter para o jantar, tempo para pensar, para deixar a mente ousar outras soluções. É tempo para dormir, passar o dia na piscina, relaxar o corpo, ou cansá-lo num longo passeio de bicicleta pelo parque, numa caminhada sem destino ou atravessando um deserto a cavalo.
Cada vez mais, acredito que todas as mulheres, vez ou outra, deveriam tirar umas férias de tudo. Trabalho, claro, mas filhos e maridos também. Férias com uma amiga, ou com um grupo de amigas. Mesmo que seja apenas por um fim de semana.
Gostaria de pensar que este fosse o intuito do Dia Internacional da Mulher: um dia para nos lembrarmos que temos que cuidar de nós mesmas.
Esta semana, a mãe do coleguinha do meu filho vai amar a programação do Panelinha. A pauta é valorizar os momentos que dedicamos a nós mesmas. Entre as atrações, o nosso novo e-livro, SPA EM CASA, que marca a estréia da série Cadernos Femininos, composta por seis volumes.
Em SPA EM CASA, a equipe do site passou um dia inteiro testando receitas caseiras de beleza, comendo lanchinhos funcionais, falando pelos cotovelos e dando muita risada. Tudo foi devidamente fotografado e anotado e o resultado é um guia para você transformar a sua casa em um spa. E sábado que vem, Dia Internacional da Mulher, vai ser o dia ideal para isso. E fique tranqüila, não dá muito trabalho!
>> Postado por Rita Lobo 17:51
Terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Sal do Atacama
Há tempos, fiz um jantar na minha casa e um dos convidados disse que iria levar uma amiga. Para a minha alegria, era a Iná (uma das nossas aprendizes de cozinheira). Os dois trouxeram um pote de sal, mais precisamente de Fleur de Sel de Guérande, um vaso de ervas plantadas e um bilhetinho escrito pela Iná: “De doce basta a vida!”
Pois bem, agora que Iná, Silvia, Marcia e Andrea dominaram o Panelinha, resolvi tirar uns dias de férias e vim parar no meio do deserto. Aliás, um deserto de sal.
São Paulo e San Pedro de Atacama, no Chile, estão praticamente na mesma latitude. Para chegar até aqui, porém, é necessário pegar um vôo até Santiago, umas 4 horas em direção ao sul do Chile, depois outro até Calama, mais 2 horas para o norte, sem contar as 2 horas de espera no aeroporto. São muitas horas (desnecessárias) de viagem e, depois, mais 1 hora de carro, deserto adentro. Já era quase hora do jantar quando cheguei ao hotel, mas decidi tomar apenas uma taça de vinho, chileno, por supuesto. Bem cedinho, no dia seguinte, iria a cavalo até o Vale da Morte. E fui. Rapidamente descobri a razão do nome do local: voltei muerta! Duas horas a cavalo sob o sol do deserto requer um pouco mais de treino. À tarde, resolvi fazer um passeio mais light: uma volta no Salar do Atacama.
Antes de continuar, quero pedir a sua permissão para hablar en portuñol. Ou mejor, hablar, djá estoy hablando, quiero escribir. Com todo o respeito aos nossos vizinhos de América del Sur, mas parte da diversão da viagem és hablar en portuñol.
Nada a ver: quando eu era pequena, meu pai adorava colocar um LP com a história do Pinocchio para meus irmãos e eu ouvirmos; o detalhe é que era em espanhol. Pinocchio no quiere estudiar, y ademas miente. E essa maldita frase está cravada na minha mente. Basta alguém perguntar qualquer coisa que tenho vontade de responder: Pinocchio no quiere estudiar, y ademas miente.
Mas volviendo ao sal, apesar de toda a moda em torno dele, os atacamenhos não voltaram atrás: eles deixaram de extrair e de comercializar o sal daqui há quase duas décadas. O processo era muito caro. E, hoje, quem quiser experimentar o exótico sal do Atacama tem que fazer como djo. Afinal, de dulce, djá basta a bida, berdá?
>> Postado por Rita Lobo 17:35
Terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Comida fria
Acho que vou conseguir voltar a comer comida quente no jantar. Não que eu goste de comida em temperatura ambiente, eu não. Mas esse horário de verão estava acabando comigo. Eu acordava cansada, passava o dia exausta e chegava verde de fome em casa, bem na hora do jantarzinho dos meus filhos.
Faminta e cansada, eu não tinha forças para fazer nada ou sequer para esquentar a comida na panela, acredita? Foram meses comendo restos de comida fria. Tá bom, eu estou exagerando, mas deu para ilustrar.
Como num passe de mágica, ontem cheguei do escritório cheia de disposição para brincar com as crianças, esquentei o meu jantar e depois ainda fui ao cinema. Queria tanto ver Juno, mas acabei vendo Elizabeth – A era de ouro. E Cate Blanchett é linda, ótima atriz (boa até demais), pode levar o Oscar. Mas o melhor do filme é o andar do Rei Felipe II da Espanha. Não vou mentir: não gostei muito do filme. Ainda estou enfeitiçada por Reparação, que me recuso a colocar um “Desejo” no título. Assisti ao filme com um amigo num dia e, no outro, com uma amiga que ainda não tinha visto, mas tinha lido o livro.
Ainda sobre a temperatura da comida, ouvi dizer que os dois extremos não são muito saudáveis. E seguidos um do outro, uma feijoada borbulhante e um gole de caipirinha bem gelada, é pior ainda. Será? Parece que o choque térmico é muito irritante para o esôfago. Também me disseram que comida requentada fermenta mais e, por isso, também não faz bem à saúde.
A cozinheira da minha casa morre de rir quando eu pego uma panela quente e solto um, “ai, tá quente!” Ela diz que nem parece mão de cozinheira. Ela tira assadeira do forno sem pano, pega panela fervendo... Nada queima a mão dela. Havia um tempo, quando eu tinha restaurante, que minha mão era mais calejada. Quer dizer, eu me queimava, mas não com qualquer panela quente. Tinha que ser descuido bom, desses que a queimadura forma bolha. Tudo é questão de costume.
Estou com medo de voltar a comer comida quente e queimar a língua. Pensando bem, nunca gostei de comida muito quente. Faço a sopa esfriar, espalho o risoto no prato. Até café demoro para tomar. E quibe frio, tem coisa melhor? Já experimentou charutinho de uva gelado? O quente fica até ruim. Torta de frango também entra na minha lista de comidas quentes que frias ficam ainda mais gostosas. Isso sem falar naquelas que são frias por natureza, como carne louca. (Ah, esqueci de contar, toda semana tem uma expressão nova aqui no escritório e a mais recente é: “volta pro pão, carne louca!”. É excelente para usar no trânsito.)
Pensando bem, também gosto de ver filmes frios. Sabe aqueles filmes que fizeram muito sucesso mas na época você não viu? Acho que vou fazer uma listinha para comemorar o fim do horário de verão. Mas pipoca fria nem pensar!
>> Postado por Rita Lobo 15:45
Sexta-feira, 08 de fevereiro de 2008
O livro das vidas
Sobre a mesa do meu escritório estava um envelope branco, com o meu endereço escrito à mão. Dentro dele havia um livro preto, e dentro do livro um bilhete amarelo. O subtítulo do livro explica que se trata de uma seleção de obituários do New York Times. O bilhete era do organizador da obra e, também, coordenador da Coleção Jornalismo Literário, da Companhia da Letras, a qual o volume pertence. No bilhete, Matinas Suzuki Jr. sugere que eu leia um texto específico e lembra que a tradução da receita de cheesecake, que ele me pediu para fazer, era para um dos obituários. (Era de um tal Harry Rosen, “fundador do Junior’s Restaurant, estabelecimento do Brooklyn famoso pelo cheesecake”, que morreu mas não levou a receita para o túmulo.)
Os textos são primorosos. O livro é brilhante, desses que a gente pega para dar uma folheada e não consegue mais parar de ler. E, contrariamente ao que se possa pensar, não é mórbido ou deprimente. De forma surpreendente, o livro faz pensar sobre a própria vida, além de proporcionar uma leitura de primeira.
Por uma dessas coisas da vida, bem ao lado do envelope, sobre a minha mesa de trabalho, está uma página do Caderno 2, do jornal Estado de S.Paulo. Não se trata da seção de obituários, mas o título da nota é: “A morte do violonista Antônio Rago”. E o texto diz: “Morreu na quinta-feira, em São Paulo, aos 91 anos, o violonista Antônio Rago, autor de mais de 400 composições e um dos responsáveis pela introdução do violão elétrico no Brasil.”
A nota continua dizendo que o corpo foi cremado, que ele estava internado desde novembro, que era filho de italianos, e assim vai. Mas, naturalmente, a nota não conta que ele viveu uma vida bem vivida, que sempre fez o que quis, que passou a vida tocando o seu violão e, talvez, por isso, tenha sido uma pessoa tão feliz.
A nota diz que ele nasceu na Bela Vista, mas não explica que, apesar de ter se mudado de lá ainda jovem, sempre sentiu-se em casa no Bixiga. E era lá que ele, religiosamente, encontrava os amigos para almoçar aos domingos. Era lá também que ele comprava pão italiano, nhoque, vinho, pernil assado, apesar dos dotes culinários da esposa, que, mesmo sendo húngara de nascimento, especializou-se na culinária italiana por causa dele. E, obviamente, a nota não termina dizendo que, além de Julia, esposa por 62 anos, Antônio Rago deixa três filhos, Elisabeth, Margareth e Antônio, seis netos, Marina, Laura, Mariana, Guilherme, Fábio e eu.
Talvez pelo fato do meu avô ter morrido há tão pouco tempo, O livro das vidas, assim como os mortos, pareça melhor do que de fato ele é. Mas eu duvido. Assim como tenho minhas dúvida se algum dia vou conhecer alguém tão alegre quanto era o meu avô Rago.
>> Postado por Rita Lobo 16:07
Quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Um medalhão para Elisabeth
Para muita gente, a bandeira da Inglaterra na capa de um livro de culinária não é exatamente um atrativo. Mas foi justamente ela que me chamou a atenção para Great British Menu Cookbook. Já estava me dirigindo ao caixa quando avistei a bandeira. Atravessei a livraria com olhar fixo na capa, dei uma folheada sem vergonha, lendo apenas os títulos das receitas, e decidi comprá-lo, sem muita análise. Quer dizer, além da capa, o papel sem brilho (que eu adoro!), branco e bem grossinho, também contou pontos na decisão; as fotos dos pratos, lindas, em páginas inteiras, causaram lá seu impacto; e, além do mais, entre os cardápios, havia um de Nick Nairn, o mais famoso chef escocês, com quem já cozinhei para um programa de televisão. Comprei, coloquei o livro na minha estante e me esqueci dele por algumas semanas.
Minha tia “inglesa” chegou de férias (digo inglesa entre aspas porque ela nasceu no Brasil e, para nós, os familiares, ela é brasileira. Por outro lado, as três décadas em Londres, o cabelo ruivo e seu discreto senso de humor fazem dela uma mulher com jeitão bem inglês). Fui visitá-la na casa da minha avó. Ela conta que um dos meus primos virou vegetariano e cai na risada. “Ele é um péssimo vegetariano, não come legumes!” Diz que faz para ele um minestrone bem rico, e ele deixa de lado no prato todos os cubinhos de abobrinha e de cenoura. “Nem peixe ele come. Vou voltar a fazer feijão. Lentilha ele come.” Pergunto à tia Beth se quinoa também virou moda na Inglaterra. Digo que é uma boa opção para vegetarianos. E grão-de-bico é bom para variar a lentilha e o feijão. Ela conta que comprou até hambúrguer de soja da marca Linda McCartney. (Todo mundo sabe, mas não custa lembrar que, um pouco antes de morrer, a senhora Paul McCartney, vegetariana fervorosa, lançou uma marca de comida vegetariana pronta.) Minha tia, antes de vir para o Brasil, avisou ao filho: “Não se esqueça que a Linda McCartney está no congelador.” Very british.
Mas voltando ao Great British Menu, tia Beth diz que foi um sucesso na Inglaterra. Já está na segunda edição. Ou melhor, não exatamente o livro, a série de televisão. Na primeira (a do livro que comprei), catorze chefs, representando diferentes regiões da Grã Bretanha, competiram para fazer um almoço para a Rainha Elisabeth (a primeira edição da série foi ao ar em 2006, quando the Queen completou 80 anos).
Esta semana, minha tia vai jantar em casa. Estou em dúvida se preparo um jantar com receitas do livro inglês e faço banquete de rainha para ela, ou se elaboro um menu vegetariano, no estilo Linda McCartney. Acho que vou de Linda. Just for a laugh. Vou preparar uns medalhões de ricota que fazem o maior sucesso. Como a receita não está aqui no Panelinha, vou colocar aqui para quem estiver pensando em fazer um jantar levinho e bem saboroso.
Medalhões de ricota para outra Elisabeth
Ingredientes
1 xícara (chá) de trigo para quibe
1 xícara (chá) de ricota
½ xícara (chá) de queijo parmesão
1 colher (sopa) de salsinha picada
1 colher (sopa) de hortelã picada
2 gemas
1 colher (sopa) de cebola
noz-moscada a gosto
sal a gosto
1 colher (sopa) de azeite de oliva
Modo de preparo
1. Numa tigela, coloque o trigo e cubra com o dobro de água. Deixe hidratar por 30 minutos. Escorra a água e aperte o trigo com as mãos para extrair todo o líquido.
2. Com um garfinho, amasse bem a ricota. Misture ao trigo hidratado. Junte também o parmesão, a salsinha, a hortelã, as gemas, a cebola e tempere com noz-moscada e sal. (Eu gosto de caprichar na noz-moscada.)
3. Com as mãos, faça 6 medalhões de cerca de 7 cm de diâmetro e 1,5 cm de altura. Transfira-os para uma assadeira, cubra com filme e leve à geladeira até a hora do jantar.
4. Preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média). Leve uma frigideira antiaderente (que caiba 3 medalhões com folga) ao fogo médio. Coloque metade do azeite e, quando estiver quente, doure 3 medalhões dos dois lados. Transfira os medalhões para uma assadeira e leve ao forno preaquecido, apenas não esfriar enquanto prepara os outros 3 medalhões.
OBS: ainda não decidi quais serão os acompanhamentos ou o molho. Mas depois eu conto.
>> Postado por Rita Lobo 17:34
20 de janeiro de 2008
Rocambole a seis mãos
Hoje meus filhos estavam com a macaca. Tudo, tudinho era motivo de briga. Mas só percebi quando já estávamos no café. Apesar do dia cinzento e chuvoso, achei que seria bom mantermos a nossa tradição de tomarmos café da manhã fora no domingo. Dora calçou as galochas cor-de-rosa, Gabriel as amarelas e lá fomos nós, sob nossos guarda-chuvas coloridos, até o local onde eu tomaria o meu capuccino sossegadamente, enquanto assistiria aos meus lindos filhos comendo muffins, tomando chocolate frio e saboreando aquele momento simples e alegre. (Depois, iríamos correndo e rindo da chuva ainda mais forte até a livraria, onde folhearíamos os livros que, num futuro breve, se tornariam os nossos favoritos de toda uma época.) Mas a brigaiada começou antes mesmo de chegarmos ao café. E consegui terminar o capuccino por pura obstinação. Nada de livraria. A chuva, porém, de fato se intensificou. Voltamos marchando cabisbaixos para casa.
Chegamos ensopados e fomos direto à área de serviço encostar os nossos frustrados guarda-chuvas. Eles não haviam conseguido nos salvar daquela água que não parecia vir somente do céu. Disse aos meus filhos que eles deveriam ir para o quarto pensar no comportamento deles. Mas no caminho da área para os quartos há a cozinha. “Mas, mãe, e se a gente fizesse um bolo?”
Quem resiste ao pedido de uma menina de 3 anos para fazer bolo? “De chocolate, mamãe” – emendou Gabriel. Claro, eles sempre querem chocolate. Para tomar, para comer e, também, para cozinhar. Eles também gostam do bolo de limão. Mas não havia manteiga suficiente nem para um bolo de chocolate nem para o bolo de limão.
Quando eu tinha a idade dos meus filhos, talvez um pouquinho mais velha, uns 7 anos, aprendi a fazer bolo sozinha. Antes, as etapas eram divididas com a cozinheira. Quebrar os ovos era tarefa dela, batê-los era minha, peneirar açúcar e farinha, exclusivamente minha, untar a assadeira, também. Levar e tirar o bolo do forno, só ela podia. Até que um dia tentei, no outro me queimei e, quando vimos, eu já assava o bolo sozinha. Sabia a receita de cor e salteado. Mesmo assim, o preparo sempre tinha sabor de aventura. Será que vai dar certo?
A massa era sempre a mesma: pão-de-ló. O recheio é que mudava. Podia ser de doce de leite, de brigadeiro branco, de geléia de framboesa ou de laranja, o sabor preferido do meu pai. Mas com a geléia de laranja não dava para servir café. Quer dizer, minha mãe não gostava da combinação café e laranja. E meu pai não tomava chá. Então, era bolo servido com suco de laranja. E ficava gostoso. Sempre no fim de tarde, quase sempre no fim de semana.
Achei que seria uma boa oportunidade de ensinar meus filhos a preparar o pão-de-ló da minha infância. Cinco ovos, cinco colheres de açúcar e cinco colheres de farinha. Às vezes, apenas uma colher de farinha de trigo era substituída por fécula de batata. Truque da minha avó Rita para deixar a massa ainda mais leve. Uma colherinha de essência de baunilha também podia entrar no preparo. Muito fácil, muito rápido.
Primeira etapa: separar todos os ingredientes e untar a assadeira retangular pequena com manteiga e polvilhar com farinha. Missão cumprida. Segundo passo: separar as gemas das claras. “Mãe, eu já sei fazer isso!” – disse Gabriel com toda a segurança que um garoto de 5 anos pode ter. Ele pegou o ovo com delicadeza, bateu na borda da tigela com firmeza, fez uma rachadura na casca e apertou as duas metades com tanta força que espirrou clara e gema em tudo que estava ao redor. Mais uma tentativa. Outra. E lá se foi meia dúzia de ovos para o lixo. Por enquanto, decidimos que separar as claras das gemas continua sendo uma tarefa minha.
Dora passou o açúcar e a farinha pela peneira. Eu decidi bater as claras à mão, em vez de usar a batedeira. Gabriel quis me ajudar. Mostrei o movimento, segurei a mão dele com o fouet e batemos as claras juntos, até espumar. Depois, ele tentou continuar sozinho, certo de que estava fazendo o movimento à perfeição. Peguei outro fouet e batemos as claras à quatro mãos. Será que vai dar certo? (Você já ouviu dizer que bolo feito por mais de uma pessoa não cresce?)
Dora colocou o açúcar às colheradas. Depois vieram as gemas, uma a uma, e por último a farinha, misturada com uma colher. Transferi a massa para a assadeira, e eles rasparam a tigela. Eu já tinha preaquecido o forno em temperatura baixa.
As crianças voltaram a brincar tranquilamente. E eu fiquei curiosa para ver se o bolo daria certo. Tantos anos se passaram e o preparo do pão-de-ló continua tendo sabor de aventura. Por outros motivos, claro.
Depois de 30 minutos, ele saiu do forno exatamente como deveria: crescido e levemente dourado. Virei a assadeira sobre um pano de prato úmido e polvilhado com açúcar, espalhei geléia de morango e enrolei a massa para formar o rocambole. O bolo ficou igualzinho ao da minha infância, mas somente hoje descobri que, além de gostoso, ele ainda afasta a macaca.
>> Postado por Rita Lobo 20:06
Quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Sabores cariocas
Como dizem os cariocas, “hoje é quinta-feira, a semana está praticamente encerrada”. E eu ainda não escrevi sobre o fim de semana que se passou. A semana está corrida. Desde sábado. Gabriel participou do primeiro torneio de tênis dele. Estava ansioso. Não era bem uma competição. Era mais uma apresentação para pais de crianças de 5 a 7 anos. Lá fomos nós, animadíssimos, para o clube. E o mais animado era o avô que, finalmente, encontrou alguém que herdou o gosto dele pelo tênis. Ele vibrava intensamente a cada bolinha acertada. E eu também. Mais discretamente do que ele. Mas o match point, para mim, foi quando minha filha entrou na quadra (Dora é quase 2 anos mais nova que Gabriel) e o irmão não teve dúvidas: pegou a mão dela e mostrou como segurar a raquete; depois pediu ao professor para jogar a bolinha e fez o movimento com ela. Uma, duas vezes. Até ela acertar. Game. Eu me senti vitoriosa! Como é bom ver irmãos unidos. Deve ser um desejo comum entre as mães. Filhos unidos.
Meu pais ficaram com as crianças, e meu marido e eu fomos para o aeroporto. Pegamos um avião para o Rio. Como sempre, fiquei arrasada durante o vôo. Não dá mais para voar sem pensar em acidentes. Não neste país. A única coisa que me fez relaxar foi o lanchinho. Eu estava verde, mas verde de fome. Iria pousar e me dirigir diretamente ao Maracanã. Não haveria tempo para jantar. Comi aquela coisa que eles chamavam de sanduíche. Era um pão sabor borracha recheado de isopor aromatizado com peru, uma espécie de geléia de abacaxi e algo semelhante a algum derivado de leite, talvez um requeijão. Comi. Matei a fome. E tive certeza que iria morrer. Esse pensamento, estranhamente, me trouxe paz. Talvez eu não morresse em um acidente aéreo.
Sting já estava no palco, cantando e entretendo a multidão. Sting canta boa parte da trilha sonora da minha adolescência, que, contrariamente ao que se espera, não foi vivida antes dos 20 anos. Com 15 eu já estava trabalhando. E era super responsável. Mas depois dos 18 anos... Vivi tardiamente a adolescência. Durou uns dois anos. Fiquei ouvindo aquela banda como se eles estivessem tocando só para mim. Aliás, eu e o sujeito ao meu lado, que não conseguia manter em segredo a própria viagem. Ele não parou de conversar com Sting durante o show inteiro. “Cara, você é o cara, você é demais, putz cara...” Que meda! Dei dois passinhos pra lá.
Depois, queria jantar na Capricciosa, a pizzaria carioca que faz paulistano ficar com vergonha. (Eu acho deprimente, mas a verdade é que a margherita gourmet de lá é a melhor pizza do Brasil. Pelo menos das que eu já comi. Aliás, eu e o Rogério Fasano, que confirma a minha afirmação.) Mas estava lotada. Meia volta e entramos na porta ao lado. Mr. Lam, um restaurante chinês para inglês nenhum botar defeito. (É que eu queria comer pizza. A comida estava bem boa.)
No dia seguinte, tinha churrasco na minha casa. Acordei e fui ao supermercado. No Rio, não dá para planejar o cardápio. É melhor ver o que tem de bom nas prateleiras. Fiquei mal acostumada com a Casa Santa Luzia, em São Paulo. Lá, tem tudo. Só lá. Mas no mercado carioca tinha picanha, salsicha de vitela e vários peixes. Todas as carnes que eu precisava para o almoço. Os tomates-cereja estavam bonitos, os cogumelos-de-paris também. Erva-doce só tinha uma. Serve. Batata, cebola e uma novidade: farofinha de farinha de milho amarela com bacon e milho verde. Receita da minha amiga Patrícia, que estava hospedada em casa. Para o meu enteado, batata rústica, salteada com alecrim. Para o meu marido, salada de batata com cebola-roxa frita e vinagrete de mostarda. Para Esther, os cogumelos foram fatiados e salteados com a erva-doce picadinha, que no Rio é funcho. Era para acompanhar os peixes.
Os tomates-cereja ganharam uma versão de pesto, bem safado, feito com castanha-de-caju, manjericão da horta, alho, azeite, nada de parmesão e, para virar molho de salada, um fio de vinagre balsâmico. Tudo rapidinho, bem saboroso.
Pronto, carnes na grelha, acompanhamentos saindo da cozinha, amigos queridos ao redor da mesa e a dúvida que não me deixa relaxar: será que volto hoje de carro para São Paulo ou pego o primeiro vôo de amanhã? (Os aviões estavam todos lotados naquele dia.) Não é fácil ser mãe. Mas é uma vitória. Voltei na segunda. Mas não pretendo viajar sem as crianças nunca mais! A não ser que eles insistam.
Última: Gabriel me perguntou, "Mãe, quem manda nessa casa?" E eu respondi, "Mas que pergunta, meu filho... Quem manda na casa é a mulher!" Ele olhou descrente e retrucou: "Fala sério, mãe."
>> Postado por Rita Lobo 02:10
Quarta-feira, 05 de dezembro de 2007
A carne não é fraca
Quando minha mãe voltou de um médico dizendo que comer carne à noite atrapalha o sono, decidi fazer o teste. (E dormir bem, por algum motivo, virou uma prioridade na minha vida. Acho que cansei de acordar exausta.) E não é que faz diferença? Muita diferença. Para mim, é fácil de entender que o tempo de digestão das carnes é muito longo e o estômago também precisa descansar enquanto dormimos. Mas a nutrição é algo mais complexo. Nada a ver: eu tinha uma cozinheira que não se conformava que o cafezinho com 20 colheres de açúcar que ela tomava engorda. “Como é que café engorda, D. Rita? O médico disse que eu não posso pôr tanto açúcar... Mas o açúcar não dissolve no café? E café não é líquido? Pensei que líquido não engordasse...”
Não sei bem se é somente a carne vermelha, ou todos os tipos de carne, mas a combinação de aminoácidos da proteína ativa o sistema nervoso, que deixa o corpo em estado de alerta. Ou seja, a gente dorme pronto para acordar. Qualquer barulhinho e o sono vai embora.
De uns tempos para cá, a regra na minha casa ficou assim: o jantar é cedo e leve e, de preferência, sem carnes. (Bifão só na hora do almoço.) Pode ser lasanha de legumes, suflês mil, sopas frias no calor, saladas de grãos, nhoque de tudo quanto é jeito e macarrão feito na hora. Sempre integral. (A marca Delverde é ótima.) O fusili com abobrinha e ricota (do meu livro Culinária para bem estar, receitas antiTPM) é um coringão. E toda semana faço uma nova versão dele. Em lugar da ricota, já coloquei queijo de cabra do tipo feta. Bom demais! Uma outra vez adicionei cogumelos-de-paris fatiados. Cada vez faço uma pequena alteração. (Na foto, feita pelo queridíssimo fotógrafo André Porto, eu estava preparando a versão original para a revista Gloss.)
Dentro do possível, cortei carnes do cardápio noturno. Digo dentro do possível porque como é que eu poderia recusar a sugestão do chef Salvatori Loi, do Fasano, no jantar de aniversário da minha amiga Fernanda? Era uma paleta de cordeiro que fica assando durante 7 horas. Neste caso, eu me preparo psicologicamente para não dormir bem. Não é incrível como tudo na vida é uma questão de escolha? Quando eu era garota e fazia alguma coisa irresponsável, meu pai dizia, “minha filha, você tem que arcar com os ônus e bônus de suas decisões”. ADORO essa frase. Não dá para jantar às 10 da noite, comer cordeiro, beber vinho, se jogar na sobremesa, tomar café e dormir feito uma pedra, acordar mais magra, mais disposta e mais feliz. Bom, dependendo do cordeiro, dá para acordar mais feliz.
>> Postado por Rita Lobo 21:34
Segunda-feira, 03 de dezembro de 2007
Café da manhã
Precisei de quase uma semana para desintoxicar e entender que o meu vício até que é bom para mim. Nos primeiros dois dias fiquei lesada, mas dormi muito bem à noite. Nos dias seguintes, apenas um leve desanimo. Sábado, um acidente de percurso. Tinha uma conversa de trabalho, bem informal, marcada para as 18 horas. Acontece que minha amiga E. veio do Rio com a família e nós fomos almoçar. Vinho espumante para começar, um tinto leve, pinot noir, para acompanhar o prato principal e Porto depois da sobremesa. Alegria instaurada. O almoço se estendeu até a hora da reunião. E por mais informal que ela fosse, não dava para chegar naquele estado. Café. Duas xícaras de café. Puro. Não é isso que se faz?
A conversa foi bem, obrigada. Voltei para casa, coloquei meus filhos para dormir e fiquei fazendo companhia para a minha insônia a noite toda.
No dia seguinte, domingo, pude dormir até mais tarde. Mas acordei sonhando com um café. Ou melhor, um cappuccino. E, por favor, não imagine que estou me referindo a essas misturas estranhas de leite em pó, café solúvel e bicarbonato de sódio. Nem muito menos a essa moda de café com leite e pedaços de chocolate no fundo da xícara (pelo menos não em jejum e sem TPM). E não me venha com canela no meu café! Acordei com vontade de tomar uma dose de café expresso com o triplo de leite bem, mas bem cremoso. Em outras palavras, um cappuccino.
Será que uma dose de cafeína pela manhã poderia tirar o meu sono à noite? Decidi fazer o teste. Não, não pôde. E, de verdade, acho que passei o dia com mais disposição. Fiz as pazes com o café. Ainda não são 10 horas da manhã. Vou tomar o meu cappuccino. Talvez um latte para variar.
>> Postado por Rita Lobo 09:17
Quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Descafeinada
Ontem fui tomada por um estranho pensamento. Vou parar de tomar café. Era cedo, eu ainda estava no banho. Enquanto esfregava a cabeça com shampoo, tentava entender de onde vinha aquele estranho desejo às avessas. Eu adoro café. Tomo uns cinco por dia. Pode ser cappuccino. Ou latte. Uma vez fui passar um fim de semana na casa de uns amigos que não tomam café: passei dois dias dormindo de olhos abertos. Lesada. Foi quando descobri que este não é apenas um gosto, mas um vício.
Eu preciso de café. Mas depois do banho, o pensamento continuava tão forte que se tornou uma certeza. Um pensamento que nem me consultou, me invadiu e decidiu que eu iria abrir mão do meu único vício. Até pensei em uma despedida, um último cafezinho da manhã, mas não tive coragem. Tomei chá, um chá incrível: green tea and blackcurrant, da London Fruit & Herb Company (isto é, chá verde com groselha). Sem cafeína.
Apesar de mim, a decisão estava tomada. Mesmo assim, queria entender os motivos. E eu sei que não tem nada a ver com saúde. Está certo que esse tanto de café não faz bem a ninguém. E que, aparentemente, para mulheres, café é pior que para homens, que metabolizam cafeína mais facilmente.
Quando era mais jovem, passei uma longa temporada em Paris. Seis meses. Lá, desenvolvi uma teoria: café dá celulite. A cada expresso tomado, sentia uma nova celulite nascendo. Elas brotavam nas minhas pernas. Mas não tinha nada a ver com o café. Eram os anos se passando.
Fiquei pensando que, talvez, meu organismo precisasse de uma desintoxicação. Só podia ser isso. Acredito piamente que ele se expresse através de vontades. Não tem dias que a gente quer comer peixe e outros em que carne é a pedida?
Mas ainda não estava convencida. Outra possibilidade era um simples desejo de testar os meus limites. Viver sem café. Mesmo que por um curto período de tempo, apenas pelo prazer de saber que posso viver sem ele. Acho que é isso.
Ontem não tomei café. Hoje também não. Fiquei sonolenta. Mas à noite dormi feito uma pedra, coisa que há muito tempo não acontecia. Prometo que não vou transformar o blog no diário de uma ex-viciada em cafeína. Em tempo: descobri um bolo de chocolate que dispensa cafezinho. Não é o “Melhor Bolo de Chocolate do Mundo”. É da PÃO, aquela padaria na Rua Bela Cintra, 1618, que fecha aos domingos, segundas e feriados. Mas quando está aberta, vende pães integrais incríveis, serve sanduíches deliciosos e também um dos melhores bolos de chocolate que já comi. Será que nem me livrei de um vício e já criei outro?
>> Postado por Rita Lobo 11:42
Quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Conforte-me com batatas
Cozinhar na praia é diferente. Os tempos são outros. O da gente, e o da comida. A água custa a ferver. Mas a gente nem percebe, não fica vigiando. Uma hora ela ferve. O vaivém das ondas influi na nossa percepção das horas. E a altitude altera os tempos de cozimento dos ingredientes.
No fim de tarde, véspera do feriado, Fernanda e eu fizemos o cardápio para a viagem. Maridos, filhos, babás e nós, as mulheres, cozinheiras. Tinha que ter comida para todo mundo, claro. Mas o objetivo era aproveitar a perspectiva de chuva para fazer da comida o nosso programa.
A Fernanda, além de minha amiga, daquelas que as nossas avós diriam, fulana é amiga íntima de beltrana, é também assessora de imprensa do Panelinha. Nós trabalhamos no mesmo escritório, nossos filhos estudam na mesma escola, freqüentamos o mesmo clube e ainda sobra assunto para falar no fim de semana. A modéstia dela a impede de contar por aí que fez curso de confeitaria em Nova York. Aliás, na mesma escola que eu, mas em outros tempos.
Fizemos uma espécie de planilha, bem rabiscada, com os pratos que faríamos em cada almoço e jantar. Tínhamos que pensar em sete refeições, mais café da manhã e lanchinhos da tarde, e sair correndo do escritório para o supermercado. (Ele fecha aos domingos e feriados.)
Risoto, que é rapidinho de fazer e não dá trabalho, foi escolhido para ser a primeira refeição. Resolvemos preparar um de limão e servir com fatias de salmão defumado. Endro é par perfeito para salmão, e a erva-doce é da família do endro. Deu vontade de completar o prato com erva-doce assada. Nunca tinha feito. Ficou bom. Bem bom. A erva-doce, cortada em quatro partes no sentido do comprimento, assou por quase 1 hora, temperada com um pouco de azeite e sal. Uns 10 minutos antes de sair do forno ganhou um banho de suco de laranja. Escandalosamente bom. Caramelado. Em tempo: as variações de temperatura, salmão frio, risoto e erva-doce quentes, também deram um certo charme ao prato.
Fernanda faz rosbife como ninguém. É uma receita da avó dela. Entrou no cardápio. Foi o almoço do domingo. Ela polvilha um pouco de açúcar na carne. E os outros truques não estou autorizada a contar. Eu preparei as batatas e um molho bem gordo com creme de leite, mostarda de Dijon e geléia de laranja com gengibre. E também uma saladinha que, para dizer a verdade, nasce pronta: tomate-cereja em metades e pepino em rodelas. Para temperar, sal, limão e azeite. Mas é das batatas que eu preciso falar.
Tinha me esquecido de como eu gosto delas. Confortam-me muito mais do que maçãs. Para mim, porém, batatas boas são aquelas que mais um pouco, queimavam. Precisam ficar bem douradas, crocantes e não importa se são fritas, assadas ou salteadas. Ou então prefiro fazer um bom purê. As do feriado levaram umas 2 horas para ficar do jeito que eu queria. Eram dez batatas médias que, depois de bem lavadas, foram para a panela com água salgada, como se fosse do mar.
Até a água começar a ferver nem sei quanto tempo se passou. Deu para tomar uma taça de vinho branco, contar uma história inteira sobre uma outra amiga nossa e só depois a água começou a borbulhar. Mas acho que ela estava esperando o fim do causo. Demorou tanto que as batatas já estavam pré-cozidas.
Na tábua, foram cortadas em quatro partes no sentido do comprimento. Enquanto isso, uma frigideira gigante (na verdade uma panela para fazer paella) esquentava com um pouco de azeite. Eu sei, o certo é usar óleo, mas fim de semana pode. Ele perde o valor nutricional, mas a comida ganha em sabor. Com a casca para baixo, as batatas começaram a dourar. Depois, vira para cá, vira para lá e elas saltearam de todos os lados. À medida que ficavam prontas, eram arrumadas em outra frigideira, a de ferro pintado de branco, que vai sem fazer feio à mesa. Mas as batatas ainda não estavam prontas. Faltavam uns 20 ou 30 minutos no forno para dourar mais um pouquinho. Um tempo que, no dia-a-dia, nunca dá para esperar. Mas na praia o tempo é outro. E o tempo é um pequeno luxo culinário que transforma simples batatas em pratos que fazem o tempo parar.
>> Postado por Rita Lobo 23:14
Quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Um chá para Maria Rita
A freguesia aqui do blog acompanhou um pouco dos preparativos para reunir os Lobo ao redor de Maria Rita, minha avó, a matriarca da família. Ela tem mais de 90 anos, é mãe de dez filhos, avó de vinte e tantos netos e tem quase vinte bisnetos. Por isso, um almocinho em família é algo que não acontece espontaneamente. Com agregados, somamos mais de sessenta pessoas.
Há tempos não nos juntávamos. Somente em pequenos grupos. Minhas primas Alice, Luciana, Mônica e eu decidimos organizar uma reunião. Fizemos o RSVP e, com a lista de participantes nas mãos, dividimos as tarefas fraternalmente entre todos. A idéia era que ninguém tivesse muito trabalho nem precisasse arcar com muitas despesas.
Foram cento e cinqüenta tarteletes de frutas frescas da Luciana, a torta de ameixa e nozes da tia Lucila, uma travessa gigante de brownies de chocolate da tia Regina, o meu bolo de limão, uns 60 sanduichinhos variados da Camila e da tia Ercília, a quiche da Patrícia, salgadinhos de queijo e papoula da tia Gilda, uma centena de brigadeiros que deveriam ter sido feitos pela Alice, a prima que não sabe cozinhar, mas nem isso ela fez. Pediu para a nossa tia Cláudia, madrinha dela, comprar os docinhos prontos. Não pense, porém, que isso é picuinha minha. É apenas uma maneira de revelar, por linhas tortas, o apreço que tenho pela prima caçula, que nem mais caçula é. (Mas continua sendo a mais divertida e bem-humorada da família.) Só um detalhe, adivinhe a data que ela escolheu para se casar? No dia do meu aniversário, claro. Isso já faz alguns anos. Mas eu não esqueço.
Ainda para as crianças (o brigadeiro foi incluso por causa delas, que fique claro), outra centena de pães de queijo trazidos pela minha mãe e pela Gisela, 50 sachês de café expresso para os adultos, 4 litros de leite para o café, suco de uva da Fernanda, refrigerantes trazido pelo Bartô (um dia preciso mostrar aqui o trabalho do meu primo, ele é artista plástico dos bons) 3 sacos de gelo, uma caixa de vinho tinto e apenas uma caixinha de chá, que deu nome à reunião familiar: o chá da vovó Rita. Ah, o chá foi a Alice quem trouxe. E trouxe de Londres. A gente continua com essa mania de trazer chá da Inglaterra, mesmo sabendo que pode comprar no supermercado da esquina.
De Londres, também, veio um e-mail que pegou de jeito as primas que faziam parte do “comitê organizador”. Era a nossa tia, estava chateada por não poder participar. Marcelo, irmão do meu pai, na qualidade de Lobo mais velho, imediatamente respondeu em nome das netas da Maria Rita e sugeriu um repeteco em janeiro, quando a nossa tia estará no Brasil. Até aí, tudo bem. Assunto encerrado, apesar do aperto no coração. (A tia Beth é disputadíssima entre as primas, todas competimos para ver quem é a sobrinha favorita.)
Acontece que a Mônica, minha prima, acabou de voltar de uma longa temporada morando na capital inglesa. Acho que ficou por lá uns 5 anos. E, talvez por isso, ela tenha sentido na pele a tristeza da nossa tia. Sentiu tanto, tanto, que não conseguiu ir ao encontro. E se não fosse assim, não seria uma reunião familiar. Apesar do sangue em comum, cada um sente, pensa e reage de um jeito. E é bom poder se expressar, mesmo que seja não falando nada.
Além da comida, alugamos uma centena de cada um dos seguintes itens: prato de sobremesa, garfinho, colher e xícara de chá pequenina (usada também para café e capuccino), taça de vinho tinto (usada para todas as bebidas) 3 jarras para água e sucos, uma tina para gelar tudo rapidinho. Compramos copinhos descartáveis para as crianças e esquecemos de embalagens de alumínio para quem quisesse levar para casa um pouquinho do sabor do encontro.
Contamos com uma mãozinha das auxiliares da vovó e da minha cozinheira, mas não deixamos de contratar duas supercopeiras que, em minutos, esterilizaram todo o material locado com álcool, arrumaram o salão, colocaram os salgadinhos para esquentar e serviram os 54 parentes da minha avó, que nem acreditava que tantos de seus descendentes fossem mesmo dar um pulo na casa dela para tomar um cafezinho. Quer dizer, acho que ela não estava acreditando: não se lembrou de assar o tão aguardado bolo de fubá da dona Maria Rita. Fica para a próxima.
>> Postado por Rita Lobo 13:57
Quinta-feira, 08 de novembro de 2007
Campos da infância
Todo mundo já passou pela experiência de voltar a um local da infância e ficar um pouco decepcionado: ou não era tão grande, ou não era tão belo, ou simplesmente não era do jeito que a gente lembrava. Durante anos, mês de julho era sinônimo de temporada na casa de campo dos meus avós. E nós adorávamos. Na adolescência, a simples menção ao lugar era suficiente para me dar coceira. Não ia nem amarrada. Anos mais tarde, meus pais herdaram a casa e não tiveram dúvida: colocaram à venda. Os filhos não queriam mais ir para lá. Mas não é da casa dos meus avós que vou falar.
Pertinho da Alcatéia (as casas da família Lobo costumam ter nome), ficava a chácara da família da tia Lucila. E era para lá que meus irmãos e eu gostávamos de escapar depois do almoço. Isto é, primeiro fazíamos uma paradinha para tomar o, então, melhor chocolate quente do mundo. Depois, seguíamos a cavalo para a, então, chácara mais linda de todo o universo. Tinha um gramado sem fim, lago coberto de vitória-régia, um bosque de eucalipto, quadra de tênis, bolo mármore na mesa e uma casa perfeita. Parecia cenário de filme. Na época, o termo politicamente correto não existia e a coleção de caça ficava à mostra nas paredes: onças, alces, acho que até banquinho de pata de elefante tinha.
Na semana passada, minha prima nos convidou para passar uns dias na chácara. Além de nós, foram também outras quatro famílias. Éramos dez adultos e sete crianças. Uma festa desde o café-da-manhã. Mas antes de chegar à casa, uma paradinha para o chocolate.
Ele continua com gosto de infância. E por isso é bom. Mas como é doce! O paladar também cresce. Do melhor chocolate do mundo só restou o apego à infância. Não era araucária o nome daquele todo enrugadinho? Agora é rama. Rama de chocolate ao leite, de chocolate branco e de chocolate meio amargo. Até este último é doce. Está mais para meio que para amargo. Encerrada a sessão chocolate, entramos no carro e fomos em direção à chácara. Será que eu ainda sei o caminho? Foram uns bons 20 anos desde a última vez que estive por lá. Será que a casa é uma casinha? Crianças vêem as coisas de uma maneira bem particular. Passo pela casa dos meus avós, que não é mais dos meus avós, mas não há como me referir a ela de outra maneira. Por sorte, os atuais proprietários fizeram um bom trabalho. Por fora, está mais bonita do que nunca.
Subimos a estradinha ladeada por hortênsias que nos levam até a chácara. Como a casa é grande! Olho para os meus filhos e me sinto do tamanho deles. Gabriel entra na sala e fica encantado com a onça. Quer saber como fizeram para deixá-la tão magrinha, assim chata na parede. “Eles tiraram a carninha dela, foi mãe?” Mas não fala com pesar. Ele ainda não conhece o termo politicamente incorreto. Ele observa a casa e me pergunta se é antiga. Respondo que é de 1941. Ele não entende muito bem o que isso quer dizer, mas repara que é forrada de madeira. “A madeira também deve ser bem antiga... Como é que se chama aquele bichinho que come madeira antiga?” Fico me perguntando por que um menino de 5 anos quer saber se a casa tem cupim. Dora está hipnotizada com a lareira. Mas, não deixa de perguntar para cada um que passa: “Você mora aqui?” Ela quer saber quem é a dona da casa.
Estamos em novembro, mas a temperatura fora é de inverno. E chove. Como chove. O lago é ainda mais bonito que o da memória. Crianças não se impressionam com a beleza natural. Ou, talvez, eu não notasse a natureza. Os meus filhos estão encantados com o local. Meu marido está impressionado com o enorme alce empalhado, que fica nos vigiando lá de cima do mezanino. E o alce deve estar impressionado como eu cresci.
Minha prima e eu vamos juntas para a cozinha preparar o jantar. Para as crianças, a caseira vai fazer macarrão. E os adultos vão comer risoto. (Nós duas fizemos o menu do fim-de-semana com antecedência.) O risoto é simples, de queijo com raspas de limão. Já no prato, ganha fatias de presunto cru e figo salteado na manteiga. Mas na hora, resolvemos refogar a cebola no bacon, acrescentamos alho-poró fatiado fininho e, além das raspas, colocamos um pouco do suco de um limão. Então ficou assim: 70 g de bacon, 2 cebolas picadinhas, um talo de alho-poró fatiado, 1 k de arroz arbóreo, meia garrafa de vinho branco e caldo de legumes, que a gente vai colocando até dar o ponto. Um pouquinho antes de sair da panela, o risoto ganha raspas de 4 limões, suco de apenas 1, o maior deles, e uma quantidade vergonhosa de queijo parmesão ralado. Não me pergunte quanto. Antes disso, lavamos e secamos 10 figos, que foram salteados em metades numa frigideira com um tico de manteiga. Espalhamos dez pratos pela bancada da cozinha: uma segurava o panelão de risoto e a outra servia com uma concha. Rapidamente arranjamos as fatias de presunto cru no risoto e sobre elas colocamos as metades de figo, que perfumavam da cozinha até a sala de jantar.
Fizemos também duas saladas: uma de endívias com vinagrete de mostarda, e a outra de shitake grelhado com mussarela de búfala e alface romana. Para esta segunda, fizemos uma vinagrete com redução de balsâmico. E no lugar de sobremesa, uma degustação de chocolates, mas não aqueles da infância: os incríveis chocolates preparados pela minha prima Luciana.
No dia seguinte, caminhada até a cidade. Apenas as primas. Luciana, Camila e eu. No caminho, por coincidência, encontramos com os atuais proprietários da casa dos meus avós. Eles dizem que será uma desfeita não irmos visitá-los. Eu fico animadíssima. Quero ver com os olhos de hoje como enxergo a casa da infância. Mas não foi dessa vez. Fica para a próxima. E não foi desfeita não!
Na segunda-feira seguinte, meus pais foram almoçar em casa. Conto com gosto sobre o fim-de-semana. Como a viagem é curta! Menos de duas horas. Pergunto ao meu pai por que ele vendeu a casa. Ele dá risada e responde: “Você foi a primeira a dizer que deveríamos vendê-la.” Mas acontece que eu não tinha dois filhos naquela época, pai! E todo mundo já passou pela experiência de querer levar os filhos para os mesmos lugares da própria infância. Quem sabe, qualquer hora, os donos da casa da minha avó não alugam a Alcatéia para nós? Decepção mesmo é descobrir que os campos da infância são muito melhores do que a gente lembrava.
>> Postado por Rita Lobo 01:27
Segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Vale-livro?
Por favor, gostaria de saber se você ministra cursos, onde e se há uma agenda para o próximo ano. Gostaria de presentear minha Mamma, que é sua fanzoca, no Natal, com uma espécie de "vale-aula" para 2008.
Obrigada!
Gigli
Gigli,
Serve um livro? Prometo que quando fizermos umas aulas no Estúdio, aviso. Enquanto isso, Cozinha de Estar, meu primeiro livro, e Culinária para bem estar, o mais recente, estão disponíveis nas melhores casas do ramo...
Se preferir, você pode comprar pela internet nos seguintes sites:
Submarino
Livraria Cultura
Fnac
>> Postado por Rita Lobo 15:13
Quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Bolo de caixinha, não!
Mudamos de idéia. Lu e eu decidimos que o brunch da vovó Rita vai ser mesmo chá da tarde. A minha prima diz que a avó do outro lado da família dela chamaria o encontro de lanche. Mas para nós é chá da tarde. Lanche que é lanche tem pão francês, presunto e queijo. E nós não gostamos de presunto. Acho que é hereditário. Mentirinha. Gostamos de presunto cru. Pode ser espanhol, cortado grosso, ou italiano, fatiado bem fino. Mas no chá da vovó Rita não haverá nenhum tipo de presunto. A tia Beth e o primo Tom mandam e-mail dizendo que, obviamente, não poderão vir de Londres, mas exigem repeteco em janeiro, quando estarão por aqui, provavelmente, com cara de pimentão. Eles queimam com mormaço. (E eu também!)
Vinho. Este foi fator decisivo para optarmos pelo encontro no fim de tarde. De manhã, fica um pouco estranho servir vinho. Quer dizer, espumante seria de bom tom. Mas o meu estoque de vinho tinto é maior que o de espumante. Logo, será um chá da tarde regado a vinho tinto.
O cardápio vai ser simples. Além de vinho tinto para os 40 adultos, decidimos incluir brigadeiro para as 20 crianças. Haverá bolos variados, tartelettes de frutas da Luciana, micro-sanduíches da Camila, torta de nozes e ameixa da tia Lucila (desistimos das geléias), o bolo musse de chocolate da tia Regina... Não vai faltar comida. Nem bebida. Mas isso é o que menos importa.
A Mônica insiste que o material de serviço seja descartável. Ela acha que não precisamos alugar copos, pratos, talheres. Já contei que decidimos fazer o encontro no salão de festas? A idéia é que a vovó desça quando quiser e, quando estiver cansada, pode voltar ao aconchego do lar. Minha mãe contou que, na última vez que foi jantar na casa da vovó, ela não agüentou ficar à mesa o tempo todo. Foi se deitar antes mesmo da sobremesa. Pessoalmente, acho que ela estava com preguiça da nora. Não era isso não... Mas não podia perder a oportunidade de encher a paciência da minha mãe, podia?
Alice, aquela prima que não sabe cozinhar, e era responsável pelo RSVP geral, foi destituída do cargo. Eu institui, eu destitui. Ela anda muito ocupada para assuntos familiares. Não responde aos e-mails, não liga para as primas. Hoje, ela esteve no Estúdio Panelinha por conta de um projeto (de trabalho) que estamos fazendo juntas. No meio da reunião, avisei à ela que tinha acabado de mandar um e-mail para as outras primas do comitê informado a destituição. Ela, que ainda não sabia, pegou o BlackBerry e respondeu imediatamente, com cópia para as outras primas: “Rita Lobo eh mto topetuda. To em reuniao com ela e ela me destitui do cargo pelas costas na minha frente hahahaha ela me deu aviso previo mas eu nao concordei. Soh pq eu nao respondi aos 127 emails dela.” E para terminar, nos ameaçou dizendo que iria levar bolo de caixinha.
Um minuto depois, veio o e-mail da Luciana, que, por sinal, saiu na Vejinha desta semana, toda compenetrada no preparo dos chocolates dela. O e-mail dizia apenas: “Bolo de caixinha está vetado!”
Por falar em Vejinha, o Arnaldo Lorençato, editor de gastronomia da revista e professor do Mackenzie, inventou uma mesa-redonda sobre gastronomia na mídia. O encontro vai ser amanhã, no auditório da faculdade. Ele me convidou para falar sobre internet, mas acho que vou contar sobre o chá da vovó Rita.
>> Postado por Rita Lobo 21:15
Quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Um café para lobos
Era o ano de 1994 quando meu avô Lobo morreu. Ele tinha 94 anos, eu 20 e minha avó, também Rita, quase 80. Desde então, nunca mais a família toda se reuniu. Antes que você pense que somos uma família de lobos maus, explico: meus avós tiveram dez filhos, que deram a eles mais de 20 netos, que, por enquanto, são pais de 18 bisnetos. A família é grande. Nem todos moram no Brasil. Alguns moram no interior. Entre bisnetos, netos, filhos e agregados, que insistimos em dizer que fazem parte da família (meu avô falava isso para brincar com as noras e genros), somos mais de 60 pessoas. Por isso, as reuniões de família na última década foram feitas em etapas. Nunca estão todos presentes. Já imaginou se todo mundo decide almoçar na casa da Vovó Rita no mesmo dia?
Desde que me lembro por gente, basta entrar na casa dela que surge uma bandeja de café passado na hora, xícaras escaldadas, pelando de quentes, e sequilhos que se desmancham na boca. No último feriado, já com a xícara de café nas mãos, fiquei olhando para a minha avó e pensando que, fazer um almoço para a família toda é mesmo difícil. Mas e um chá da tarde? Sem frescura, organizado pelas netas, cada uma responsável por trazer um bolo ou uma torta doce. As menos jeitosas na cozinha poderiam convidar os familiares e o sequilho continuaria por conta da vovó. Estávamos apenas nós duas na sala, Maria Rita e eu. Perguntei se ela gostava da idéia. Ela ficou animada. Eu também.
Posso ouvir o meu avô dizendo: o ótimo é inimigo do bom. Muitas vezes, acho que é o contrário. Mas neste momento, concordo com ele. A vovó Rita não sabe, mas no fundo estou tentando superar o fato de que nunca mais teremos uma festa de Natal, como eram as festas na minha infância. Então, um chá da tarde com a família toda reunida vai ser muito bom. Vai ser ótimo!
Liguei para minha prima Luciana, que também gostou, mas sugeriu uma idéia ainda melhor: um brunch. Mônica, outra prima, também vai fazer parte do comitê organizador. Afinal, organizar um brunch para 60 pessoas requer um comitê! Alice ainda não sabe, mas vai ficar responsável por enviar e-mails para todos e fazer o RSVP. (Ela não cozinha. Talvez seja a única na família.)
Estou pensando em misturar alguns pratos da Maria Rita, que vão muito bem para um brunch, com receitas das netas. O tender, que ela me ensinou a fazer, precisa ser com osso. É um clássico na família e pode ser assado no dia anterior; na hora, fatiado fininho, fica delicioso servido frio. Vamos comprar pães, pedir para a tia Lucila fazer geléia com amoras da fazenda (ou era em Campos que tinha amoras?), que dá um sabor adocicado para um sanduíche de tender. Vamos alugar máquinas de café expresso, eu vou fazer bolo de limão, a Lu, certamente, vai trazer alguma daquelas maravilhas que ela faz com chocolate. Vamos dividir todas as tarefas, assim, ninguém precisa trabalhar muito.
Vó Rita, agora com 93 anos, está feito criança: “Mas e se não vier ninguém?” Claro que vem, vó! Neste momento estamos procurando a data ideal. Vai ser num sábado, depois de um dos feriados. Assim, quem quiser pode pegar a estrada depois de tomar um cafezinho com a vovó. Ela quer saber o que precisa fazer. Digo que a parte dela resume-se a ficar bem linda para a foto. Ah, claro, vai ter foto da alcatéia. E das receitas também!
>> Postado por Rita Lobo 12:24
Sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Copos e mais copos...
Estou lembrando da mãe de uma amiga minha. Ela é superdivertida. A família toda é. E quando a gente vai jantar lá, ela não esconde que é feliz. “A gente aqui é alegre mesmo”, e solta uma gargalhada de fazer tremer os vidros da casa. E até quem está triste não consegue ficar com a cara amarrada. “Nesta casa, a gente é feliz porque a gente bebe. Aceita um uisquinho?” Ai, ai. Dá para não aceitar? Mas eu não tomo uísque. A não ser quando estou na Escócia. Sério! Coisa de gente fina. Não que eu seja. Mas a senhorinha que mora dentro de mim é chiquérrima! E está cada vez pior.
A Nina, que trabalha aqui comigo, você já deve conhecer, descobriu que também tem uma senhorinha que mora dentro dela. E, agora, as duas senhorinhas, a minha e a dela, deram para conversar. E o assunto favorito das duas, contrariamente ao nosso, não é comida. É bebida. “Esfriou, eu bebo. Esquentou, bebo”, uma comentou com a outra agora pouco.
Uma outra amiga havia combinado um jantarzinho de amigas. Eu perguntei: “Onde vamos jantar?” E ela respondeu: “Não interessa o lugar, o que importa é a companhia. A companhia de um bom vinho, é claro.” E um vinho bom, realmente, faz toda a diferença. Não que ele seja mais importante que a outra companhia, ah, isso não. Mas agora que temos atestado médico, beber uma taça por dia ficou ainda melhor. Depois eles vieram com um papinho que o importante é a casca da uva escura. Por isso, vinho branco é bom, mas não faz bem ao coração.
Não foi pensando nisso que o meu filho ficou obcecado por uma centrífuga de fazer sucos, que ele viu anunciada na televisão. Ele não pensou que poderia fazer sucos fresquinhos, utilizando inclusive a casca da uva. Mas ele ficou muito impressionado com a possibilidade de colocar o abacaxi, com a casca e tudo, e segundos depois ver nascer um suco amarelinho. “Compra um, mamãe!”
Ele não precisou de muito para me convencer. Também fiquei hipnotizada. Ficamos os dois com cara de peixe olhando para a televisão.Você sabe, a gente assiste tevê por dois motivos: porque o programa é muito bom ou porque é muito ruim. Era o caso. Infomercial é infomercial. E não adianta fingir que é programa de auditório, que também não é bom. E fiz do jeitinho que o apresentador mandou: peguei o meu cartão de crédito, liguei para a central, fiz o meu pedido e, com telefone na mão, corri para a porta de casa atrás do Gabriel que queria receber o produto. Antes de eu desligar o telefone, a mocinha do outro lado da linha avisou: “no caso, vamos estar entregando o produto num período de 10 dias...” Como? A senhora tem filhos? Já imaginou a decepção dos meus? Que 10 dias que nada, cancela! “No caso, o cancelamento só poderá estar sendo feito mediante...” CHAME O SEU SUPERVISOR! Bom, eles me prometeram que fariam o possível para atender a minha solicitação de urgência.Dez dias depois o produto chegou.
E não é que os sucos são deliciosos? Fomos à feira comprar pêssego, goiaba, uva, carambola, beterraba, cenoura... Todas as manhã uma novidade. A única coisinha que eles não explicam na televisão é que você precisa ter três empregadas e duas faxineiras para limpar o equipamento. E muito provavelmente, uma delas irá, ops!, “vai estar” pedindo demissão. Mas só de olhar para aquela máquina eu me sinto mais saudável. Nesta casa, a gente é saudável porque a gente bebe!
>> Postado por Rita Lobo 11:57
23 de setembro de 2007
Dois sets e um brunch
Há exatos 20 anos, meu pai, meus irmãos e eu estávamos sentados na mesma arquibancada em que estou agora. Era uma partida importante, a decisão da zona americana da Copa Davis. Representando o Brasil, estava Luiz Mattar. E do lado de lá, Andrés Gomez defendia o Equador.
Antes que você me interprete mal, não sou apaixonada por tênis. Nunca fui. Mas não posso dizer o mesmo sobre meu pai, que fez o que pôde para transformar em herança o seu prazer pelo esporte. Nada feito.
Hoje, o clube onde fica a arquibancada em que estamos completa 77 anos. Meu pai está novamente ao meu lado. Meus irmãos não vieram. Mas meu marido e meus filhos estão aqui. Estão também os dois tenistas numa espécie de reedição daquela partida, que levou o Brasil de volta ao grupo mundial. Agora, porém, o que menos importa é o resultado.
A comemoração é regada à champanhe. No jardim ao lado da quadra principal é servido o brunch. Vinte anos depois, mal vejo a partida de tênis. Mas não consigo tirar os olhos da decoração do jardim. Torres de limão, sofás brancos sob as árvores, mesinhas para acomodar os pratos e Tito Martino e sua jazz band esperando o jogo terminar para a música começar. No bufê, são preparados na hora ovos mexidos, omeletes com queijo, presunto, bacon, tomate picado. Arbustos de limão siciliano e orquídeas brancas decoram os dois lados da bancada.
Além dos ovos e da champanhe, há quiches, saladas e micro-sanduíches. E sucos geladíssimos, como o de melancia que não paro de beber. As quiches são individuais e a copeira sugere que eu prove a de alho-poró. É boa. O presunto cru é fatiado bem fino. Os ovos de codorna são um clássico do clube, sempre com molho rose. São várias as saladas. Folhas verdes fresquinhas, tomate-cereja, um molho bem cremoso de mostarda e uma deliciosa salada de cogumelos-de-paris. Adoro cogumelos frescos. Em casa, vivo fazendo uma saladinha (extraída daquele livro Fundamentos da Cozinha Italiana Clássica, de Marcella Hazan) que mistura cogumelos-de-paris bem frescos e fatiados, salsão, também em fatias, mas cortadas na diagonal, lascas de um bom queijo parmesão e um temperinho simples de azeite e limão. Ah, e pimenta-do-reino moída na hora. Sal quase não leva, pois o queijo já salga. Divina.
Meu pai vibra com o interesse do neto pelo jogo. Eu comemoro a alegria dos dois. (Parece que alguém vai herdar mais do que a genética do avô.) O resultado da partida, confesso que nem vi. Já estava entretida com o frescor dos cogumelos. Mas foi saboroso ver a reedição de uma cena, 20 anos depois.
>> Postado por Rita Lobo 21:14
Segunda-feira, 17 de setembro de 2007
Música para a alma
Tenho pensado na alma. E espero que, assim como o corpo, a minha tenha engordado nas festas de Rosh Hashaná, o ano-novo judaico. Seria bom ter uma alma gorda, generosa, que dá colo para os filhos, mas que, principalmente, dá colo para nós mesmos, acolhe, acalma, acalenta. Minha amiga Fernanda Thompson e eu estávamos almoçando num restaurante (isso faz muito tempo) quando entraram duas senhorinhas. A mais nova tinha uns 80 anos. As duas superenxutas. Eram arrumadas, mas sem exagero. Estavam animadas e pareciam ser amigas da vida toda. Eu disse à Fernanda: “olha a gente aí...” E ela, sempre surpreendente, respondeu: “Que nada, quando eu ficar velha, quero ser bem gorda!” Fiquei pensando por alguns instantes: “Acho que eu quero ficar bem doida, falar o que der na telha...” Passamos boa parte do almoço falando sobre o que, de fato, queríamos. Concluímos que, “gordas e doidas”, para nós, representava liberdade. Era isso que queríamos. Mais liberdade. Interna. É para isso que eu quero ter uma alma gorda.
No primeiro e no último shabat de 5767, assisti ao Rabino Nilton Bonder. No primeiro, que foi em 29 de setembro de 2006 (lembro bem, pois foi um dia depois do meu aniversário), estava tão mergulhada nos meus próprios pensamentos, que não ouvi quase nada. Ou melhor, ouvi as músicas. E a voz da minha amiga Fortuna, que canta para a alma. Aliás, acho que o shabat também serve para isso, para ouvirmos a nossa alma.
No shabat que antecedeu Rosh Hashaná, mais uma vez, o Rabino veio do Rio de Janeiro para São Paulo. Mas, desta vez, as palavras dele grudaram feito Super Bonder. Era mais ou menos assim: o pensamento leva à palavra, a palavra leva às ações, as ações levam ao caráter e o caráter leva ao destino. E com este pensamento (ou este destino), comecei o ano de 5768.
Agora, para começar todas as semanas do ano, nada como esta música do CD CÆLESTIA, da Fortuna, com a participação do Coro de Monges Beneditinos do Mosteiro de São Bento. Buena Semana. Para todas as almas. Magras e gordas.
>> Postado por Rita Lobo 13:07
Quarta-feira, 05 de setembro de 2007
Al Mare, o Fasano à beira-mar
Você já deve saber que eu gosto mesmo de escutar a conversa do vizinho. Mas quando cheguei ao Fasano al Mare, às 3 horas da tarde, o restaurante já estava na sobremesa. Em pouco tempo, o salão estaria sem mesas vizinhas. Atrizes globais, executivos estrangeiros, as senhoras loiro-praia (é aquele tom de amarelo que as usuárias pensam que é dourado, sabe?) que aproveitavam a sexta-feira para conhecer o restaurante do mais novo hotel carioca.
Os três lustres de Murano do salão são de tirar o fôlego. A vista é vista por todos os lados refletida em espelhos bisotados que fazem pensar em Veneza (não são espelhos venezianos, mas têm lá um arzinho). As cortinas brancas pensam que são as paredes do salão e se abrem aqui, se fecham ali e transformam a mesa para doze pessoas em uma sala que jura que é privé (afinal, quem vai ao Fasano quer ser visto).
Rogério Fasano, o feliz proprietário, resolve nos apresentar o hotel antes do almoço. Mas antes pergunta o que eu pedi. Peixe, claro. Entrada e prato principal. Para lembrar que estamos à beira-mar, o cardápio capricha nos peixes. Mas ele cancela. “Traga caviar”, diz ao maître. “Você precisa experimentar o nosso caviar”, ele me explica. É um caviar uruguaio trazido pela importadora da família. E Rogério, assim sem querer, dá uma aula sobre caviar. Sabe tudo. Sabe que não é para comer com gotinhas de limão: “Mas eu gosto, vai fazer o quê?”
Começamos pelo último andar, que se debruça no mar e faz acreditar estarmos num navio. É lá que fica a piscina. Linda, branca e com bordas de mármore. No corredor de outro andar, a cadeira apelidada de Big Mamma, mais para Starck, que assina o projeto arquitetônico do hotel, que para Fasano, muito mais que a alma do local. Ao lado do restaurante fica Londra, o Baretto de lá, ou o bar do hotel, que tem na parede a bandeira britânica com as cores da Itália. (Sim, Londra quer dizer Londres.) Capas de discos de vinil foram enquadradas em molduras douradas. “Finalmente encontrei uma maneira de guardar os meus discos”, ironiza Rogério. O minitour no hotel é rápido. A comida está pronta para ser levada à mesa. Ah, a mesa. É uma engenhoca que abre, encaixa, estica e se transforma graciosamente numa mesa de quatro para oito pessoas. A original, de um designer escandinavo da década de 1950, foi trazida de Londra, ops!, Londres.
Ele come um pouco de caviar, com gotinhas de limão, e se despede. Diz que precisa voltar ao trabalho. Ou quer nos deixar a sós. E o restaurante está quase vazio. Já são quase 4 horas. Uma dupla dinâmica entra para tomar um chá da tarde, a mais nova com mais de 70 anos. Mas não são vovós fofinhas, não. São uma dupla do barulho. “Lurrr-dinha, vamos fazerrr este pedido que loguinho tenho aula de computação. E o meu professor me mata se eu chegar atrasada!” Elas estão na mesa colada à minha. Pedem o cardápio. “Tem bolinho, meu filho? Esqueci os meus óculos e não estou enxerrrrr-gando nada...”, pergunta uma delas ao jovem maître, recém-chegado da Itália, cheio de graça e de sotaque.
Caiu a ficha. Que Veneza que nada! A inspiração local é um old Rio, cheio de glamour, internacional, muita bossa, tudo novo. Os tempos da Lurrrr-dinha. Mas ela não está ali para comer bolinho. Explica ao maître que leu no jornal que a decoração é “do” Philippe Starck. “Foi ele que colocou este monte de pano branco, foi?” E o maître explica com toda a sua graça e seu sotaque: “Veramente, senhora, a decoraçau é um trabalho de colaboraçau entre o senhor Starck e o senhor Rogério...”
Lurrrr-dinha quer saber quem é senhor Rogério. “Senhor Rogério Fasano”, responde o maître, sem mais explicações. Mas ela não se dá por satisfeita: “Ele é decorador, é, meu filho?”
Não, dona Lurrr-dinha, ele é “o” cara. O cara que pega um hotel no meio do caminho, herda um arquiteto renomado, mas com pouco em comum com os outros projetos que levam a marca Fasano, consegue dar liga e transforma o estabelecimento no lugar mais bacana da cidade. Quer dizer, isso é apenas a minha opinião. O maître responde: “Senhor Rogério é o proprietário”. E a amiga reclama mais uma vez: “Lurrr-dinha, olha a hora, minha aula de computação já vai começar!”
>> Postado por Rita Lobo 16:29
Segunda-feira, 27 de agosto de 2007
A dona da deli
Quando Arnaldo Lorençato, editor de gastronomia da revista Veja São Paulo, sugeriu que eu fosse conhecer o trabalho de uma tal Andrea Kaufmann, eu ainda não tinha ouvido falar na “jovem chef”. Na semana seguinte, reservei uma mesa no então recém-inaugurado AK Delicatessen, cuja principal indicação era, “fica onde era o Ici Bistrô”.
Fui, jantei, adorei. E, desde então, só ouço falar na chef... Como você não conhece a Andrea, ela é nora da Kuky? A Andrea é filha da Anita... A Andrea isso, a Andrea aquilo. Tá bom, tá bom, eu não tinha ligado o nome à pessoa.
Se você ainda não a conhece, prepare-se: depois de ler esse post e ver o especial de receitas dela aqui no Panelinha, ou dar de cara com ela nas páginas da Vogue RG, ou esbarrar com uma dica de cinema da chef num jornal paulistano, onde quer que você vá, irá ouvir o nome Andrea Kaufmann.
Assim que alguém começar a contar, “Descobri um restaurante de culinária judaica supercharmoso em Higienópolis...”, você pode dizer: sabia que o medalhão ao pastrami, prato-assinatura da chef, surgiu de um sonho? Em lugar de bacon, a carne aparecia envolta em uma fatia de pastrami, que tinha gosto de Nova York no outono. Depois, bem acordada, Andrea fez uma série de testes e optou por gratinar o medalhão ao pastrami, que ela mesma faz, com queijo brie e, para dar um toque mais judaico, acrescentou latkes, típico acompanhamento ashkenasi, feito com batata e cebola.
A essa altura, todo mundo já ouviu falar que no térreo funciona a deli, que vende por quilo pastrami, arenque, pasta de ovos, salada de batatas, gefilte fish e um ar de casa de avó que, numa manhã de domingo, acordou, colocou o ladrilho hidráulico do chão na parede, pintou flores, muitas flores amarelas no fundo roxo, amarrou um laço na cabeça e saiu flutuando com seu penhoar floral até o segundo andar. (Você sabe, em sonho pode.)
No piso superior, a chef emerge do mergulho nos cadernos de receitas das avós cheia de frescor e transforma pratos tradicionais numa culinária judaica muito particular. A challah, o clássico pão trançado, é fatiada e ganha maçã e pêra, também em fatias, intercaladas num ramequim, aquela tigelinha de suflê. Depois de bem arrumadinhas, as fatias de pão e de frutas são regadas com creme de ovos e polvilhadas com açúcar cristal e raspas de laranja. Alguns minutos no forno e os aromas e sabores se misturam até surgir o pain perdu, uma sobremesa que perfuma a casa inteira e encheria de orgulho a avó da menina, que espalha sobre o restaurante da neta o pó de riso, uma receita secreta que faz os comensais chorarem de alegria. Mas isso é melhor não contar para ninguém.
Para o especial Andrea Kaufmann no Panelinha, a chef abriu as portas de sua cozinha e mostrou todos os segredos da sua culinária cheia de história, muito romantismo e com um toque de humor (você nunca notou que comida pode ser bem-humorada?). Se jogue nas receitas, prepare todos os quitutes e, quando quiser experimentar um pouco do sonho da chef, vá lá no AK Delicatesssen, que fica na Rua Mato Grosso, 450, Higienópolis (“onde era o Ici Bistrô”), tel. (11) 3231-4497.
>> Postado por Rita Lobo 18:11
Segunda-feira, 20 de agosto de 2007
É sopa!
Dalete escreve para dizer que as “receitas são ótimas, fáceis de fazer e os pratos com ingredientes integrais são deliciosos (o que é uma novidade pra mim!).” Gabriela Mourão de Mello diz: “está muito gostoso navegar pelo site, pois além de funcional está visualmente belíssimo!!!
Mas para não parecer que o blog é um espaço para o auto-elogio (mas que é gostoso receber e-mails assim, ah, isso é), aproveito para, finalmente, responder ao e-mail do Alexandre. Ele diz: “Esta é a segunda vez que escrevo para perguntar por que as receitas não são mais escritas em preto. Minha impressora é monocromática e, portanto, só imprime em preto. Ocorre que, como o texto das receitas é digitado em outra cor, quando imprimo, o texto fica quase ilegível. Seria possível voltar a digitar o texto em preto, como era anteriormente?”
Ih, Alexandre, você me fez lembrar de um causo ocorrido outrora comigo. Estávamos em Portugal, uma amiga e eu. Ela estava a morar por lá, e eu fui visitá-la. Apanhamos o carro e fomos até o Porto, a cidade. Um amigo havia indicado um restaurante e tanto por lá. Era o Portucale. Coisa fina. Ficava na cobertura de um edifício, que parecia residencial. Não sei se o era. Tomamos o elevador e, ao fim da viagem, um gentil maître abriu a porta e nos acompanhou até a mesa, previamente reservada. Ofereceu um aperitivo, apresentou o menu e se pôs à disposição para esclarecer dúvidas, fazer recomendações e tirar o pedido. Eu, cansada da viagem, resfriadíssima, sem fome, perguntei se um tal “creme de espargos” (era espargos mesmo) poderia ser servido como prato principal. Cordialmente, mas deixando transparecer um certo descaso, ele me explicou: “Minha senhora, o creme de espargos é uma sopa, uma sopa rala, e por isso, não poderá ser servida como prato principal: ao chegar à mesa, terá sobrado somente uns restos da sopa que será inteiramente derramada no caminho. Por tanto, senhora, infelizmente o creme de espargos não poderá ser servido no prato principal”.
Alexandre, infelizmente não poderemos trocar a cor do site para atender às suas necessidades, mas é sopa selecionar o texto da receita e colar num documento do Word. Daí, basta selecionar todo o texto e ajustar o tamanho e a cor das letras. É bem simples. Se quiser, você ainda pode salvar o arquivo. Boa sorte e desculpe alguma coisa. Mesmo assim, obrigada pela preferência.
>> Postado por Rita Lobo 17:10
Quinta-feira, 09 de agosto de 2007
Gelato
Em teoria, este não é o melhor momento para falar de sorvete. Na prática, quem gosta de sorvete não precisa esperar o verão chegar. E eu adoro. Mas não qualquer sorvete. Aliás, ando gostando mesmo é de gelato. Sabe qual é a diferença básica? O sorvete, mais pesado, tem 20% de gordura; e o sorvete italiano, o gelato, tem menos de 10%. E isso muda tudo. Meus filhos parecem gostar de qualquer sorvete. E a Dora não parece ligar para o sabor, o que importa é que seja rosa. Cor-de-rosa. Fiz o teste: um dia, sorvete de morango da Kibon. Ela adorou. No outro, sorbet de framboesa Häagen Dazs. Ela achou um pouco escuro, mas comeu até virar “suquinho de sorvete”. Eu não consigo comer sorvete Kibon. Dá azia. E Häagen Dazs é muito doce. Mas uma bola de baunilha com um café espresso e temos um bom afogatto.
Quando eu era pequena, pedia ao meu pai que nos levasse ao Café do Ponto. Isso faz tanto tempo que nem sei onde ficava. Tinha sorvete de café. Outro favorito da infância era o sorvete de ameixa da Brunella. Será que ainda existe? Em Nova York, me jogo nos restaurantes japoneses só para tomar sorvete de chá verde de sobremesa. Um luxo! No Nobu, é servido com petit gâteau de chocolate. Agora ficou batido, mas há dez anos, além de gostoso, tinha sabor de novidade.
Recebi um e-mail de uma colega dos tempos de escola. Ela virou engenheira de alimentos, depois fez uma especialização na Itália e, agora, produz sorvetes especiais. Ontem, ela veio ao Estúdio Panelinha trazer alguns sabores para experimentarmos. Figo, pêra, chocolate, baunilha, um do modo brasileiro e o outro do modo italiano, com gema de ovo, os dois com a fava. O de chocolate é feito com o belga Callebaut. E ela pode fazer mais ou menos doce. Espera, deixa eu voltar para o de figo. É de figo seco. Luxo em forma de gelato. Tem sabor bíblico (eu sei, é um jeito meio estranho de descrever um sorvete, mas tem esse gosto, vou fazer o quê?). O de pêra é a fruta melhorada. O de gengibre é divino. E tinha um sorbet de chá verde. Finalmente achei! Mas a Paula não tem uma sorveteria, ou gelateria. A fábrica é pequenina (e por isso mesmo a qualidade é incomparável) e ela atende bufês e restaurantes. (Para o Brasil a gosto, ela desenvolveu um sorvete de feijão com rapadura. Eu não experimentei, mas provei um curioso sorvete de azeite, usado em pratos salgados, como para fazer uma caprese diferente). Mas a gente também pode comprar. Para saber mais sobre a Arte Gelati, da Paula Ayroza Saracchi, ligue para (11) 3213-9159.
A Marina acaba de entrar na minha sala: “Rita, sabe o que o Renan Calheiros, o Cebolinha e o Bill Clinton têm em comum? Todos foram ferrados pela Mônica.” Aêeee, Marina.
>> Postado por Rita Lobo 11:32
Sexta-feira, 03 de agosto de 2007
Castraure?
Minha amiga W. resolveu vir para São Paulo comemorar seu aniversário. E nós fomos jantar no Fasano. A combinação não poderia ser melhor: o Fasano é o Fasano; e W. é uma dessas mulheres que sabem das coisas. Ela é divertida, inteligente, tem sempre uma boa história para contar e vive com rodinha nos pés (ela acabou de chegar de um tour enogastronômico na Provence, mas isso é história para outro post). E como se não bastasse, ainda é chique. De fazer inveja à Gloria Kalil.
Antes de continuar, preciso dizer que tenho um apego sentimental ao Fasano. Meu casamento foi lá, quando o estabelecimento ainda era na Haddock Lobo. Mas não é só por isso que gosto do restaurante. Aliás, é o contrário: me casei lá porque adoro o Fasano. O serviço, o ambiente, tudo é luxuoso. Mas a comida é o centro das atenções. Mesmo. E não há dúvida que isso se deva a um trabalho de equipe. Mas o chef Salvatore Loi é um mestre. Ele é a competência em pessoa. Vá na segunda ou na sexta, com um boa companhia ou num jantar mala, apaixonada ou de TPM, a comida é sempre igual: maravilhosa. E constância é palavra-chave para avaliar a qualidade de uma cozinha.
Desta vez, porém, o chef se superou. Ou melhor, superou as minhas expectativas. Sim, a companhia era ótima, e não há dúvida que isso influencie o resultado de um jantar. Mas o Risotto di castraure estava imbatível. Uma combinação generosa da natureza com a técnica do chef Loi.
Castraure é aquela minialcachofra veneziana. O sabor é intenso, como se fosse uma alcachofra concentrada. Confesso que não sei se algum outro restaurante em São Paulo serve a iguaria. E, como tudo que é bom dura pouco, logo mais a temporada das alcachofrinhas acaba. Mas a técnica do chef só melhora. E dá gosto ver a capacidade de Salvatore Loi transformar qualquer ingrediente num prato cheio de glamour. Uma tira de peixe, um caldinho caseiro, duas ou três fatias de pão e está pronto um Pesce del giorno in acqua pazza. Pelas mãos dele, a boa e velha polenta se transforma na melhor sobremesa que você terá comido na vida: é o Dolci di polenta e pera con salsa di vino rosso. E isso não é mágica, é técnica.
Eu sei, o Fasano é caro. E a temporada das alcachofrinhas está acabando. Mas se você não tem medo do fogão, confira aqui no Panelinha algumas das deliciosas receitas, do chef salvatore Loi, do restaurante Fasano, explicadinhas tim-tim por tim-tim.
>> Postado por Rita Lobo 00:17
Terça-feira, 31 de julho de 2007
Francês com sotaque
Não é fino, mas ADORO escutar conversa da mesa ao lado. Acontece que, às vezes, o feitiço vira contra o feiticeiro. Não que alguém tenha escutado alguma confissão minha, feita a uma amiga íntima numa mesa de restaurante. É que, no domingo passado, ao meu lado, estava um caloroso neto que passou o almoço inteiro conversando com o avô surdo. Surdinho da Silva. E a avó era muda. Não emitiu opinião sobre nada. E olha que o assunto era comida! Não em geral, mas a do restaurante em questão. “VÔ, O SENHOR VAI QUERER O ESCALOPE OU O MEDALHÃO AO MOLHO MOSTARDA? O SENHOR ADORA MOLHO MOSTARDA, NÃO É?” Ele tinha lido no menu, porém, que o tradicional Festival do Cordeiro já tinha começado. Estava em dúvida entre as costeletas e o pernil. Mas queria as batatas fritas! “DAS FRITAS O SENHOR NÃO ABRE MÃO!”, gritava o sorridente rapaz.
Se por um lado não consegui mais prestar a atenção na conversa da minha mesa, por outro, fiquei sabendo tudo sobre a história do Freddy e, principalmente, as preferências gastronômicas daquele senhor, que, provavelmente, freqüenta o restaurante desde 1935, quando foi inaugurado. Ele contou ao neto que o primeiro endereço era no centro. “Como era mesmo o nome da rua, Josefina?”, e a avó nem os olhos piscava. Mas o neto não titubeava, “NÃO ERA NA CONSELHEIRO CRISPINIANO, VÔ?” E depois, em 1954, o Freddy foi para a Praça Dom Gastão Liberal Pinto, onde ficou até poucos meses atrás. Eu ia pouco, mas adorava aquele salão.
Há alguns anos, faço parte do júri da edição Comer e Beber da revista Veja São Paulo. E nunca a categoria cozinha francesa esteve tão agitada. O chef Pascal Valero, que veio para o Brasil em 2002 chefiar a cozinha do restaurante Eau, foi para o Le Coq Hardy. O Allez, Allez! ganhou um irmão caçula, o Le Petit Trou, também chefiado por Luiz Emanuel Cerqueira. E o Freddy, que já mudou de dono algumas vezes, mudou para a Rua Pedroso Alvarenga.
Apesar da indicação involuntária do avô do rapaz ao lado, pedi o pato assado com maçãs e ameixas. E estava bom. Bem bom. Mas pelos humms! do avozinho, as costeletas de cordeiro estavam melhores. E as batatas fritas continuam um primor!, exclamava o senhor. E eu não posso deixar de concordar. (Pedi uma porção à parte.)
Apesar do novo endereço, o cardápio e a execução dos pratos continuam idênticos. E o motivo é simples: o chef Geraldo Rodrigues está na casa há mais de 40 anos. Isto é, chef Geraldo Rodrigues para nós, para o meu vizinho é o chef Leléo. E, por isso mesmo, a cozinha do Freddy fala bem francês, mas tem sotaque brasileiro. No começo da carreira do chef, mostarda de Dijon, só em Dijon mesmo. E o tão apreciado molho mostarda precisava ser feito com mostarda nacional. E depois de tantos anos servindo o molho assim, fazer um molho com a mostarda certa parece errado. O nosso senhorzinho da mesa ao lado certamente reclamaria. RECLAMARIA OU NÃO? Acho que sim. E ele está certo. Se quiser o molho mostarda feito com mostarda Dijon, que vá a outro restaurante!
O Freddy fica na Rua Pedroso Alvarenga, 1170 - Itaim São Paulo - SP Tel: (11) 3167-0977
>> Postado por Rita Lobo 17:37
Terça-feira, 17 de julho de 2007
Ovas de tainha à moda caiçara
Desde que voltei de Parati, estava decidida a escrever sobre as ovas de tainha à moda caiçara. Fiz um monte de fotos na praia. Ovas fritas, cruas, ao lado da tainha... Se eu morasse à beira-mar, começaria o dia com ovas fritas e uma xícara de café preto. É assim que os nativos fazem. Especialmente em maio e junho, os meses da desova. Mas os pescadores contam que o mundo está mesmo perdido: estamos em julho e a desova continua. Diariamente, eles trazem do mar o peixe que está a caminho dos manguezais. Quando elas entram no rio, fica proibida a pesca. Fiquei pensando que essa tainha frita é a nossa bottarga, artigo fino, típico da Sardenha, no sul da Itália. Resolvi dar uma pesquisada no assunto e acabei achando um blog tão bacana, que desisti de falar das ovas ou da bottarga.
O FXCUISINE é uma espécie de fotoblog gastronômico. François-Xavier, o autor, um suíço que gosta de cozinhar e de fotografar, explica o passo-a-passo das receitas com fotos lindas, que ele mesmo faz, quase sempre com fundo preto, mas cheias de brilho. Ele diz que não gosta de contar as experiências frustradas ou as visitas desinteressantes a restaurantes. Só as receitas que deram certo. Bom, este link é para o post da bottarga, que me levou até o site. E aqui você acessa a página inicial do blog. Vale a pena. É lindo!
>> Postado por Rita Lobo 22:54
Segunda-feira, 16 de julho de 2007
Pé na cozinha
e-mail da Renata
Assunto: Casa Vogue
Rita,
Como vc. tem coragem de sentar onde vc. cozinha?
E pior, ainda por o sapato do lado do fogão????
Não sabe que sapato é muito sujo?
A foto me chocou!!!!
Renata
Renata,
Nesse fim de semana, fui assistir à comédia Ratatouille. Levei meus filhos. Nós AMAMOS! Todos os conceitos bacanas de culinária e de gastronomia estão nesse filme, que conta a história de um rato que sonha em ser chef de cozinha em Paris. Mas acho melhor você não ver. Vai ficar chocada. Tem ratos na cozinha! Agora há pouco, uma amiga entrou no msn e perguntou sobre uma coisa, eu respondi e ela disse, “aff!” Adorei! Vem a calhar: aff, Renata! (Aff, eu aprendi, é “afemaria”.) Como assim? Você não limpa a bancada da sua cozinha? E se tiver de trocar a lâmpada que fica no teto sobre a pia? Eu sei, você tira o sapato! Essa é boa, lave os pés antes de entrar na cozinha. Só uma perguntinha: você tem coragem de experimentar um pedacinho de goiaba na feira só para ver se está doce? Deve ficar com muito nojo, né? Vem cá, para você não ficar tão impressionada, aquilo é só uma foto, viu? É tudo produção! Ô, Renata, escolha coisas mais impressionantes para você ficar chocada. Ou, então, nem Casa Vogue vai dar mais para você ler!
>> Postado por Rita Lobo 13:06
Quinta-feira, 12 de julho de 2007
Que medo!
Esta não é exatamente uma daquelas lulas gigantes, que chegam a ter até 15 metros. Mas era grande. E, segundo os pescadores locais, veio nadando da Argentina. Lula argentina? Não foi pra panela não! (Desculpe, não resisti.) A verdade é que, independentemente da nacionalidade, o molusco não me abriu o apetite. Nem o meu nem o de ninguém lá em casa. A Dora, minha filha de 2 anos, perguntava com os olhos arregalados: “o que é isso, mamãe, o que é isso?” LU-LA, Dorinha, é LU-LA. “Ai, eu tenho medo do lula, mamãe!” Eu também, Dora, eu também.
>> Postado por Rita Lobo 22:08
Quinta-feira, 12 de julho de 2007
Você sabe o que é isso?
Bichos estranhos que aparecem na praia são diretamente levados para a minha casa. Às vezes, por pura diversão dos pescadores locais – eles querem ver se eu tenho mesmo coragem de colocar na panela tudo o que é de comer! Esse bicho feio aí é a maior lula que eu já vi na minha vida. É também a maior lula que já apareceu na região. E isso não é história de pescador.
>> Postado por Rita Lobo 21:54
Segunda-feira, 09 de julho de 2007
Canibais literários
Os índios tupinambás eram canibais. Mas a carne humana não era apenas alimento para o corpo. Na época de desova das tainhas, os índios pescavam aos milhares o peixe que migrava das águas frias do mar do sul para os manguezais do litoral norte. Depois, secavam a carne de tainha ao sol e, socando, faziam dela uma farinha que serviria de alimento para um exército de índios, durante os três dias de viagem até São Vicente. Lá, atacavam os tupiniquins, a tribo inimiga. Os índios capturados eram o prato principal da viagem de volta. Era o alimento do corpo. Mas não somente. Eles acreditavam comer também a força e a valentia do inimigo.
Borrachudos que vivem entre Ubatuba e Parati, ora terra exclusiva dos tupinambás, também são canibais. Digo isso sentindo na pele. Acham que pele branca é pele inimiga. Ou gostam de cheirinho de leite. Uma vez, no Japão, comentei com uma amiga que eu sentia cheiro de peixe no metrô lotado. Ela respondeu que para eles, japoneses, um ambiente fechado cheio de ocidentais cheira a leite. Somos o que comemos. E cheiramos ao que comemos. Não sei bem o que os borrachudos querem de mim, além do sangue com cheiro de leite. Vim passar uns dias na praia justamente porque estava sem forças. Mas eles não perceberam e continuam me picando.
Na sexta-feira à noite, fui me alimentar na Flip, a Festa Literária Internacional de Parati, que tem no nome a sua essência: é mesmo uma festa. E lotada! Na Tenda dos Autores, à mesa, Nadine Gordimer e Amós Oz. Ela, sul-africana; ele, israelense. Ambos vozes importantes dos conflitos de seus paises. Ele diz que a comédia e a tragédia são janelas da mesma paisagem. Está falando sobre a questão dos judeus e dos palestinos em Israel. Mas faço um mergulho rápido em busca da graça nas minhas pequenas tragédias imediatas. O mediador do debate conta que Amós lutou em duas guerras, mas nunca escreveu sobre o campo de batalha. O autor diz que já tentou – e promete continuar tentando –, mas não garante que um dia irá conseguir colocar em palavras algo que não há nada de familiar, para ninguém, nem mesmo para quem já esteve em uma guerra. Mas comprova a sua teoria das janelas, contando uma historinha. Na primeira vez que ficou frente a frente com uma tropa inimiga, e viu as armas apontadas em sua direção e na de seus homens, sua reação não foi a de atirar, ou de sair correndo, mas a de chamar a polícia. A platéia ri e aplaude. Ele conta que mora a 5 minutos do deserto. Às seis da manhã, começa o dia com uma caminhada. Andar pelo deserto o faz refletir sobre a importância das coisas e ajuda a colocar tudo em perspectiva. Quando chega em casa, ele liga o rádio e ouve no noticiário políticos dizendo palavras, como nunca, jamais, nunca mais e pensa: as pedras do deserto devem estar rindo deles! Volto para a minha viagem e avalio: talvez, colocadas em perspectiva, as pequenas ou até as grandes tragédias pessoais possam mesmo ganhar uma versão cômica. Olho ao redor e suspeito que, como eu, aquelas 799 outras pessoas da platéia são ali tupinambás, tentando extrair dos autores um pouco de força e de valentia para enfrentar os próprios conflitos. Ou simplesmente gostam de cheirinho de leite.
>> Postado por Rita Lobo 18:15
Quarta-feira, 04 de julho de 2007
A avó de Amós Oz
Há alguns anos, fiquei com um pouco de preguiça dos livros infantis que lia noite após noite para o meu filho Gabriel. Fiz um teste: peguei o livro que estava na minha cabeceira e comecei a ler em voz alta. Não era um livro para criança, mas justamente naquele trecho, o autor contava sobre o foguete que, aos 8 anos, construiu com “peças de uma geladeira abandonada e restos de uma velha motocicleta.” Gabriel ficou em êxtase. Que idéia maravilhosa a daquele garoto de Israel! O foguete serviria para atingir o palácio de Buckingham, caso “sua majestade o rei da Inglaterra, o rei George VI, da Casa de Windsor” não saísse de Israel em seis meses: “o nosso Dia do Perdão se tornará o dia do Juízo final da Grã-Bretanha”.
O mesmo menino, anos depois, criou o movimento israelense Paz Agora.
De amor e trevas foi o único livro de Amós Oz que Gabriel e eu lemos – quando fui para Israel, ele quis saber se eu iria me encontrar com o menino do foguete. Hoje, contei para ele que o garoto de Israel, agora com 68 anos, estava em Parati. Gabriel está mais interessado no foguete. Eu estou ansiosa para assistir ao debate do autor com a escritora Nadime Gordimer que acontecerá na sexta-feira. Dei uma folheada no livro e achei um trecho de que não me lembrava. Fiquei com vontade de ler para você.
“Muitas vezes os fatos ameaçam a verdade. Escrevi uma ocasião sobre o verdadeiro motivo da morte de minha avó: minha avó Shlomit chegou a Jerusalém diretamente de Vilna, num dia quente de verão do ano de 1933. Lançou um olhar atônito aos mercados suarentos, às barracas multicoloridas, às ruelas fervilhando de gente, de gritos de vendedores, de zurrar de burros, de balidos de bodes, de cacarejar de galinhas amarradas pelos pés, de pescoços mudos e sangrentos de aves agonizantes, olhou para os ombros e braços dos homens orientais e para o escândalo das cores berrantes das frutas e verduras, olhou para as montanhas em volta e para as rochas solitárias nas encostas, e proferiu a sentença implacável: “O Levante é cheio de micróbios”.
(...)Como parte de sua inflexível guerra cotidiana contra os micróbios, vovó manteve, sem concessões, a rotina de ferver frutas e verduras. O pão era esfregado uma ou duas vezes com uma toalhinha umedecida em uma solução de desinfetante químico de cor rosada, chamado Káli. Depois de cada refeição, vovó não lavava os talheres, mas, como se tratasse dos preparativos para o Pessach, submetia-os a prolongada fervura, e fazia o mesmo com ela própria: cozinhava-se três vezes ao dia. Fosse inverno ou verão costumava tomar três banhos de imersão quase fervendo, como parte do seu combate diário aos micróbios. Ela foi muito longeva, os micróbios e os vírus a reconheciam de longe e se apressavam em mudar de calçada. Quando ela tinha mais de oitenta anos de idade, depois de dois ou três ataques cardíacos, o Dr. Krumholtz a advertiu: Minha cara senhora, se não desistir desses banhos escaldantes, não me responsabilizo pelo que poderá, Deus não permita, lhe acontecer.
Mas vovó não podia abrir mão de seus banhos. O horror aos micróbios era soberano. Morreu no banho.
De fato, teve um infarto.
Mas a verdade é que minha avó morreu por excesso de limpeza, e não de um ataque cardíaco. Os fatos têm o péssimo hábito de ocultar a verdade aos nossos olhos. A limpeza a matou. Talvez o lema da sua vida em Jerusalém, “O Levante é cheio de micróbios”, aponte para uma verdade anterior, mais essencial que o demônio da limpeza, uma verdade sufocada e escondida dos olhares, pois, afinal, vovó Shlomit viera para Jerusalém do norte da Europa Oriental, lugar não menos hospitaleiro aos micróbios do que Jerusalém, sem falar de todos os outros tipos de agressores.
(...)A verdade é que não era para se proteger das ameaças do Levante que minha avó mortificara e purificara o corpo em banhos escaldantes nas manhãs, tardes e noites de todos os dias de sua vida em Jerusalém, mas sim, ao contrário, pelo fascínio que seus encantos sensuais exerciam sobre ela, pela voluptuosidade de seu próprio corpo, pela atração poderosa dos mercados que transbordavam e fluíam e ondulavam impetuosos a sua volta deixando a quase sem respirar, com uma vertigem na boca do estômago e um incontrolável tremor nos joelhos pela abundância de verduras, frutas e queijos tentadores e pelos perfumes penetrantes, entorpecentes de todas essas comidas estrangeiras e estranhas que a excitavam, e as mãos gulosas e insaciáveis que apalpavam - penetravam até o mais recôndito das montanhas de frutas e verduras e os pimentões vermelhos, e as azeitonas temperadas, e toda nudez daquelas carnes polpudas sangrentas, sem pele e sem vergonha que balançavam nos ganchos das feiras, e todos os temperos, e os pós, e as especiarias, até o dissolver dos sentidos, até quase o desmaio, toda sorte de tentações lascivas que lhe lançava esse mundo amargo, azedo e salgado, e também a fragrância pungente do café que a penetrava até o fundo do ventre, e as grandes jarras de vidro cheias de bebidas de mil cores, e nelas pedaços de gelo e limão, e os carregadores do mercado, robustos, bronzeados, peludos, nus da cintura para cima, com todos os músculos das costas tremendo pelo esforço sob a pele quente, reluzindo ao sol, ensopada de suor. Quem sabe se o culto à limpeza de minha avó não passava de um traje de astronauta, hermético e esterilizado? Ou de um anti-séptico cinto de castidade com que ela cingira voluntariamente a cintura para se resguardar das seduções desde o primeiro dia em Israel? E que trancara a sete chaves, jogando-as fora depois?
Por fim, sofreu um ataque cardíaco que a matou. Um ataque de fato. Mas não foi o coração que a matou, e sim o excesso de limpeza. Ou antes, nem foi a limpeza, mas seus desejos ardentes e secretos a mataram. Ou melhor, nem foram os desejos, mas o pavor de vir a ser tentada pelos desejos. Ou – nem a limpeza, nem os desejos, nem o pavor dos desejos, mas a raiva inconfessa e permanente que tinha desse pavor, uma raiva sufocada, maligna, inesgotável, raiva de seu próprio corpo, raiva do seu desejo, e também outra raiva, ainda mais profunda, a raiva de fugir de seus próprios desejos, raiva opaca, venenosa, raiva da prisioneira e da carcereira, anos e anos de luto secreto pelo tempo vazio que passa e repassa sobre o corpo encolhido pela voracidade sufocada desse mesmo corpo. Foram esses os desejos, lavados milhares de vezes e ensaboados até a náusea, e desinfetados, e esfregados, e fervidos, esse o desejo do Levante, malcheiroso, suado, animalesco, delicioso até o desmaio, mas cheio de micróbios.
>> Postado por Rita Lobo 17:41
Segunda-feira, 02 de julho de 2007
A chef Clo Dimet
Ela nasceu e cresceu no Uruguai, trabalhou na Argentina e se estabeleceu no Brasil. E as receitas da chef Clo Dimet têm um certo south american way... Mas esqueça o abacaxi na cabeça: tudo aqui é muito chique!
Quem resiste a uma manga recém-tirada do pé? Não é difícil se imaginar sentado sob uma mangueira, segurando a fruta com uma mão e descascando com a outra para comer a polpa docinha, até chegar ao caroço. Isso qualquer um consegue fazer. Um cesto de jaboticaba pode suscitar na mente humana uma panela de geléia cozinhando em fogo baixo. Mas e um porco? Você enxerga nele um presunto em potencial?
Chefs enxergam a natureza de uma maneira diferente. Quando Clo Dimet fala das planícies uruguaias, fica com um olhar nostálgico. Duvido que ela esteja pensando nos campos de sua infância. Ela está com água na boca só de lembrar do sabor dos cordeiros que andam sobre as verdes planícies de seu país. Aposto!
A conclusão se deve ao fato de que, para a chef, o frescor dos alimentos é a base da boa cozinha. Ou melhor, os ingredientes são a sua inspiração. “Não penso em fazer um pato francês com molho de jaboticaba e aí corro atrás do pato e da jaboticaba. Eu me inspiro nos mercados.” Aquilo que está mais fresquinho, vai para a panela. Mas não é só isso que conta. A procedência é fundamental. É fato: alimentos orgânicos estão na moda, mas não são novidade na cozinha da chef.
As receitas de Clo revelam uma série de outras influências. Ela explica que viajar é uma maneira de nutrir-se profissionalmente. A chef morou na Argentina, onde trabalhou com o chef Francis Mallmann, que a trouxe para São Paulo quando ele chefiou a cozinha do restaurante A Figueira Rubaiyat. Antes, porém, ela passou cinco anos na Europa, foi visitar a Índia, ficou um tempo na Austrália, conheceu o Marrocos. E tudo isso tem lugar na cozinha da chef Dimet.
Seus pratos vão de um saboroso cuscuz marroquino até uma crema catalana tropicalizada com leite de coco. Mas, quando apresenta a sua receita de pudim de doce de leite, Clo deixa transparecer onde moram os sabores que alimentam a sua alma. É numa América Latina chique, que transforma receitas do dia-a-dia em pratos sofisticados. A rústica costeleta de cordeiro uruguaia vem acompanhada de uma luxuosa salada morna de lentilhas com espinafre. Mas a chef não deixa de ter um olhar estrangeiro sobre os nossos ingredientes. Ela enxerga o especial no comum e transforma o comum em especial. A brasileiríssima combinação Romeu e Julieta, surge em versão suflê de goiabada com creme de queijo (que mistura mascarpone com creme chantilly). Clique aqui e confira as receitas da chef Clo Dimet que adaptamos no Estúdio Panelinha. Assim, você poderá fazer em casa oito saborosos pratos que a chef prepara no restaurante La Table.
>> Postado por Rita Lobo 19:22
Sexta-feira, 29 de junho de 2007
Pudim do João
Quando eu era solteira, não entendia como as mulheres, senhoras casadas, mães de um ou mais filhos, podiam passar um jantar inteirinho falando sobre a incompetência da empregada, a genialidade dos filhos e as manias do marido. Espere, não vou fazer uma ode às rainhas do lar! Mas parece que tudo tem sua fase. Vira e mexe me pego reclamando da empregada. Com as amigas mais íntimas, o marido sempre vira assunto. E os filhos, se bobear, são tema de competição: “acontece que o meu filho falou, mamãe, com sete dias de vida!” E o pior é que os meus enteados também entram nessa categoria. Mas eles são talentosos. Não é porque o João Wainer é meu enteado, porém, que eu quero que você leia um post do blog dele intitulado Pudim . É porque é bom. Muito bom. Cinematográfico. A foto ao lado também é dele (eu copiei do post). Aliás, estou pensando seriamente em fazer uma seção “posts da semana”. Se você leu algum texto de blog que gostou e que, de alguma maneira, fale sobre comida, mande para mim pelo e-mail rita@panelinha.com.br.
>> Postado por Rita Lobo 00:10
Sexta-feira, 22 de junho de 2007
Vinho anticelulite!
A nutricionista Marcia Daskal acabou de dar um pulo aqui no Estúdio Panelinha. Conversa vai, conversa vem, ela me disse que vinho ajuda a diminuir a celulite! O quê? Vinho é anticelulite? Bom, ela explicou o seguinte: “Vinho é bom para a saúde, todo mundo sabe. O que pouco se fala é que o vinho tem o poder de dilatar todos os vasos, e não só aqueles ligados ao coração. Curiosamente, a combinação entre essa capacidade vasodilatadora e as propriedades antioxidantes pode ajudar a diminuir os efeitos da celulite!”
Mas como nem tudo são flores, ela também explicou que: “Como o álcool é muito calórico e se transforma gordura, melhor ainda é apelar para o suco de uva que também contém os mesmos fenóis do vinho.”
Perguntei por que não havia me dito isso antes! (Brinquei que acredito no poder da mente: se, a cada taça de vinho que eu tomar, eu mentalizar que a minha celulite está diminuindo, em uma semana minhas pernas estarão lisinhas!) Ela explica: “A ética impede médicos e nutricionistas de indicar o consumo regular de vinho: fica difícil prever quem tem ou não propensão ao alcoolismo. Os povos mediterrâneos costumam consumir entre uma e duas taças de vinho por dia. Embora não exista uma quantidade padronizada, muita gente acaba consumindo a clássica uma taça de vinho, inspirando-se no hábito mediterrâneo.”
O melhor mesmo é que saber dessa propriedade do vinho certamente vai deixar qualquer brinde ainda mais gostoso. Saúde!
>> Postado por Rita Lobo 18:13
Quinta-feira, 21 de junho de 2007
Nós, ETs
Estou começando a achar que sou um ET no corpo de uma ex-modelo da década de 1990. Cada vez que alguém começa a contar uma história de quando tinha 6 ou 12 ou 15 anos, fico arrasada. Minha memória só tem registro dos 18 anos para cima. Antes disso, ela é muito fragmentada. Por sorte, na casa dos meus pais, tem uma centena de álbuns de fotografias. Férias 79, Chácara Avaré 82, Campeonato de Tênis, Delaware. E mais um monte de fotos do cotidiano. Está tudo registrado e catalogado. E, talvez por isso, apesar de não me lembrar da minha infância de forma contínua e cronológica, as imagens aparecem fortes em forma de flashes.
Não sei se é porque eu vi numa foto, mas acho que me lembro de um lençol amarelo-gema na cama da minha mãe (aliás, que cor era aquela, mãe?). Somos três irmãos: Fábio, eu e o Gui, em ordem de nascimento. Isto é, por enquanto: tão logo o Gui vire um senhor de barba ou barrigudo, eu vou virar a caçula. Ah, vou. Mas lembro bem desse lençol. Aos domingos, meus irmão e eu acordávamos mais cedo e corríamos para a cama dos nossos pais. Não sem antes arrombar a porta do quarto que vivia trancada (safadinhos eles, não?).
O fato é que, o Gui, o caçula, que não é mais Guizinho, é Dr. Guilherme, defendeu a tese de mestrado dele na semana passada.
Ele foi aprovado e ganhou uma indicação para o doutorado. Eu fiquei toda orgulhosa, mas continuo me sentindo um ET. Ainda não consegui entender sobre o que é o estudo. Ou melhor, nem sequer o título compreendi: “O desfecho perinatal da aloimunização eritrocitária não-relacionada ao antígeno RhD.” Certo?
Para comemorar, ele resolveu oferecer um jantar aos professores, amigos e a nós, os parentes. Confesso que fiquei um pouco ansiosa acerca do tipo de conversa que poderia haver no jantar. Imagine o Prof. Dr. Camano puxando papo comigo: “Como você sabe, Rita, o desfecho perinatal da aloimunização eritrocitária não-relacionada...”
Não, professor. Eu sinto muito, mas não faço idéia do que o senhor esteja falando. (E eu que pensei que só não entendia letra de médico!) Por outro lado, eu poderia responder: “Não sei se o senhor sabe, mas o coulis servido com o fois gras foi feito com fisalis macerados em tokay 5 puttonyos com um toque de Averna.” Não seria uma boa saída?
Às 8 horas em ponto, os convidados começaram a chegar. Nada de canapés. Apenas uma boa cava. Eram trinta pessoas. E, é claro, o Prof. Dr. Camano foi o primeiro a chegar. Ele esticou a mão e me disse: “Fui aluno do seu avô.” Eu dei um sorriso aliviado, e ele continuou andando até o meu irmão. Depois chegaram outros professores, os amigos e nos dividimos em mesas de seis pessoas. O Gui, como todo bom anfitrião-médico, passava visita nas mesas e cuidava dos convidados como se fossem seus pacientes. Aos pouco, fui me sentindo mais à vontade e fiquei com a sensação de que eu não era o único ET ali. Aliás, graças ao Dr. Raulinsky, que estava sentado ao meu lado, e comentava coisas como, “uma beleza de fratura exposta”, minha suspeita de eu ser um ET foi para o espaço: sem ofensa, doutor, mas depois de conversarmos um pouco, estou começando a achar que o senhor é que é um ET.
>> Postado por Rita Lobo 17:57
Segunda-feira, 18 de junho de 2007
Ai, dona Rosa
Eu estava saindo do supermercado e ela, entrando. “Oi, dona Rosa, tudo bem?” Ela me deu um beijinho e perguntou por onde eu andava. “Está sumida, não apareceu mais...” E eu respondi: “É ciúme, dona Rosa. Estou com um pouco de ciúme.” Ela arregalou os olhos levemente.
A dona Rosa é também dona do Z Deli, que fica pertinho da minha casa. De uns tempos para cá, Roberto, meu marido, resolveu almoçar lá dia sim, dia não. E, às vezes, eu o acompanho. Ele come salada de pepino com endro, salada de trigo... E outro dia, enquanto ela montava o prato, ele apontou para um peito de frango assado. Frango? Isso já é demais.
Roberto odeia frango. Em casa, frango assado já virou motivo de briga. E ele tem a cara de pau de comer um frango assado na minha frente? Ah, dona Rosa, a senhora me desculpe, mas fiquei um pouco enciumada. A senhora me entende, não é? Mas tem mais uma coisa, que eu nem ia contar.
Em setembro do ano passado, no Rosh Hashaná, conheci a Esther, mulher do rabino Nilton Bonder (eles moram no Rio e estavam em São Paulo especialmente para a data). Depois do serviço religioso, uma amiga em comum ofereceu um jantar na casa dela. Sentei ao lado da Esther e nunca mais desgrudei dela. De certa forma, ela iluminou o Rio de Janeiro para mim – e olha que isso não é pouca coisa! Todas as vezes que estou por lá, tentamos nos encontrar. Ela raramente vem para cá. E no dia-a-dia, a nossa comunicação é por e-mail. Vez ou outra, quando os assuntos se acumulam, é por telefone. Bem, dona Rosa, a única vez que a Esther manifestou algo em relação a São Paulo foi quando eu disse que, naquele dia, havia levado as crianças para almoçar aí no Z Deli. A Esther não se agüentou. “Ai, que inveja, o Z Deli a poucos quarteirões de casa!” É isso, dona Rosa, logo mais eu passo aí para comer uma fatia de cheesecake (que além de tudo, não racha no meio).
>> Postado por Rita Lobo 13:22
Quarta-feira, 30 de maio de 2007
Por uma América do Sul mais doce
Meu pai é um homem alto, bonito, tem um tipo atlético e uma memória de fazer inveja aos elefantes. Quando eu era criança, ele tinha uma moto gigante e dois carros antigos: um Jaguar 74 e uma “Mercedinha”, como ele próprio se referia ao automóvel. Na adolescência, nunca peguei recuperação ou precisei de aula particular. Não por competência minha, mas por paciência do meu pai, o melhor professor que já conheci. Talvez por isso, quando descobri que ele não era um super-herói fiquei em estado de choque. E isso não faz muito tempo. Há muitos anos, porém, eu devia ter uns 5 ou 6 anos, fiz na escolinha um presente para o Dia dos Pais que era um desenho do super-homem com uma foto 3x4 do meu pai colada sobre o rosto. E confesso que esta imagem continua viva dentro de mim. Mesmo assim, às vezes, eu sei, ele é meio estranho.
De uns tempos para cá, quando encontro com ele no clube pela manhã (tênis para ele é quase uma religião) e pergunto, “oi, pai, tudo bem?”, a resposta é sempre a mesma: “Lutando por uma América do Sul melhor!” E depois continua andando até a quadra de tênis.
Não. Ele não é guerrilheiro. Também não é político. Ainda assim, nunca tive coragem de perguntar o que ele anda fazendo pela América do Sul: tenho medo que a resposta seja tão convincente e eu acabe me engajando. Mesmo que, de concreto, só o discurso. (Já pensou? Amanhã você acessa o blog e, sob a minha foto, encontra: Rita Lobo, lutando por uma América do Sul melhor! Neste caso, eu colocaria na cabeça uma boina com uma estrela. Só para ilustrar melhor.)
Recentemente, descobri uma pessoa que, parece-me, está lutando por uma América do Sul melhor. Isto é, ela mesma não sabe. Mas eu acho que está.
Tenho a impressão de que história de América do Sul unida só serve para investidor norte-americano. A única coisa que temos em comum é o gosto pelo doce de leite. E só.
O Wikipedia diz: “Dulce de leche in Spanish, or doce de leite in Portuguese, is a milk-based syrup found as both a sauce and caramel-like candy popular in Latin-America.” Mesmo quem não fala inglês não precisa da tradução: a gente sabe o que é doce de leite. E na França tem uma confiture de lait, mas não é doce de leite.
Dia desses, comi um pudim de doce de leite. Você já experimentou? Uma bomba calórica. Mais doce que doce de batata-doce. Mas é irresistível. Irresistível. Era só para provar. Depois, duas, três colheres e chega! Como é bom! Não é um doce da minha infância, mas na primeira colherada eu já estava com 5 anos. Acho que é o efeito do açúcar num sanguinho meio amargo.
É o doce da infância da chef uruguaia Clo Dimet. Ela conta que é uma receita da “abuela”. (Fico imaginando que outras receitas a avó dela fazia para ela crescer cozinhando tão bem.) Logo mais, você vai conferir aqui no Panelinha um especial com sete receitas, inclusive este Pudim de “dulce de leche” da Clo. Mas, enquanto não terminamos de adaptar as receitas do restaurante dela para a cozinha da sua casa (explicar uma receita direitinho, passo-a-passo, com as medidas certinhas, não é assim, de um dia para o outro), quis mostrar aqui esta foto do pudim que não sai da minha cabeça. Quem sabe ele também não inspira você a lutar por uma América do Sul melhor! (Acho que meu pai não vai se incomodar se começarmos pela cozinha.) Bom, pelo menos, esse pudim ajuda a deixar a América do Sul mais doce.
>> Postado por Rita Lobo 18:54
20 de maio de 2007
Tudo se ilumina
Alcatéia, como você sabe, é o coletivo de lobo. Para mim, porém, e possivelmente para os meus quase vinte primos-irmãos, é o nome da casa de praia do meu avô Lobo. Na infância, férias de verão eram passadas lá. E a casa ficava sempre lotada. Pais, irmãos, tios, primos. Às cinco da tarde, ainda tinha invasão dos amigos da praia. Era a hora do lanche: bolo saindo do forno e suco fresquinho para as crianças, verdes de fome depois de um dia todo no mar, e café passado na hora para os adultos. O sol se punha, mas o dia não acabava. Tinha banho, que era sempre uma festa no banheiro das meninas, jantar - adultos e crianças na mesma mesa - e, depois, sala de jogos. Banco Imobiliário era disputadíssimo, mas havia uma estante lotada de livros para aqueles que conseguiam ler apesar do barulho. Havia também aqueles que, apesar do barulho e da vontade de jogar, adormeciam sobre a mesa forrada de feltro verde. Talvez por ter crescido fazendo parte de uma alcatéia, nunca entendi muito bem essas pessoas que precisam de um tempo ou um espaço só para elas. Ou será que eu faço parte do grupo de pessoas que não conseguem ficar sozinhas? (Por escrito isso soa muito mal, mas não é tão ruim assim.) Este fim de semana, porém, meu marido queria viajar, e eu tinha que trabalhar no sábado. Ele foi com as crianças para a praia. E eu resolvi que iria aproveitar o domingo para descansar.
Não é a primeira vez que minha família viaja e eu fico, mas é sempre estranho entrar numa versão silenciosa da minha casa. No sábado, depois da degustação que fizemos no Estúdio, voltei para casa decidida a não tocar no computador nem deixar o santo baixar e sair organizando todos os armários do apartamento. Apenas liguei o som, um pouco mais alto que o de praxe (não temia acordar as crianças), e fiquei sentada na poltrona da sala, olhando para a minha estante de livros. Foi difícil me conter para não arrumá-la. Os livros estão organizados de uma maneira que só eu entendo. Livros comprados em Londres, em 1995 (ano em que me formei, por isso, um certo apego e a necessidade de agrupá-los dessa maneira). Cozinha árabe, cozinha italiana, mas espera um pouco... E os livros da Marcella Hazan? Eles são de cozinha italiana. Pois é, mas estão na seção de autores favoritos. Até eu me perco. Nesta mesma seção, está Nina Horta e Jonathan Safran Foer. Não, ele não publicou um livro de culinária. É literatura pura. Mas é um autor favorito. Outro dia. Outro dia eu arrumo esses livros.
Aos poucos, comecei a relaxar e fiquei observando os meus livros e pensando nas histórias. Não nas contidas nas páginas deles, mas nas que cada um daqueles livros me fazia lembrar. Passo os olhos em Fundamentals for menu planning e estou no salão do meu extinto restaurante. Um senhor muito educado me chama à mesa. Quer me cumprimentar. “Chef, nunca comi nada parecido, isto não é um frango, isto é uma ave!” E, desde então, Patrícia, minha sócia no restaurante, e eu passamos a usar variações da frase. Quando ela trocou de carro: “Isto não é carro, é um automóvel!”
Tudo se ilumina me traz à memória um momento libertador, o de descobrir as próprias raízes. Logo depois de ir para a Hungria, país de origem da minha avó, o livro pousou em minhas mãos, como uma borboleta. E as histórias se misturam na minha cabeça.
O livro de receitas do Celeiro rememora a minha primeira gravidez. Queria me alimentar da maneira mais natural e saudável possível. O livro não saía da minha cozinha. E o Gabriel na minha barriga me fazia tão plena.
Aos poucos, minha mente começou a relaxar e a estante de livros não era mais uma ameaça de como a minha vida deveria ser. Eles não estão organizados do jeito que eu faria hoje. Por outro lado, estão numa estante que mandei fazer especialmente para eles (e como eu sonhei com este móvel!). Naquele momento, senti uma flechada de prazer. É bom poder desfrutar da minha vida exatamente como ela é. É curioso não pensar em como eu gostaria que ela fosse. Fiquei feliz. Fiquei aliviada por sentir que, apesar de fazer parte de uma alcatéia, eu também posso aproveitar meu tempo e meu espaço sozinha.
>> Postado por Rita Lobo 22:02
Sábado, 12 de maio de 2007
E-mail da Elaine
ACHEI SEU COMENTÁRIO SOBRE A PROPAGANDA DO MC DONALD'S INFELIZ ACHO QUE VC NÃO ENTENDEU A MENSAGEM NÃO ACHEI NADA DE MAIS, CADA UM VENDE O SEU PEIXE, E AFINAL VC SÓ COME HAMBURGUER EM LUGARES CHIQUES, ESNOBANDO O CONSUMIDOR, SUA OPINIÃO FOI SEM FUNDAMENTO EU DISCORDO.
ELAINE
Elaine,
Você não precisa concordar comigo. E por isso mesmo quis publicar o seu e-mail aqui. Mas continuo achando que entendi sim a mensagem do comercial. E não gostei. Quanto aos “lugares chiques” onde gosto de comer hambúrguer, não é por esnobismo: esse é o preço que se paga quando o paladar vai se refinando. E antes que eu seja mal compreendida, não estou dizendo que não gosto de comida simples, caseira. Apenas não gosto de comida ruim, industrializada. E gasto uma fortuna por conta desse gosto. Mas cada um gasta com o que quer. Eu nunca comprei um carro zero, por exemplo. Mas gosto de comer bem. Em casa e fora de casa. E isso custa caro. É um investimento. E ainda nem falei das viagens. Reservo o restaurante antes de reservar a passagem. E aqui em São Paulo, acabo indo quase sempre nos mesmos restaurantes, onde sei que vou comer bem. Ontem, porém, jantei num restaurante de shopping. E foi um jantar curioso. Curiosamente bom.
Roberto, meu marido, produziu e dirigiu a recém-lançada caixa de DVDs Biograffiti, da Rita Lee. E ontem, ela fez uma noite de autógrafos na Saraiva do Morumbi Shopping. Nós fomos dar um beijo no nosso casal-xará. (Ela insiste que eu só me casei com o Roberto para copiá-la, não bastavam as iniciais, RL, tinha que ter um marido com o mesmo nome que o dela! Pois é, dona Rita, não deve ser fácil ser um ícone. Mas a senhora já deveria estar acostumada.) Quando a fome bateu, Roberto, o meu Roberto, perguntou se eu queria comer ali mesmo no shopping. Fomos andando até a área de restaurantes e escolhemos o Ganesh. Acho que nunca tinha comido num restaurante indiano no Brasil. Talvez por isso mesmo, e também pela mesa de gringos ao nosso lado, fiquei com a sensação de estar viajando. Mas não a “fascinante viagem pela Índia” que sugere o texto do cardápio e a decoração típica do estabelecimento. Aliás, o garçom era a cara do Peter Sellers em Um convidado bem trapalhão, ou seja, um cara com cara de indiano que, obviamente, não é indiano.
Ando sem vontade de comer carne à noite, fui logo para a seção do cardápio dedicada aos vegetarianos. Pedi a almôndega de legumes e frutas secas ao molho de castanha-de-caju temperado com, of course, curry. Para acompanhar, tinha um arroz pilau com especiarias. Tudo bem saboroso. E para terminar a refeição, um delicioso kulfi, uma espécie de sorvete indiano, mais denso que um sorvete comum (não é batido no preparo e, por isso, não tem a adição de ar), geralmente aromatizado com especiarias, como cardamomo, e polvilhado com pistache. O kulfi que comi ontem era de manga com pistache. Lembrei de um kulfi de cenoura incrível que comi no Chutney Mary, em Londres. Tinha me esquecido dos kulfis, eles são divinos. Preciso urgentemente testar umas receitas para incluir aqui no Panelinha.
>> Postado por Rita Lobo 19:15
Sexta-feira, 04 de maio de 2007
McDia nem tão feliz
Há semanas estou evitando escrever sobre o comercial do McDonald’s em homenagem ao Dia das Mães. Nem ia comentar. Mas acabei de receber este convite para um bate-papo com o presidente da companhia no Brasil. Como, infelizmente, “no caso, não poderei estar participando” (fiz voz de operadora de telemarketing para dizer esta frase), resolvi fazer este post.
Sou só eu ou você também acha aquele comercial revoltante? Que graça, né? O McDonald’s entende o drama da mãe moderna. Caso você não tenha assistido ao filme, um monte de criancinhas se reveza para dizer o seguinte texto: “Tem mãe que trabalha fora. Tem mãe que trabalha em casa. Em casa ou fora, todas as mães trabalham um pouquinho demais. Mãe que trabalha fora tem pouco tempo para os filhos e se culpa da falta que ela faz. Mãe que trabalha em casa tem pouco tempo para ela mesma e se preocupa por não ser mais nada além de mãe. Como se ser mãe o tempo todo já não fosse demais.” Viu que beleza, o Ronald McDonald’s entende a gente!
Logo depois, uma voz masculina de marido exemplar diz: “Todos os dias, cenas assim se repetem, mães e filhos à procura de um tempo de qualidade, que quase não existe mais.” E, neste momento, Blue Eyes começa a cantar Cole Porter: “Night and day, you are the one...”
Ah, tá... Qualidade de vida é levar os filhos para comer no McDonald’s. Puxa, que pena que eu não sabia disso antes. Eu perdendo o meu tempo tentando criar uma rotina alimentar saudável na minha casa; tentando proporcionar aos meus filhos uma alimentação cheia de frutas, alimentos integrais, verduras; pagando uma fortuna pelo frango orgânico; brigando com a babá para não trocar a fruta da tarde por biscoitos industrializados; implorando para a empregada não cozinhar demais os legumes, lutando para ensinar a ela que o forno não é uma caixa mágica que conserva os alimentos prontos, que o feijão tem que ir para a geladeira... Seu Ronald, está certo que o senhor é um palhaço e, muitas vezes, eu também me sinto com uma bola vermelha no nariz, mas o senhor não tem a solução para os meus problemas. E não tente me enganar. Eu também não quero enganar o senhor. Não tenho nada contra hambúrguer, inclusive, vivo fazendo em casa. E adoro sair para comer hambúrguer no Burguer & Bistrot e na Forneria San Paolo. Mas não acho certo o senhor dizer que me entende e tentar me fazer um agrado, colocando uma música que eu gosto, só para eu comprar o seu hambúrguer para os meus filhos, sem culpa. Desculpe, o senhor não vai me convencer.
>> Postado por Rita Lobo 18:43
Quarta-feira, 02 de maio de 2007
Nonno Ruggero, miss Potter e eu
Acho que estou apaixonada. Ou algo assim. Pelo menos, vejo que é esse o termo que as pessoas usam quando estão com uma idéia fixa. E passei o fim de semana pensando no Nonno Ruggero. Calma: não estou apaixonada pelo avô de ninguém. Ou melhor, ele de fato é o falecido avô do Rogério Fasano. Mas estou me referindo ao restaurante localizado no primeiro andar do Hotel Fasano. Havia almoçado lá em outras ocasiões. Sempre durante a semana e a trabalho. Mas naquele sábado fresco e tranqüilo do feriado, parecia ter sido a primeira vez que almoçava lá.
Às vezes, acho que nós mulheres somos mesmo estranhas. Na sexta-feira, fui assistir a Miss Potter. Apesar da interpretação da Renée Zellweger – como ela está careteira neste filme! –, saí inspirada do cinema. Mas só notei isso no dia seguinte. A saia que escolhi vestir para ir almoçar no Nonno Ruggero era de veludo, até o pé, como as que Beatrix Potter usava. Assim, imaginando que eu pudesse roubar um pouco da fé e da criatividade de miss Potter, fui andando até o hotel. Encontrei com duas amigas no caminho, mas ninguém notou que eu estava fantasiada. Bem, pelo menos era assim que eu estava me sentindo. Não pela saia, mas porque estava cheia de confiança na vida e com uma certa alegria nos pensamentos. Talvez por isso, quando entrei no restaurante, tive a impressão de estar viajando no tempo e no espaço. E não é incrível que um restaurante possa proporcionar esta sensação?
Arrastando minha saia no chão, fui até o bufê para me servir de presunto cru, parmesão, saladinha caprese e os deliciosos pães do Fasano. Que mais uma pessoa pode querer? Bem, Fernanda, minha amiga, queria comer uma massa com ragu. Eu queria vinho, mais queijo, mais presunto cru e, depois, uma rodada de fundo de alcachofra, salmão grelhado e fios de legumes salteados. Tudo muito simples. Tudo muito saboroso. Perfeito para o primeiro sábado fresco após uma temporada que fez com que eu me sentisse em África (é meu pai que diz, “em África”, eu diria na África mesmo, mas deu vontade de falar como ele). Quando a última gota da garrafa de vinho pingou na minha taça, achei que estava na hora de olhar para o bufê novamente. Lá estavam duas tortas, uma de chocolate e outra de ricota. Tinha também uma saladinha de frutas. Mas esta não tinha a menor chance. Aliás, a torta de chocolate também não. É que amo torta de ricota. E aquela era a melhor torta de ricota que miss Potter teria comido na vida.
>> Postado por Rita Lobo 22:21
Quinta-feira, 12 de abril de 2007
Picolé de milho verde forever!
Há muitos anos, você nem era nascida, fui a um astrólogo que queria me convencer que, em outra vida, eu tinha passado fome: esta seria a raiz da minha obsessão por comida. Eu fiquei na minha, e deixei ele falar bastante. Ele disse também que o meu aparelho digestivo pensava que era o de um camelo. Aí fiquei confusa. Eu passei fome e ainda era um camelo? Não era uma rainha da França, não? Poxa, todo mundo que faz regressão descobre que era rainha de algum lugar. Eu só queria saber o meu ascendente e ganho título de ex-camelo faminto! Pedi uma explicação. Era simples, ele disse que o camelo armazena água para não passar sede no deserto; no meu caso, quando descubro um sabor novo, como até enjoar por medo de que, um dia, ele, o ingrediente, venha a faltar. E nisso, ele tinha lá sua pitada de razão.
Meu paladar tem fases. Passei anos sem comer manga. Um dia, acordei, comi uma fatia de manga e passei os meses seguintes comendo manga no café da manhã, no almoço e no jantar. Tive a fase da abóbora, do abacate, do missô. Por sorte, não tive a fase do bacon nem do creme de leite. Mas agora estou na fase do sorvete de milho verde do Rochinha.
Passo as tardes pensando nele. Não tenho vontades pela manhã ou depois do almoço. É em torno das 4 horas que vem um súbito – agora nem tão súbito – desejo. As meninas aqui no Panelinha dizem que eu até começo a mudar de cor. Nem me olho no espelho, mas sinto que vou ficando amarela, que é a cor do sorvete de milho verde. Ou será que estou ficando com cor de camelo? Para a minha sorte, a Nicole, também conhecida como a Barbie Jambo aqui do escritório, também tem lá sua quedinha pelo sorvete. Hoje, quando ela estava saindo para buscar um picolé, pedi que ela trouxesse outro para mim também. “Só se você falar de mim no blog...” Pronto, Nicolete, agora dá esse sorvete para mim!
Só um minuto.
Ainda quero falar sobre sorvete de milho verde.
Pronto, acabei.
Na verdade, sorvete de milho não é nenhuma novidade para o meu paladar. Quando eu era criança, meu pai tinha uma Caravan daquelas com banco único na frente, motivo de briga entre os meus irmãos e eu para ver quem ia sentado entre os meus pais. “Ninguém”, era a palavra final. Aí vinha a disputa pelo assento da janela. E a trégua só surgia no Castelinho da Pamonha, que, então, era apenas uma lojinha na Rodovia Castelo Branco. Da pamonha, não me lembro. Mas o levíssimo sabor do sorvete de milho, não dá para esquecer.
(Lembrei de uma historinha, mas ela é bem bairrista, só para paulistanos. O sobrinho italiano do marido de uma amiga veio passar férias em São Paulo e, dois dias depois, não resistiu e perguntou: “essa maconha vendida na rua é boa?” Como? Minha amiga nem sabia o que responder. “Que maconha?”, foi a resposta. “Essa: maconha, maconha de Piracicaba”.)
Os anos se passaram e eu comprei o meu primeiro carro. Convidei um bando de amigos para estrear o possante tomando sorvete de milho verde no Castelinho da Pamonha. “Que nojo, sorvete de milho?”, era a resposta mais comum. Mas uma amiga topou fazer companhia. “Só uma pergunta: para que ir até a Castelo Branco? Você não gosta do sorvete de milho da La Basque?”
O quê? A La Basque tem sorvete de milho? Sim, naquela época tinha. Saiu de linha. Acho que foi durante as minhas férias. Mea culpa. Como eu iria saber que a vida dele dependia de mim? Ou melhor, da compra semanal de um mísero potinho de sorvete? É por isso que o meu paladar me obriga a passar por essas fases. Ele sabe que tudo pode acontecer.
Eis que surge Nicole com um picolé de milho verde. E a loja onde ela compra fica a menos de dois quarteirões do escritório. É um picolé cremoso, menos que o finado da La Basque, mais que o longínquo do Castelinho da Pamonha. Perfeito para uma tarde quente. Fico pensando no pior e tenho vontade de comer uns cinco por dia. Mas agora que conheço mais uma pessoa que gosta de sorvete de milho, vou combinar um revezamento. Se eu precisar viajar, sei que a Nicole vai comprar pelo menos um por dia. Assim, ele não sai de linha. E eu também não!
>> Postado por Rita Lobo 19:00
Segunda-feira, 26 de março de 2007
Sabendo levar...
Era a primeira vez que ele jantava no Spot. Mas isso já faz tanto tempo que o rapaz nem se lembraria daquele jantar. Tinha caído de pára-quedas naquela mesa e não parecia querer esconder que estava maravilhado com o lugar, com as pessoas e até com a comida. Recém-chegado do interior, ele não conseguiu segurar o comentário: “Puxa vida, sabendo levar, São Paulo é melhor que Nova York, né não?” O amigo dele, que cresceu na casa colada com a dele, mas vivia em São Paulo há tantos anos, resmungou bem baixinho, em tom sarcástico e com uma pitada de reprovação: “Nossa, mas precisa saber levar muito bem, hein?”
Achei a frase engraçada. E passei a usá-la com freqüência. Mais em pensamento do que em voz alta. E, boa parte das vezes, com sentido oposto. Como diria o meu pai, fazendo chacota. Uma década depois, porém, a frase resolveu invadir a minha cabeça durante o fim de semana todo. E, na maioria das vezes, no sentido original.
Na sexta-feira, meu marido e eu estávamos nos preparando para sair quando Gabriel, que já está com quase 5 anos, perguntou se poderia ir jantar conosco. Um pedido incomum. Decidimos levá-lo. Fomos andando até o Le vin, restaurante que se encaixa na categoria sabendo-levar-São-Paulo-é-melhor-que-Paris. Gabriel já tinha jantado (eram 9 horas da noite), mas queria comer batatas fritas. E as batatas fritas de lá são realmente deliciosas. Antes mesmo de escolher uma taça de vinho para mim, pedi ao garçom que comandasse rapidinho a batata do meu filho. Ele voltou para tirar o pedido das bebidas com as fritas já em mãos. Em seguida, colocou na mesa o couvert: pão, manteiga e patê de fígado de galinha. “Mamãe, o que é isso? É para comer com o pão ou com a batata?” Espalhei um pouquinho de patê no pão, mas bem pouquinho, pois estava certa de que teria de pegar um guardanapinho de papel para ele cuspir.
“Gostou, Gabriel?” Ele respondeu que achou uma delícia e enfiou uma batata no potinho de patê. Assim, numa sexta-feira, como outra qualquer para nós, e especial para o Gabriel, que jantava num restaurante francês pela primeira vez, nasceu o gosto dele por batata frita com patê de fígado de galinha. Nada mal, aliás.
Pedi minha taça de vinho, mas não sem antes deixar de reparar que o rapaz que sempre nos atende mudou o penteado: ele ficou com cara de garçom francês! E, naquele momento, mesmo sem ter tomado a taça de vinho, um pedaço de mim concluiu que, sabendo levar, São Paulo estava melhor que Paris.
Sábado acordou ensolarado. Eu acordei da escuridão de um pesadelo que prefiro nem pensar. Levantei, fiz alguns telefonemas, e estavam todos vivos. Depois liguei para a minha amiga Fernanda e combinamos que levaríamos as crianças para tomar café conosco antes de irmos conhecer a Livraria da Vila, recém-inaugurada na Al. Lorena. Entramos no Suplicy e demos de cara com um casal de amigos que encontrou com uma amiga que iria se encontrar com um amigo. Quase um episódio de Friends. E, por um único segundo, pensei que, sabendo levar, São Paulo é melhor que Nova York. Tomamos um bom café, comemos muffins, tomamos mais café e fomos andando até a livraria.
Sabíamos que o piso inferior era dedicado às crianças, mas custamos a chegar lá. Livros, sofás, mais livros, conhecidos, uma amiga, aquele livro que há tempos estava procurando. “Posso deixar separado no caixa?” É a minha mania de perseguição que acha que alguém vai comprar o livro antes de mim. Não que fosse o último, mas... Descemos a escada e os olhos das crianças começaram a brilhar. Pufes coloridos gigantes, um teatrinho com cortina estampada, todos os livros do mundo só para eles e ninguém para impedi-los de brincar. O meu irmão chegou com a minha cunhada e a minha sobrinha Rosa. As crianças ficaram brincando e os adultos foram voando para o andar de cima. Um céu de livros nos esperava. Fui catando, um a um, todos os que eu queria folhear e, num instante, uma pilha se formou nos meus braços. Meu irmão e eu nos sentamos e ficamos praticando leitura dinâmica e conversando ao mesmo tempo. Naquele momento, não pude deter a sensação de que, sabendo levar, São Paulo é melhor que Londres. Ok. Também não vamos exagerar. Mas, um sábado tranqüilo e ensolarado traz esperanças. E a gente vai levando, a gente vai levando essa vida.
>> Postado por Rita Lobo 11:37
11 de março de 2007
Toddynho sabor Toddynho
Se você tem filhos pequenos, ou cultiva um paladar infantil, é bem provável que já tenha tomado, por engano, um Toddynho sabor napolitano. Quer dizer, espero que tenha sido por engano. De uns tempos para cá, comprar Toddynho deixou de ser uma tarefa simples. Pelo menos para mães apressadas como eu. Não dá mais para simplesmente pegar a embalagem e colocar no carrinho. É preciso ler o rótulo com atenção para não levar um susto com o sabor brigadeiro, ou napolitano, depois de ter furado a embalagem com o canudinho. Foi assim que descobri que o bom e velho Toddynho da minha infância, e agora da infância de meus filhos, ganhou uma série de sabores. Mas para a minha sorte, como você já deve saber, a Pepsico do Brasil, fabricante da bebida, anunciou na sexta-feira um “recall da linha Toddynho T-Nutre, envolvendo Toddynho Chocolate, Toddynho Fit e os sabores Brigadeiro e Napolitano, com data de validade até 28 de agosto de 2007”. A razão para o recolhimento, ou recall, if you insist, é um problema na fórmula que alterou o gosto da bebida. Não me diga... Vou correr lá na despensa e pegar todos os que comprei acidentalmente! A empresa também informa que: "Toddynho Soja, Toddynho Cremoso, Toddynho Bolinho e Toddy Pronto não entram no recall." Que pena.
Apesar de "não haver risco à saúde", o paladar de velhos consumidores como eu se ressentiu muito com os novos sabores. O nosso recall, que aprendi na aula de inglês que também quer dizer recordação, lembrança, era que Toddynho tinha gosto de Toddynho. Querem inovar? Tudo bem. Produzam Toddynhos sem sabor de Toddynho. Mas, pelo menos, mudem a embalagem! Como diria a minha tia Lurdinha, há males que vem para bem. Quem sabe isso não é um sinal?
Para efetuar as trocas, nós, consumidores, devemos entrar em contato com a fabricante pelo telefone 0800-703-2222 ou pelo site www.toddynho.com.br.
>> Postado por Rita Lobo 22:46
Sábado, 10 de março de 2007
Smoothie
Eu sou do tempo que fruta batida com suco de laranja ou com leite era vitamina. A combinação clássica, pelo menos na casa da minha mãe, era banana, maçã e mamão. De vez em quando, a bebida ainda podia ser enriquecida com uma bola de sorvete de creme. Mas continuava sendo uma vitamina. E sorvete de chocolate com leite, sem as frutas, era milkshake. Isto é, não para o meu pai que insiste em chamar milkshake de sorvete batido. Para ele, uma pessoa não tem um insight, ela tem um lampejo. E o design de qualquer coisa? É o desenho. Outro dia perguntei para a Marina, que trabalha aqui no escritório, se ela havia gostado de estudar na Escola Graduada. A Fernanda, que conhece meu pai, caiu na gargalhada. “Olha a filha do Guilherme falando...” É Graded que se fala. Era para eu ter perguntado se ela gostou de se formar no Graded (e daí a Marilu, que é editora aqui do Panelinha, provavelmente me mandaria um e-mail sugerindo que eu escrevesse: Graded, a escola americana em São Paulo). Anyway, a questão aqui é que vitamina agora é smoothie. Pelo menos para o pessoal de uma companhia aérea.
Falar mal de comida de avião é um assunto tão batido que não dá para ficar criticando o lanchinho da ponte aérea. Até porque, nem tem mais sanduichinho no vôo. Tem smoothie. E para o passageiro não perceber que não vai ganhar sanduíche, a aeromoça, quer dizer, a comissária de bordo distribui um folhetinho na entrada do avião sobre “a nossa novidade para este verão”. Junto tem um cupom para trocar por um sanduíche em um fast food e “você se lembrar da viagem mais refrescante da sua vida”. Como? O vôo atrasa uma hora, o aeroporto parece uma rodoviária, meus filhos estão exaustos e esta é uma viagem refrescante? E eu ainda tenho que ir até o fast food para ganhar o sanduíche que deveria ter sido entregue no vôo.
Mas a minha sede por assuntos para este blog é maior que o meu mau humor. Abro o folhetinho para, finalmente, ler sobre a novidade que, pelas minhas contas, há uns dez anos já deixou de ser novidade em qualquer lugar do mundo. Em Londres, na década de 1990, tinha um smoothie bar a cada esquina (claro que estou exagerando, mas dizer que smoothie é uma novidade também é um exagero). A explicação começa assim:
“Ismúfi. É assim que se fala o nome da nova bebida que estamos servindo para os seus clientes...” Ismúfi? Não, ismúfi não dá. Não é à toa que as comissárias de bordo falam inglês daquele jeito! Ou vocês acham um nome em português, pode até ser vitamina, ou ensinam a falar direito. É só dizer smuzi, colocando a língua entre os dentes no zi. Ou não ensina nada. Mas ensinar errado, não.
Um amigo que pegou o mesmo vôo que eu conta que, na vez dele ganhar um copinho com “a bebida do verão”, a comissária estava tão nervosa com o nome que foi logo dizendo, “é orgute batido com morango, quer?” Ele quis. Não gostou. Eu não achei ruim. Aliás, achei bem bom terem tirado aqueles sanduíches fedidos de “pão de batata com blanquete de peru, queijo roquefort light e tomate seco”. Quem é que inventa essas combinações, quer me dizer?
Antes de passar o carrinho, a aeromoça anuncia que poderei escolher entre duas opções de “ismúfis, uma sofisticada combinação de frutas batidas com sorbet – um tipo de sorvete sem leite – ou frozen iogurte light. No vôo de hoje temos: ismúfi de morango, amora e sorbet de limão e também de manga, banana e frozen iogurte light.” O folhetinho também apresenta uma receita: “80 g de polpa de açaí, 90 ml de guaraná diet, 2 bolas caprichadas de sorbet de limão e 80 g de morangos congelados. Depois é só bater e se divertir”. Como? Smoothie também dá barato? Estou começando a achar que estava enganada, smoothie não é uma vitamina. Mas também, fica combinado, pelo menos aqui entre nós, que também não é ismúfi. Ou, então, podemos agradecer a bebida dizendo "fenk you very much".
>> Postado por Rita Lobo 14:28
Terça-feira, 06 de março de 2007
Lamúrias
Vou poupar você das minhas lamúrias. Todo mundo sabe o que significa começar o dia com o pé esquerdo – salvo os canhotos, imagino. O fato é que, domingo, estava me sentindo na lama. E, nesses casos, não há outra alternativa, o jeito é chafurdar (mas é conveniente mentalizar que a lama é a do Mar Morto para que a pele acredite que irá se beneficiar dos efeitos terapêuticos dos minerais que vêm de lá). O dia passou e o meu humor não melhorou. Nem a minha pele. Para encerrar a noite, decidi começar a ler um livro. Na pior em Paris e Londres me pareceu a melhor opção. Ganhei de presente de um querido amigo. Sabia que o livro era bom, mas estava esperando o momento mais adequado para levá-lo da estante para o criado-mudo. O subtítulo diz que é sobre a vida de miséria e vagabundagem de um jovem escritor no fim dos anos 1920. E o escritor é George Orwell, o mesmo de A revolução dos bichos. Os primeiros capítulos me trouxeram enorme satisfação. É um conforto ler sobre a lama dos outros. Por outro lado, é revoltante saber que, mesmo na pior, a insanidade não dominou o autor. Depois de umas 50 páginas, adormeci.
Segunda foi um dia estranho. Previsivelmente estranho. I don't care if Monday's blue. Tuesday's grey and Wednesday too. A música da adolescência não sai da minha cabeça. Que tortura! The Cure, aliás, é a lama em forma de banda. O dia passou e, antes das seis da tarde, resolvi que estava na hora de buscar a minha salvação. Desliguei o computador e fui para casa pular no colo das crianças. Gabriel e Roberto, meu filho e meu marido, estavam jogando videogame. Nenhum dos dois notou a minha presença. Mas Dora, a minha Dora, se jogou nos meus braços. “Vamos passear, Dorinha?” Ela respondeu que iria buscar a bolsa rosa. Fomos andando até a cafeteria e tomamos um suco. Já estava muito tarde para eu tomar café. O dia foi escurecendo e o brilho do cabelo loiro da Dora foi clareando os meus pensamentos. Lembrei que o vizinho do terceiro andar havia nos convidado para o lançamento de seu CD no bar onde ele canta às segundas. Com muita lábia, convenci o meu marido a lagar o videogame e me acompanhar no lançamento.
Às segundas, o nosso vizinho canta standards. All the great american songs. E, aos sábados pela manhã, assobia tango pela janela. Durante o resto da semana, é joalheiro. Faz sucesso desde a década de 1970 com suas correntes de prata e pulseiras de rabo de elefante. Tem lojas em São Paulo, no Rio, em Brasília e Saint-Tropez – ele conta que está animadíssimo porque vai cantar por lá e já está treinando o repertório francês.
Beijo as crianças, passo batom, puxo o Roberto e me despeço das empregadas. Gabriel pergunta aonde vamos, e depois quer saber por que o vizinho é um guerreiro. “É o nome dele, filho, ele se chama Guerreiro.”
Guerreiro canta no Alucci Alucci. A casa está lotada. O garçom passa e nos oferece champanhe. Aceno de longe para o astro da noite. Ele me oferece uma música. Eu acompanho a letra em pensamento. Outro garçom serve caldinho de feijão em copos de pinga. Que delícia! É temperado com coentro picadinho. Na travessa, passam uns rolinhos de queijo de cabra. Outra delícia. Vejo a chef Edir Nascimento circulando pelo salão. Aproveito para perguntar que massa é aquela que envolve o queijo. Ela abre um sorriso de orelha a orelha, “você gostou?”. Adorei, Edir. “É massa de rolinho primavera que, em vez de frita, asso no forno.”
Aliás, os dois livros da chef, O banquete dos sentidos I e II, são muito bons.
Guerreiro faz uma pequena pausa e aproveito para pegar o meu autógrafo. “Quero o meu CD autografado!” Ele escreve uma dedicatória e volta para o palco. Roberto pergunta se vamos jantar. Vamos? “Já que estamos aqui, que tal cruzar a rua e ir ao Fasano?”, diz ele. “Que ótimo”, penso. Nada mal, para quem passou o dia na lama, terminar a noite no Fasano!
>> Postado por Rita Lobo 14:37
04 de março de 2007
Tobi
Nos últimos anos, tenho me sentido um pouco como aquela música do Tom Jobim, Samba de uma nota só. É que, desde o nascimento dos meus filhos, não tenho tido outro assunto. Dora e Gabriel monopolizaram os meus pensamentos, os meus desejos, o meu tempo, a minha vida.
Devagarzinho, sem que eu percebesse, eles foram crescendo, deixaram de ser bebezinhos, de precisar de mim até para tomar água, e viraram crianças que já brigam comigo, me desafiam e têm um mundo deles, apesar de mim. O nosso amor também parece menos frágil: eles podem crescer, e eu ganhei espaço interno para rever o mundo, sem culpa.
Dia desses, estava levando os dois para escola e um deles começou a ter um chilique. O outro acompanhou. “Eu quero, eu quero, eu quero.” Nem me pergunte o quê! Eu estava dirigindo e tinha minha área de atuação limitada. Olhei para o lado, assim como quem quer um respiro, e vi, na vitrine do pet shop, um whippet, cachorro que há anos penso em comprar. No mesmo tom e ritmo do chilique das crianças, comecei a choramingar: “eu quero um whippet, quero um whippet...”. Imediatamente, os dois pararam e o Gabriel disse: “Calma, mamãe, eu vou dar um whippet para você. Mas, mamãe, o que é um whippet?”
Naquele mesmo dia, fui a um evento e encontrei com uma amiga que estava animadíssima com sua nova aquisição: um whippet! Bom, para encurtar a história, o irmãozinho do whippet da minha amiga agora é meu. Tobi, ficou Tobi o nome dele.
Tobi virou uma ótima desculpa para eu me exercitar. Ou melhor, a verdade é que queria um whippet exatamente por isso. Mas foi a cozinheira aqui de casa quem emagreceu horrores: leva o cão para passear pelo menos três vezes por dia! (Ou ela está apaixonada pelo cachorro ou arrumou um paquera aqui no bairro.) O meu turno é o do final de tarde, sempre que possível.
Gosto de ver o comércio fechando, a brigada dos restaurantes preparando o salão, as pessoas saindo do supermercado com uma sacolinha na mão. Fico imaginando o que elas vão fazer para o jantar. Sinto o meu apetite se abrindo e começo a preparar em pensamento o meu próprio jantar. Às vezes, experimento novos percursos, mas acho que o Tobi gosta é de andar pelas mesmas ruas, sentir os mesmos cheiros, ver as mesmas pessoas, brincar com os mesmos cachorros.
Há umas semanas, cheguei do escritório, esmaguei um pouco os meus filhos e coloquei a coleira no Tobi. Saí do prédio, virei na primeira rua e parei na banca para ver as revistas. Tobi queria continuar a caminhada. Puxou, sacudiu a cabeça e, finalmente, conseguiu se soltar. Saiu correndo feito doido, cruzou a rua e só deu tempo de ouvir o carro frear. Senti minhas pernas cravarem no chão. Ficaram duras feito concreto. Fiquei sem ação. Ouvi o barulho da batida. “TOBI!”
A gente que ali passava se aglomerou.
- Ai, coitado, pegou na cabeça.
- Não foi não, foi no meio do corpo.
Enquanto as pessoas discutiam o atropelamento, um senhor começou a gritar: “Pega o cachorro, pega ele!” Só então vi o Tobi, mancado, fugindo da multidão.
Tobi e eu estávamos atônitos. As pessoas formaram um círculo e eu agarrei o cachorro. O coração dele estava a mil. O meu também. Não havia sangue. Ele tremia. Eu também. Andei até a calçada e uma mulher veio em minha direção: “Deixa eu te ajudar.” Colocamos o Tobi no chão, examinamos a cabeça, o corpo e as patinhas. Ela ficou segurando Tobi e eu liguei para a veterinária. Não sabia muito bem o que dizer, não queria assustá-la.
- Dra. Cíntia, o Tobi... Bem, o Tobi escapou da coleira e atravessou a rua.
- Ele foi atropelado?
- Acho que sim, quer dizer, ele me parece ótimo, mas ouvi o barulho de um carro batendo nele.
A veterinária me disse para levá-lo ao hospital e fazer algumas chapas. Imediatamente! Agradeci a moça que havia me ajudado e corri para casa com Tobi no colo. Coloquei o cachorro no carro e fomos para o hospital veterinário.
No dia seguinte, com Tobi são e salvo, contei ao Gabriel tudo o que havia acontecido na noite anterior. Ele ouviu atentamente e me fez uma única pergunta: “Mamãe, qual era o nome da moça?” Respondi que não sabia (ela havia me dito, mas estava tão nervosa que não registrei). Para a minha alegria, e a do Gabriel, veja o e-mail que recebi esta semana.
Ane, muito obrigada pelo seu carinho!
Oi, Rita
Tomei a liberdade de te passar esse e-mail, pois tive um encontro delicioso essa semana. Estava andando na rua na hora do almoço, quando me deparo com um magrelinho se abanando todo para mim, como se me conhecesse de algum lugar. Fiz festinha, carinho e perguntei para a senhora que estava com ele o nome do cachorro. Para a minha surpresa era o Tobi, o Tobi da Rita!
Até parece que ele estava me reconhecendo daquele dia.
Meu cachorro está com 14 anos e é muito querido. Estávamos na dúvida entre comprar um Whippet ou um Fox Terrier Pelo Duro e o Tobi conseguiu me dar certeza da escolha.
Um abraço,
Ane, da noite que o Tobi escapou de você!
>> Postado por Rita Lobo 20:49
Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
A cafeteria
A exatos três quarteirões da minha casa, no sentido contrário ao do meu escritório, fica o café onde diariamente tomo a segunda dose de cafeína do dia. A primeira é em casa, quase em jejum, apenas para avisar o corpo de que não tem jeito: precisamos acordar. Faço tudo o que uma mulher casada e mãe de dois filhos deve fazer antes de sair para trabalhar e, depois, desvio o caminho para tomar o segundo café, este, apenas por prazer.
Junto comigo chega o dono do supermercado que cruza a rua para espairecer e tomar um café longe das gôndolas. A senhora de rabo-de-cavalo sempre lê revistas de decoração, mas não parece estar interessada em decorar nada. As duas amigas comem muffin, tomam cafezinho e jogam conversa fora que dá gosto de ouvir. A xará da minha filha, que me contou ser tia de uma querida amiga, leva o cachorro e devora o jornal. O rapaz de barba desfila uma coleção invejável de bonés e namora o laptop novo. Apesar do café ter a foto do avô do dono na parede, é um moderno ambiente wireless. E o cafezinho é muito bom. E tem ar condicionado. E as poltronas que ficam sob a bênção do patriarca são confortáveis. Sem querer, formamos um grupo de desconhecidos unidos pelo estranho conforto que ver os mesmos rostos de ontem traz. E pelo sabor do café, claro.
De uns tempos para cá, passei a observar um senhor inglês. Ele lembra o meu avô (e conseqüentemente me faz pensar no meu futuro). Talvez por isso eu tenha sentido a empatia que fez o meu queixo abaixar e levantar num cumprimento respeitoso logo na primeira vez que o vi. Ele não respondeu, porque não quis ou porque não viu. Ou só para me deixar com a pulga atrás da orelha. E deixou.
Calculo que esteja na casa dos setenta. Usa bengala, mas vai andando com vitalidade até o café. O chapéu Panamá, certamente um Montecristi, deve esconder a calvície e, sem dúvida, protege do sol. Os óculos com armação de tartaruga disfarçam a timidez e revelam a elegância. Está sempre com um livro e uma caderneta nas mãos. Lê, faz anotações, toma café, pensa. Dia desses, ele deixou o livro deitado sobre a mesa e foi apanhar a xícara de café no balcão (o serviço lá é assim: cada um por si e Deus contra todos). Apressei-me para matar a curiosidade. O título explicava o que ele estava lendo: 47 CONTOS DE ISAAC BASHEVIS SINGER.
Apesar da pinta de inglês, estou começando a achar que ele é de outro canto da Europa. Aliás, estava na cara: nunca o vi tomando chá! Talvez tenha vivido muitos anos na Inglaterra, de onde trouxe um ar blasé que não me engana: serve para amenizar a autocrítica. Bom, o fato é que, horas mais tarde, um outro exemplar de 47 CONTOS estava sobre o meu criado-mudo, aguardando ansiosamente pelo final do dia, quando serviria de pista para eu tentar decifrar o senhor do café que me faz pensar no meu futuro.
Escolhi A cafeteria, conto que começa na página 339. Depois voltei para o começo, li outro conto e, antes de continuar lendo os outros 45, fui para o glossário. “Zohar é o “Livro do Esplendor”, o mais importante texto do misticismo judaico; Yon Kipur é o Dia do Perdão; Yeshiva é uma escola de estudos da Torá...” V, T, S, R e, folheando de trás para frente, cheguei no C, de Cholent, “a comida tradicional do shabat. Cada família tem sua receita... Como é proibido cozinhar no shabat, muitas famílias preparam o prato na sexta-feira ao pôr-do-sol e o deixam cozinhando em fogo muito lento até o dia seguinte, o shabat.” E para a minha surpresa, ali mesmo no glossário do livro, surge a receita explicadinha passo a passo.
Nunca tinha visto um livro de literatura com uma receita no glossário... Mas de quem será a receita? Da família Singer? Do revisor? Do tradutor?
Na manhã seguinte, corri para o café. Talvez o próprio senhor inglês pudesse dar alguma pista. Cheguei no horário, pedi o meu café, sentei na poltrona sob a foto do “patriarca” e fiquei esperando. Nada. Quinze minutos depois, as inseparáveis amigas entraram rindo e falando sobre o carnaval. Pediram muffin e café e sentaram-se nas poltronas de sempre. Uma delas comentou comigo sobre o episódio Beth Carvalho. Vi ali uma oportunidade: “Pois é, e por falar em baluartes, quem não vi por aqui no carnaval foi aquele senhor inglês...”
As duas ficaram me olhando com cara de interrogação. “Que senhor inglês?” Expliquei que não sabia bem ao certo se ele era mesmo inglês e fiz uma descrição acurada de como eu lembrava de tê-lo visto pela última vez. “Nunca vi ninguém assim por aqui.”
Terminei o café e não insisti no assunto. Será que só eu reparei naquele senhor? Será que... Não. Não posso tê-lo criado. Amanhã eu volto. Quem sabe ele aparece. Mesmo que seja só para mim.
CHOLENT A ISAAC BASHEVIS SINGER
Ingredientes: 1 kg de costela de boi ou acém, em pedaços, 2 cebolas grandes picadas, 4 dentes de alho amassados, 2 colheres (sopa) de óleo, 4 salsichas, 2 ossos de tutano, 1 copo com feijões diversos, 1 copo de feijão-fava, 1 copo de cevadinha, 2 batatas grandes em fatias grossas, 2 colheres (sopa) de ketchup, 1 colher (sopa) de mel, 2 a 3 ovos crus com a casca embrulhados em papel-alumínio, kishque, sal, pimenta em pó, páprica a gosto.
Modo de preparo: Na véspera, coloque os feijões de molho e tempere a carne com sal, pimenta, páprica, alho, cebola. No dia seguinte, frite a carne no óleo até dourar. Retire e reserve. Em camadas, coloque as batatas fatiadas, a carne, os ossos de tutano, as salsichas, os feijões, a carne, a cevadinha, o kishque, o mel, o ketchup, o sal, a pimenta em pó e os ovos embrulhados. Cubra com água e leve para cozinhar em fogo muito lento por, no mínimo, seis horas, de preferência durante toda a noite, até o shabat.
Maneira de servir: forre uma forma refratária com arroz branco, sobre ele arrume o kishque, sem papel, cortado em fatias grossas, os ovos descascados cortados ao meio no sentido vertical. Em outra fôrma, coloque a carne as salsichas, os ossos e cubra com parte do molho. Em uma terceira fôrma refratária, mais funda, coloque os feijões com o restante do molho e sirva bem quente.
Para o kishque: 2 copos de farinha de trigo, ¾ de copo de óleo, ½ copo de água fria, uma cebola picada, óleo, sal, pimenta, páprica
Modo de preparo: misture a farinha com o óleo e os temperos. Frite a cebola até dourar, misture com a farinha, mexendo para formar uma massa consistente. Faça um rolo grande ou dois menores, embrulhe em filme plástico, faça alguns furinhos com garfo, coloque na panela sobre os demais ingredientes do Cholent. (Originalmente, os kishques são feitos com pele do pescoço das aves.)
>> Postado por Rita Lobo 00:28
Quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
O lado bom do carnaval
A minha mãe disse que eu pareço muito antipática por dizer que não gosto de carnaval. (Antes que você concorde, ela frisou bem que eu não sou antipática...). Então, como tudo o que minha mãe fala tem um enorme impacto sobre mim, decidi pensar no lado bom do carnaval, além de ser feriado, mas isso eu disse no outro post.
Calma! Ainda estou pensando.
Bom, ainda não consegui achar nada, mas estou louca para colocar aqui a receita do bolo de chocolate, MARAVILHOSO, que minha mãe fez no carnaval para os netos. Ela não é muito de cozinhar, mas quando resolve... Olha aí, mãe, seu bolo de chocolate foi outra coisa boa do carnaval! E o Porto Tônica do papai também estava ótimo.
>> Postado por Rita Lobo 15:20
Quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Quarta-feira de Cinzas
Meu sistema imunológico anda cada dia mais estranho. A última dele é que não me deixou ler jornal, ou revista semanal, nem assistir à televisão nos últimos dias. Mas, ontem, acho que descobri a razão: medo de morrer de constrangimento. Antes do nascimento dos meus filhos, carnaval era sinônimo de “ir-para-Nova-York-com-um-bando-de-amigas”. Long time... Agora, se precisar, até em bailinho eu vou. Por sorte, eles ainda não pediram.
Tenho certeza de que existe uma leitura socioantropológica incrível para essa “manifestação popular”... Mas o que posso fazer, vou lutar contra o meu próprio sistema imunológico? Eu morro de vergonha pela Globeleza. Fico com um aperto no coração até pelos apresentadores que passam o ano inteirinho construindo a imagem de jornalistas sérios e, no carnaval, vestem aquele uniforme estranho e apresentam o desfile das escolas em ritmo de samba. Imagino que desfilar seja uma experiência única, e tenho uma porção de amigos que, ano após ano, pagam qualquer preço por uma fantasia da Mangueira. Mas nem pela televisão consigo assistir a um desfile sem ficar constrangida.
Este ano, não fosse pela “maratona de carnaval” do canal a cabo Discovery Kids (ainda não sei se é o favorito dos meus filhos ou da mamãe) não teria percebido que passamos por mais um carnaval. Não vi uma bunda sequer. Isto é, salvo a da Globeleza, que começa a rebolar antes mesmo do Natal. Meu filho, então, pergunta se eu gosto de carnaval. Não quero influenciá-lo, vai saber se a felicidade dele está justamente na avenida... Respondo perguntando se ele gosta. “Acho que não”, ele responde. “Mas por que é que todo mundo tem que ficar fantasiado de cocó no carnaval?” Sei lá, Gabriel, nem tinha reparado que as pessoas ficavam com cara de galinha. Mas acho que você tem razão, também não gosto muito de carnaval. Pronto. Acho que o sistema imunológico é hereditário. Quando a Dora, minha filha, quiser saber o que eu penso do carnaval, vou logo dizendo a verdade: é bom porque é feriado e São Paulo fica uma delícia.
>> Postado por Rita Lobo 14:53
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Rita Lobo é autora dos livros A conversa chegou à cozinha, crônicas e receitas (editora Ediouro), Culinária para bem estar, receitas antiTPM (editora Panelinha) e Cozinha de estar (editora Conex). Formada em gastronomia nos EUA, a chef começou a escrever sobre comida em 1995, no jornal Folha de S.Paulo. Em 2000, criou o site Panelinha, que dirige até hoje.
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