Panelinha - receitas que funcionam

30 de outubro de 2011

Espelho, espelho nosso

Espelho, espelho nosso

Fui a Brasília uma única vez. Tinha uns 12 ou 13 anos. Meus pais decidiram levar os filhos – e uma amiga minha – para conhecer o Distrito Federal. Eu fiquei maravilhada com o Congresso, do ponto de vista arquitetônico. Uma cuia para cima, outra, para baixo. Tenho até hoje um álbum só da viagem, de tanto que fotografei a cidade. E olha que, naquele tempo, não havia máquina digital.

Passadas duas décadas, e meia, fui novamente à Capital Federal, desta vez, para lançar o livro ‘Panelinha’. As ‘cuias’ continuam me impressionando. A cidade é mesmo especial. E as pessoas também. Conheci a Manuela, a Anaira e mais um monte de gente simpática e interessada em cozinhar melhor, em comer bem, em nutrir as pessoas que estão em volta. Fiquei lisonjeada com o post que a Laura publicou no blog dela!

Foi muito bom conhecer pessoalmente mais gente dessa nossa comunidade Panelinha. Depois do bate-papo na livraria, meu fiel companheiro me levou ao Aquavit, do chef Simon Lau. Eu já tinha ido a um jantar feito por ele, mas foi em São Paulo, num evento especial. Então eu já conhecia o chef. Sim. Mas não esperava que o restaurante dele fosse tão espetacular. Que lugar!

Simon é formado em arquitetura. Apesar de nascido em Copenhague, escolheu Brasília para projetar o canto dele na Terra. De frente para o lago, construiu a casa onde mora e trabalha, um espaço encantador, com horta, piscina, mobiliário selecionado a dedo, com peças de várias épocas e estilos e Royal Copenhagen à mesa. Para o meu gosto, tudo muito chique. O aparador de pratos, as pastilhas que forram as paredes da cozinha aberta para a varanda, até o espelho do banheiro!

A comida também brilha. É cheia de interpretações, como a clássica combinação de melão com presunto cru que vira sopa de melão com crocante de Parma. Ou os lagostins gratinados com queijo de cabra, servidos com gelatina da água do tomate, bem transparente, tomate confit e musse de queijo que sugerem a inspiração caprese. Mas os sabores italianos não costumam fazer parte do menu. O chef conta que gosta de trabalhar com ingredientes locais. Um bom exemplo é a salada de pirarucu defumado, com emulsão de mandioquinha e tucupi, ovos de codorna e chips de banana verde. Na minha opinião, mais uma interpretação de outro clássico, a salada niçoise. Depois ainda teve codorna com cogumelos e endívia no molho de vinho branco. Nada trivial. Tudo triunfal.

Fico imaginando se os meus filhos já têm idade suficiente para curtir as formas e sabores de Brasília. Sem dúvida eles iriam aproveitar a piscina do hotel vazio – parece que ninguém vai passear na cidade no fim de semana. A não ser os meus pais, quando eu era adolescente. Me vejo refletida no espelho do banheiro na foto que não resisti tirar e fico pensando se esse desejo de repetir as experiências, de voltar com os filhos aos mesmos lugares em que fomos com os nossos pais, não é uma espécie de narcisismo. Se bem que, por que não tentar reprisar um belo momento? Além do mais, é Brasília! Por que não levar as crianças para ver a capital do país. Pronto, estou convencida. Vamos todos de mala ver as cuias e passar um fim de semana lá. E como, no fim das contas, cada um vê o que quer, vou mostrar às crianças uma catedral em forma de tagine, aquela panela marroquina com tampa cônica. E, se tudo der certo, em 20 ou 30 anos, meus netos vão me contar o que acharam de Brasília.

>> Postado por Rita Lobo 15:50

PERFIL
  • Rita Lobo cozinha com uma caneta na mão e escreve ao lado do fogão. Ela é autora de vários livros, entre eles, A conversa chegou à cozinha, crônicas e receitas (Ediouro); Culinária para bem estar, receitas antiTPM (Editora Panelinha); e o best-seller Panelinha, receitas que funcionam (Senac). Também assina a seção Panelinha na LOLA, revista da Editora Abril. Para o canal GNT, criou e apresenta a série Cozinha Prática. Formada em gastronomia nos EUA, a chef começou a escrever sobre comida em 1995, no jornal Folha de S.Paulo. Em 2000, criou o site Panelinha, que dirige até hoje.

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