Quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Dois livros e muitos colares de mesa
Ganhei dois livros, ambos de culinária, da Ediouro, cada um escrito por uma morena. Uma americana, a outra inglesa. Da primeira, até o ano passado, eu nunca tinha ouvido falar. Ela é mulher do comediante ícone da década de 1990, Jerry Seinfeld, e escreveu um livro sobre alimentação infantil. Jessica, ela se chama. A outra, todos nós conhecemos por conta da televisão, e o livro é Nigella Express, Receitas Rápidas e Saborosas. Os dois foram lançados praticamente juntos. Mas, em comum, além de autoras culinárias, publicadas no Brasil pela mesma editora, elas só têm as longas madeixas negras. E só. Uma é o oposto da outra.
Ouvi dizer que Nigella está escrevendo um livro de ficção. Há alguns anos, aliás. Não sei se desistiu ou se o processo é mesmo lento. O do livro de ficção, pois os de culinária são express. Acho que o de ficção seria uma delícia. De certa maneira, ela escreve sobre comida de um jeito romanceado. Gosto e gosto muito dos livros dela, dos programas de televisão, das analogias que ela faz, da forma que ela entende comida. E come com gosto. Não tem muito preconceito. Aliás, faz disso um diferencial. É só todo mundo achar cafona que ela adora. Fala sério: chucrute com salsicha, salada de macarrão e mortadela, bolo de sorvete... Todas receitas do livro Nigella Express, que, nas mãos dela, ficam incrivelmente apetitosas.
Esses dias, quase briguei com uma amiga no café por causa da Nigella. Isto é, primeiro preciso explicar que tenho um grupo de discussão: a gente debate e re-debate qualquer assunto. Qualquer um. Somos cinco mulheres e nos encontramos quase todos os dias no café da manhã. Coisa rápida. Mas sempre tem debate. E o acerca da Nigella não tinha nada a ver com comida. A questão era essa moda de bota-sandália, sabe? Dessas que cobrem a canela e deixam os dedos à mostra; cobrem o peito do pé, mas o calcanhar fica de fora. Uma dizia que não existe nada mais brega; a outra insistia que era chique, “até a Nigella usa!”, ela justificou.
Eu estava quieta no meu quadrado, mas resolvi opinar: Peralá, a Nigella pode ser tudo, mas chique ela não é! E aquele cabelo longo durinho de laquê?! Por quê? Por que raios fui questionar o bom gosto da Nigella? O debate pegou fogo! E olha que a gente põe na mesa assuntos cabeludos, negros, longos, mas sugerir que a outra é cafona... A gente fala sobre problemas dos filhos, dificuldade financeira, vida sexual, até falta dela pode entrar em pauta, mas criticar a Nigella...
Jessica Seinfeld tem cabelos lisinhos, sedosos, esvoaçantes. Tudo na vida dela parece perfeito. Três filhos, cabelo bom, marido divertido, rica, sabe cozinhar. Perfeita. Salvo o fato de que ela faz brownie de chocolate com espinafre para obrigar os filhos a comer folhas verde-escuro sem que percebam. Meio estranho, vai? Não é melhor ensinar a comer espinafre refogado com uvas-passas ou fazer o bom e velho creme de espinafre bem grossinho? Sei lá... Eu entendo que, quando as crianças são bem pequeninas, dá um desespero se eles não querem comer nada além de macarrão. E a sra. Seinfeld dá a receita para mães que acham que o filho não come.
O pediatra dos meus filhos tem resposta para tudo. Quando chega uma mãe dizendo que o filho não come, ele pergunta: “E cocô, ele tem feito?”. A mãe responde: “Ah, doutor, todos os dias...” Então está comendo; se não estivesse, não faria. Não é muito boa essa medida? Bom, eu acho. E sou contra ficar forçando filho a comer. Já viu criança de classe média desnutrida?
Voltando aos livros, ainda não falei sobre eles com o meu grupo de discussão. Deliciosos e Disfarçados – Como tornar a alimentação do seu filho saudável sem que ele perceba – é o nome do livro da Jessica. Isso me faz lembrar a história da ar-rrentina que morava em Búzios: “Si xô no digo que soy ar-rrentina, los otros ni percibem, tengo que mostrar mi pass-por-t!” Eu nunca consegui enganar os meus filhos.
Bom, as imagens acima não têm nada a ver com os livros, obviamente. São de um e-mail de uma leitora, que recebi enquanto escrevia este post. Yana faz porta-guardanapos com frutos brasileiros, principalmente do cerrado, catados manualmente por famílias da região. “Com esta matéria-prima, faço também colares de mesa.” COLARES DE MESA! Adorei o trabalho dela. Muito chique. E não é que enfeita mesmo? Com um colar desses na mesa, pode até servir brownie de chocolate com espinafre que eu não reclamo.
>> Postado por Rita Lobo 12:59
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Rita Lobo é autora dos livros A conversa chegou à cozinha, crônicas e receitas (editora Ediouro), Culinária para bem estar, receitas antiTPM (editora Panelinha) e Cozinha de estar (editora Conex). Formada em gastronomia nos EUA, a chef começou a escrever sobre comida em 1995, no jornal Folha de S.Paulo. Em 2000, criou o site Panelinha, que dirige até hoje.
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