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Quarta-feira, 03 de junho de 2009

Compostagem

Compostagem

Olha essa sequência de e-mails. A Caliê escreve para dizer que o post passado “caiu como uma luva”. Ela conta: “Ando ultra encanada com o lixo que produzimos e estou super interessada em reciclar o lixo orgânico para produzir adubo para o jardim, mas me encontro ainda na fase de estudo do melhor processo porque acúmulo de moscas e mau cheiro ninguém merece”. Para finalizar, ela diz: “vou te pedir um favor nessa noite fria de inverno, que demorou mais chegou aqui no velho oeste paulista, passe algumas receitas de sopas e caldos que agradem as crianças!”

Logo em seguida, a Franey manda uma mensagem perguntando sobre a reforma da minha cozinha e contando que, no fim de semana passado, fez um jantarzinho que começou com a “maravilhosa, gloriosa, sangria blanca, que combinou perfeitamente com o verão europeu.” (A sangria é do meu livro A conversa chegou à cozinha.)

É um detalhe, mas achei engraçado o contraste dos hemisférios: a Caliê pensando em sopas quentinhas, e a Franey fazendo receitas frescas para o verão europeu. Coisas da internet. Uma no oeste paulista, a outra no interior da Alemanha. E todas nós pensando em deixar as nossas vidas mais saborosas.

Mas o tema da semana ainda é a cozinha verde. Então volto ao e-mail da Caliê. Ou melhor, da Lucia. “Quando criança, eu fazia a tal compostagem (= jogar lixo orgânico na terra) com minha mãe no quintal de casa. Garanto que não cheira mal nem junta mosca. A terra fica pretinha, riquíssima, e ainda dá pra ensacar e presentear parentes e amigos para que coloquem em seus vasos e jardins. As minhocas (nesse caso) trabalham bem rápido, e terra fica cheirosa!” Ela sugere que a gente dê uma olhada num site chamado Minhocasa. Trata-se de um sistema de minhocultura, que pretende ajudar a reciclar o lixo orgânico, como restos de comida, podas de jardim e papéis.

Meninas, eu confesso que ainda não cheguei nessa etapa, de reciclar o lixo orgânico. Mas vamos pensando em soluções. A Marta, que é chef e dona de restaurante, também escreveu para colocar na mesa a sustentabilidade na cozinha profissional. Vou comentar o e-mail no próximo post. Mas não me esqueci das sopas quentinhas... Você já viu essa seleção, Caliê?

>> Postado por Rita Lobo 18:51

Segunda-feira, 01 de junho de 2009

Cozinha verde

Cozinha verde

Meu irmão fez aniversário na semana passada, mas o bolo foi no domingo. Dora, Gabriel e eu resolvemos levar uma bandejinha de brigadeiros. Já falei aqui sobre essa receita, mas vou repetir porque, para ela, não tem competição. O melhor brigadeiro do mundo é assim: 1 lata de leite condensado, a mesma medida de leite, 1 colher (sopa) de manteiga e 2 de chocolate em pó. Já testei com creme de leite, com cacau, com conhaque, sem conhaque... Nenhuma é melhor. E ainda é mais fácil de fazer. Mexendo sem parar, pode ficar em fogo alto. Vai rapidinho, não queima e não faz gruminhos. Rende cerca de 40 brigadeiros. Para o meu irmão, fizemos 10 gigantes e comemos a outra metade, antes mesmo de enrolar. Mas não era sobre o brigadeiro que eu ia falar.

Meu irmão e eu conversamos sobre sustentabilidade na construção e na arquitetura. O assunto é ótimo, mas vai ficar para o outro blog, o da reforma. Fiquei pensando, porém, como é que o conceito pode se aplicar à cozinha; como podemos fazer uma culinária que seja saudável não só para as pessoas, mas também para o planeta. Uma cozinha verde.

O lixo. Sim, ele é o primeiro que vem à cabeça. E, de fato, é chocante o tanto de lixo que uma cozinha pode produzir. E não só o orgânico. Já está dito e redito, mais que explicado, que devemos ir ao mercado com as nossas “ecobags” (ô birra que tenho desse nome), que devemos dar preferência a produtos acondicionados em embalagens recicláveis ou recarregáveis e evitar aqueles revestidos com muitas embalagens. (É mais ou menos assim: você compra para o seu filhote meia dúzia de cenouras orgânicas para fazer uma papinha bem saudável; as cenouras vêm numa bandeja de isopor, material não-reciclável, que é embalada em filme, com a etiqueta da marca; depois de passar no caixa, a bandejinha de isopor embalada em filme com a etiqueta vai para uma sacola plástica do supermercado. Então, seu filho toma a sopinha orgânica, e o lixo ganha uma bandeja, meio metro de filme... Bom, a sacolinha plástica a gente usa para forrar a lixeira!)

Muy bien. Nossos filhos, tendo ou não tomado sopinha orgânica desde o nascimento, já aprenderam na escola que o lixo deve ser reciclado. Em casa, eles separam papéis de metais, metais de vidros, vidros de plásticos... Mas só temos uma lixeira. Exageros à parte, pelo menos eu estou aprendendo a reciclar. É um objetivo. Mas ainda é novo. E ao mesmo tempo que dá vontade de colocar tudo no mesmo saco, a sensação de auto-vergonha-alheia é imediata. (Sabe como é, né?) Acho que, em alguns anos, será como se hoje você visse uma pessoa jogando uma lata de refrigerante pela janela do carro. Não dá vontade de passar bem pertinho e gritar: porco!

Agora, além das “ecobags”, vamos todos usar as “recycling bags”. Não é a melhor solução? São mais bonitinhas que as lixeiras plásticas e bem mais fáceis de carregar. A pessoa pode aproveitar a caminhada da segunda-feira para depositar no parque as garrafas de vinho que consumiu no fim de semana. Pelo menos em São Paulo, a maioria dos parques são postos de coleta seletiva de lixo...

Se eu fritasse batata, já saberia que o óleo usado deveria ir para uma garrafa pet. A garrafa pet seria levada até algum centro de coleta (repare a lixeira marrom nas grandes redes de supermercados). A questão do óleo é que, por ser mais leve que a água, quando volta aos rios fica na superfície e impede a oxigenação das águas. Peixes e microorganismos morrem e a água fica contaminada. Aliás, você já deve ter ouvido, mas dizem que 1 litro de óleo contamina 1 milhão de litros de água.

No momento, tenho achado a questão do lixo a mais dramática. Mas, aparentemente, o maior problema é mesmo a água. E não só a questão da contaminação. O desperdício também é crítico. Estamos mais acostumados a racionar energia, pois já passamos por apagões. Mas o uso consciente da água está no topo da lista da cozinha verde. Ou seja, um dos itens mais importantes da cozinha verde é, na verdade, azul.

Economizar água, especialmente na cozinha, é um assunto delicado. (Fala sério, banho no inverno até que dá para economizar, mas deixar de lavar a cenoura da sopinha do seu filho?) Já pensou ter de cozinhar o macarrão com metade da água?

Nas cozinhas profissionais já estão sendo adotadas torneiras de acionamento mecânico por pedais. Elas possibilitam a redução do consumo de água. Assim como a lava-louças. Os modelos mais novos são planejados para usar menos água e, pelo que andei vendo, chegam a economizar mais da metade da água usada quando lavamos a louça manualmente.

Tem ainda a questão da energia, do material das panelas, das medidas dos ingredientes, o assunto é vasto, e a semana está só começando. Estou pensando muito neste tema. Por isso, quero falar mais sobre ele. Quem quiser opinar, já sabe: rita@panelinha.com.br.

Voltando aos brigadeiros do meu irmão, meus filhos arrumaram eles numa bandejinha de palha, embrulharam com papel reciclado (ou seja, que era de outro presente) e amarraram com um laço que, tenho a impressão, era de algum enfeite de Natal. E para levar até a casa do tio Fábio, nada de sacolinha plástica!

>> Postado por Rita Lobo 00:50

PERFIL
  • Rita Lobo é autora dos livros A conversa chegou à cozinha, crônicas e receitas (editora Ediouro), Culinária para bem estar, receitas antiTPM (editora Panelinha) e Cozinha de estar (editora Conex). Formada em gastronomia nos EUA, a chef começou a escrever sobre comida em 1995, no jornal Folha de S.Paulo. Em 2000, criou o site Panelinha, que dirige até hoje.

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