28 de junho de 2009
Férias de inverno
Meus filhos estavam contando os dias para o fim das aulas. Férias. Fé-ri-as, mamãe. Eles nem sabem direito o que vão fazer com tanto tempo livre. Nem eu. (Não, não, eu não estou com tempo livre: quis dizer o tempo livre deles.) Além da reforma da minha casa, que você pode acompanhar no outro blog, também estou mudando de escritório. Tudo muito corrido. Mas quero me programar para também não saber o que fazer com um pouco de tempo livre. Sei lá, uma semana dedicada ao dolce far niente? Seria muito bom.
A memória é um bicho estranho (eu sei, memória não é bicho). Tenho na lembrança viagens de férias que duravam o mês todinho. Em janeiro, trinta dias na praia. Em julho, na montanha. Talvez ficássemos apenas quinze dias, quem sabe, uma semana, mas já disse que a memória é um bicho estranho.
Minha mãe precisava nos arrancar da areia para o almoço. E mesmo depois de termos comido empadinha, raspadinha e tudo mais que passassem vendendo na praia, continuávamos com fome. Mar dá fome. Sol, também. E fazíamos a travessia a nado do Lázaro à Domingas Dias. Nesta última, não havia nenhuma casa naquele tempo. A nossa ficava na praia ao lado, bem na areia. E nós não queríamos outra vida. Além dos meus irmãos, Fábio e Guilherme, tinha sempre um bando de primos e amigos para brincar. E às vezes brigar.
Gui, meu irmão caçula, hoje é médico, um cara sério, seriíssimo. Fábio, o mais velho, é o arquiteto que se viu obrigado a fazer o projeto da reforma da minha casa. Ele quase não faz reformas. Faz projetos grandes, enormes, bem maiores que aquele forte apache que nós construíamos com Playmobil. Estou vendo aqueles meninos magrelinhos brincando no chão; sinto gosto de groselha, cheiro de Noskote e, mesmo assim, a pele vermelha arde até não poder mais. Não acredito que os meus primeiros fios de cabelo branco já estejam nascendo. (Será que é verdade que no lugar de um fio arrancado nascem três? Então, lá vêm mais três. Não resisti. Puxei.)
Certamente não vou poder passar um mês na praia, ou no campo, com meus filhos. Não agora, pelo menos. Quem sabe um dia. Não o mês todo, mas quinze dias seguidos. Ainda não consegui planejar muito bem qual semana será dedicada exclusivamente às férias. Por sorte, a memória é um bicho estranho. Talvez, quando eles estiverem com idade suficiente para lembrar nostalgicamente das férias da infância, só se lembrem de que naquele julho a mãe pôde ficar uma semana inteirinha com eles. In-tei-ri-nha! E também se lembrem dos cookies de chocolate, que na minha casa já estão ficando com gosto férias de inverno.
>> Postado por Rita Lobo 18:51
Segunda-feira, 22 de junho de 2009
E-mail da Raquel
Rita,
Esse assunto de reciclagem me deixa louca! Tudo é muito ambíguo. Aqui em casa, separamos o lixo orgânico, que vai para uma composteira. O lixo reciclável vai para a coleta específica dele. Procuramos usar água e energia com inteligência. Quando abasteço a casa, procuro comprar o máximo de produtos orgânicos, sempre dando preferência a produtores da região.
Tudo parece muito controlado, porém, quando se separa o lixo para reciclar, é preciso lavar algumas embalagens (e eu sofro perdendo essa água); os legumes orgânicos vêm em bandejas de isopor e filme (que não são recicláveis); os ovos orgânicos (todos) vêm em embalagens plásticas.
Apesar de usar sacolas de lona ou caixas de papelão para carregar as compras, algumas sacolinhas plásticas são necessárias para acondicionar produtos molhados ou que devam ser isolados de outros, como carnes, frangos e peixes, que não devem se juntar ao sabão e outros produtos de limpeza. Sem falar nas frutas que precisam ser pesadas antes de passar no caixa e são embaladas nas tais sacolinhas. Estas são usadas até nas feirinhas de produtos orgânicos e são impossíveis de serem eliminadas. Mas isso não me dói: deixo de comprar sacos de lixo e as uso para esse fim. Sei que devemos usá-las somente quando for muito necessário e não devemos jogar nos rios ou no mar para não sufocar as tartarugas. Mas temos que ficar ouvindo a turma que quer acabar com elas de vez, como se isso fosse resolver todos os problemas do planeta?
Beijos,
Raquel
Raquel, eu ainda não estou louca com estas questões (mas também fico louca com muitas coisas). Acho que, em vez de ajudar, vou te atrapalhar: quero acrescentar alguns itens a sua lista. Concordo com você que há muitas incoerências. É verdade que estamos tentando reciclar, não jogamos saco plástico nos rios para não “sufocar as tartarugas”, nem óleo na pia, pois não queremos acabar os peixes. Beleza. Aí você dá uma voltinha na cidade, pode ser em São Paulo, no Rio, tanto faz, e passa por uma favela. Opa! Nem saneamento básico tem por ali! Eu me esforçando para não matar os peixes e as tartarugas e os órgãos públicos nem aí para onde vai o esgoto daquela população? Por que eu vou me dar ao trabalho de ficar separando vidro de lata, lata de plástico, plástico de resíduo orgânico? Nem coleta seletiva a prefeitura proporciona a todos os bairro!
A questão é mesmo bem complexa. Mas é rica. E coloca na mesa um ponto que não tem nada a ver com órgãos públicos ou com o que “a turma” tem a dizer do fim das sacolinhas plásticas ou do planeta.
Talvez, no momento, uma das grandes virtudes dos assuntos verdes seja propor a cada indivíduo, ou família, uma avaliação interna. Sustentabilidade tem ligação direta com consumir de maneira mais consciente. E isso é uma grande coisa. Em todos os aspectos. Até nos emocionais. Não são só as crianças que aproveitam seus brinquedos novos por apenas cinco minutos. Quanto mais tem mais quer é mais velho que andar para frente. Já notou que quanto mais adiamos o consumo, mais prolongado o prazer?
Produzir menos lixo passa por consumir menos. Gastar menos recursos naturais passa por consumir menos. E assim vai. Na cozinha, acredito, sustentabilidade está até na quantidade de comida que colocamos no prato. Você faz compostagem. Eu já confessei aqui que isso está longe dos meus planos. Mas tenho observado o tanto de comida que coloco no prato dos meus filhos para não ter que jogar metade fora. (Eles nunca comem o tanto que eu gostaria que eles comessem.) É um detalhe. Mas cada um faz o que está ao próprio alcance. E é essa avaliação que, acredito, nos caiba no momento.
Essas questões que andam te deixando louca, na minha opinião, estão mesmo inconclusivas. Para mim, o que mais importa é que estamos todos refletindo. Ao pensar em separar o lixo reciclável, separamos também o joio do trigo e, sem querer, avaliamos melhor o que de fato é necessário nas nossas vidas e acabamos criando mais espaço para valorizar o essencial. Ai, ai, será que eu é que estou ficando louca? Talvez a gente não consiga salvar o planeta. E a turma do saco plástico também não. Mas, pelo menos, a gente não enche a paciência de ninguém. E acho que isso também significa produzir menos lixo. Obrigada pelo seu e-mail, Raquel.
>> Postado por Rita Lobo 22:23
14 de junho de 2009
Cambalhotas na horta
Tenho recebido e-mails aos montes sobre cozinha verde. O assunto não se encerrou, mas hoje vou dar um tempo. Da cozinha. Não do verde. Verde aqui em outro sentido, o mais primitivo e também mais saboroso. O verde das folhas, das ervas, do pimentão, da horta, das saladas que a gente imagina quando pensa numa salada boa, que tem gosto de frescor e textura crocante.
No fim de semana, fui para o sítio de uma amiga. Uma hora de estrada e estamos num lugar muito distante. Gramado sem fim, lago, cavalos, galinheiro, um coelho, forno à lenha, caseira que faz macarrão fresco e crianças que, à noite, ficam com sono de tanto pular durante o dia.
No meio do gramado fica a cama elástica. Minha amiga, que tem a mesma idade que eu, ainda não se convenceu de que não é a Nadia Comaneci. O pula-pula não é para as crianças. Mas são elas que aproveitam. Tia M. dá saltos mortais que só de olhar me deixam cansada. Nós somos amigas de infância. E desde sempre estava decidido: quando crescêssemos, virássemos gente grande com filhos e tudo, ela ficaria a cargo da educação esportiva das crianças de todas nós. Na prática, a vida não é assim. Mas no sítio, ela é quem ensina a dar cambalhota no ar. Eu fecho os olhos.
É hora de dar uma caminhada até a horta e o galinheiro. Há tempos eu não ia até lá. Apesar de o sítio não ter nada de meu, nem sequer uma grama de terra, a minha memória não sabe disso. O local faz parte de tantas das lembranças da adolescência que a minha memória pensa que é dona daquela horta e se orgulha toda de ver as folhas brilhando sob o sol do inverno. Já estamos no inverno? Não importa, está frio, daqueles que a gente fica implorando às crianças que não tirem os casacos. As mães é que pagam o pato depois.
Não havia mais patos no lago. Mas a galinha cega, de um olho só, foi a sensação da visita ao galinheiro. Ela é mansa, explicam as crianças já depenando a ave. Coitada, só porque é cega, já transformaram a bichinha em mascote. Quando eu era criança, parei de comer frango por um tempo. É que minha bisavó, Margit, resolveu me chamar para ajudá-la a preparar o almoço, que começava com um facão entre a cabeça e o corpo da galinha, que depois de muitas horas aparecia ensopada no prato. Quase virei vegetariana. Mas os nossos filhos nem percebem que aquele bicho é o mesmo que poderia estar no prato deles. E, por enquanto, não precisam saber. Desde que comam, podem continuar achando que aquela galinha cega existe apenas para animar a visita ao galinheiro.
Na horta as crianças começam a caçar cenoura. E agora é a minha vez de dar pulos. Certamente menos exuberantes que os da minha amiga. A salsinha é tão crocante que não precisa de trigo. Parece um pé de tabule. Cheia de textura e com sabor quase ardido de tão fresca. Dispensa o caldo do limão. A berinjela ainda é bebê e talvez por isso esteja enfeitada com flor. É linda e lilás a flor da berinjela. Eu pareço uma criança. E as crianças não dão muita bola para a horta. Mas se divertem com a mãe comendo pedaços de folha sem lavar. Dora pede para experimentar uma folha de manjericão. Tem gosto de pizza, mamãe. Gabriel separa as folhas do prato. Nem na pizza nem na horta quer comer manjericão. Ele não sabe o que está perdendo. Ou melhor, está tudo certo. Eu precisei de muitos anos até descobrir que salsinha fresca e outras coisas da horta me fazem ter vontade de dar cambalhotas no ar. Imaginárias, que fique claro.
>> Postado por Rita Lobo 16:14
Segunda-feira, 08 de junho de 2009
Dois e-mails
Rita,
No bairro de Santa Cecília, em São Paulo, tem umas lojinhas que vendem potes de vidro a preços mais justos. Não chegam a ser de altíssima qualidade, mas são grossos, básicos e não quebram à toa. E o importante é que são baratíssimos!
Eu só não consegui eliminar os potes plásticos dos caldos caseiros que faço e vendo. Não teve técnica de congelamento infalível que impedisse as embalagens de vidro de estourar. Fora o trabalho para limpar o freezer! Quanto aos potes de inox, não guardo nada ácido neles porque, aparentemente, o contato libera níquel, um metal que não deveria entrar em excesso na nossa alimentação.
Um beijo e boa sorte com a tua reforma! Deu vontade de reformar a minha cozinha!
Pat Feldman
www.pat.feldman.com.br
Rita,
Li seus posts sobre cozinha verde. Pois bem, os alemães são os reis da reciclagem, aqui se recicla tudo. Em geral, separamos papel, plástico, orgânico e vidro. Quem tem jardim normalmente tem um lixo para transformar orgânico em adubo. Mas devo confessar que minhocas não são seres com os quais eu gostaria de ter uma relação assim tão próxima,
uma questão estética, eu acho...
Os vidros e as pilhas têm que ser levados ao supermercado onde há lugares especiais para a coleta. Adoro jogar o vidro no contêiner só para ouvir ele se espatifando lá dentro: é o momento mais divertido
das compras de sábado!
Uma vez por mês é recolhido o Gelbesack, um saco amarelo onde armazenamos plástico. Como fica guardado por um bom tempo, eu lavo tudo antes de jogar fora, para não ficar cheirando nem atrair outros seres alienígenas, da turma da minhoca.
Tudo é hábito e depois que você se acostuma, passa a se sentir mal em não reciclar. Nas minha férias, quando eu estava no Rio, ficava com dor toda vez que eu abria aquela portinha no corredor onde se joga o lixo,
que desce por aquela coluna rumo a poluição eterna. E todos os prédios antigos do Rio são assim.
Achei interessante o seu comentário sobre os potes plásticos; eu também tenho uma implicância ferrenha com eles. Tenho evitado nas minhas últimas compras para a cozinha tudo que é de plástico e de silicone também.
Beijos,
Franey
>> Postado por Rita Lobo 09:49
Sexta-feira, 05 de junho de 2009
Cozinha verde é coisa fina
À primeira vista, essa história de cozinha sustentável pode parecer chata. Muitas obrigações e nenhuma compensação direta, imediata. E na era dos resultados -“perca 5 k em uma semana!” - reciclagem, compostagem, isso tudo pode parecer meio sem sentido; o efeito não é aparente nem instantâneo. Ninguém vai salvar o planeta em um mês. (Nem emagrecer 5 quilos em uma semana; mesmo assim, milhares de kits de dieta continuam sendo vendidos.) Então hoje eu quero comentar sobre um outro lado da cozinha verde, bem prático e bem simples. Ou pelo menos mais simples que fazer compostagem que, confesso, não está nos meus planos.
Tenho a maior birra de recipientes plásticos. Especialmente para guardar sobras de comida. Já deve ter acontecido com você o fato de colocar um alimento na geladeira, dentro de um recipiente plástico, e ele sair com gosto de outro. Pois bem, não sei se o meu olfato é de lobo, mas eu sempre sinto cheiro da comida anterior. O problema maior é quando a calda de chocolate vai para um potinho onde antes estava uma pasta de grão-de-bico com bastante alho. Não dá! Por mais que você lave, plástico pega o cheiro dos alimentos. Tenho ojeriza a plástico. E não é que na cozinha verde eles serão eliminados?
Vamos por partes. Potes plásticos até se encaixam na categoria de recicláveis. Mas eles são feitos de petróleo. Por isso, entram para a listinha negra da cozinha verde. Em lugar deles, vamos usar vidro ou inox. Ueba! Eles são ecologicamente corretos e não retém cheiro! Sim, a tampa continua sendo plástica, mas, do ponto de vista culinário, que é o que estou priorizando, a tampa não vai fazer a menor diferença. Já eliminar todos os potinhos plásticos da minha cozinha, isso sim vai ser uma questão ecológica. E culinária. Vão todos para o lixo! Reciclável, claro. Culinária verde agora. E já pensou que coisa fina, abrir a geladeira e ver todas as sobras em recipientes de vidro ou de inox?
A única questão é que eles não são baratos. Eu pelo menos fiquei com a impressão de que são caros. Tenho dezenas de tigelas de inox de preparo, mas são daqueles jogos sem tampa. Comprei na época em que eu morava em Nova York. Lá era baratinho. As de vidro, que também não têm tampa, também trouxe de lá. Mas me lembro de ter cogitado comprar um jogo de inox com tampa, aqui em São Paulo, e na época achei caro.
Resolvi dar uma pesquisada na internet. Nas Americanas, um “recipiente para preparar de inox com tampa plástica de 7,4 litros”, da Tramontina, custa R$ 169,90. Uma fortuna, vai? Mais uma googlada e achei no site do Shoptime um “conjunto de potes de inox com 5 peças da La Cuisine” por R$ 59,00. Opa! Há opções para todos os bolsos. (Detalhe, achei graça na descrição: “não deformam, não retém cheiro e podem ser levados a mesa para servir saladas, doces, massas, sopas, carnes, aproveite!” Ah, não, levados à mesa, não! A gente quer ajudar o planeta, mas não precisa avacalhar com a mesa!) Depois achei um “jogo de tigelas de vidro com 5 peças com tampa plástica”, da marca Heritage, de R$ 28,40 por R$ 19,50 no Wal Mart. Só para não ser injusta, o recipiente pequenino da Tramontina, que comporta 1,3 litros, nas Americanas custa R$ 79,90.
Mas antes de encher o carrinho, vamos a uma outra questão: a culinária verde prevê receitas com porções exatas. Ou seja, se você vai cozinhar para duas pessoas, a ideia é que faça a quantidade certa para duas pessoas. Você economiza gás na hora de cozinhar, e também energia, porque não vai sobrar nada para levar à geladeira. (E também não vai ter de jogar fora aquela lasanha que está há uma semana na geladeira.) Então não vamos precisar de tantos recipientes de inox assim. Talvez seja um pouco de wishful thinking da minha parte. Mas, finalmente, achei um bom motivo para eliminar os potinhos plásticos da minha cozinha. E a dona Maria que mora dentro de nós, que não pode ver um pote de sorvete vazio que enche de arroz, vai ter de se acostumar a reciclar plástico e fazer menos arroz.
>> Postado por Rita Lobo 14:48
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Rita Lobo é autora dos livros A conversa chegou à cozinha, crônicas e receitas (editora Ediouro), Culinária para bem estar, receitas antiTPM (editora Panelinha) e Cozinha de estar (editora Conex). Formada em gastronomia nos EUA, a chef começou a escrever sobre comida em 1995, no jornal Folha de S.Paulo. Em 2000, criou o site Panelinha, que dirige até hoje.
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