Quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
e-mail da Clarissa
Olá Rita,
Acompanho assiduamente seu blog, inclusive, toda atualização é exibida nas manchetes do meu feed na telinha do computador. Adoro a forma como escreve e estou sempre me aventurando na cozinha inspirada pelas receitas do Panelinha.
Acabei de dar muita risada com a história do Pinocchio... Estive no Atacama em 2006 e amei o Salar. Dessa viagem para o Chile, trouxe de presente para o Brasil meu filho Enrico, que já vai completar 1 ano no próximo dia três. Não deixe de conhecer e entrar na Laguna Cejar. Os Geisers El Tatio e as Termas de Puritama também são imperdíveis! Gostei muito da gastronomia do Atacama. Eu recomendo o restaurante Tierra Todo Natural, especializado em comida vegetariana.
Essa semana, passei a acompanhar o blog Aprendiz de Cozinheiro. Fiquei feliz com a coincidência, pois vou começar um curso para chef de cozinha em março e também estou escrevendo um blog sobre esta e outras experiências relativas ao prazer de cozinhar e comer bem! Quando tiver um tempinho dá uma olhadinha: http://pimenta-rosa.spaces.live.com
Um beijo e aproveite o Atacama!
Clarissa De Lorenzi Fondevila
Clarissa,
Que delícia de e-mail! Não sei se você já viajou sem o seu filho, mas se ainda não, vai descobrir que, depois que eles invadem a nossa vida, as viagens têm dois melhores momentos, e um deles é a hora de voltar para casa. É engraçado como, depois do nascimento dos meus, nunca mais fiquei triste de ter que voltar de Paris, ou tive vontade de me mudar para aquela cidadezinha italiana, ou essas coisas que, quando a gente não tem filhos, pensa em fazer. Passou.
Por outro lado, nos primeiros anos, a gente fica tão, mas tão grudada neles, que chega uma hora que um pouquinho de espaço, só para você, se faz necessário. As pessoas falam muito da importância de criar tempo para o casal, mas esquecem que individualmente também temos que nos cuidar. E é basicamente isso que vim fazer.
Não estava muito preocupada com a gastronomia local. Mas também fiquei impressionadíssima com a comida. No hotel onde estou, opa, estoy, o café da manhã não poderia ser mais gostoso e saudável. Um bufê com suco de framboesa, suco de laranja, frutas em pedaços, muesli, granola, iogurte, ameixa em calda (deveria ser obrigatório em cafés da manhã de hotéis!). Ovos feitos ali mesmo no bufê, mexidos, omeletes, com queijo, presunto, cubinhos de tomate. E os pães. Ah, os pães. Feitos no hotel, do jeito que eu gosto: integrais, com nozes, passas. Manteiga, claro. Mas uma opção mais saudável à manteiga é oferecida aos “exploradores”: abacate amassado com limão. Acho que vou transformar isso em hábito, abacate para passar no pão no café da manhã.
O suco de framboesa também é delicioso. Já estou imaginando que, no fim de tarde, depois de horas sob o sol do deserto, esse suco com um pouco de vodca vai ficar uma delícia! Mas os vinhos chilenos são tão bons... Vou deixar para decidir na hora. Essa é uma das maravilhas de estar de férias, não é? E antes mesmo de eu ter que decidir, ele apareceu em versão sorbet, que, como você pode ver, eu resolvi fotografar.
>> Postado por Rita Lobo 18:36
Terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Sal do Atacama
Há tempos, fiz um jantar na minha casa e um dos convidados disse que iria levar uma amiga. Para a minha alegria, era a Iná (uma das nossas aprendizes de cozinheira). Os dois trouxeram um pote de sal, mais precisamente de Fleur de Sel de Guérande, um vaso de ervas plantadas e um bilhetinho escrito pela Iná: “De doce basta a vida!”
Pois bem, agora que Iná, Silvia, Marcia e Andrea dominaram o Panelinha, resolvi tirar uns dias de férias e vim parar no meio do deserto. Aliás, um deserto de sal.
São Paulo e San Pedro de Atacama, no Chile, estão praticamente na mesma latitude. Para chegar até aqui, porém, é necessário pegar um vôo até Santiago, umas 4 horas em direção ao sul do Chile, depois outro até Calama, mais 2 horas para o norte, sem contar as 2 horas de espera no aeroporto. São muitas horas (desnecessárias) de viagem e, depois, mais 1 hora de carro, deserto adentro. Já era quase hora do jantar quando cheguei ao hotel, mas decidi tomar apenas uma taça de vinho, chileno, por supuesto. Bem cedinho, no dia seguinte, iria a cavalo até o Vale da Morte. E fui. Rapidamente descobri a razão do nome do local: voltei muerta! Duas horas a cavalo sob o sol do deserto requer um pouco mais de treino. À tarde, resolvi fazer um passeio mais light: uma volta no Salar do Atacama.
Antes de continuar, quero pedir a sua permissão para hablar en portuñol. Ou mejor, hablar, djá estoy hablando, quiero escribir. Com todo o respeito aos nossos vizinhos de América del Sur, mas parte da diversão da viagem és hablar en portuñol.
Nada a ver: quando eu era pequena, meu pai adorava colocar um LP com a história do Pinocchio para meus irmãos e eu ouvirmos; o detalhe é que era em espanhol. Pinocchio no quiere estudiar, y ademas miente. E essa maldita frase está cravada na minha mente. Basta alguém perguntar qualquer coisa que tenho vontade de responder: Pinocchio no quiere estudiar, y ademas miente.
Mas volviendo ao sal, apesar de toda a moda em torno dele, os atacamenhos não voltaram atrás: eles deixaram de extrair e de comercializar o sal daqui há quase duas décadas. O processo era muito caro. E, hoje, quem quiser experimentar o exótico sal do Atacama tem que fazer como djo. Afinal, de dulce, djá basta a bida, berdá?
>> Postado por Rita Lobo 17:35
Terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Comida fria
Acho que vou conseguir voltar a comer comida quente no jantar. Não que eu goste de comida em temperatura ambiente, eu não. Mas esse horário de verão estava acabando comigo. Eu acordava cansada, passava o dia exausta e chegava verde de fome em casa, bem na hora do jantarzinho dos meus filhos.
Faminta e cansada, eu não tinha forças para fazer nada ou sequer para esquentar a comida na panela, acredita? Foram meses comendo restos de comida fria. Tá bom, eu estou exagerando, mas deu para ilustrar.
Como num passe de mágica, ontem cheguei do escritório cheia de disposição para brincar com as crianças, esquentei o meu jantar e depois ainda fui ao cinema. Queria tanto ver Juno, mas acabei vendo Elizabeth – A era de ouro. E Cate Blanchett é linda, ótima atriz (boa até demais), pode levar o Oscar. Mas o melhor do filme é o andar do Rei Felipe II da Espanha. Não vou mentir: não gostei muito do filme. Ainda estou enfeitiçada por Reparação, que me recuso a colocar um “Desejo” no título. Assisti ao filme com um amigo num dia e, no outro, com uma amiga que ainda não tinha visto, mas tinha lido o livro.
Ainda sobre a temperatura da comida, ouvi dizer que os dois extremos não são muito saudáveis. E seguidos um do outro, uma feijoada borbulhante e um gole de caipirinha bem gelada, é pior ainda. Será? Parece que o choque térmico é muito irritante para o esôfago. Também me disseram que comida requentada fermenta mais e, por isso, também não faz bem à saúde.
A cozinheira da minha casa morre de rir quando eu pego uma panela quente e solto um, “ai, tá quente!” Ela diz que nem parece mão de cozinheira. Ela tira assadeira do forno sem pano, pega panela fervendo... Nada queima a mão dela. Havia um tempo, quando eu tinha restaurante, que minha mão era mais calejada. Quer dizer, eu me queimava, mas não com qualquer panela quente. Tinha que ser descuido bom, desses que a queimadura forma bolha. Tudo é questão de costume.
Estou com medo de voltar a comer comida quente e queimar a língua. Pensando bem, nunca gostei de comida muito quente. Faço a sopa esfriar, espalho o risoto no prato. Até café demoro para tomar. E quibe frio, tem coisa melhor? Já experimentou charutinho de uva gelado? O quente fica até ruim. Torta de frango também entra na minha lista de comidas quentes que frias ficam ainda mais gostosas. Isso sem falar naquelas que são frias por natureza, como carne louca. (Ah, esqueci de contar, toda semana tem uma expressão nova aqui no escritório e a mais recente é: “volta pro pão, carne louca!”. É excelente para usar no trânsito.)
Pensando bem, também gosto de ver filmes frios. Sabe aqueles filmes que fizeram muito sucesso mas na época você não viu? Acho que vou fazer uma listinha para comemorar o fim do horário de verão. Mas pipoca fria nem pensar!
>> Postado por Rita Lobo 15:45
Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Volta às aulas
Os leitores aqui do blog vão logo imaginar que este post será sobre a escola nova dos meus filhos, sobre adaptação e, também, sobre lanchinhos. E eu tive mesmo vontade de escrever sobre isso. Mas este não é o assunto do dia. Vou falar sobre um filhote do Panelinha. Um novo blog.
No finzinho de 2006, comecei a escrever o meu blog. E, além de criar um espaço para mim, ganhei um canal direto de comunicação com os usuários aqui do site, que passaram a mandar e-mails comentando os posts, contando causos, perguntando sobre receitas e também reclamando de alguma coisa. Com estes e-mails, pude conhecer melhor as pessoas que, diariamente, visitam o Panelinha e usam as nossas receitas.
Descobri que muita gente sonha em ter um café, um bistrô ou até uma pousada “quando os netos vierem”. Mesmo que o sonho nunca se realize. Por isso, tive vontade de lançar um blog que contasse um pouco do dia-a-dia de um dono de restaurante. Nesta época, estávamos fazendo um especial com a chef Andrea Kaufmann que, além de ótima chef, dona do AK Delicatessen, mãe de dois filhos, casada, ainda é uma mulher antenada que acha tempo para devorar blogs e livros de gastronomia. Era uma dessas situações onde a fome junta com a vontade de comer e convidei a Andrea para assinar o segundo blog do Panelinha, onde ela conta em detalhes como é vida da dona da deli.
O Vitaminado, blog da nutricionista Marcia Daskal, era um projeto antigo. Ela foi minha consultora no canal s/tpm e, depois, no livro Culinária para bem estar, receitas antiTPM. Falamos sobre fazer um blog de nutrição aqui no site, mas as agendas só permitiram que ele se concretizasse no fim de 2007. Muito antes disso, porém, depois do nascimento da minha filha Dora, ela me ensinou perder peso comendo o dobro do que eu comia. Brinco com a Marcia que ela é uma das únicas nutricionistas que eu conheço que gosta de comer!
Esta semana, estréia o novo blog do Panelinha. As duas co-autoras não se conhecem pessoalmente, mas tiveram a mesma idéia: fazer um curso de formação de chef. Elas se inscreveram na mesma escola, em períodos diferentes. Uma fará o curso da manhã, e a outra o da noite.
Iná é uma executiva que trabalha com números o dia todo. Ela diz que, “ao ser apresentada a novas pessoas, eu geralmente pulo a parte de trabalho para evitar expressões de tédio ou mesmo dó. Apesar de até considerar que possa existir poesia em uma planilha de excel, nas conversas sociais prefiro sempre ficar nos tópicos clássicos de amenidades...” Como uma espécie de terapia ocupacional, Iná decidiu por a mão na massa e fazer um curso que promete ensinar a ela todas as técnicas de uma cozinha profissional. A duração do curso é de um ano, com duas aulas semanais. Iná irá escrever sobre as aulas de terça-feira.
Silvia irá escrever sobre as aulas de quinta-feira. Contrariamente à Iná, Silvia, no momento, não está trabalhando com números. Ela também é formada em administração, mas com o nascimento dos dois filhos decidiu dar um tempinho na carreira. No dia-a-dia com as crianças, Silvia se descobriu apaixonada pela cozinha. E, agora que elas já estão crescidinhas, a mestre-cuca resolveu aprimorar os dotes culinários num curso para aspirantes a chef de cozinha.
A convite do Panelinha, as moças irão dividir um blog e contar suas experiências, acertos e erros na cozinha. É diversão garantida. E os leitores mais aplicados ainda poderão aprender com Silvia e Iná os caminhos de um Aprendiz de Cozinheiro. O novo blog do Panelinha estréia nesta quarta-feira, mas o primeiro post de cada uma dela já está no ar. Clique aqui!
>> Postado por Rita Lobo 09:39
Sexta-feira, 08 de fevereiro de 2008
O livro das vidas
Sobre a mesa do meu escritório estava um envelope branco, com o meu endereço escrito à mão. Dentro dele havia um livro preto, e dentro do livro um bilhete amarelo. O subtítulo do livro explica que se trata de uma seleção de obituários do New York Times. O bilhete era do organizador da obra e, também, coordenador da Coleção Jornalismo Literário, da Companhia da Letras, a qual o volume pertence. No bilhete, Matinas Suzuki Jr. sugere que eu leia um texto específico e lembra que a tradução da receita de cheesecake, que ele me pediu para fazer, era para um dos obituários. (Era de um tal Harry Rosen, “fundador do Junior’s Restaurant, estabelecimento do Brooklyn famoso pelo cheesecake”, que morreu mas não levou a receita para o túmulo.)
Os textos são primorosos. O livro é brilhante, desses que a gente pega para dar uma folheada e não consegue mais parar de ler. E, contrariamente ao que se possa pensar, não é mórbido ou deprimente. De forma surpreendente, o livro faz pensar sobre a própria vida, além de proporcionar uma leitura de primeira.
Por uma dessas coisas da vida, bem ao lado do envelope, sobre a minha mesa de trabalho, está uma página do Caderno 2, do jornal Estado de S.Paulo. Não se trata da seção de obituários, mas o título da nota é: “A morte do violonista Antônio Rago”. E o texto diz: “Morreu na quinta-feira, em São Paulo, aos 91 anos, o violonista Antônio Rago, autor de mais de 400 composições e um dos responsáveis pela introdução do violão elétrico no Brasil.”
A nota continua dizendo que o corpo foi cremado, que ele estava internado desde novembro, que era filho de italianos, e assim vai. Mas, naturalmente, a nota não conta que ele viveu uma vida bem vivida, que sempre fez o que quis, que passou a vida tocando o seu violão e, talvez, por isso, tenha sido uma pessoa tão feliz.
A nota diz que ele nasceu na Bela Vista, mas não explica que, apesar de ter se mudado de lá ainda jovem, sempre sentiu-se em casa no Bixiga. E era lá que ele, religiosamente, encontrava os amigos para almoçar aos domingos. Era lá também que ele comprava pão italiano, nhoque, vinho, pernil assado, apesar dos dotes culinários da esposa, que, mesmo sendo húngara de nascimento, especializou-se na culinária italiana por causa dele. E, obviamente, a nota não termina dizendo que, além de Julia, esposa por 62 anos, Antônio Rago deixa três filhos, Elisabeth, Margareth e Antônio, seis netos, Marina, Laura, Mariana, Guilherme, Fábio e eu.
Talvez pelo fato do meu avô ter morrido há tão pouco tempo, O livro das vidas, assim como os mortos, pareça melhor do que de fato ele é. Mas eu duvido. Assim como tenho minhas dúvida se algum dia vou conhecer alguém tão alegre quanto era o meu avô Rago.
>> Postado por Rita Lobo 16:07
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Rita Lobo é obcecada por comida. Por isso, em 1995, fez um curso de formação de chef nos EUA. De lá para cá, teve restaurante, escreveu para o jornal Folha de S.Paulo, publicou o livro Cozinha de estar, lançado pela editora Conex, e há oito anos comanda o site Panelinha.












