Quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Mais batatas e cinco e-mails
“Pois é, Rita, você acaba de achar alguém que não gosta de batatas,
nem de macarrão, que é outra quase-unanimidade", diz a Pat Feldman, do blog Crianças na Cozinha, sobre o filhote que não come nem batata frita. Mas o César Miranda, do blog Pró Tensão, diz que “meu pai não gosta de batata frita. Mas acho que de algum outro modo ele deve gostar. Batata é mesmo batata”. A Deia Farias Britez, colaboradora da nossa comunidade Panelinha, diz que não conhece ninguém que não goste de batata! “Eu mesma adoro... Pela minha página dá pra ter uma idéia!” A Clarissa Magalhães diz, “Amo seu blog e leio sempre, apesar de ser a primeira vez que te escrevo. Trabalho em um restaurante no centro do Rio e sempre busco receitas no Panelinha, que são um sucesso de público. Sobre as batatas, se não
tiver no buffet, não tem cliente, e isso é fato! Gastamos em média 40 kg delas por dia!”
A Renata Ogusucu não disse nada sobre batatas, mas leu sobre a salada de trigo com romã e me mandou o link abaixo:
http://www.101cookbooks.com/archives/bulgur-celery-and-pomegranate-salad-recipe.html
Renata, essa salada também parece saborosa, e esse blog é o máximo, mas a da Nina é diferente, avermelhada, encardida, leva xarope de romã e nozes. Ainda vou conseguir a receita.
Mas, voltando às batatas, a Noélia, que trabalha comigo em casa, está na fase Nigella, vive fazendo receitas dos livros dela. Desse último, Nigella Express, ela tirou uma receita de batatas cozidas no leite, com um pouco de vinho branco, e assadas com cogumelos salteados. Vai tudo para o forno por uma hora. É quase uma batata gratinada, porém mais leve – e com a adição de outros ingredientes, claro. Fica bem queimadinha, do jeito que eu gosto. Ela faz algumas alterações, muda o tipo de cogumelos a cada vez, coloca queijo, põe mais noz-moscada. Esta semana ela fez a receita novamente e aproveitei para fazer uma foto aqui para o blog.
Embaixo da foto das batatas, coloquei essa imagem que o Gabriel fez da gente! Eu estava trabalhando no computador, ele sentou no meu colo, meu telefone tocou, me distraí por alguns minutos e ele achou esse programa no computador que faz fotos com efeitos. Não ficou fofa? Toda mãe acha o filho um gênio, e isso é batata.
>> Postado por Rita Lobo 19:18
Segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Todo mundo usa
Minha filha ficou com dor de garganta e, por isso, fiquei, de dia, trabalhando em casa. À noite, ela pediu para dormir na minha cama. Eu sei, é errado, isso não se faz, mas A-DO-RO quando meus filhos pedem para dormir na minha cama. Claro que só deixo de vez em quando. E com dor de garganta é de vez em sempre. Não precisa nem pedir. Bom, para encurtar a história, à tarde, eu estava no computador, Gabriel lendo um livro de dinossauros e Dora assistindo à televisão, bem baixinho. Cada um concentrado na sua atividade. Num intervalo comercial, ela ouviu o slogan: “Havaianas, todo mundo usa”. Imediatamente se levantou, veio andando em minha direção e disse, abanando o dedo indicador: “Mamãe, eu não uso”.
Gabriel, sem tirar os olhos do livro, comentou: “Eu também não uso, meu avô não usa, minha avó não usa, meu pai não usa...” Dora olhou bem sério para mim e disse: “Mamãe, acho melhor você ligar para o moço da televisão e avisar que não é todo mundo que usa”.
Por coincidência, achei essa ilustração antiga feita pelo Filipe Jardim, uma opção de imagem para alguma página do meu primeiro livro, Cozinha de estar. Acabamos não usando. Mas fica claro que uso Havaianas e tomo café. O que interessa aqui, porém, é o “todo mundo”. Claro que a mensagem é que todo o tipo de gente usa, e não que todas as pessoas do mundo usam. Mas não quis estender a conversa com os meus filhos. Achei ótima a argumentação deles, o fato de eles não aceitarem como certo qualquer coisa que vejam na televisão.
Fiquei pensando sobre o conceito “todo mundo” na culinária. Todo mundo gosta de chocolate. Não é verdade. Muita gente gosta, mas não é todo mundo. Todo mundo gosta de arroz. Eu gosto, mas não faço questão, acredita? Todo mundo gosta de quê? Não consigo pensar em nada. Tenho um palpite, porém. Batata. Não conheço alguém que não goste de batata. Acho que é daí que vem a expressão “é batata”. E é um ingrediente popular, que “todo mundo” pode comprar. E cozinhar.
Gabriel não gosta de purê de batata, mas gosta de batata frita. Eu não gosto de batata cozida a vapor, mas gosto de todos os outros tipos. Especialmente as queimadas. Batata assada até queimar as pontas, temperada com alecrim, sal grosso. Ou aquela batata libanesa feita pela Leila, do restaurante Arábia. É uma espécie de purê rústico, que, em vez de leite e manteiga, leva azeite e, por cima, cebola frita com salsinha. Um sonho. Purê de batata bem feitinho, temperado com noz-moscada, também é comida de desejo. E, por incrível que pareça, é rara. Vira e mexe as pessoas inventam de colocar queijo, requeijão, temperos estranhos. Aí não dá. Batata salteada com curry também é uma delícia. Salada de batata com mostarda também. Aqui no Panelinha tem um monte de receitas gostosas (no canal receitas, digite batata para ver as opções).
Bom, se você chegou até aqui, leu o post todinho, bem que poderia me mandar um e-mail dizendo se você conhece alguém que não gosta de batata. Até lá, continuo achando que é o ingrediente que todo mundo gosta. Todo mundo usa.
>> Postado por Rita Lobo 18:56
Quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Trigo com romã
Você vai ficar com a impressão de que eu quero me exibir. Não é bem isso. Mas se eu não contar a história como ela aconteceu, o fim não faz sentindo. Acontece que, na sexta-feira passada, fui jantar na casa de uma amiga. Não era um jantar qualquer, era algo muito especial. Mas, antes de chegar ao jantar, preciso comentar sobre as amêndoas. Eram várias tigelinhas espalhadas pelas mesas. Peguei uma amêndoa com a mão, levei à boca e, antes mesmo de dar uma mordida, levei um susto: amêndoas assadas com sal e alecrim; você já experimentou? Uma explosão de sabor. Um combinação incrível. Talvez seja algo corriqueiro, mas eu nunca tinha comido. Não sei se a receita leva mais alguma coisa, talvez claras de ovo para os temperinhos grudarem bem ao assar.
Era um jantar grande em torno de um rabino, mais ou menos setenta pessoas. Não sabia se a comida era feita em casa, aliás, coisa rara, raríssima, num jantar grande assim. Mas não quis deixar de elogiar o petisco, antes de o serviço religioso começar. Disse à minha amiga que estava com medo de nem conseguir comer outra coisa, já tinha acabado com várias tigelinhas. “É Ginger!”, ela respondeu.
Ou seja, o jantar era feito pelo bufê da Andrea Rinzler e da Nina Horta. Imediatamente parei com as amêndoas; tinha de reservar lugar para os quitutes judaicos que seriam servidos após o Cabalat Shabat.
Um pouco mais de uma hora depois, almas lavadas, pensamentos soltos e todos prontos para uma taça de vinho e um pedaço de chalá. Na sala de jantar, uma mesa com muito mais do que isso: vareniques, guelfite fish, salmão defumado, salada de pepino, arenque e, ali no meio, salada de trigo com romã.
Há anos, muitos anos, não comia essa salada. Por que raios fiquei tanto tempo sem comer essa salada de trigo com romã? É das coisas mais gostosas que se pode comer. Basicamente, porque não sei fazer.
Liguei para a Nina e pedi a receita. Ela respondeu: “Puxa, que bom, tava boa a salada, é? É bem o tipo de comida que você gosta, não? Meio vegetariana...” (Agora vem a parte em que parece que eu quero me exibir.) Dias depois, chega à minha casa uma tigela, tigelona, da salada. Não consegui parar de comer. Comi até lamber o molho. E só depois de comer o último grão me dei conta de que ela mandou um pote de salada mas não me deu a receita. Danada.
>> Postado por Rita Lobo 23:10
Segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O aniversário da Dora
Na semana passada, Dora, minha filhota, completou 4 anos. Ela queria fazer uma festa. Aliás, há meses só falava nisso. Eu sugeri que convidássemos os amiguinhos da escola para comer bolo e brigadeiro em casa. Ela achou ótimo e disse que também iria chamar os primos e os outros amigos (que são os amiguinhos herdados, filhos de amigos meus).
Duas semanas antes, aproveitei um sábado para comprar lembrancinhas, copos, pratos, talheres e guardanapos – adivinhe? – cor-de-rosa. Já deixei os balões com gás hélio encomendados e não resisti: comprei algumas caixas de forminhas de flores de papel-crepom rosa-choque e verde-limão. Assim, o “tema” da festa ficou definido: rosa e verde. Quase uma festa da comunidade da Mangueira.
Dias antes, encomendei o bolo que ela queria: Hello Kitty por fora, chocolate e brigadeiro por dentro. Mas pedi que as flores fossem verde-limão. (Lembra? A festa tem cores pré-definidas.) Da minha amiga Regina, encomendei miniquibe e miniesfirra, que os meus filhos insistem em chamar de espirra. “Mamãe, eu só gosto de espirra fechada de carne”, avisa o Gabriel. Eu gosto da folhada, mas só em dia de festa, é um pouco gordurosa. Para os adultos, sanduíche de falafel, que a Regina insiste em chamar de falefel, e deve estar certa: ela é de origem libanesa, e eu não.
Pronto: comida árabe, doces brasileiros, bolo de Hello Kitty, tudo cor-de-rosa e verde-limão, suco, somente suco de uva e água para as crianças (não consigo fazer concessões aos refrigerantes nem em dia de festa), e sangria para os adultos.
Às quatro em ponto, os convidados começaram a chegar. Meia hora depois, a festa estava completa. “Que coragem!”, era um dos comentários mais comuns. Crianças correndo pela casa, o corredor virou uma enorme tela branca para o quadro coletivo que os pequenos iam pintando. “Tio Adilson”, monitor do clube que partiu para carreira solo, coordenava as brincadeiras. Música para dançar, tatuagens, mesinhas para pintar. A Dora e o Gabriel felizes da vida com a festa em casa. E eu mais ainda, por ter escapado do bufê. Hoje, Dora acordou perguntando quando será o próximo aniversário dela. Só no ano que vem, filha. “Ai, mamãe, vai demorar tanto... Mas a gente faz uma festinha no seu aniversário, né?”
>> Postado por Rita Lobo 18:06
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Rita Lobo é autora dos livros A conversa chegou à cozinha, crônicas e receitas (editora Ediouro), Culinária para bem estar, receitas antiTPM (editora Panelinha) e Cozinha de estar (editora Conex). Formada em gastronomia nos EUA, a chef começou a escrever sobre comida em 1995, no jornal Folha de S.Paulo. Em 2000, criou o site Panelinha, que dirige até hoje.
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