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Terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sagu de suco de uva

Sagu de suco de uva

Acordei com vontade de comer sagu. Quer dizer, não acordei com vontade de comer sagu no café da manhã. Aliás, dificilmente acordo com vontade de comer outra coisa que não seja comida de café da manhã. Pão torrado com manteiga e geleia, granola com leite, iogurte com mel e aveia, banana amassada, sucos variados, essas coisas. O Gabriel e a Dora, meus filhos, tomam leite e olhe lá. Mas já acordei com vontade de comer um pedaço de pizza requentado. Não nego. Nem era falta de alternativa. Era desejo, mesmo. E eu nem estava grávida. Mas o prato do dia não é pizza, nem torrada, nem café. É sagu.

À medida que o dia foi passando, Gabriel e eu percebemos que estávamos com vontade de comer sagu. Depois a Dorinha disse que também queria. O problema é que o sagu que eles gostam é diferente do meu. Completamente diferente. Há dez mil anos, nem lembro quem foi, mas alguém comprou um sagu de caixinha e fez para os meus filhos. Justamente sagu, que é a coisa mais fácil do mundo de fazer. O diacho do sagu, horroroso, fez o maior sucesso. Na semana seguinte, eles imploraram pela sobremesa. E são tantas as outras coisas que a gente tem que prestar atenção na vida dos filhos, coisas tão mais sérias, que abri mão do sagu de verdade. Então pode comprar caixinha de sagu. E a pessoa que trabalhava em casa na época caprichava na escolha: um dia era sagu sabor framboesa, no outro, morango. Por sorte, eles só gostaram mesmo do de uva. Meno male. Eu fiquei anos sem comer sagu. Ontem, bateu fome de sagu. E fome de sagu é dessas coisas que não tem substituição. Serve gelatina de vinho? Não serve. Serve bolo de tapioca? Claro que não. Ovas de salmão? Palhaçada.

Foram tantos anos sem comer nem fazer sagu que me esqueci da receita. Como é mesmo que se faz? Veio à mente a imagem do sagu da Fer Ayer, que já teve destaque na comunidade aqui do Panelinha com várias das deliciosas receitas dela. Abri a página, mostrei animadíssima a foto ao Gabriel, e ele achou estranhíssimo o creminho por cima do sagu. Mas Gabriel, o creme inglês é a melhor parte! E quando eu já estava quase convencendo ele de que sagu sem creme inglês não é sagu, ele leu: Seis xícaras de vinho tinto. Vinho, mãe? Não, isso não é sagu!

Depois de um pouco de negociação, decidimos que o sagu seria de suco de uva. Ele não estava fazendo a menor questão do creme inglês. Melhor para a saúde dele. Achei melhor nem fazer, porque o dia em que ele experimentar sagu com creme, nunca mais vai querer outra coisa. Deixa sem.

Usei a receita da Fer como base, mas fiz algumas alterações, além do pequeno detalhe de substituir vinho por suco de uva. Mas que fique claro, o suco de uva é orgânico, de primeira. Como só nós três iríamos comer, decidi fazer a receita pela metade. No embalo, também cortei um pouco do açúcar e do cravo. O resultado é um sagu ainda mais saudável, ideal para as crianças, mas bem gostoso para os adultos.

Sagu de suco de uva para as crianças

Ingredientes

1 xícara (chá) de sagu
3 xícaras (chá) de suco de uva
1 canela em pau
2 cravos-da-índia
1 xícara (chá) de açúcar

Modo de preparo

1. Numa tigela, coloque o sagu, cubra com água e deixe descansar por uma hora. Faltando 15 minutos para completar o tempo, coloque numa panela 3 xícaras (chá) de água, o suco de uva, a canela, o cravo e o açúcar. Misture bem, até o açúcar dissolver.

2. Leve ao fogo alto e, quando ferver, junte o sagu. Abaixe o fogo e deixe cozinhar por 30 minutos ou até que as bolinhas estejam macias e quase transparentes. Mexa de vez em quando para o sagu não grudar no fundo da panela. Se começar a secar, junte mais um pouco de água fervendo.

3. Transfira o sagu pronto para a tigela de servir. Assim que esfriar, cubra e leve à geladeira por pelo menos 2 horas.

Creme inglês para os adultos

Ingredientes

6 gemas
1 xícara (chá) de açúcar
500 ml de leite
1 colher (chá) de essência de baunilha

Modo de Preparo

1. Na tigela pequena da batedeira, coloque 1/2 xícara do açúcar e as gemas e bata até obter uma gemada fofa e esbranquiçada.

2. Numa panela, coloque o leite e a outra metade da xícara de açúcar e leve ao fogo médio. Quando ferver, retire do fogo e adicione a gemada aos poucos, misturando com uma colher.

3. Volte a panela ao fogo baixo e mexa bem até que a espuma que se formou tenha desaparecido e o creme tenha engrossado um pouco (caso talhe, deixe esfriar e bata no liquidificador). Desligue o fogo, acrescente a baunilha e misture bem. Quando esfriar, leve à geladeira. Sirva gelado.

>> Postado por Rita Lobo 13:28

Quinta-feira, 08 de outubro de 2009

Dia das Crianças

Dia das Crianças

Meus filhos, como boa parte das crianças que conheço, adoram pizza. Eu também gosto. Para eles, porém, uma fatia de pão lambuzada de catchup, coberta com um pouco de queijo, já caracteriza uma pizza. Espero que, com o tempo, isso passe. Por ora, o paladar infantil pode ser uma vantagem no Dia das Crianças.

Sem querer, no fim de semana passado, acabei fazendo um preview do próximo dia 12. Meu aniversário foi no fim do mês e, no último domingo, resolvi comemorar com um lanche para as crianças. Quer dizer, adultos também podiam participar, mas o foco do cardápio era o paladar dos pequenos.

Improvisei na bancada da cozinha uma estação de pizza. Atenção: gostaria de relembrar que era uma festinha para as crianças. Por isso, não se iluda. Estação de pizza pode remeter a uma massa caseira, descansada desde o dia anterior, um molho de tomate apuradíssimo, queijo da melhor qualidade e outras opções de ingredientes, como manjericão fresquíssimo, talvez uma mussarela de búfala derretendo de tão macia. Não foi nada disso.

Toda vez que os meus sobrinhos vêm jantar em casa, no fim da refeição, em vez de oferecer sobremesa, o meu filho Gabriel pergunta: “Quem quer pizza?” Eu fecho os olhos. Os primos abrem um sorriso de canto a canto. Você já deve ter imaginado que se trata de catchup espalhado num pão de forma, coberto com uma fatia de queijo prato. Para piorar, como o Gabriel não gosta de sabores torrados, em vez de forno, a “pizza” vai para o microondas. Na primeira vez, quase tive um ataque: pão no microondas, não! Pronto, virou um hit. A criançada ama fazer e comer.

Quando vi que não tinha mais jeito, eles até comiam o jantar depressa para chegar a hora da “pizza”, sugeri ao Gabriel que experimentasse um outro modo de preparo, menos gororobesco. Em lugar de colocar o pão no micro, poderia usar uma frigideira. Ele gostou da ideia. Fez uma vez e, na sequˆncia, percebeu que na minha sugestão havia uma falha. “Mãe, o pão fica com gosto de queimado.” Ele virou a “pizza” de ponta cabeça: o queijo em contato com a frigideira derrete rapidamente, e o pão apenas esquenta, sem dourar. Depois é só virar sobre um prato. Mais uma vez, achei um horror. Mais uma vez, as crianças amaram.

Então, a estação de pizza do meu aniversário, coordenada pelo Gabriel, consistia em uma pilha de pão de miga, outra de pão árabe, queijo prato ralado e também em fatias, mussarela e, sim, catchup. Apenas para esclarecer: gosto de catchup, mas não com qualquer coisa que se assemelhe a uma pizza. Mas para ver as crianças se divertindo – e como elas se divertiram! -, vale qualquer coisa, até pizza com catchup.

Confesso que não experimentei nenhuma das criações dos pequenos, mas pela cara das crianças, deviam ser as melhores pizzas de todos os tempos. Para adultos frescos como eu, que são difíceis de comer, do tipo “minha mãe não come nada, nem nuggets, nem pizza com catchup, não toma refrigerante...”, tinha outras opções de lanchinhos. Presunto cru, saladinha de tomate-cereja com manjericão, salada de feijão-branco com atum e limão, torradinhas e pães, alguns tipos de queijo e duas coisitas saídas do forno, batata bolinha e cubinhos de abóbora. Eu sei, falando assim, batata bolinha e cubinhos de abóbora, dá vontade de optar pelo cardápio das crianças. Mas não seja infantil, escute o preparo.

A batatinha é aferventada por uns 10 minutos, em água bem salgada, como se fosse do mar. Depois, ela é cortada em metades e vai para uma assadeira; toma um banho de azeite, uma chuva de alecrim debulhado; a assadeira vai para o forno em temperatura média, sem papel-alumínio, e fica lá por uns 30 minutos. Uma mexidona nas batatas e mais meia hora para que assem por igual, até ficarem bem douradas, quase queimadas, e murchas. Às vezes, um pouco mais de tempo se faz necessário. Elas ficam bem crocantes. Não pode ter pressa. Quando saem do forno, entram na assadeira as bolinhas de mussarela de búfala, cortadas em metades, do mesmo tamanho das batatinhas. Mais um pouco de azeite e sal grosso por cima de tudo. Uma boa misturada e vai tudo para uma travessa. Ou melhor, divida em duas e coloque uma em cada extremo da mesa. Chega a dar briga de tão bom.

A abóbora é ainda mais simples. Precisa ser a japonesa. Os cubos não têm que ser exatamente do mesmo tamanho. O aspecto rústico aqui não é problema. Ela não precisa cozinhar em água, vai direto para a assadeira. Também ganha um banho de azeite, como as batatas, e, em vez de alecrim, a erva certa é a sálvia. Muitas folhas. Se forem grandes, rasgue com as mãos e salpique por cima dos cubos. Contrariamente às batatas, na abóbora gosto de colocar um pouco de sal, antes de assar. Parece que ela desidrata um pouquinho e fica ainda mais caramelada. Depois de meia hora, uma mexidinha, e mais meia hora no forno. Quando estiver bem dourada, pontas queimadas e tudo, ela vai para uma travessa. Mais um pouco de sal e pimenta-do-reino, sempre moída na hora. Em casa, servi assim. Queijos, frios, torradas e saladas faziam parte do lanchinho dos adultos. Mas ela pode ganhar um fio de balsâmico e também lascas de parmesão. Faz qualquer adulto ficar feliz feito criança.

No próximo dia 12, além do catchup, vou fazer um molho de tomate. Quem sabe preparamos também uma massa caseira de pizza. Um ou outro ingrediente fresco pode entrar no cardápio. Mas não sei se isso vai acabar com o sabor da transgressão. Talvez seja disso que eles gostem.

>> Postado por Rita Lobo 13:40

PERFIL
  • Rita Lobo é autora dos livros A conversa chegou à cozinha, crônicas e receitas (editora Ediouro), Culinária para bem estar, receitas antiTPM (editora Panelinha) e Cozinha de estar (editora Conex). Formada em gastronomia nos EUA, a chef começou a escrever sobre comida em 1995, no jornal Folha de S.Paulo. Em 2000, criou o site Panelinha, que dirige até hoje.

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