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Quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Um medalhão para Elisabeth

Um medalhão para Elisabeth

Para muita gente, a bandeira da Inglaterra na capa de um livro de culinária não é exatamente um atrativo. Mas foi justamente ela que me chamou a atenção para Great British Menu Cookbook. Já estava me dirigindo ao caixa quando avistei a bandeira. Atravessei a livraria com olhar fixo na capa, dei uma folheada sem vergonha, lendo apenas os títulos das receitas, e decidi comprá-lo, sem muita análise. Quer dizer, além da capa, o papel sem brilho (que eu adoro!), branco e bem grossinho, também contou pontos na decisão; as fotos dos pratos, lindas, em páginas inteiras, causaram lá seu impacto; e, além do mais, entre os cardápios, havia um de Nick Nairn, o mais famoso chef escocês, com quem já cozinhei para um programa de televisão. Comprei, coloquei o livro na minha estante e me esqueci dele por algumas semanas.

Minha tia “inglesa” chegou de férias (digo inglesa entre aspas porque ela nasceu no Brasil e, para nós, os familiares, ela é brasileira. Por outro lado, as três décadas em Londres, o cabelo ruivo e seu discreto senso de humor fazem dela uma mulher com jeitão bem inglês). Fui visitá-la na casa da minha avó. Ela conta que um dos meus primos virou vegetariano e cai na risada. “Ele é um péssimo vegetariano, não come legumes!” Diz que faz para ele um minestrone bem rico, e ele deixa de lado no prato todos os cubinhos de abobrinha e de cenoura. “Nem peixe ele come. Vou voltar a fazer feijão. Lentilha ele come.” Pergunto à tia Beth se quinoa também virou moda na Inglaterra. Digo que é uma boa opção para vegetarianos. E grão-de-bico é bom para variar a lentilha e o feijão. Ela conta que comprou até hambúrguer de soja da marca Linda McCartney. (Todo mundo sabe, mas não custa lembrar que, um pouco antes de morrer, a senhora Paul McCartney, vegetariana fervorosa, lançou uma marca de comida vegetariana pronta.) Minha tia, antes de vir para o Brasil, avisou ao filho: “Não se esqueça que a Linda McCartney está no congelador.” Very british.

Mas voltando ao Great British Menu, tia Beth diz que foi um sucesso na Inglaterra. Já está na segunda edição. Ou melhor, não exatamente o livro, a série de televisão. Na primeira (a do livro que comprei), catorze chefs, representando diferentes regiões da Grã Bretanha, competiram para fazer um almoço para a Rainha Elisabeth (a primeira edição da série foi ao ar em 2006, quando the Queen completou 80 anos).

Esta semana, minha tia vai jantar em casa. Estou em dúvida se preparo um jantar com receitas do livro inglês e faço banquete de rainha para ela, ou se elaboro um menu vegetariano, no estilo Linda McCartney. Acho que vou de Linda. Just for a laugh. Vou preparar uns medalhões de ricota que fazem o maior sucesso. Como a receita não está aqui no Panelinha, vou colocar aqui para quem estiver pensando em fazer um jantar levinho e bem saboroso.

Medalhões de ricota para outra Elisabeth

Ingredientes

1 xícara (chá) de trigo para quibe
1 xícara (chá) de ricota
½ xícara (chá) de queijo parmesão
1 colher (sopa) de salsinha picada
1 colher (sopa) de hortelã picada
2 gemas
1 colher (sopa) de cebola
noz-moscada a gosto
sal a gosto
1 colher (sopa) de azeite de oliva

Modo de preparo

1. Numa tigela, coloque o trigo e cubra com o dobro de água. Deixe hidratar por 30 minutos. Escorra a água e aperte o trigo com as mãos para extrair todo o líquido.

2. Com um garfinho, amasse bem a ricota. Misture ao trigo hidratado. Junte também o parmesão, a salsinha, a hortelã, as gemas, a cebola e tempere com noz-moscada e sal. (Eu gosto de caprichar na noz-moscada.)

3. Com as mãos, faça 6 medalhões de cerca de 7 cm de diâmetro e 1,5 cm de altura. Transfira-os para uma assadeira, cubra com filme e leve à geladeira até a hora do jantar.

4. Preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média). Leve uma frigideira antiaderente (que caiba 3 medalhões com folga) ao fogo médio. Coloque metade do azeite e, quando estiver quente, doure 3 medalhões dos dois lados. Transfira os medalhões para uma assadeira e leve ao forno preaquecido, apenas não esfriar enquanto prepara os outros 3 medalhões.

OBS: ainda não decidi quais serão os acompanhamentos ou o molho. Mas depois eu conto.

>> Postado por Rita Lobo 17:34

20 de janeiro de 2008

Rocambole a seis mãos

Rocambole a seis mãos

Hoje meus filhos estavam com a macaca. Tudo, tudinho era motivo de briga. Mas só percebi quando já estávamos no café. Apesar do dia cinzento e chuvoso, achei que seria bom mantermos a nossa tradição de tomarmos café da manhã fora no domingo. Dora calçou as galochas cor-de-rosa, Gabriel as amarelas e lá fomos nós, sob nossos guarda-chuvas coloridos, até o local onde eu tomaria o meu capuccino sossegadamente, enquanto assistiria aos meus lindos filhos comendo muffins, tomando chocolate frio e saboreando aquele momento simples e alegre. (Depois, iríamos correndo e rindo da chuva ainda mais forte até a livraria, onde folhearíamos os livros que, num futuro breve, se tornariam os nossos favoritos de toda uma época.) Mas a brigaiada começou antes mesmo de chegarmos ao café. E consegui terminar o capuccino por pura obstinação. Nada de livraria. A chuva, porém, de fato se intensificou. Voltamos marchando cabisbaixos para casa.

Chegamos ensopados e fomos direto à área de serviço encostar os nossos frustrados guarda-chuvas. Eles não haviam conseguido nos salvar daquela água que não parecia vir somente do céu. Disse aos meus filhos que eles deveriam ir para o quarto pensar no comportamento deles. Mas no caminho da área para os quartos há a cozinha. “Mas, mãe, e se a gente fizesse um bolo?”

Quem resiste ao pedido de uma menina de 3 anos para fazer bolo? “De chocolate, mamãe” – emendou Gabriel. Claro, eles sempre querem chocolate. Para tomar, para comer e, também, para cozinhar. Eles também gostam do bolo de limão. Mas não havia manteiga suficiente nem para um bolo de chocolate nem para o bolo de limão.

Quando eu tinha a idade dos meus filhos, talvez um pouquinho mais velha, uns 7 anos, aprendi a fazer bolo sozinha. Antes, as etapas eram divididas com a cozinheira. Quebrar os ovos era tarefa dela, batê-los era minha, peneirar açúcar e farinha, exclusivamente minha, untar a assadeira, também. Levar e tirar o bolo do forno, só ela podia. Até que um dia tentei, no outro me queimei e, quando vimos, eu já assava o bolo sozinha. Sabia a receita de cor e salteado. Mesmo assim, o preparo sempre tinha sabor de aventura. Será que vai dar certo?

A massa era sempre a mesma: pão-de-ló. O recheio é que mudava. Podia ser de doce de leite, de brigadeiro branco, de geléia de framboesa ou de laranja, o sabor preferido do meu pai. Mas com a geléia de laranja não dava para servir café. Quer dizer, minha mãe não gostava da combinação café e laranja. E meu pai não tomava chá. Então, era bolo servido com suco de laranja. E ficava gostoso. Sempre no fim de tarde, quase sempre no fim de semana.

Achei que seria uma boa oportunidade de ensinar meus filhos a preparar o pão-de-ló da minha infância. Cinco ovos, cinco colheres de açúcar e cinco colheres de farinha. Às vezes, apenas uma colher de farinha de trigo era substituída por fécula de batata. Truque da minha avó Rita para deixar a massa ainda mais leve. Uma colherinha de essência de baunilha também podia entrar no preparo. Muito fácil, muito rápido.

Primeira etapa: separar todos os ingredientes e untar a assadeira retangular pequena com manteiga e polvilhar com farinha. Missão cumprida. Segundo passo: separar as gemas das claras. “Mãe, eu já sei fazer isso!” – disse Gabriel com toda a segurança que um garoto de 5 anos pode ter. Ele pegou o ovo com delicadeza, bateu na borda da tigela com firmeza, fez uma rachadura na casca e apertou as duas metades com tanta força que espirrou clara e gema em tudo que estava ao redor. Mais uma tentativa. Outra. E lá se foi meia dúzia de ovos para o lixo. Por enquanto, decidimos que separar as claras das gemas continua sendo uma tarefa minha.

Dora passou o açúcar e a farinha pela peneira. Eu decidi bater as claras à mão, em vez de usar a batedeira. Gabriel quis me ajudar. Mostrei o movimento, segurei a mão dele com o fouet e batemos as claras juntos, até espumar. Depois, ele tentou continuar sozinho, certo de que estava fazendo o movimento à perfeição. Peguei outro fouet e batemos as claras à quatro mãos. Será que vai dar certo? (Você já ouviu dizer que bolo feito por mais de uma pessoa não cresce?)

Dora colocou o açúcar às colheradas. Depois vieram as gemas, uma a uma, e por último a farinha, misturada com uma colher. Transferi a massa para a assadeira, e eles rasparam a tigela. Eu já tinha preaquecido o forno em temperatura baixa.

As crianças voltaram a brincar tranquilamente. E eu fiquei curiosa para ver se o bolo daria certo. Tantos anos se passaram e o preparo do pão-de-ló continua tendo sabor de aventura. Por outros motivos, claro.

Depois de 30 minutos, ele saiu do forno exatamente como deveria: crescido e levemente dourado. Virei a assadeira sobre um pano de prato úmido e polvilhado com açúcar, espalhei geléia de morango e enrolei a massa para formar o rocambole. O bolo ficou igualzinho ao da minha infância, mas somente hoje descobri que, além de gostoso, ele ainda afasta a macaca.

>> Postado por Rita Lobo 20:06

Terça-feira, 08 de janeiro de 2008

Dieta para 2008

Dieta para 2008

Todo mundo engordou. Pelo menos aqui no Panelinha. Fim de ano, comemorações, mudança de hábitos. Decidimos começar uma dieta corporativa. Todo mundo vai ter que participar. Mas qual?

Maria Clara sugere a do chuchu. “Ela é bem fácil: não sendo chuchu, pode comer de tudo.”

Tenho a impressão que essa não vai funcionar. Depois ela mostrou um pacote de Confetes verdes (ou M&M’s , sei lá): “É verde, tudo que é verde faz bem.” Maria Clara pode. É bem magrinha. Mas a verdade é que, Nina também, e eu mesma não posso reclamar. Mesmo assim, todas nós reclamamos. E, pelo menos eu, ganhei uns quilinhos a mais. Comprovado na balança.

Mas vale a pena, não vale? Não é só pela comida. Dormi mais, tirei sonecas à tarde, comi hambúrguer e batata frita com meus filhos, fiz bolo de laranja, de chocolate, ficamos acordados até muito tarde no dia 31, bebi champanhe, vinho, até cerveja. (Não na mesma noite, que fique claro.)

Mariana explica que a dieta “lá em Minas”, onde ela passou o Natal, é bem diferente da paulistana. Na casa da avó dela, o café da manhã começa às sete. Mas vai até às onze, onze e pouco. Depende da hora que o último acordar. Tem broinha de milho, biscoito de polvilho, pão, café com leite, geléia, manteiga e queijo branco. Claro, queijo-de-minas é que não poderia faltar. Ao meio dia é servido o almoço. Tudo com muito torresmo para dar sabor à comida. Todo mundo come, repete, tira da compoteira um pouquinho de doce de abóbora para a sobremesa e serve mais um tantinho “que esse trem tá bom demais”.

Às duas e meia todo mundo volta para a mesa, está na hora do café. Não de um cafezinho. Do café. À mesa, bolo de fubá, pão de queijo e torradinha com requeijão light para quem não quer brigar com a balança. Antes das seis da tarde o jantar é servido. E às oito é hora da sopa. Uma sopa que alimenta, mas não atrapalha o sono.

Achamos a dieta mineira bem boa. Mas acho que também não vai funcionar. Isto é, não para perder os quilinhos adquiridos no fim de ano. A verdade é que, infelizmente, não há milagre. Precisamos diminuir os refinados (açúcar, farinha, pães), aumentar a ingestão de fibras de legumes e verduras, trocar doces por frutas, investir nos grãos integrais, evitar alimentos industrializados, comer a cada três horas e tomar muita água. Só assim dá para comer hambúrguer, sorvete de chocolate e tomar vinho, de vez em quando, sem pesar na consciência. E na balança também.

>> Postado por Rita Lobo 23:44

PERFIL
  • Rita Lobo é obcecada por comida. Por isso, em 1995, fez um curso de formação de chef nos EUA. De lá para cá, teve restaurante, escreveu para o jornal Folha de S.Paulo, publicou o livro Cozinha de estar, lançado pela editora Conex, e há oito anos comanda o site Panelinha.

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