Quinta-feira, 12 de julho de 2007
Você sabe o que é isso?
Bichos estranhos que aparecem na praia são diretamente levados para a minha casa. Às vezes, por pura diversão dos pescadores locais – eles querem ver se eu tenho mesmo coragem de colocar na panela tudo o que é de comer! Esse bicho feio aí é a maior lula que eu já vi na minha vida. É também a maior lula que já apareceu na região. E isso não é história de pescador.
>> Postado por Rita Lobo 21:54
Segunda-feira, 09 de julho de 2007
Canibais literários
Os índios tupinambás eram canibais. Mas a carne humana não era apenas alimento para o corpo. Na época de desova das tainhas, os índios pescavam aos milhares o peixe que migrava das águas frias do mar do sul para os manguezais do litoral norte. Depois, secavam a carne de tainha ao sol e, socando, faziam dela uma farinha que serviria de alimento para um exército de índios, durante os três dias de viagem até São Vicente. Lá, atacavam os tupiniquins, a tribo inimiga. Os índios capturados eram o prato principal da viagem de volta. Era o alimento do corpo. Mas não somente. Eles acreditavam comer também a força e a valentia do inimigo.
Borrachudos que vivem entre Ubatuba e Parati, ora terra exclusiva dos tupinambás, também são canibais. Digo isso sentindo na pele. Acham que pele branca é pele inimiga. Ou gostam de cheirinho de leite. Uma vez, no Japão, comentei com uma amiga que eu sentia cheiro de peixe no metrô lotado. Ela respondeu que para eles, japoneses, um ambiente fechado cheio de ocidentais cheira a leite. Somos o que comemos. E cheiramos ao que comemos. Não sei bem o que os borrachudos querem de mim, além do sangue com cheiro de leite. Vim passar uns dias na praia justamente porque estava sem forças. Mas eles não perceberam e continuam me picando.
Na sexta-feira à noite, fui me alimentar na Flip, a Festa Literária Internacional de Parati, que tem no nome a sua essência: é mesmo uma festa. E lotada! Na Tenda dos Autores, à mesa, Nadine Gordimer e Amós Oz. Ela, sul-africana; ele, israelense. Ambos vozes importantes dos conflitos de seus paises. Ele diz que a comédia e a tragédia são janelas da mesma paisagem. Está falando sobre a questão dos judeus e dos palestinos em Israel. Mas faço um mergulho rápido em busca da graça nas minhas pequenas tragédias imediatas. O mediador do debate conta que Amós lutou em duas guerras, mas nunca escreveu sobre o campo de batalha. O autor diz que já tentou – e promete continuar tentando –, mas não garante que um dia irá conseguir colocar em palavras algo que não há nada de familiar, para ninguém, nem mesmo para quem já esteve em uma guerra. Mas comprova a sua teoria das janelas, contando uma historinha. Na primeira vez que ficou frente a frente com uma tropa inimiga, e viu as armas apontadas em sua direção e na de seus homens, sua reação não foi a de atirar, ou de sair correndo, mas a de chamar a polícia. A platéia ri e aplaude. Ele conta que mora a 5 minutos do deserto. Às seis da manhã, começa o dia com uma caminhada. Andar pelo deserto o faz refletir sobre a importância das coisas e ajuda a colocar tudo em perspectiva. Quando chega em casa, ele liga o rádio e ouve no noticiário políticos dizendo palavras, como nunca, jamais, nunca mais e pensa: as pedras do deserto devem estar rindo deles! Volto para a minha viagem e avalio: talvez, colocadas em perspectiva, as pequenas ou até as grandes tragédias pessoais possam mesmo ganhar uma versão cômica. Olho ao redor e suspeito que, como eu, aquelas 799 outras pessoas da platéia são ali tupinambás, tentando extrair dos autores um pouco de força e de valentia para enfrentar os próprios conflitos. Ou simplesmente gostam de cheirinho de leite.
>> Postado por Rita Lobo 18:15
Quarta-feira, 04 de julho de 2007
A avó de Amós Oz
Há alguns anos, fiquei com um pouco de preguiça dos livros infantis que lia noite após noite para o meu filho Gabriel. Fiz um teste: peguei o livro que estava na minha cabeceira e comecei a ler em voz alta. Não era um livro para criança, mas justamente naquele trecho, o autor contava sobre o foguete que, aos 8 anos, construiu com “peças de uma geladeira abandonada e restos de uma velha motocicleta.” Gabriel ficou em êxtase. Que idéia maravilhosa a daquele garoto de Israel! O foguete serviria para atingir o palácio de Buckingham, caso “sua majestade o rei da Inglaterra, o rei George VI, da Casa de Windsor” não saísse de Israel em seis meses: “o nosso Dia do Perdão se tornará o dia do Juízo final da Grã-Bretanha”.
O mesmo menino, anos depois, criou o movimento israelense Paz Agora.
De amor e trevas foi o único livro de Amós Oz que Gabriel e eu lemos – quando fui para Israel, ele quis saber se eu iria me encontrar com o menino do foguete. Hoje, contei para ele que o garoto de Israel, agora com 68 anos, estava em Parati. Gabriel está mais interessado no foguete. Eu estou ansiosa para assistir ao debate do autor com a escritora Nadime Gordimer que acontecerá na sexta-feira. Dei uma folheada no livro e achei um trecho de que não me lembrava. Fiquei com vontade de ler para você.
“Muitas vezes os fatos ameaçam a verdade. Escrevi uma ocasião sobre o verdadeiro motivo da morte de minha avó: minha avó Shlomit chegou a Jerusalém diretamente de Vilna, num dia quente de verão do ano de 1933. Lançou um olhar atônito aos mercados suarentos, às barracas multicoloridas, às ruelas fervilhando de gente, de gritos de vendedores, de zurrar de burros, de balidos de bodes, de cacarejar de galinhas amarradas pelos pés, de pescoços mudos e sangrentos de aves agonizantes, olhou para os ombros e braços dos homens orientais e para o escândalo das cores berrantes das frutas e verduras, olhou para as montanhas em volta e para as rochas solitárias nas encostas, e proferiu a sentença implacável: “O Levante é cheio de micróbios”.
(...)Como parte de sua inflexível guerra cotidiana contra os micróbios, vovó manteve, sem concessões, a rotina de ferver frutas e verduras. O pão era esfregado uma ou duas vezes com uma toalhinha umedecida em uma solução de desinfetante químico de cor rosada, chamado Káli. Depois de cada refeição, vovó não lavava os talheres, mas, como se tratasse dos preparativos para o Pessach, submetia-os a prolongada fervura, e fazia o mesmo com ela própria: cozinhava-se três vezes ao dia. Fosse inverno ou verão costumava tomar três banhos de imersão quase fervendo, como parte do seu combate diário aos micróbios. Ela foi muito longeva, os micróbios e os vírus a reconheciam de longe e se apressavam em mudar de calçada. Quando ela tinha mais de oitenta anos de idade, depois de dois ou três ataques cardíacos, o Dr. Krumholtz a advertiu: Minha cara senhora, se não desistir desses banhos escaldantes, não me responsabilizo pelo que poderá, Deus não permita, lhe acontecer.
Mas vovó não podia abrir mão de seus banhos. O horror aos micróbios era soberano. Morreu no banho.
De fato, teve um infarto.
Mas a verdade é que minha avó morreu por excesso de limpeza, e não de um ataque cardíaco. Os fatos têm o péssimo hábito de ocultar a verdade aos nossos olhos. A limpeza a matou. Talvez o lema da sua vida em Jerusalém, “O Levante é cheio de micróbios”, aponte para uma verdade anterior, mais essencial que o demônio da limpeza, uma verdade sufocada e escondida dos olhares, pois, afinal, vovó Shlomit viera para Jerusalém do norte da Europa Oriental, lugar não menos hospitaleiro aos micróbios do que Jerusalém, sem falar de todos os outros tipos de agressores.
(...)A verdade é que não era para se proteger das ameaças do Levante que minha avó mortificara e purificara o corpo em banhos escaldantes nas manhãs, tardes e noites de todos os dias de sua vida em Jerusalém, mas sim, ao contrário, pelo fascínio que seus encantos sensuais exerciam sobre ela, pela voluptuosidade de seu próprio corpo, pela atração poderosa dos mercados que transbordavam e fluíam e ondulavam impetuosos a sua volta deixando a quase sem respirar, com uma vertigem na boca do estômago e um incontrolável tremor nos joelhos pela abundância de verduras, frutas e queijos tentadores e pelos perfumes penetrantes, entorpecentes de todas essas comidas estrangeiras e estranhas que a excitavam, e as mãos gulosas e insaciáveis que apalpavam - penetravam até o mais recôndito das montanhas de frutas e verduras e os pimentões vermelhos, e as azeitonas temperadas, e toda nudez daquelas carnes polpudas sangrentas, sem pele e sem vergonha que balançavam nos ganchos das feiras, e todos os temperos, e os pós, e as especiarias, até o dissolver dos sentidos, até quase o desmaio, toda sorte de tentações lascivas que lhe lançava esse mundo amargo, azedo e salgado, e também a fragrância pungente do café que a penetrava até o fundo do ventre, e as grandes jarras de vidro cheias de bebidas de mil cores, e nelas pedaços de gelo e limão, e os carregadores do mercado, robustos, bronzeados, peludos, nus da cintura para cima, com todos os músculos das costas tremendo pelo esforço sob a pele quente, reluzindo ao sol, ensopada de suor. Quem sabe se o culto à limpeza de minha avó não passava de um traje de astronauta, hermético e esterilizado? Ou de um anti-séptico cinto de castidade com que ela cingira voluntariamente a cintura para se resguardar das seduções desde o primeiro dia em Israel? E que trancara a sete chaves, jogando-as fora depois?
Por fim, sofreu um ataque cardíaco que a matou. Um ataque de fato. Mas não foi o coração que a matou, e sim o excesso de limpeza. Ou antes, nem foi a limpeza, mas seus desejos ardentes e secretos a mataram. Ou melhor, nem foram os desejos, mas o pavor de vir a ser tentada pelos desejos. Ou – nem a limpeza, nem os desejos, nem o pavor dos desejos, mas a raiva inconfessa e permanente que tinha desse pavor, uma raiva sufocada, maligna, inesgotável, raiva de seu próprio corpo, raiva do seu desejo, e também outra raiva, ainda mais profunda, a raiva de fugir de seus próprios desejos, raiva opaca, venenosa, raiva da prisioneira e da carcereira, anos e anos de luto secreto pelo tempo vazio que passa e repassa sobre o corpo encolhido pela voracidade sufocada desse mesmo corpo. Foram esses os desejos, lavados milhares de vezes e ensaboados até a náusea, e desinfetados, e esfregados, e fervidos, esse o desejo do Levante, malcheiroso, suado, animalesco, delicioso até o desmaio, mas cheio de micróbios.
>> Postado por Rita Lobo 17:41
Quarta-feira, 04 de julho de 2007
Festa da Mandioca
Hoje começa a 5ª edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Parati. E a cerca de 30 km dali, no sertão de Ubatumirim, acontece a 7ª Festa da Mandioca. Muito antes de autores consagrados, leitores engajados, de caiçaras ou até dos portugueses chegarem à região, os tupinambás já faziam da raiz seu principal alimento. Em “Duas viagens ao Brasil”, clássico livro de Hans Staden, publicado pela primeira vez em 1556, o autor descreve os usos e modos de preparo da farinha de mandioca, que basicamente permanecem os mesmos. Naquela época, os índios já tinham o tipiti, uma espécie de peneira fina de palha usada até hoje para extrair da mandioca o líquido, que serve para fazer a tapioca, e a massa, que, depois de torrada, vira a saborosa farinha da região.
A Festa da Mandioca é armada bem no meio do sertão, num campo cercado por árvores e riachos. Até o ano passado, tudo era bem rústico, mas, para a tristeza dos visitantes, as barracas de bambu foram substituídas por compensado. As receitas servidas, porém, continuam as mesmas. São dezenas de pratos salgados e doces preparados com mandioca. Vaca atolada, bolinhos recheados de carne-seca ou de carne moída ou de camarão, bolos bem molhadinhos e até mesmo um curioso brigadeiro de mandioca. Ubatumirim fica no km 16 da Rodovia Rio-Santos, entre Ubatuba e Parati.
>> Postado por Rita Lobo 16:27
Segunda-feira, 02 de julho de 2007
A chef Clo Dimet
Ela nasceu e cresceu no Uruguai, trabalhou na Argentina e se estabeleceu no Brasil. E as receitas da chef Clo Dimet têm um certo south american way... Mas esqueça o abacaxi na cabeça: tudo aqui é muito chique!
Quem resiste a uma manga recém-tirada do pé? Não é difícil se imaginar sentado sob uma mangueira, segurando a fruta com uma mão e descascando com a outra para comer a polpa docinha, até chegar ao caroço. Isso qualquer um consegue fazer. Um cesto de jaboticaba pode suscitar na mente humana uma panela de geléia cozinhando em fogo baixo. Mas e um porco? Você enxerga nele um presunto em potencial?
Chefs enxergam a natureza de uma maneira diferente. Quando Clo Dimet fala das planícies uruguaias, fica com um olhar nostálgico. Duvido que ela esteja pensando nos campos de sua infância. Ela está com água na boca só de lembrar do sabor dos cordeiros que andam sobre as verdes planícies de seu país. Aposto!
A conclusão se deve ao fato de que, para a chef, o frescor dos alimentos é a base da boa cozinha. Ou melhor, os ingredientes são a sua inspiração. “Não penso em fazer um pato francês com molho de jaboticaba e aí corro atrás do pato e da jaboticaba. Eu me inspiro nos mercados.” Aquilo que está mais fresquinho, vai para a panela. Mas não é só isso que conta. A procedência é fundamental. É fato: alimentos orgânicos estão na moda, mas não são novidade na cozinha da chef.
As receitas de Clo revelam uma série de outras influências. Ela explica que viajar é uma maneira de nutrir-se profissionalmente. A chef morou na Argentina, onde trabalhou com o chef Francis Mallmann, que a trouxe para São Paulo quando ele chefiou a cozinha do restaurante A Figueira Rubaiyat. Antes, porém, ela passou cinco anos na Europa, foi visitar a Índia, ficou um tempo na Austrália, conheceu o Marrocos. E tudo isso tem lugar na cozinha da chef Dimet.
Seus pratos vão de um saboroso cuscuz marroquino até uma crema catalana tropicalizada com leite de coco. Mas, quando apresenta a sua receita de pudim de doce de leite, Clo deixa transparecer onde moram os sabores que alimentam a sua alma. É numa América Latina chique, que transforma receitas do dia-a-dia em pratos sofisticados. A rústica costeleta de cordeiro uruguaia vem acompanhada de uma luxuosa salada morna de lentilhas com espinafre. Mas a chef não deixa de ter um olhar estrangeiro sobre os nossos ingredientes. Ela enxerga o especial no comum e transforma o comum em especial. A brasileiríssima combinação Romeu e Julieta, surge em versão suflê de goiabada com creme de queijo (que mistura mascarpone com creme chantilly). Clique aqui e confira as receitas da chef Clo Dimet que adaptamos no Estúdio Panelinha. Assim, você poderá fazer em casa oito saborosos pratos que a chef prepara no restaurante La Table.
>> Postado por Rita Lobo 19:22
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Rita Lobo é autora dos livros A conversa chegou à cozinha, crônicas e receitas (editora Ediouro), Culinária para bem estar, receitas antiTPM (editora Panelinha) e Cozinha de estar (editora Conex). Formada em gastronomia nos EUA, a chef começou a escrever sobre comida em 1995, no jornal Folha de S.Paulo. Em 2000, criou o site Panelinha, que dirige até hoje.
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