Segunda-feira, 30 de junho de 2008
E-mail da Lígia
Rita,
Começarei esse e-mail como imagino que muitos outros também devam começar (e isso confirma a delícia que é acessar o Panelinha): sou uma leitora assídua, sempre curiosa a respeito das atualizações nos blogs, receitas novas e e-livros divertidíssimos e fofos.
Agora, ao ver o novo blog destinado àquelas pessoas que, como eu, fazem mil e uma estripulias para cozinhar apenas para si, sem ter que requentar a refeição ao longo da semana, só tenho agradecimentos a fazer!
Acabo de completar 21 anos, estudo artes cênicas e moro há 3 anos em Curitiba, a cerca de 700 km de distância da deliciosa comida da minha mãe. Por aqui, tento me distanciar também dos macarrões instantâneos e sopas prontas que minhas colegas insistem em recomendar. Não são para mim, definitivamente!
Aguardo ansiosa as receitas que virão! Certamente hão de me ajudar muito!
Beijos,
Lígia
Lígia,
Que delícia receber o seu e-mail! Por aqui, estamos adorando testar receitas para um, é um desafio. Mas agora fiquei com um pouco de medo: também não vá pensando que a gente vai substituir a comida da casa da mamãe! Aliás, um dos pontos que temos que levar em consideração, na hora de elaborar as receitas, é o número de ingredientes. Em casa de mãe tem abobrinha, berinjela, tomate, espinafre, tudo na geladeira. Em casa de solteiro ou tem abobrinha ou tem berinjela. E olhe lá. Por isso, versatilidade também é um dos quesitos para as receitas serem aprovadas para o One is Fun. E, também nisso, as cocottes desta semana dão show! Ficam saborosas com qualquer ingrediente. É impressionante.
Bom, mudando de assunto, quer dizer, mais ou menos, a minha mãe me mandou e-mail com um vídeo super gostoso. É de 2007, portanto, todo mundo já deve conhecer. Mas, como eu não tinha visto, decidi colocar aqui.
>> Postado por Rita Lobo 19:59
Segunda-feira, 23 de junho de 2008
One is Fun
Desde que o homem descobriu o fogo, comer é um ato coletivo. No início, os nossos parentes distantes se alimentavam de folhas e frutas. Com o surgimento do fogo, nasceu o churrasquinho. Colocamos outros animais no espeto, viramos carnívoros e as refeições passaram a ser feitas ao redor da fogueira. Depois surgiu a mesa, os restaurantes... Mas os tempos mudaram, e os hábitos também precisam se adaptar.
Homens e mulheres comem sozinhos. E os motivos são vários: jovens que saem de casa, solteiros que não se casam, pessoas que se separam, executivos que moram numa cidade e trabalham em outra; tem também aqueles que não se encaixam nos horários e hábitos alimentares da família. O garoto que chega tarde da faculdade, a filha que virou vegetariana. Mas receitas que sirvam porções individuais são quase tabu. É difícil de achar. E não é apenas uma questão de quantidade. Isso até que é fácil.
Hoje estréia aqui no Panelinha um novo projeto. A idéia é muito simples, tão simples que é raro de ver por aí. Um espaço dedicado à cozinha para um, com receitas elaboradas especialmente para a seção, que consideram as necessidades e limites da cozinha individual. Porções únicas, que não bagunçam e que ficam prontas num piscar de olhos. Isto é, receitas que não usam várias panelas, não duram três refeições seguidas, não têm preparo complicado. Mas são saudáveis e fáceis. Umas até mais sofisticadas, para aquele momento eu-me-amo, outras, com sabor de casa de mãe.
One is Fun é o nosso novo blog. Ele vai durar exatos seis meses. O tempo que nos demos para mostrar que um na cozinha pode ser bem mais divertido do que se pensa. Além de apresentar receitas, queremos organizar os hábitos alimentares de quem mora sozinho. Vai ter lista de utensílios para equipar a cozinha de um jeito esperto, compras inteligentes para aproveitar melhor o tempo e os alimentos, endereços e horários das principais feiras em São Paulo, e até uma ou outra instrução para manter a cozinha limpa e organizada.
No decorrer dos próximos meses, One is Fun vai mostrar que, além de divertido, cozinhar o próprio jantar ainda emagrece! Mas só o corpo, porque a alma vai ficar bem forte, poderosa. Tem coisa melhor que a sensação de saber cuidar de si mesmo? Você nem imagina o poder que tomar uma sopa feita com suas próprias mãos tem sobre a sua auto-estima.
>> Postado por Rita Lobo 00:18
22 de junho de 2008
Pensamento derretido
Não tenho escrito muito sobre o prazer de cozinhar. Este é o assunto de hoje. De cozinhar e de comer. E vai ser fácil. O ingrediente é chocolate.
Na semana passada, uma amiga me pediu para ajudá-la a fazer um almoço para 15 pessoas. Era coisa rápida. Uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Para mim, a sobremesa. Eu adoro a musse de chocolate preto e branco aqui do site. Não me lembro de ter comido musse melhor. E decidi prepará-la no dia anterior. (Ela fica melhor dormida na geladeira.)
Tarde da noite, lá fui eu para a cozinha. Banho-maria para derreter o chocolate, uma dúzia de gemas na batedeira formavam uma gemada cremosa, xícaras e colheres para não errar a medida dos ingredientes, que foram multiplicados por três. Salvo o conhaque, um pouco mais generoso. Noite fria, casa já silenciosa, crianças dormindo, a babá fechada no quarto dela para se concentrar na trama da novela. (Aliás, agora eu também tenho a minha novela: é a série diária Em Terapia, que passa na HBO, mas isso é assunto para outra hora. Não perdi um episódio sequer, acredita?)
A receita não é difícil, mas requer alguma destreza. E suja várias tigelas, espátula, batedor, batedeira... Basicamente, é preciso fazer uma gemada, derreter chocolate meio amargo, bater creme de leite e parar antes de virar chantilly, derreter manteiga e misturar com cacau em pó e com conhaque (tomar um golinho de conhaque, na minha opinião, também faz parte do preparo), fazer um pouco de raspas e muitos cubinhos de chocolate branco e, depois, misturar tudo. Na minha casa, não é receita para o dia-a-dia. Definitivamente. Frutas e olhe lá.
Transferi a mistura para um tigelão de vidro e coloquei na geladeira. Fechei a porta, virei para a bancada e vi que ela estava rindo da minha cara. Nem era muita bagunça, mas ela sabe que sempre tem alguém para me auxiliar. Não era o caso. E a bancada gargalhava. Achou que eu não saberia deixar a cozinha brilhando novamente. Tola.
Primeiro a tigela onde os ingredientes foram misturados. Uma espátula e, lentamente, fui lambendo todo o resto de musse que consegui. As pás da batedeira, a panela do banho-maria, a tábua e a faca que cortou o chocolate, todo mundo para o banho, com a mesma firmeza que falo com os meus filhos. Bucha na mão, detergente e, item por item, fui lavando confiante os utensílios que me ajudaram no preparo da musse.
À medida que a água da torneira escorria, os pensamentos iam se soltando do meu corpo, concentrado na limpeza. Palavras, pessoas, conexões, idéias, personagens, tudo fluía, feito chocolate derretido. O cansaço do dia deu lugar à leveza do raciocínio solto. Pensei na Noélia, cozinheira de casa: o que será que passa pela cabeça dela quando está na frente da pia?
Pano úmido no chão, guardei o rodo e coloquei a chaleira no fogo. Uma ducha rápida e eu estava pronta para dormir. Acabei não falando exatamente do prazer de cozinhar. Ou de comer. Mas limpar bagunça de chocolate também é bom. E a musse é um sucesso.
>> Postado por Rita Lobo 01:00
15 de junho de 2008
Cozinha de estilo
Há alguns anos, uma querida amiga, da noite para o dia, se transformou da água para o vinho. Assim, de repente, ela ficou maravilhosa. Não que fosse cafona, mal arrumada. Longe disso. Ela era normal. Em pouquíssimo tempo, não estava apenas linda e bem vestida: ela tinha ganhado estilo próprio.
Amigas que somos, rapidinho ela compartilhou o segredo de tanta mudança. Havia contratado as consultoras de imagem, ou personal stylists, Cristina Zanetti e Fernanda Resende, da Oficina de Estilo.
Para a minha surpresa, o trabalho das duas é muito mais complexo do que eu imaginava. Claro que, no final, o que se vê é uma mudança externa. Mas, para isso, elas extraem do fundo do armário, ou melhor, da alma de cada ser, o verdadeiro estilo.
O sapato que usa, o corte de cabelo, as cores de que mais gosta, até o jeito de falar, se é mais doce ou mais afirmativo, o carro que tem (ou gostaria de ter), tudo isso e muito mais indica o estilo de cada um.
Será que o estilo influencia até o que a pessoa gosta de comer? E o jeito que ela cozinha, as receitas que escolhe, como recebe os amigos; será que os pratos, os copos, os talheres, foi tudo escolhido sob influência do estilo regente, como se fosse um signo do horóscopo?
O e-livro
Pois bem, para responder a essas e a várias outras perguntas relacionadas a estilo, Cristina, Fernanda e eu nos encontramos mais de uma dezena de vezes, sempre às 8 horas da manhã, num café onde, sem querer, todos os freqüentadores viravam exemplos vivos e ao vivo de cada um dos estilos. Elas iam me ensinando as características de cada um deles, e, juntas, imaginávamos como seriam aqueles personagens à mesa.
A moça de terninho cinza, colar de pérolas, sapato e bolsa da mesma cor é quase um estereótipo do estilo clássico. Fica fácil imaginar que, se ainda não tem, ela sonha com um jogo de porcelana inglesa, copos de cristal e talheres de prata. Ela nunca compraria pratos quadrados ou coloridos demais. Num jantar para amigos, a comida seria de alguma cozinha clássica, provavelmente francesa, talvez italiana. No máximo um prato tradicional brasileiro, um picadinho, um cuscuz. Mas como seria um jantar na casa do rapaz com jeans agarrado no corpo e camiseta que revela todo o esforço dele na academia? E da mulher toda de preto com maxibolsa branca?
Aos poucos, o novo e-livro da série Cadernos Femininos foi nascendo. Começamos fazendo um breve perfil de cada um dos estilos. Muito provavelmente você irá se identificar com mais de um deles. Eu me vi em dois, e depois não conseguia mais parar de enxergar os meus amigos em todos os estilos. Por isso, a cada capítulo, decidimos sugerir também presentinhos para você levar quando for o convidado de alguém que se encaixe naquele grupo.
Para lapidar o seu estilo de ser, ou melhor, de comer, de cozinhar e de receber, fizemos uma lista de utensílios, enxoval de mesa, combinações de cores, truques e até cuidados para não estragar o jantar. Em seguida, elaboramos o cardápio ideal para cada um, todos com receitas testadas do Panelinha.
Para mim, fazer este projeto foi, ao mesmo tempo, muito divertido e revelador. Aprendi que, num processo às avessas, de fora para dentro, também é possível se conhecer melhor. E, assim, ficamos mais à vontade com as nossas escolhas, com o nosso estilo de ser e de viver.
Assim como a minha amiga, que da noite para o dia se transformou da água para o vinho, é possível conquistar uma mesa bem vestida, e bem servida, e uma cozinha cheia de sabor e de estilo. Uma cozinha de estilo.
________________________________________________
* Introdução do e-livro Cozinha de estilo, patrocinado pela marca Intimus e que será lançado hoje no Estúdio Panelinha. Para baixar uma cópia, clique aqui.
>> Postado por Rita Lobo 13:31
Quinta-feira, 05 de junho de 2008
Bela Helena
A nutricionista Marcia Daskal falou sobre os alimentos afrodisíacos no blog Vitaminado. E eu fiquei pensando sobre o assunto. Quer dizer, veja bem, não que qualquer um de nós precise disso, não é mesmo? Mas falando sério, acho, de verdade, alguns sabores são mais sensuais que outros.
Eu me lembro direitinho do meu primeiro beijo. Estava apaixonada por um garoto da minha classe, mas, óbvio, não tinha coragem nem de falar com ele. Nas férias, fomos para um acampamento, e o auge era dançar música lenta, coladinho. O rosto coladinho, o corpo bem separadinho. Naquele tempo era assim, uai. E a trilha sonora tinha Kenny Rogers cantando You And I. (Ai, que vergonha!) O garoto me tirou para dançar, mas nada de beijinho. Nenhum dos dois teve coragem. Foi na volta do acampamento que nos despedimos com um beijo na boca. Nem sei quem beijou quem. Os dois ficaram surpresos. Coração na boca. E o garoto tinha gosto de pêra. Meu primeiro beijo teve gosto de pêra.
Pronto, pêra tem gosto de beijo para mim. Mas não vale na salada, fatiada, com queijo roquefort e nozes. Tem que ser uma pêra comida na mão, roubada da fruteira da cozinha, em temperatura ambiente. Pêra saída da geladeira também não tem graça. Nem suco de pêra. Mas Poire Belle Hélène, aquela sobremesa do tempo do onça, que cobre com calda de chocolate peras cozidas, é sexy até não poder mais. O que poderia ser mais sensual? Pêra, a fruta que Eva ofereceu a Adão – ah, você acredita mesmo que uma maçã fez o que fez? – e chocolate, que, até hoje, enlouquece mulheres sãs.
Para deixar a sobremesa afrodisíaca, o ingrediente secreto é prepará-la a quatro mãos. Já pensou? Ela descasca duas peras, e fica perfumada com o líquido que escorre da fruta. Numa panela, ele coloca vinho branco, anis-estrelado, canela em pau, cravo e até uma pitada de pimenta-do-reino. Os dois tomam um gole do vinho da mesma taça e acomodam as peras na panela. Ele beija as mãos dela, que estão com gosto de pêra. Ela completa a panela com água e leva ao fogo para ferver.
Enquanto isso, tudo acontece. Mas a calda precisa ser feita. As mãos vão quebrando o chocolate numa tigelinha, que se encaixa na panela onde as peras estão cozinhando. Um banho-maria perfeito. Um pouco de creme de leite fresco e, aos poucos, os dois ingredientes vão aquecendo e se fundindo, até ganharem uma nova forma, de calda de chocolate densa, que perfuma a cozinha e a boca do casal. Quem resiste? Um dedo passa pelo chocolate e rouba um pouco da calda que ainda nem ficou pronta.
Ela quer intensificar os sabores e rega um fio de conhaque na tigela. Agora sim, está pronta. Mas a pêra ainda precisa de alguns minutos para terminar o cozimento. Eles observam a fervura e planejam o futuro, mesmo que seja o próximo minuto. Naquele momento, os pensamentos combinam tão bem quanto o sabor do chocolate e da pêra. Ele desliga o fogo, ela retira a fruta fervendo da panela. Ele rega um pouco de calda sobre ela, a pêra. Eles comem a sobremesa mais afrodisíaca de todos os tempos. Uma sobremesa feita a quatro mãos.
>> Postado por Rita Lobo 10:32
-
Rita Lobo é obcecada por comida. Por isso, em 1995, fez um curso de formação de chef nos EUA. De lá para cá, teve restaurante, escreveu para o jornal Folha de S.Paulo, publicou o livro Cozinha de estar, lançado pela editora Conex, e há oito anos comanda o site Panelinha.












