Resultado de Posts da Categoria Módulo 5: comida fria
Quinta-feira, 04 de setembro de 2008
Aula 42
O Banquete
Por Silvia
Parecia dia de festa. Todos ansiosos, na maior expectativa. Não era para menos; afinal, a aula de despedida do módulo de garde manger seria comemorada com um Grand Buffet com direito às criações ensinadas e desenvolvidas ao longo das três semanas de aprendizado dessa etapa do curso.
A programação era a seguinte: a turma, dividida em quatro grupos, seria responsável pela elaboração, produção e montagem de uma longa mesa que deveria estar recheada de comestíveis. Tínhamos tempo limite para apresentar nossas obras. Haveria um júri à nossa espera, que serviria de cobaia para as nossas criações.
A aula foi deliciosa. Por várias vezes, ao longo do curso, já tínhamos ouvido falar da importância da organização, administração do tempo e do corre-corre que é típico nas cozinhas dos restaurantes. Pois é, nessa aula, sentimos isso na pele; na verdade, foi a primeira vez que fomos, digamos assim, avaliados. Não podíamos decepcionar!
A professora nos ajudou quando necessário e lembrou, por várias vezes, que o visual seria tão importante quanto a qualidade dos pratos servidos. Sugeriu, inclusive, que tomássemos o cuidado de seguir uma ordem no momento de montar a mesa, não colocando uma salada, por exemplo, no fim da mesa, e sim no início dela.
Tivemos liberdade para usar os ingredientes que quiséssemos, escolher os pratos e travessas adequados e decorar a produção final como bem entendêssemos.
A hora estava chegando e muita coisa já estava pronta, mas ainda havia muito por fazer. Será que vai dar tempo?, era a frase mais ouvida.
Chegou afinal o momento de organizar os comes na mesa. Então, cada grupo teria de decidir qual a melhor disposição na mesa para cada iguaria criada. Pratos e travessas deslizando e dançando de um lado para o outro, um pouquinho mais para a esquerda, um pouco mais para cima, talvez, ou na outra ponta da mesa. Algumas gotas a mais de tempero na salada, polvilhar salsinha por cima do sanduíche que ficou sem decoração e retirar uma ciboulette, que não combinava na decoração do patê en croûte. Últimos minutos, últimos retoques, e fim, time is over.
O Grand Buffet está pronto para ser degustado. Nossos convidados chegam e lentamente passeiam por nossas criações. O pout-pourri de cores e comidas é incrível e o resultado de fato ficou bonito. Começa a degustação. Nós, alunos, também começamos a experimentar de tudo um pouco, e, em meio a tantas opções, ficou difícil provar todas as criações. Saladas, patês, terrines, blinis, canapés, azeites e galantines estavam prontos para ser deliciados. Gostosos finger sandwiches (minissanduíches do tamanho de uma ou duas mordidas) também não decepcionaram. Até a lingüiça que fizemos na aula (aquela, lembra?) fez parte do cardápio.
Fim da aula, pausa para a comilança, hora do veredicto. Passamos no teste.
Grande aula, grande experiência e, assim, mais um módulo termina. Mas o próximo vem aí e promete ser interessantíssimo. O assunto? Panificação. Oba...
>> Postado por Aprendiz 16:17
Terça-feira, 02 de setembro de 2008
Aula 41
Hors-d'oeuvre
Por Iná
O título já adverte o que vem pela frente. Não se trata de simples aperitivos, mas Hors-d'oeuvre, coisa fina. (Fala-se mais ou menos assim: órrrs dêvre.) Quer um exemplo clássico? Blinis, aquelas panquequinhas para comer com caviar. Ah!, não se pronuncia o s e é oxítona, diga, bliní. Não falei que era coisa de gente fina? E preste atenção, caviar são ovas da fêmea do esturjão; outras ovas não são caviar, mas apenas ovas, viu?! Como ovas de salmão, botarga – ovas secas prensadas de atum ou de tainha etc.
E por falar em caviar, o esturjão é um peixe que vive em águas profundas e frias, como no mar Negro, na Rússia. Existem quatro espécies de esturjão que têm caviar comercializado: beluga (o mais comum), sevruga, osetra e uma espécie muito rara, o dourado alma. Ele é um peixe meio pré-histórico que está ameaçado de extinção. Por isso, hoje, os pescadores fazem uma “cesariana” nas fêmeas, retiram as ovas, costuram e devolvem para o mar. Antigamente, os pescadores matavam as fêmeas para abrir a barriga e extrair o caviar.
Durante a aula não comemos caviar verdadeiro, mas outras ovas. O sabor era muito bom. Eu adorei as blinis com creme de leite azedo. Também estudamos canapés, que são aperitivos básicos, compostos de quatro partes:
- Base – não é só pão ou massa; pode ser um vegetal, como rabanete, pepino.
- Liga – manteiga, maionese, queijo, requeijão.
- Recheio – ingrediente principal, como salmão defumado, presunto cru.
- Enfeite – o que vai por cima, que é a decoração para atrair os comensais.
Tudo deve ser preparado em porções pequenas, do tamanho de um bocado. Nada de fazer bocão! Lembre que é comida fina; portanto, trate de incorporar uma dondoca refinada com paladar sofisticado. Mas, verdade seja dita, para nós, coxinha e outras frituras também fazem parte de Hors-d'oeuvre; são uma herança da culinária portuguesa.
Na aula, fomos divididos em três grandes grupos para preparar vários aperitivos.
No nosso grupo preparamos: melão com presunto de Parma, pão com tapenade e frango grelhado, aspargos com bacon e ovos moles (um dip, para mergulhar), amendoim creole apimentado e minissanduíche (finger sandwich) de manteiga com queijo ralado, salsinha, presunto, mostarda e mel.
Adorei esta parte da aula. Dava para tapear a fome beliscando os ingredientes dos aperitivos. Gostei também porque dá para testar, aprender com erros e acertos. O nosso minissanduíche, por exemplo, começou bem. Estava saboroso, mas aí resolvemos incrementar acrescentando a tal da mostarda e mel. Não deu certo, virou uma mistureba de sabores que não combinavam entre si. Mesmo assim, valeu a mistura. É assim, errando, que a gente aprende com a mão na massa que menos é mais.
>> Postado por Aprendiz 17:18
Quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Aula 40
Por Silvia
Aula dinâmica, movimentada e cheia de informação. Mesmo assim, deu pra encher lingüiça à vontade. Literalmente, quero dizer.
Banha e carne de porco, sem dó, são os ingredientes básicos para o preparo de uma lingüiça tradicional. Temperos, ervas, antioxidante e vinho são os outros componentes que fazem parte desse calórico e gorduroso tipo de embutido. O preparo da lingüiça em si não é difícil, não, mas é meticuloso e nada agradável. Na confecção da lingüiça artesanal, é preciso um moedor de carne, já que os ingredientes devem ser ligeiramente moídos e incorporados uns aos outros, e a moagem deve ser repetida várias vezes. Nesse processo, fui a assistente da chef e, ao final, foi necessário muito detergente para retirar a gordura que não queria sair de jeito nenhum de minhas mãos...
É hora, então, de encher as lingüiças. Mas essa etapa também não se mostrou muito poética. As tripas utilizadas em lingüiças não são as coisas mais bonitas do mundo, e recheá-las não é algo que abre o apetite dos simples mortais. A não ser daqueles que estejam com o erotismo à flor da pele ou sejam adeptos do movimento porn food. (Durante o preparo, não dá para não rir com a conotação erótica...)
Como assunto é o que não faltava na aula, seguimos em frente e continuamos no mundo da charcutaria (embutidos e patês), que é repleto de nomes charmosos: galantines, mousselines, terrines, dodines e ballotines. Apesar de tantos nomes, os pratos que fazem parte da garde manger são, basicamente, diferentes técnicas de recheios assados que, na sua maioria, devem ser servidos frios. Tudo muito colorido, mas, confesso, essas “ines” não faziam a minha cabeça antes do curso e continuam sem me conquistar. São mais bonitas do que gostosas.
No último tópico da aula, fomos apresentados ao aspic, que eu já conhecia de nome, mas não sabia bem ao certo a função. Trata-se de uma gelatina salgada feita a partir de consommé (lembra?, é um fundo clarificado que deve ser o mais cristalino possível). É muito utilizado para dar brilho a carnes ou aves, em terrines e também num clássico tipo de patê, o pâté en croûte.
O nome aspic ficou na minha cabeça quando li “Julie & Julia”, livro sobre uma moça em crise que se propõe a fazer todas as 524 receitas contidas no clássico “Mastering the Art of French Cooking”, de Julia Child. No seu desafio, contado passo a passo num blog que deu origem ao livro, ela conta que tinha asco por aspic. Ela tentava gostar e até sentia-se culpada por não apreciar um prato tido como elegante na cozinha clássica.
Depois de provar o aspic, tenho de confessar que concordo com Julie Powell e com alguns de seus solidários leitores, que a incentivavam a não sentir culpa por não gostar da bendita gelatina. Faço coro: aspic é mesmo sem graça.
Julie não se abatia quando sobrava aspic na sua geladeira e encontrou uma ótima solução para fazer sua geléia salgada sumir, sem ter de jogá-la no lixo: “aspic para os gatos, que não reclamaram(...).” É isso, ideal para quem tem gatos! Se bem que, se eu fosse um gato, acho que reclamaria.
>> Postado por Aprendiz 09:56
Terça-feira, 26 de agosto de 2008
Aula 39
Por Iná
Na nossa terceira aula de comida fria o assunto é charcutaria. Ou seja, embutidos (lingüiça, salsicha etc.), patês (de fígado, queijo e ervas, entre outros) e terrines (aquelas barras salgadas com gelatina, recheios e muitas vezes de aparência pra lá de suspeita a qualquer criança). Mas antes de falar da aula, vou logo dizendo que não sou muito chegada a esses pratos: tinha uma amiga da minha mãe que me empurrava isso quando eu era criança. Pois é, traumatizou...
A origem do nome terrine está na fôrma de cerâmica onde era originalmente feita (terrine é a matéria-prima, o barro, da qual se fazia a fôrma para um “patê en terrine” – em bom português, pasta enformada).
Patês são recheios assados, servidos quentes ou frios. Existem quatro tipos básicos:
1. Campagne, country (cá prá nós, caipira). São geralmente mais rústicos, com a carne picada ou moída grossa.
2. Simples. É o patê de todo dia, isto é, mais refinado (menos rústico) que o campagne e mais versártil.
3. Gratin. É aquele em que os ingredientes são preparados à parte e depois juntados no final para marinar e moer.
4. Mousseline. Como o nome sugere, parece uma mousse, mais delicada, massa fininha. Um exemplo é mousseline de salmão (vai me dizer que uma daquelas tias da sua mãe já não empurrou meio quilo de uma mousseline esbranquiçada no seu prato alguma vez?)
Estes pratos de charcutaria normalmente têm quatro ingredientes básicos:
1. Ingrediente principal. Carne de qualquer espécie (ave, peixe, carne bovina, suína etc.) ou miúdos (vísceras, como fígado de galinha).
2. Gordura de porco ou uma liga secundária. É um ingrediente para dar liga à massa (ovos, leite em pó ou panade – massa quente de farinha –, patê à choux, arroz cozido, batata cozida, fécula de batata etc.).
3. Sal e temperos. Como naqueles patês de foie (fígado de galinha, mesmo) com especiarias, pimenta-do-reino, pistache etc.
4. Decoração. Como toda comida fria, este é um item muito importante.
A professora explica que é importantíssimo nos lembrarmos de ter a gordura bem gelada para conseguirmos a liga. Algumas vezes vale acrescentar gelo no processador, ou passar água gelada pelo moedor de carne.
Patê en croûte é o néctar dos deuses para quem gosta de patês. É um patê com crosta/massa. Prepara-se o recheio (patê), coloca-se numa fôrma com massa de torta e leva para assar. Fica lindo! E se a massa for gostosa e não tiver a gelatina salgada (não vejo a menor graça nela), fica bem mais fácil engolir...
Galantine (que me lembra “galanteios à Josephine”... Vá lá entender métodos mnemônicos! Só mesmo Freud para explicar!) é um enrolado de peixe ou ave com patê (recheio) no meio. No lugar da carne, também pode ser usada a pele do frango para enrolar o patê. Depois de enrolada, ela deve ser escalfada (aferventada rapidinho) e servida quente ou fria. Lembra bem aqueles rocamboles branquelos e sem graça de carne de frango que fácil, fácil a gente encontra em bufê de casamento. Pois é... aquilo é uma galantine.
Tem, entretanto, um tipo de embutido que eu adoro, que não tem nada a ver com comida fria chata: lingüiça de porco frita. O Bastião lá na fazenda fazia com maestria, ele picava a carne (não moía) e temperava com bastante pimenta-de-cheiro, pimenta moída e alho. Quando ia encher a lingüiça, ele quebrava alguns espinhos de laranjeira para furar a tripa e tirar o ar da massa. Muitas vezes ele deixava em cima do fogão à lenha (pendurada numa ripa a quase um metro de distância da chapa do fogão) para ir defumando. Ah! Isso, sim, era néctar dos deuses...
>> Postado por Aprendiz 18:38
Terça-feira, 19 de agosto de 2008
Terrine de Fígado
Hoje, em vez de falar sobre a aula, resolvi passar uma receita. Aprendemos recentemente e achei maravilhosa! Como não fiz uma foto, peguei “emprestada” a da receita de patê de fígado aqui do Panelinha. Eu sei, terrine não é patê, mas é de fígado, oras...
Ingredientes
500 g de fígado de galinha limpo
500 ml de leite
½ colher (chá) de estragão seco
80 g de manteiga sem sal
50 g de cebola
½ colher (chá) de folhas de tomilho
45 ml de conhaque
50 ml de creme de leite fresco
3 ovos
4 fatias de bacon
1 folha de louro
sal e pimenta-do-reino moída na hora
Modo de preparo
1. Preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média).
2. Numa tigela, coloque o fígado limpo, cubra com leite, junte o estragão e deixe de molho por 12 horas na geladeira. Coe e reserve.
3. Sobre uma tábua, descasque e corte a cebola em cubinhos.
4. Leve uma frigideira grande e com bordas altas ao fogo médio. Quando aquecer, coloque a manteiga para derreter e acrescente a cebola. Vá mexendo e, quando ficar transparente, adicione o tomilho e o fígado. Refogue por 5 minutos ou até que o fígado perca a coloração rosada.
5. Transfira para o processador de alimentos. Junte o conhaque, o creme de leite, os ovos e tempere com sal e pimenta. Bata até obter uma mistura homogênea.
6. Forre o fundo de uma terrine de 24 cm x 10 cm com o bacon e o louro e espalhe o patê. Leve ao forno preaquecido para assar em banho-maria por 1 hora.
7. Retire do forno e coloque um peso por cima (latas de conserva, um tijolo leve, um pedaço de mármore ou granito do tamanho da forma etc.). Leve à geladeira por pelo menos 2 dias. Sirva com compota agridoce de cebola.
Compota agridoce de cebola
Ingredientes
100 g de manteiga sem sal
500 g de cebola
1 colher (chá) de sal
½ xícara (chá) de açúcar
½ xícara (chá) de vinho tinto
¼ de xícara (chá) de vinagre de vinho tinto
sal e pimenta-do-reino branca moída na hora
Modo de preparo
1. Sobre uma tábua, descasque e corte a cebola em rodelas finas.
2. Leve uma frigideira grande e com bordas altas ao fogo médio. Coloque a manteiga e, quando derreter, acrescente a cebola e refogue até murchar. Tempere com sal, uma pitada da pimenta-do-reino e o açúcar, e mexa de vez em quando, por 20 minutos ou até a cebola ficar bem cozida.
3. Junte o vinho e o vinagre e cozinhe em fogo moderado, sem tampar, mexendo de vez em quando, por mais 20 minutos, até o líquido reduzir um pouco. Aumente a chama e engrosse rapidamente a compota.
4. Transfira a compota para uma tigela e sirva morna ou fria.
>> Postado por Aprendiz 18:14
Quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Aula 38
Mil folhas
Por Silvia
Chega de preguiça! Módulo novo, novas técnicas e, pelo menos por ora, fogão e panelas de escanteio. A cozinha fria (garde manger) entrou em cena e, mais uma vez, me surpreendo como a culinária é ampla, rica em detalhes e cheia de importantes subdivisões.
Não dizem que as pessoas comem com os olhos? Pois é, na garde manger esse ditado é mais do que precioso, uma vez que comida fria não tem o apelo do aroma para aguçar o paladar, como acontece com os pratos quentes. Não por acaso, os chefs usam e abusam nas suas criações artísticas quando o assunto é cozinha fria. E, cá para nós, inspiração é o que não falta, dada a riqueza de ingredientes, cores e texturas à nossa disposição.
Longe daquele velho conceito no qual salada resumia-se a alface e tomate, as saladas merecidamente ocupam lugar de destaque nas refeições atuais e ganham requintes de prato principal.
Em aula, a professora ressaltou a importância do bom senso na hora de elaborar saladas. Parece fácil, mas a escolha de ingredientes deve ser pensada previamente, levando-se em conta produtos que combinem entre si e resultem num mix harmonioso.
Quanto aos cuidados, ela disse que é preciso armazenar as folhas na geladeira sem umidade para que não murchem rapidamente, ou seja, devem estar bem secas. Mas, caso a coitada da salada esteja já murchinha, a dica é mergulhá-la em água gelada por 15 minutos, para que ela fique viçosa novamente.
Como salada era o tema da aula, fizeram parte do cardápio deliciosos pratos como caesar salad, coleslaw, salada de batatas com alecrim e gorgonzola e também uma rica salada de 7 grãos com especiarias e frango. Uma refeição!
Houve tempo ainda para criações pessoais, e as apresentações foram as mais variadas possíveis. Foi interessante perceber como o mesmo tema (folhas verdes) pode ser tão versátil e resultar em pratos tão diferentes, dependendo do corte empregado, do molho escolhido e, por que não, do formato e da cor prato utilizado.
Aproveitamos inclusive para criar azeites aromatizados, um à base de tomilho, outro à base de extrato de tomate, e também um interessante vinagre infuso (feito com ervas diversas colocadas em uma garrafa e acrescidas de vinagre morno).
Fim da aula e fico desapontada: o capítulo das saladas acabou. Achei bom, porém muito curto. Algumas horas a mais discorrendo sobre as possibilidades de molhos para saladas não seriam nada mal.
>> Postado por Aprendiz 15:56
Terça-feira, 12 de agosto de 2008
Aula 37
Volta às aulas
Por Iná
Lembra quando você era criança e o primeiro dia de aula depois das férias era uma festa? Pois é; em escola de cozinha acontece o mesmo. Parece que ninguém agüentava mais esperar pela volta às aulas. Encontro todos bastante alegres por reverem os colegas e voltarem a cozinhar duas noites por semana.
A professora explica como será o nosso segundo semestre, período em que estudaremos 3 áreas meio estanques da culinária, consideradas especializações: garde manger (o nome vem de “despensa” e é a parte da culinária dedicada à comida fria), confeitaria e panificação. Ela fala que no primeiro semestre vimos comida quente e que, portanto, já devemos ter internalizado todas as técnicas dessa seção. Continua o raciocínio, considerando que já devemos saber como fazer uma série de pratos sem olhar receita (já que internalizamos as técnicas), com sensibilidade e liberdade de criação.
Bebeu muito nas férias, né, professora? Eu, técnicas internalizadas, cozinhar “de cabeça” e ainda com liberdade de criação? Ah, ah, ah, com essa carinha sóbria, você está completamente ébria! Delirou, teacher!
Mas, voltando à vaca fria (no nosso caso, comida fria), a professora explica que hoje em dia quase só hotéis mantêm a seção garde manger. Na busca de custos mais baixos, os restaurantes acabaram mesclando ou agrupando várias áreas da brigada clássica. Ela comenta também que começa a haver um movimento de volta; que alguns restaurantes, com preços altos, mas apreciados por gourmets, voltam a ter a brigada completa.
A sessão de garde manger é responsável por saladas, charcutaria (frios e embutidos), patês, galantines, hors-d´oeuvres (aperitivos), sanduíches e decorações. Diferente da comida quente, a comida fria não tem aroma e, portanto, a aparência do prato assume importância ainda maior na conquista de comensais. As decorações são, muitas vezes, aquelas muito elaboradas ou rebuscadas, normalmente feitas com vegetais e legumes, que me lembram restaurante chinês – como, por exemplo, um cisne esculpido em um nabo branco e flores de rabanete ou beterraba.
A professora explica que esse departamento da cozinha profissional surgiu na França, na época em que não havia refrigeração. Por causa da sazonalidade, na primavera e verão havia fartura de ingredientes, mas no inverno nada crescia. Era preciso, então, lançar mão de técnicas de conservação dos alimentos, como fazer geléias das frutas ou defumar carne.
Na aula de hoje vamos estudar apenas saladas. A professora explica que, com o aumento da importância de uma comida saudável e leve, a salada ganhou status de prato principal. Provavelmente todos os restaurantes hoje em dia têm saladas como prato principal no cardápio. Na elaboração de saladas, a boa qualidade dos ingredientes é imprescindível para bons resultados. Respeitar a sazonalidade de frutas, legumes e verduras também é importante, mesmo que, hoje em dia, consigamos comprar alguns produtos o ano todo.
A definição de salada é bastante genérica, pois não é feita só com legumes ou verduras (lembre-se de salada feita com macarrão), ingredientes crus (lembre-se de legumes cozidos) ou frios (lembre-se daquelas saladas com queijo brie quente). A definição que a professora usou foi: “salada é um prato frio composto de um ou mais ingredientes, ligados ou não por um molho. As saladas podem ser subdivididas em simples ou compostas”.
Apesar de me sentir uma nerd matemática, ao tentar explicar minha idéia para a professora, o jeito mais fácil que achei para diferenciar saladas foi:
• Salada simples – qualquer amostra é igual ao todo. Como, por exemplo, uma coleslaw.
• Salada composta – tem um ingrediente principal e uma amostra não é igual ao todo. Pense, por exemplo, em uma salada de folhas e lagosta – posso pegar uma amostra composta só de folhas.
No decorrer da aula, depois de nos lembrar que, para temperar saladas, devemos usar 1 medida de ácido (limão, laranja, vinagre etc.) para 3 medidas de óleo (azeite, óleo vegetal etc.), a professora nos ensinou vários truques, como:
• A aparência é crucial; então, é importante levarmos em conta a simetria, ponto focal do prato e cores dos ingredientes.
• A textura também pode alterar bastante o resultado final. A professora comentou, por exemplo, quão crocante cenoura crua pode ser, enquanto cenoura cozida é macia.
• Os sabores das folhas e ingredientes (suave, picante ou amargo) devem ser conhecidos e combinados adequadamente.
• Menos é mais. Uma salada simples pode ser muito mais saborosa que uma mistura nonsense de ingredientes.
• Uma salada não deve ser manuseada em excesso, para não passarmos a idéia de que ficamos fungando meia hora em cima do prato. Sabe quando você vê aquelas saladas “muito pegadas” que tiram a vontade da gente de comer? Isso é excesso de manuseio...
No final da aula, divididos em 3 grupos, tivemos que montar 2 saladas com os ingredientes. Depois de prontas, dispomos todos os pratos na mesa para a professora avaliar e comentar. Apesar de muitos alunos ficarem em uma posição extremamente defensiva, tentando explicar por que a salada tinha ficado assim ou assado, achei essa parte da aula a mais frutífera. Os comentários que a professora fez dos erros na prática me ensinaram muito mais do que a definição de como salada deve ser. A professora comentou:
• A salada não deve ultrapassar a borda do prato, senão um garçom, ao levar o prato à mesa, vai acabar pegando na salada.
• Todos os ingredientes devem ser comestíveis, não devemos exagerar na decoração e o prato deve ser sempre auto-explicativo. Não dá para deixar um prato na boqueta da cozinha para ser levado à mesa com um recado do tipo: “Olha, fulano, a salada não ficou muito bonita porque não estamos na época de morango e não tinha nenhum morango bonito na feira hoje”.
• As folhas devem ser rasgadas com a mão, em bocados, para não darmos muito trabalho ao comensal para dobrá-las. Não devemos torcer as folhas, senão ficam machucadas e feias.
• A salada deve ser temperada um pouco antes de ser servida, para não murchar. Se for uma salada de folhas, devemos colocá-las todas em uma tigela e temperá-las uniformemente. Isto é, devemos misturá-las (toss, em inglês) bem.
• A borda do prato, se reta, pode ser decorada com azeite. Se a borda tiver um ângulo, o azeite escorre e fica parecendo que o prato está sujo, não decorado.
• Produtos orgânicos são muito bons para usarmos em casa. Em restaurantes, o uso é bastante complicado, pois não há constância de fornecimento nem uniformidade dos ingredientes. Algumas vezes, os legumes vêm tortos, muito pequenos ou muito grandes e prejudicam a aparência da salada.
Bem, esta foi nossa primeira aula, depois das férias. É claro que a professora teve alguma dificuldade para recomeçar o curso. Afinal, eram muitas novidades. O que ficou perfeitamente amarrado com a novidade das saladas. E tantos segredos para um prato que sempre foi considerado “simples”.
>> Postado por Aprendiz 15:53
-
Iná é executiva. Silvia é mãe de dois filhos. Elas não se conheciam, mas tiveram a mesma idéia: fazer um curso de formação de chef de cozinha. Durante um ano, frequentaram a mesma escola, em horários diferentes. A convite do Panelinha, as moças escreveram juntas esse blog, contando suas experiências na cozinha.









