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Resultado de Posts da Categoria Módulo 1: o básico

Quarta-feira, 12 de março de 2008

Aula 7

Aula 7

Sopas espessas

Por Iná

Hoje aprendemos a preparar sopas espessas. Ao chegar, penso que ao final da aula teremos concluído 10% do curso. Os alunos, sempre pontuais, são muito mais dedicados do que eu esperava. Todos parecem fazer o curso porque gostam realmente do assunto. Civilizados que só vendo...

A professora pergunta sobre nossas experiências durante o fim de semana e escutamos uma avalanche de comentários: alguns alunos concluem que fazer fundos e caldos é muito “trampo”; uma aluna não verificou que havia sido usado amaciante na lavagem do pano para coar o consommé e fez um com gosto de Confort; e outro colega se viu com um pano de prato em chamas ao tentar fazer um molho holandês.

A aula é longa e a professora explica, em detalhes, todas as receitas.

Sopa purê de abóbora japonesa com creme de leite azedo (batido com suco e raspas de limão): a professora ressalta mais uma vez a importância de ler receitas e pensar sempre no sabor e na textura. Como exemplo, ela cita que nessa sopa de abóbora é possível acrescentar gengibre (sem bater para não ficar amargo) e amendoim (que dará um contraponto interessante na textura).

Vichyssoise: uma sopa de alho-poró e batata, servida fria. Quente também é gostosa, mas aí não pode ter o mesmo nome, porque vichyssoise só pode ser fria. Se for quente, deve se chamar de sopa de alho-poró.

Sopa creme de brócolis: a partir de um molho bechamel, devem ser acrescentados floretes de brócolis branqueados (“cozidos rapidamente em água fervente abundante e em seguida resfriados em água gelada para interromper o cozimento”, processo que os deixa bem verdes) e bouquet garni. Cozinhe e bata tudo no liquidificador, depois aqueça e sirva. Para não formar nata até servir, use um filme plástico encostado na superfície da sopa.

Sopa de agrião com camarões: as dicas foram sobre a importância de se tirar os cabinhos do agrião para não amargar e ter cuidado para não cozinhar demais os camarões e deixá-los borrachudos.

Gazpacho: uma sopa fria de tomate, cebola, pimentão, pepino, pão de fôrma branco sem casca e vinagre de vinho tinto. É necessário deixar todos esses ingredientes misturados por um dia antes de fazer a sopa, mas sem adicionar sal ou açúcar para não separar o caldo. Depois de bater todos os ingredientes até formar um purê, antes de servir, ajuste a acidez com açúcar e azeite extra-virgem, e tempere com sal. Como a sopa é fria, é importante usar vinagre e azeite de muito boa qualidade.

Em duplas fazemos a sopa creme de brócolis. Meu parceiro de aula é bastante caprichoso ao fazer o bechamel para não encaroçar. Eu apenas observo. Enquanto preparamos a receita, a professora lembra que devemos acrescentar o leite frio bem devagar na mistura quente de manteiga com farinha de trigo (o nome técnico é roux), pois é a mistura que absorve o leite, não o contrário.

No final experimentamos todos os pratos e a sopa de abóbora com creme de leite é, disparado, a favorita dos alunos.

A nova professora

Mesmo sabendo que depois das cinco primeiras aulas haveria troca de professor, eu me surpreendo em chegar à aula e ver a nova professora. Penso que ela terá algum trabalho em me cativar, pois simpatizava com o primeiro. Chego a pensar: como assim trocaram de professor à minha revelia?

Não sei se mulheres realmente falam mais que homens, mas a professora explica inúmeros detalhes que não estão no texto da receita, como, por exemplo, a importância de levarmos em consideração a textura e não só sabor dos pratos.

Sobre a sopa de cebola, que aprendemos na aula anterior, ela discorre, item por item, as razões de seleção dos ingredientes (cebola em rodelas para ficar como um macarrão), sabor do prato final (o vinho tem que evaporar completamente), técnicas (a cebola deverá ser suada, não salteada, pois não é para dourá-la) e aparência (a sopa deverá ter uma aparência camponesa, não sofisticada). E, por fim, lembra que o queijo colocado no final não deverá atingir 100º C, senão fica borrachudo (ou seja, a sopa não poderá ferver depois de colocado o queijo).

A professora também fala da importância de se manter os dedos para dentro ao cortar qualquer coisa e também sobre seu estilo pessoal de cozinhar, como moer a pimenta na mão e depois lançar no prato que está cozinhando, pois desta forma o vapor não enferruja ou estraga o moedor.

Decididamente, ela fala mais que o professor, mas é igualmente simpática e tem uma energia contagiante. E me cativa muito mais rapidamente do que eu imaginava.

>> Postado por Aprendiz 09:02

Terça-feira, 11 de março de 2008

Jóias da coroa

Jóias da coroa

Por Silvia

Presença constante nos cardápios dos restaurantes, o consommé é bem mais do que um caldo. Ele reúne características que o distingue dos outros fundos. Para os entendidos, não basta que esteja saboroso: assim como o diamante, quanto mais transparente for, mais perfeito ele será. Há restaurantes que fazem questão de atestar a transparência do consommé, colocando no fundo do prato algum ingrediente (como um pedaço de cebolinha francesa) para que o cliente observe o quilate da jóia que irá saborear.

A transparência é obtida por meio de uma técnica chamada purificação, que utiliza um ingrediente extremamente alvo: claras de ovos batidas. Mas o processo não é tão simples assim. Elas devem ser ligeiramente batidas e acrescentadas à panela com o caldo (de carne ou frango) já quente. Quando uma crosta se formar na superfície é necessário fazer um furo num dos cantos para que o vapor tenha por onde sair. Com o cozimento lento, a camada grossa de claras irá aspirar as “impurezas” do caldo.

Mas todo cuidado é pouco: se o fogo não estiver brando de fato, o líquido entra em ebulição, transborda e aí acontece como nos desastrosos episódios de leite fervido que derrama sobre o fogão! Isso aconteceu comigo em aula e tive que reiniciar o processo de purificação com novas claras.

Após 45 minutos de cozimento, a “jóia” está pronta para ser retirada da panela, o que também não é lá tão simples assim. Cuidadosamente deve-se retirar o líquido através do furo feito na crosta e passá-lo por uma peneira fina coberta com um pano de prato limpo. Para merecer o título de consommé, não basta não ser turvo, tem que ser cristalino e saboroso. Caso contrário, continua sendo um reles, porém delicioso, caldo.

Vale o trabalho? Tenho dúvidas...

Em oposição à delicadeza do consommé, conhecemos também outra sopa, esta sim, bem mais rústica. A soupe au pistou não tem as “frescuras” do modo de preparo do consommé, mas nem por isso deve ser considerada inferior e relegada ao segundo plano. São propostas e sabores extremamente diferentes e únicos.

Essa segunda sopa é basicamente composta de vegetais cozidos em água e fica pronta em menos de 1 hora. O único cuidado exigido é respeitar o tempo de cocção de cada ingrediente. Ou seja, os que demoram mais para amolecer devem ser colocados antes na panela. A cenoura, por ser bem mais dura, deve ser acrescida antes da abobrinha, por exemplo.

Talvez você esteja pensando: “mas qual será o atrativo dessa sopa que parece meio sem graça?” A resposta vem no final, quando chega a hora e a vez da pasta que dá nome à sopa. É o pistou entrando em cena para dar um incrível realce. Uma jóia da coroa.

O pistou mistura alho cru, folhas de manjericão, azeite e parmesão ralado que devem ser amassados preferencialmente num pilão ou podem ser rapidamente batidos no processador. E garanto que o aroma dessa pasta por si só já abre o apetite. Quando incorporado à sopa, então, ganha vida e frescor. Mas atenção, essa pasta deve ser acrescentada com o fogo já desligado para que o parmesão não fique “borrachudo”. E é só. A tradicional sopa de legumes ganha suaves ares campestres, além de nova personalidade.

>> Postado por Aprendiz 15:57

Sexta-feira, 07 de março de 2008

Aula 6

Aula 6

A confissão

Por Silvia

Olha, eu sei que vai ficar chato, mas não tem jeito, não posso mentir. Tenho que contar. No início da aula, a professora deu a notícia toda orgulhosa: aprenderíamos a receita de uma especialidade francesa pra lá de tradicional, a sopa de cebola.

Tremi.

Por quê, você deve se perguntar. Respondo: não gosto de cebola! Por anos cultivei uma grande inimizade com essa hortaliça e tinha aversão a pratos que a utilizavam. É bem verdade que, nos últimos anos, graças ao meu gosto pela gastronomia, me vi obrigada a ser mais tolerante com a cebola e estou lentamente me rendendo ao seu sabor e reconhecendo a sua importância. Seria leviandade minha negar as qualidades da cebola, você não acha? Mas isso não quer dizer que morro de amores por ela, ainda a utilizo com certa parcimônia.

Antes do início das aulas havia feito um pacto comigo mesma, prometendo experimentar tudo o que seria servido , sem preconceito, com isenção. Qualquer chef que se preze deve ter em sua bagagem um amplo conhecimento de sabores e aromas, sejam eles exóticos, pitorescos, básicos ou convencionais. E eu sabia que mais cedo ou mais tarde um encontro mais caliente com a cebola durante o curso seria inevitável.

Pois é, e esse dia chegou mais cedo do que eu imaginava. Passamos à execução da sopa (com 1 quilo de cebolas !) e após o lento cozimento das rodelas foi a hora de acrescentarmos um cálice de vinho branco na panela. Admito: o aroma da sopa revelou-se sedutor.

Sopa finalizada, acrescentamos pedaços de pão com queijo gruyère ralado sobre ela e levamos ao forno para gratinar. Pronto, esse hit da culinária francesa estava fumegante para ser saboreado por uma legião de alunas entusiasmadas, exceto uma. Adivinhe quem?

Receosa, esperei a maioria se servir para então, no anonimato, tentar me entender com a sopa. Fui adiando ao máximo o encontro com a cebola propriamente dita. Comecei pelo pão. Que delícia! Depois fui mais ousada, experimentei o caldo e, apesar do meu ceticismo, tenho que concordar: estava ma-ra-vi-lho-so! Mas ficou por aí.

Quando mexi com a colher e dei de cara com dezenas de cebolas molengas, não me animei. Até comi um pedaço e realmente não tinha gosto forte. Mas, confesso, fui covarde e não segui em frente.

Ainda um pouco encabulada, entreguei meu prato cheio de cebolas (mas sem caldo e sem pão) para a moça encarregada da limpeza, torcendo para que não fosse pega no flagra. E , ufa, não fui! Mas sei que cometi um sacrilégio nada bonito para uma aprendiz. E a minha consciência está pesada, e como!

>> Postado por Aprendiz 09:30

Quarta-feira, 05 de março de 2008

Aula 5

Aula 5

Italianos

Por Iná

Na última aula da seção básica (cinco primeiras do curso) vamos aprender sobre molhos para massas. Os molhos são todos italianos e a massa (vários tipos de macarrão) utilizada é feita com grano duro, que é o grão de trigo mais duro, cultivado em regiões frias.

O professor comenta que até a própria Itália importa esse tipo de trigo e que no Brasil, normalmente, importamos da Argentina e Canadá.

Ragu
O professor começa a aula com a demonstração do ragu, que pode variar de acordo com a região da Itália. Falando, de uma maneira simplista, é aquele molho de carne com tomate, que a gente conhece como bolonhesa. O de hoje será com pancetta, que é diferente do bacon, pois não é muito defumada e feita apenas com o toucinho da barriga do porco (daí o nome, pancetta = pança). A carne bovina é cortada em pequenos cubos (o professor usou a expressão “cortada na ponta da faca”) e não moída. Preciosismo ou não decido que, se fizer em casa, a carne será moída.

Poderemos provar o molho só no final da aula, pois ele cozinha em fogo baixíssimo por bastante tempo (2 horas ou mais). Se a chama não estiver muito baixa é recomendado usar um difusor (uma chapa colocada entre o fogo e a panela). Durante o cozimento é acrescentado um pouco de leite de tempos em tempos. Só não achei isso mais estranho porque sabia de uma receita de lingüiça de carne bovina que leva leite. Tudo parece muito bom e me dá vontade de provar.

Molho al limone
Parece um molho branco com raspas de limão, que eu adoro. É razoavelmente simples e muito gostoso. Na receita de hoje usamos raspas de limão siciliano e taiti. Faremos o molho depois da demonstração do professor e poderemos ajustar as receitas de acordo com o gosto dos alunos (por exemplo, coar ou não as cebolas utilizadas).

Molho Alfredo
É um molho branco feito com creme de leite fresco (e não leite) e parmesão. O nome é originário do restaurante que o criou. O professor comenta que o lugar existe até hoje em Roma e que, apesar de ser um destino de muitos turistas e não ter mais uma atmosfera local, ainda pode ser um bom programa.

Molho carbonara
É o último molho demonstrado, feito com gemas meio cozidas em banho-maria e pancetta picada. Na receita de hoje será incluído um pouquinho de creme de leite fresco, ingrediente que ajuda a conseguir o cozimento e a textura desejados. Diferentemente das outras aulas, hoje escolhi um lugar à esquerda do professor para ver melhor as demonstrações. Erro estratégico. O professor me chama para cortar a pancetta. S-O-C-O-R-R-O! Prova surpresa?! Ao ser designada, sou instantaneamente transportada para meus 7 anos de idade e tenho vontade de balbuciar: Mas, professor, eu não sabia que teria que cortar pancetta hoje, não me preparei, não estudei em casa! Corto do jeito que dou conta e entrego para o professor. Como ele não faz careta de horror, me tranqüilizo: pelo menos podem ser usadas!

A massa
O professor cozinha a massa para os diferentes molhos. A proporção básica para o cozimento é 100 gramas de massa para 1 litro de água fervente e uma colher de sopa de sal. Para grano duro não é recomendado colocar óleo na água, pois o óleo pode impermeabilizar a massa e prejudicar a absorção do molho. O tempo de cozimento varia de marca para marca e seguir o número de minutos estipulado na embalagem é uma forma segura de conseguir o ponto al dente desejado. Como sempre, tudo que o professor faz fica muito gostoso e eu me arrependo amargamente de ter comido antes da aula um pão de queijo aquecido em micro-ondas e um capuccino meia boca. Não acerto uma, penso comigo! Hoje trabalhamos em quartetos, não em duplas. Achei interessante e gostei da dinâmica, mais alegre e com mais conversa entre os alunos, mas como cada um acaba fazendo uma parte pequena de todo o processo, entendo porque não é forma padrão utilizada nas aulas.

>> Postado por Aprendiz 07:40

Terça-feira, 04 de março de 2008

Deu branco

Deu branco

Por Silvia

Mesmo tendo a fama de ser um molho que empelota com facilidade, o molho branco (bechamel) é um coringa na culinária e seu sabor suave pode ser incorporado em diversos pratos. E as indesejáveis bolinhas podem desaparecer em segundos, sem mágica, com a simples utilização de uma ajudinha extra: uma peneira.

Acostumada a fazer o bechamel no “olhômetro”, fui apresentada em aula à receita* original, com as proporções corretas de manteiga, farinha e leite. Até aí tudo igual. A novidade para mim foi a utilização de um outro trio que se revelou genial: cebola, folha de louro e cravo-da-índia. Juntos, eles formam a cebola piquée que, apesar da sofisticação do nome, nada mais é do que metade de uma cebola cravejada com louro e cravo-da-índia. Mergulhar a cebola piquée no últimos 15 minutos de cozimento do bechamel transformará o sabor do molho, observou o professor.

Mas, como aprendiz teimosa, suspeitei do resultado. Na minha cabeça, pensava que o sabor forte da cebola piquée acabaria com o sutil sabor do bechamel. Ledo engano. Essa combinação agrega um aroma suave e um gosto especial. O bechamel ganha uma turbinada, digamos assim, passando de um simples molho básico a um básico-chique.

Ah, sim, em tempo: raspas de noz-moscada raladas na hora dão o toque final a esse molho.

*Receita de bechamel:

Numa panela, derreta em fogo baixo 100 g de manteiga (sem sal), sem deixar queimar. Acrescente então 100 g de farinha de trigo de uma só vez e mexa o suficiente para que os ingredientes estejam incorporados. Deixe cozinhar por 3 minutos, sempre em fogo baixo. Em seguida e ainda no fogo, comece a acrescentar 1 litro de leite frio, aos poucos, mexendo vigorosamente para não empelotar. Por último, acrescente a cebola piquée (meia cebola espetada com 1 folha de loro e 3 cravos-da-índia) e continue o cozimento do molho em fogo bem baixo por mais 15 minutos. Desligue o fogo e acrescente uma pitada de raspas de noz-moscada.

>> Postado por Aprendiz 16:32

Terça-feira, 04 de março de 2008

Sem preconceitos

Sem preconceitos

Por Iná

Na quarta aula aprendemos a preparar os molhos contemporâneos. Os alunos, que estão cada vez mais descontraídos (muitos já perderam completamente aquela timidez inicial), comentam, antes do início da aula, amenidades costumeiras, como o trânsito de São Paulo e o verão chuvoso que estamos enfrentando. Eu, que mais uma vez não tive tempo de comer nada, estou com fome e só me preocupo com o momento em que poderei comer.

O professor explica que o ítulo “contemporâneos” foi escolhido simplesmente por não serem molhos básicos, que vimos na aula anterior. Não significa que sejam recentes ou atuais. Alguns, como o chutney, têm centenas de anos.

O professor demonstra a elaboração dos quatro molhos da noite: chutney de ameixa, salsa mexicana, relish de pimentão e coulis de pimentão. Depois da demonstração dos pratos, em duplas, devemos fazer a salsa mexicana e o relish de pimentão. Para minha sorte, o meu parceiro de dupla também parece gostar bastante de coentro e pimenta, ingredientes da salsa.

O professor comenta que devemos adequar a receita ao paladar de cada dupla (por exemplo, colocar mais ou menos pimenta). Agora já consigo picar tudo pequeno, mas não igual. O professor também enfatiza a importância do mise en place (preparo de todos os ingredientes antes de começar a fazer o prato). Penso que o comentário vem a calhar, pois acho que todas as vezes que tento fazer alguma coisa em casa, não me atento a um mise en place completo e depois tenho que sair desesperada em busca de algum ingrediente obscuro.

Começo a pensar sobre a possível existência de uma teoria que explicaria que a probabilidade de um ingrediente simplesmente brotar em uma receita, no meio do processo de elaboração, varia na proporção direta da dificuldade de pré-preparo (como pré-cozinhar feijão branco por 1 hora) ou de ser encontrado (por exemplo, nabos redondos pequenos). Um mise en place completo simplesmente põe a minha teoria fantasiosa por terra.

Volto minha atenção para a aula, fazemos a salsa e fica muito boa. Uma parte gostosa da aula é provar o mesmo prato feito pelas outras duplas – além de comer, você pode verificar essas diferenças nas “customizações” das receitas.

Um dos alunos comenta que tinha tentado fazer o molho holandês em casa, mas não tinha dado nada certo e, segundo ele, virou uma bagunça só. O professor decide demonstrar mais uma vez como se faz o molho a fim de desmitificar o processo de elaboração. Acho bastante interessante, pois já ouvi falar de estórias aterrorizantes de molhos holandeses e maioneses que desandaram e, alguma coisa me diz que vou precisar dessas explicações.

Eu, que não punha fé no relish, e na minha abrangente e preconceituosa ignorância, achava que era uma espécie de conserva, fico surpresa ao experimentar o que fizemos e achar muito bom. Nada a ver com aqueles pepinos azedos que servem com sanduíches. Mais um preconceito meu por água abaixo!

>> Postado por Aprendiz 16:30

Segunda-feira, 03 de março de 2008

Compras

Compras

Por Iná

Com o objetivo de comprar os itens da lista de utensílios necessários para o curso, troco um almoço por uma sessão de compras na Rua Paula Souza, no centro de São Paulo, conhecida pelas lojas especializadas em material para restaurantes.

Começo a ver a primeira loja e já encontro inúmeras coisas que eu nem sabia que existiam e que passam a ser imprescindíveis, como um cortador de legumes em cubos, iguais, é claro. Vejo também uns apetrechos bastante curiosos como um cortador de massa de croissant, no formato triangular, e uma paella (uma panela especial para o prato espanhol) grande o suficiente para fazer arroz para um batalhão faminto.

Como é horário de almoço, os vendedores, que não são muitos, parecem mais preocupados com o que vão comer do que com as vendas. O atendimento é lento e fragmentado: você escolhe os itens com uma pessoa, paga para outra e pega o pacote com uma terceira.

Consigo comprar tudo o que está na lista, exceto a faca de chef de 8 polegadas. Parece que passou uma horda de alunos de escolas e faculdades de gastronomia e levou todas. Substituo por uma de 6 polegadas.

É possível reconhecer nas lojas todos aqueles copos, pratos e talheres usados nos restaurantes por quilo perto do trabalho. Como as lojas são freqüentadas por profissionais do ramo, nas conversas é mais provável escutar “durabilidade”, “economia” e “forma de pagamento” do que “olha que fofo”, “não é lindo?” ou “super bonitinho”. Mas não resisto e compro tigelinhas para mis en place (preparação de todos os ingredientes antes de começar a cozinhar), que eu achei “umas gracinhas”...

Os preços são, geralmente, melhores que dos estabelecimentos de outros bairros ou shoppings. Começo a ter a preocupante sensação de que quanto mais eu gasto mais eu economizo. Não resisto e compro uma balança digital que pode pesar ingredientes de 1 grama a 3 quilos.

Olho para o relógio e vejo que gastei bastante tempo vendo panelas. Se não correr vou chegar atrasada para uma reunião. Volto imediatamente para o trabalho. Meu saldo bancário, salvo pelo gongo, respira aliviado...

>> Postado por Aprendiz 11:10

Quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Aula 4

Aula 4

Coadjuvantes

Por Silvia

Depois dos molhos básicos, foi a vez de aprendermos sobre outra variedade deles, os contemporâneos, que, apesar do nome, foram criados há muito tempo e são amplamente difundidos na cozinha mundial. E o mais legal desses molhos é que, diferentemente dos clássicos, são mais fáceis de fazer e permitem que se brinque com as quantidades e ingredientes sem comprometer o resultado. Têm ainda a importante característica de não estragarem rapidamente, podendo alguns deles ser guardados na geladeira por meses. Fazem parte desse time o chutney, o coulis, o relish e a salsa mexicana.

O aromático chutney, que é de origem indiana, não é nada mais que uma geléia agridoce picante que tem na sua composição frutas, vegetais, muuuito vinagre , açúcar e especiarias. Os ingredientes devem ser cozidos lentamente por horas e, como no caso das geléias, devem ser retirados do fogo um pouco antes de atingirem o ponto desejado. Provei o molho pronto ainda morno; estava extremamente forte, com muito, mas muito gosto de vinagre.

O professor explicou que o chutney tem um tempo de maturação de mais ou menos cinco dias para ficar com o seu sabor verdadeiro. De fato, após esse período voltei a experimentá-lo e ele estava bem mais suave. Mas continua sendo um molho de sabor marcante, que combina muito bem como acompanhamento para alguns tipos de carnes.

Em seguida, preparamos um coulis de pimentão (sem pele), que também não exige grandes conhecimentos culinários. O coulis, que nos dias de hoje está presente em vários pratos de restaurantes, é um purê de legumes ou frutas (morangos, goiaba...) de consistência cremosa. Fica delicioso acompanhando peixes, aves e uma gama de sobremesas, e tem como vantagem poder ser preparado com antecedência. Dever ser cozido até que seus ingredientes estejam macios e depois coado, o que faz com que qualquer imperfeição desapareça junto com a peneira.

Seguindo a linha dos molhos acentuadamente ácidos, reproduzimos o relish que também é agridoce e freqüentemente faz par com sanduíches e frios. Pimentão (pelado) ou pepino em conserva normalmente figuram como os ingredientes mais tradicionais do relish. Também é um molho de fácil preparo mas, diferentemente do coulis, não é coado. Por isso, o ideal é que os ingredientes sejam cortados em cubinhos uniformes bem pequenininhos (este tipo de corte se chama brunoise), o que lhe confere ao final uma simpática apresentação.

Mas a vedete do dia para mim foi a salsa mexicana. Dentre todos é o mais perecível e tem que ser consumido logo após o seu preparo. Apesar do sabor marcante, a combinação dos ingredientes é tão harmoniosa que fica difícil não comer muito.

Ele é composto basicamente por abacate, cebola, alho, pimenta, pimentão e limão. Por último leva também coentro que, confesso, não era fã. Mas, ao experimentar, tive que dar o braço a torcer: o coentro deu um realce na salsa que me surpreendeu. A partir de agora passei a ver o coentro com outros olhos e com respeito.

À exceção do chutney, concluí que esses molhos são boas opções para serem servidos como canapés, de tão gostosos e práticos que são. Além de tudo, uma vez servidos com torradas ou tortillas, eles merecidamente terão a oportunidade de brilharem como astros principais, e não apenas como fiéis coadjuvantes que enriquecem nossos filés, peixes, crepes...

>> Postado por Aprendiz 18:04

Quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Pelado é melhor

Pelado é melhor

Por Silvia

Não, vocês não estão no site errado, fiquem tranqüilos. Só vou falar de pimentões. Talvez essa conotação erótica do título seja influência de uma reportagem que li no jornal sobre um assunto que desconhecia: o movimento porn food.

Muito provavelmente quem faz parte do métier gastronômico está familiarizado com essa turma, mas admito que para mim é totalmente novidade. Fiquei curiosa em saber do que se tratava e, confesso que, após pesquisas em sites relacionados, continuo sem entender ainda a que esse movimento veio e o que ele tem a acrescentar em nossas vidas.

Aprendi, porém, que a Nigella é uma de suas musas e que, segundo os conceitos porn, aquelas típicas lambidas dela nos dedos enquanto cozinha não são um ato nojento, e sim erótico. Então tá.

Bem, mas vamos voltar aos pimentões, vegetal esse que divide muito as opiniões: uns adoram, outros comem com restrições e uma grande legião tem arrepios só em ouvir o nome. E, para esses últimos, vai a dica: tente dar ao pimentão uma última chance, experimente-o sem a pele e veja que junto com ela vai embora também a indigestão.

Tivemos uma aula experimental com pimentões vermelhos, o utilizamos em várias receitas práticas e fáceis, e aprendemos a desnudar os pobres coitados. E sabe que é muito fácil?

O pimentão (espetado com um garfo ou segurando com uma pinça) deve ser colocado inteiro diretamente sobre a chama do fogo alto. É preciso, então, ir virando até que toda a sua casca esteja preta. Aí é só retirar do fogo, deixá-lo amornar dentro de um saco plástico e, em seguida, retirar a pele queimada embaixo de água corrente. Só isso e está pronto para ser utilizado em qualquer receita.

Até os alunos que não o viam com bons olhos e fizeram caretas no começo da aula se surpreenderam com a suavidade do sabor dos pimentões pelados.

>> Postado por Aprendiz 09:21

Quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Aula 3

Aula 3

Por Iná

DE MOLHO

Na nossa terceira aula, os alunos, que são em geral bastante pontuais, estão bem mais soltos. As primeiras amizades já estão se formando. Mas ainda não temos os grupinhos e também não dá para ir, depois da aula, ao bar da esquina tomar umas.

O tema de hoje são os molhos mãe. Recebem esse nome porque são básicos e dão origem a diversas variações. O professor demonstra a elaboração de vários deles e também como fazer manteigas clarificada e ghee, que são versões do que eu conheço como manteiga de garrafa do nordeste brasileiro.

Em duplas fazemos dois molhos, o bechamel (aquele molho branco de lasanha) e o holandês. Ao explicar o molho holandês (uma espécie de maionese quente) ele menciona que é uma boa receita para aprendermos a lidar com duas coisas: paciência e temperatura. Quando começamos a fazer o molho, entendi melhor o que o professor quis dizer. É preciso ter paciência para ficar batendo a mistura com aquele quadrifólio enquanto se vai despejando um fio da manteiga clarificada. Sobre a temperatura, como o molho é feito em banho-maria, a água não pode chegar a ferver. Só que deixamos esquentar muito e quase fazemos uma omelete! Mas o professor nos socorre a tempo e adiciona um pouquinho de água quente, que liquefaz o molho.

Acho que é meu dia de sorte e os molhos ficam ótimos. Se não tivesse comido antes da aula, provavelmente pegaria uma tigela com o molho pronto e comeria com colher, como se fosse mingau!

Ao conversarmos durante a elaboração dos pratos, escuto de vários colegas as batalhas particulares que travaram na cozinha para elaboração de fundos e caldos durante o final de semana. Meu parceiro de dupla explica que gastou horas para fazer um fundo escuro de ave e que, ao terminar, não teve ânimo de cozinhar mais nada. Ele acabou esquentando alguma coisa no microondas para comer.

Escutando todas essas histórias, olho para a bolha que se formou no meu dedo ao tentar cortar legumes para uma sopa que preparei no domingo anterior e penso que o sofrimento comum deve mesmo unir as pessoas, pois me identifico com todos esses colegas.

Ao final da aula, o professor demonstra uma das coisas que eu considero mais legais para quem sabe cozinhar: pegar o que tem ao redor e fazer um prato saboroso. Com o molho bechamel que fizemos e outros ingredientes, ele rapidamente faz espaguete com um molho branco delicioso. Todos gostaram.

Em uma noite de lua cheia gloriosa, como a gente só vê aqui em São Paulo, volto para casa, mais uma vez feliz e alimentada. Durante a aula não houve nenhum imprevisto e deu tudo certo (o que, certamente, me surpreende)!

>> Postado por Aprendiz 09:29

Segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Turma do fundão

Turma do fundão

Por Iná

Acho que vou colocar o meu pé na cozinha pela porta dos fundos. Na segunda aula aprendemos sobre eles, os fundos, que são a base da base para muitos pratos. Não chegam nem a ser caldos (que têm carne na composição). Fundos são de vegetais e/ou ossos (bovinos, carcaças de aves ou espinhas de peixe). São coados ao final da elaboração e utilizados no preparo de, por exemplo, risotos e assados.

O professor, aquele das aulas básicas, começa explicando sobre a caramelização de vegetais. O termo refogar, explica ele, é uma das técnicas da cozinha e falar “dar uma refogada”, que normalmente usamos, não é, tecnicamente, sempre correto. Os vegetais caramelizados serão acrescentados ao final da cocção (cocção – veja como já estou técnica!) do fundo de ossos assados (ossos da perna do boi, com tutano) e dourados. Esse será um fundo escuro. Sim, o de frango é mais ou menos e, de peixe, claro.

Fundos não levam sal, pois, em geral, no momento da elaboração não se sabe quais pratos serão feitos e, portanto, não se deve adicionar o tempero. O professor lembra que corrigir pouco sal é a coisa mais fácil na cozinha, mas corrigir muito sal é a mais difícil.

Ao discorrer sobre temperos, o professor explica a origem e uso de algumas ervas e especiarias. Fala do cerefólio, que eu nunca tinha ouvido falar, e menciona que é sempre melhor termos as especiarias em grãos, não moídas, para conservar melhor o aroma. Adoro essa parte da aula e viajo com todos aqueles perfumes, imaginando os países de origem. Eu, que não havia jantado, sinto fome.

A nossa tarefa hoje é fazer um fumet de peixe. Fumet é um fundo incrementado, no exemplo da aula levava vinho branco. Temos que cortar os vegetais a serem suados (outra técnica, que eu chamaria fácil de “dar uma refogada”). Cortamos os vegetais em cubinhos (ou coisa que lembra vagamente cubos, no meu caso) e nos preparamos para suá-los. Trabalhamos em duplas e o meu colega me pergunta se não devemos esquentar um pouco o óleo antes de adicionarmos os vegetais. Diante da minha expressão de interrogação, ele repete a pergunta, talvez pensando que eu não tivesse escutado. Tinha escutado sim, só não sabia a resposta. Gaguejo um “acho que sim”.

Decididamente tenho que comer alguma coisa antes de vir para essas aulas. Estou faminta só de falar de temperos e mexer com vegetais! Tenho que me conter para não atacar o salsão do fumet ou não me servir de um copo de vinho ao medir os 200 ml a serem utilizados no prato.

Enquanto a mistura de vegetais, espinha de peixe e vinho branco cozinha, o professor sugere que a gente corte mais alguns vegetais para treinar. Eu sou praticamente a única ainda sem uniforme ou faca. Ao não encontrar uma faca da escola por perto, peço ao meu colega a dele emprestada (ele parecia entretido em tirar a espuma que se formava na superfície da panela).

Logo o professor nota o que se passa e me diz para pedir a da escola, pois cada um deve ter os seus utensílios. Ele faz isso com prática de quem já passou por vários episódios de confusão ou mesmo saia justa de ter um aluno que trouxe o equipamento e não pôde praticar a técnica ensinada por ter emprestado a outro. Sinto-me envergonhada pela minha insensibilidade e penso no profissionalismo do professor. Paro para lembrar as várias vezes que ele já tinha se adiantado, só na aula de hoje, para evitar acidentes (físicos ou sociais).

Além do professor, temos duas estagiárias e uma funcionária da escola ajudando durante a aula. As três se encarregam de preparar todos os ingredientes que são utilizados e arrumar a bagunça que os alunos fazem. Lavam tudo e mantêm as bancadas limpas.

Depois de aproximadamente 45 minutos no fogo baixo, o fumet está cozido. Agora falta coá-lo num chinoise (funil vazado) e num tecido bem leve, como uma fralda. Acho tudo aquilo uma trabalheira e que junta um monte de lixo (as espinhas do peixe e vegetais são descartados e jogados no lixo). Tenho fome e estou cansada.

Finalmente chega o momento de comermos. O prato da noite é uma salada de batatas feita com as que havíamos cortado na aula anterior. Ao comer (meio que devorar) vejo cubinhos, fatias (julienne) e outras formas não definidas. Concluo que certamente as batatas, que usei para treinar os diversos cortes, foram utilizadas na elaboração da salada.

Alimentada, coloco o meu prato na pia. A funcionária e estagiárias deverão lavar e arrumar toda a cozinha. Sinto alívio e desconforto em ter alguém para, literalmente, clean after me.

Não sei se foi o tema da aula, mas fico com uma sensação estranha. A cozinha parece ser o “fundão” de um restaurante, onde uma verdadeira operação de guerra acontece e que grande parte dos heróis nunca é sequer conhecida, imagine condecorada.

Resolvo arquivar o pensamento e sensação em alguma gaveta perdida do meu cérebro e, feliz, vou para casa, saindo pela porta da frente.

>> Postado por Aprendiz 09:43

Sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Aula 2

Aula 2

Por Silvia

SEM PRESSA

Sempre tive a idéia de que fazer uma sopa era algo básico e simplesmente perfeito para aqueles dias em que a gente está com pouco tempo, pouca inspiração e não quer ter grandes encontros com o fogão. E, além de fácil, a sopa aparece como uma generosa aliada daqueles que sempre querem dar uma segurada no peso.

Pois é. Isso é o que eu pensava antes de me inscrever no curso de gastronomia. Tudo bem, preparar fundos e caldos continua sendo uma missão simples sim, mas não é para quem está com pouco tempo e de regime. Pelo menos não quando se tratam de receitas clássicas francesas.

A começar pelo corte dos vegetais: tudo deve ser tão minuciosamente uniforme e simétrico que ao menos para mim nesse começo fazer uma sopa será o evento do dia. E vou ter que me acostumar com esses cortes, já que todo fundo leva o “mirepoix” que é uma mistura de cubos (de tamanhos iguais, of course) e que é composto na sua proporção original de 50% de cebola, 25% de salsão e 25% de cenoura. Mas você não cometerá nenhuma gafe se acrescentar alho-poró e diminuir em 25% a cebola. A cozinha clássica, às vezes, também é flexível. Ainda bem para mim, que adoro dar uma adaptadinha nas receitas...

Tendo o mirepoix pronto, deve-se escolher o tipo de fundo que será feito: claro ou escuro. Os fundos claros podem levar ossos de aves ou carcaças de peixe. Enquanto o fundo de frango leva cerca de 5 horas para ficar pronto, o fundo de peixe leva só 40 minutos, tempo suficiente para que todo seu sabor seja extraído (tinha que ter alguma vantagem para compensar o cheiro nas mãos que não sai de jeito nenhum).

Já os fundos escuros levam ossos assados e extrato de tomate. Para você ter uma idéia, um bom fundo escuro com ossos bovinos leva cerca de 6 horas para ficar pronto. Parece exagero? Não é: o resultado é realmente saboroso, pude constatar.

Mas a grata surpresa da aula ficou por conta dos segredinhos que valorizam e dão um toque para lá de especial aos fundos: as ervas aromáticas. Erradamente, eu costumava colocá-las soltas logo no início do cozimento e só as retirava no final. Aprendi, porém, que elas devem ser acrescentadas somente na última hora do cozimento dos fundos, para que seu aroma permaneça fresco na medida certa e que devem estar embrulhadinhas numa gaze (é, aquela mesmo de farmácia). Esse tal embrulho chama-se “sachet d’épices” e normalmente leva pimenta em grãos, louro, tomilho, talos de salsa e alho.

Outro segredinho no quesito ervas aromáticas fica por conta do “bouquet garni”, que é um amarrado de vegetais e ervas envoltos numa folha de alho-poró e que tem a mesma finalidade do sachet. Ambos, aliás, devem ser amarrados com fio de barbante bem comprido, que por sua vez é amarrado ao cabo da panela. Com isso, quando se decide tirar o embrulho da panela, não é necessário ficar caçando-o no meio daquele líquido fumegante. Ótima dica que facilitará a minha vida. Sabe, essa é daquelas dicas que depois que você aprende se pergunta: por que não pensei nisso antes?

Bom, no aconchego da minha cozinha, resolvi fazer um caldo de legumes pós–aula. Escolhi o caldo de aves para servir de fundo. Cozinhei carcaças de frango por 5 horas e executei a receita conforme aprendi. O resultado? Achei o caldo gorduroso e devo ter errado na quantidade de tomilho ou outra erva no meu sachet, pois a sopa ficou com gosto de frango assado. E sopa com gosto de frango assado não é exatamente o que eu esperava, menos ainda o meu marido...

Ainda bem que avisei antes de começar o curso que todos seriam cobaias, na alegria e na tristeza. E não desisto: agora quero experimentar o fundo escuro de carne. Mas ainda não achei os ossos da canela do boi, sugeridos para essa receita. Fui a dois supermercados e não achei, só tinha ossobuco. Vou até um açougue, lá devo achar. Depois que encontrá-los, preciso de algo mais fundamental ainda: tempo. Porque para fazer esse fundo tudo que não posso ter é pressa!

>> Postado por Aprendiz 09:17

Quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Cubinhos mágicos

Cubinhos mágicos

Por Silvia

Depois da primeira aula, devidamente munida com minha recém-comprada e ultra afiada faca de chef, comecei a treinar os cortes de legumes em casa. Aprendi que a denominação cubos na cozinha clássica é extremamente genérica, uma vez que existem muitos tamanhos e espessuras de corte. E, para cada tipo, um nome francês diferente. Ainda bem que o professor deixou uma “colinha” pra gente copiar: brunoise (o menor de todos), macedoine (um pouco maior, com 5mm), sem falar nos bastões, como jardinere, ou filetes, como julienne.

Acertar cenouras e batatas para deixá-las perfeitamente quadradas não é tarefa rápida para uma aprendiz. Aparar todas as laterais dos legumes antes de cortá-los, porém, facilita e garante cubos uniformes e perfeitos. É minucioso e demorado. Mas eu chego lá...

Aliás...

Gostei muito da observação de uma das professoras que sabiamente disse que ninguém faz curso para ser CHEF, assim como não existe um curso para formar executivos de multinacionais. No curso serão ensinadas técnicas culinárias e se o aluno souber utilizá-las bem e tiver outras habilidades, poderá tornar-se um CHEF. É isso aí. Tem que picar muita cebola...

>> Postado por Aprendiz 09:58

Quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Aula 1

Aula 1

Por Iná

O JALECO

O curso preparatório de chef terá 71 aulas (olha só um número primo aí... ah, deixa para lá) que começam na primeira quinzena de fevereiro e terminam na primeira de dezembro. As aulas acontecerão nas terças e quintas à noite.

Antes da primeira aula (primo, primeira... ih, já está virando idéia fixa) recebemos um programa do curso e uma lista de material para comprarmos. Devíamos comprar vários apetrechos de cozinha e “02 uniformes ou jalecos BORDADOS COM O NOME DO ALUNO”. Quando li, pensei: céus, eu que nem sei fazer arroz (não é exagero meu, não sei mesmo) vou usar um jaleco de chef com o meu nome bordado. Até parece! O que um ajudante de cozinha profissional, desses que labutam o dia inteiro no meio de panelas pesadas, fogo, facas, pressa e ainda têm uma família para sustentar não iria pensar? “Taí uma dondoca que não sabe nem segurar uma faca e vai lá, se achando, usar um uniforme de chef.”

Pois é, deixei para comprar tudo mais tarde.

Chego pontualmente para a aula. Já estão quase todos lá, uns 20 alunos. Acho que a idade da classe deve variar entre 25 e 60 anos. Quase todos vestem o uniforme (ai, caramba, porque não comprei o bendito uniforme antes?). Durante a apresentação dos alunos observo que mais da metade está lá porque pretende mudar de profissão no futuro (talvez abrir um café, um restaurante ou uma pousada). Implicante que sou, também já consigo vislumbrar um chato a espreita e uma mulher com mania de limpeza, mas a minha primeira impressão é de que a classe é simpática.

Teremos três professores e, para as cinco primeiras aulas, um deles nos ensinará o básico do básico. Oba, penso comigo, acho que não terei grandes problemas por ora. Básico para o curso é uma explicação dos utensílios, corte de legumes (é importante é que sejam uniformes, todos do mesmo tamanho), caldos, molhos e sopas. Uma das professoras (que voltará mais adiante para aulas mais complexas, imagino eu) explica que o importante é que a gente aprenda técnicas, não receitas. Se aprendermos técnicas, conseguiremos replicar toda e qualquer receita que quisermos. Fica parecendo até simples e fácil, não? A terceira professora explica, entre outras coisas, a importância do uniforme. Pois é...

Apresentações feitas, começamos a aula propriamente dita. A escola é muito bem equipada e eu uso um avental emprestado (da escola) e uma faca, faca de chef (sério que é o nome). E eu que nem sei segurar uma faca comum...

CUBINHOS

O professor demonstra vários cortes de legumes (batata, cebola, cenoura, salsão e tomate) e de alguns temperos (o segredo para picar salsinha é que esteja bem seca). Ele segura a faca com maestria e tem muita prática em cortar tudo igualzinho e bem pequeno. Já começo a me preocupar quando lembro que terei que, eu mesminha da silva, cortar os legumes em cubos iguais.

O momento chega. Todos nós nos posicionamos em frente a uma tábua (tábua não, uma daquelas pranchas brancas de polietileno que não possibilitam a proliferação de bactérias) e selecionamos os legumes para cortar. A escola providencia todos eles já higienizados. Coisa de dondoca, pensei comigo mesma. No momento de cada um se posicionar em frente a prancha, observo alguns afoitos, preocupados para não ficarem sem prancha. Tsc, tsc, tsc. Será que não dá para perceber que se temos até legumes previamente higienizados não faltarão pranchas?

Decido começar pela batata. Pego um descascador que parece importado e está super afiado, o que torna essa primeira tarefa muito fácil e rápida. A faca que uso na seqüência também está com o corte muito bem afiado. Agora é só cortar a batata em julienne (tirinhas de 3 ou 4 cm de comprimento) e depois em cubinhos. Simples, simples, penso.

A moça à minha frente é perfeccionista e durante toda a noite a prancha dela fica impecável com pedacinhos minúsculos e uniformes (todos em montinhos muito bem organizados) dos diversos legumes. Olho para a minha e está uma bagunça. Fico atenta para ir jogando os meus montinhos nas diversas “bacias comunitárias”, que estão no centro da bancada, para que os alunos possam manter suas pranchas com espaço livre para trabalharem.

O professor passa verificando o trabalho de todos os alunos. Antes que eu sorrateiramente jogue todos os meus “não-uniformes” pedaços (não são cubos, estão mais para retângulos de diversos tamanhos) na bacia, ele vem olhar o meu trabalho. Com tato, faz alguns comentários do tipo: “mas isso não é um cubo, tente fazer todos do mesmo tamanho”. Após a saída do professor, tento me concentrar e me lembrar de que o motivo que estou lá é para fazer, não fazer perfeitamente. Só fazer.

No final da noite, fica claro, muito claro, que ainda falta muita repetição do ato de cortar legumes para ganhar prática com a coisa. Decido que no final de semana vou comprar alguns itens na feira para cortar em casa. Mas o que fazer com um monte de legumes picados? Moro sozinha, ainda não cozinho e, portanto, não teria uso para uma pilha de cebola picada em cubinhos. Será que é por isso que entregaram no início da aula uma folha com receita de sopa de cebola? Ah...

>> Postado por Aprendiz 12:14

Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Pé na jaca

Pé na jaca

Por Iná

Em 2003, uma amiga querida, entediada com todo o jargão utilizado no mercado financeiro (como o uso corriqueiro de termos em inglês) e a tendência de se rotular emoções e relacionamentos em gráficos cartesianos, resolveu criar, para nós duas executarmos, um projeto que ela batizou de “Projeto Pé na Jaca”. A idéia era simplesmente nos embebedarmos sempre que possível. Para ela, o álcool produziria maravilhas em mim, servindo como catalisador para meu desenvolvimento pessoal. A abordagem heterodoxa parece ter sido uma escolha sóbria; de todos os projetos de que já participei esse foi um dos mais bem sucedidos, pois nunca perdemos nenhum deadline e todas as milestones foram atingidas.

Trabalho com seguros e minha rotina implica números, tantos que, ao ser apresentada a novas pessoas, eu geralmente pulo a parte de trabalho para evitar expressões de tédio ou mesmo dó. Apesar de até considerar que possa existir poesia em uma planilha de Excel, nas conversas sociais prefiro sempre ficar nos tópicos clássicos de amenidades, como cinema, música e culinária (me abstenho também de participar de discussões acaloradas sobre o preço do quilo do tomate na feira!). Na verdade, muitas vezes tenho a sensação de que o meu trabalho fica muito abstrato, tão distante da vida real quanto Paris e seus banlieues. Acho que, no fundo, sempre construí castelos no ar, inibindo ações concretas.

Assim, em um momento em que andava meio macambúzia pelos bares da vida, pensando na apologia que as pessoas fazem da indústria farmacêutica e seus antidepressivos, me lembrei do plano alternativo da amiga e fui atrás da minha própria receita milagrosa: um curso como terapia ocupacional, que me traria resultados tangíveis e imediatos. Das inúmeras opções de atividades manuais disponíveis, a culinária me pareceu (me desculpe outro trocadilho) a mais gostosa.

A idéia é simplesmente fazer. Busco ação e realização de algo concreto. Aprender a cozinhar bem ou fazer novos amigos podem ser conseqüências agradáveis, mas esse não é o meu objetivo principal com o curso preparatório para chef. Quero, com ele, alimentar minha capacidade de querer mudar e me realizar. Hora de pôr a mão na massa.

Em 2008, em homenagem àquela grande amiga, decidi que farei o “Projeto Pé na Cozinha”.

>> Postado por Aprendiz 11:10

Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Fome de aprender

Fome de aprender

Por Silvia

Estou ansiosa. Após vários anos (e bota vários nisso!) sem estudar, voltarei a freqüentar uma escola. Mas uma escola diferente: de gastronomia. Essa ansiedade gostosa tem uma explicação: é o primeiro curso que farei puramente por prazer, diferente de quando, aos 18 anos, optei por fazer administração na faculdade sem ao menos saber direito o que queria da vida. E, junto com o curso surgiu o convite da Rita para eu escrever um blog sobre as minhas aulas. E eu topei, é claro.

O curso promete ser bem abrangente e vai abordar desde o preparo de fundos e caldos, passando por cortes de carnes , panificação, confeitaria e pela elaboração de pratos da cozinha brasileira e internacional. Ou seja, tudo o que eu queria: um curso amplo, mas ao mesmo tempo objetivo, com duração de 1 ano, sempre com 2 aulas semanais. E garanto que ao longo das semanas irei contar no blog as minhas experiências (bem ou mal-sucedidas) e todas as curiosidades e episódios vivenciados nas aulas.

Na verdade meu fascínio pela cozinha começou na adolescência, meio que por acaso. Sempre que freqüentava restaurantes, gostava de tentar decifrar os ingredientes que compunham os pratos. Em casa, tentava reproduzi-los e ficava toda orgulhosa quando essas incursões culinárias puramente inocentes resultavam em pratos saborosos. Obviamente nem sempre era bem sucedida e, confesso que naquela época minha mãe não ficava exatamente feliz quando eu dizia que iria para a cozinha, pois a tarefa da limpeza sobrava sempre para ela. Mas, como toda boa mãe, era a primeira a elogiar os feitos da filha.

Depois veio o casamento e cozinhar passou de hobby a necessidade, mas nunca vi a ida à cozinha como uma obrigação penosa. Aí vieram os filhos e, junto com eles, a minha decisão de parar de trabalhar para cuidar deles. Com isso, surgiu a oportunidade de exercitar informalmente meu lado mestre-cuca. E é isso o que venho fazendo nesses últimos anos.

Agora, a poucos dias do início do curso, o time lá de casa já está devidamente escalado para servir de cobaia para os meus novos experimentos, já que uma aprendiz de cozinheira tem que treinar e suar muito para ter sucesso.

Pois é, entusiasmo é o que não falta. Que comecem as aulas!

>> Postado por Aprendiz 11:04

PERFIL
  • Iná é executiva. Silvia é mãe de dois filhos. Elas não se conheciam, mas tiveram a mesma idéia: fazer um curso de formação de chef de cozinha. Durante um ano, frequentaram a mesma escola, em horários diferentes. A convite do Panelinha, as moças escreveram juntas esse blog, contando suas experiências na cozinha.

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