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Sábado, 27 de dezembro de 2008

Aula 70

Aula 70

Por Silvia

Foram nove. Nove maneiras de se expressar, nove histórias e visões de mundo diferentes. Nove chefs, nove didáticas singulares e múltiplos aprendizados ao longo desse último módulo. As visitas duraram pouco mais de um mês e chegam ao fim hoje. A última convidada é Carla Pernambuco, do restaurante Carlota, em São Paulo.

Cozinha contemporânea é o tema. Carla começa dizendo que é habitué da escola; todo ano prepara a aula poucos dias antes, normalmente inspirada pela última viagem que fez – no nosso caso, a Espanha. Ela conta que foi uma viagem de grandes comilanças: participou de várias “catas” de degustações, onde diversos tipos de azeites, queijos, e muitos outros produtos são “catados”e provados. Explica que, em território espanhol, há uma evidente “racha” entre os cozinheiros tradicionais e os modernistas, que têm como ícone Ferran Adrià. Os mais tradicionalistas são a favor de uma comida original, sem grandes invenções, e afirmam que os chefs modernos usam tudo aquilo que os químicos sempre insistiram em dizer que fazia mal ao nosso organismo....

A aula pega fogo, literalmente, pois uma pequena fogueira com lenha é iniciada propositadamente dentro de um tacho, para que pedaços de magret ganhem sabor suave de fumaça e fiquem sutilmente defumados. A variedade de ingredientes à nossa frente mais parece com um quebra-cabeça que pouco a pouco vai ganhando vida e fazendo sentido nas criações de Carla. A chef postula que devemos nos habituar a enxergar os ingredientes com vários olhares, enxergá-los com várias possibilidades de utilização. O magret, por exemplo, será utilizado numa versão fria, como entrada, e numa versão quente, como prato principal.

Com as peras amarelinhas e maduras, prepara uma geléia-coringa que é ideal para acompanhar várias carnes e que quebra um bom galho no caso daquele jantar de última hora que você não pode decepcionar. O mesmo acontece com um mel de açafrão que surpreende pelo belo visual e sabor ma-ra-vi-lho-so!

Um vinagrete é rapidamente preparado por Carol, a assistente de Carla, que cobrirá os tipos de salada que já estão na bancada. Faz parte da aula ainda um petit cassoule e um molho de laranja que completarão os pratos principais.

Na cozinha da escola, observamos ainda o preparo de uma compota de marrom-glacê que fará parte da sobremesa elaborada por Carla. Alguns produtos foram trazidos já prontos, como o pain d‘epices com ares natalinos, o confit de pato, o suspiro e o creme de chocolate utilizados para a sobremesa.

Na hora de montar os pratos, vem a surpresa: as chefs não apresentarão os pratos; somos nós, os alunos, divididos em grupos, que iremos montá-los, um a um. Ou seja, era hora de colocar as últimas peças do quebra-cabeça. Ficou assim: magret fumé frio, com mescla de verdes, vinagrete, geléia de peras, mel de açafrão, cristais de sal e o pão para começar; novamente o magret, agora quente, com o petit cassoule regado ao molho de laranjas como prato principal; e, para a sobremesa, torta trufada com merengue e compota de marrons.

Foi interessante observar as interpretações que cada grupo deu para os mesmos pratos. Montagens criativas. Alguns ficaram interessantes, outros nem tanto. E as chefs não pouparam críticas à diversas criações, ora pelo exagero da quantidade, ora pela estética dúbia.

Na hora da degustação, infelizmente os pratos já estavam frios e alguns perderam a graça, como o cassoule. Mas o mel e a geléia compensaram qualquer desapontamento meu.

Já é meio-dia e as chefs estão com pressa. Elas se preparam para mais uma aula à tarde, numa faculdade, e outra à noite, novamente aqui na escola, dessa vez para a turma da Iná. Mas os alunos não estão com nenhuma pressa. Não querem que as aulas acabem de jeito nenhum. Na verdade, parecem até ignorar o relógio, como se isso fizesse o tempo parar e o curso não chegasse ao fim.

>> Postado por Aprendiz 12:22

Segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Aula 69

Aula 69

Por Iná

Como a base de nosso curso foi a escola tradicional francesa, fico surpresa em ter uma aula dedicada à culinária da França. Surpresa que rapidamente deixo de lado, pois sou uma francófila assumida, e fico animada com a perspectiva de aprender alguns pratos típicos.

O chef convidado, Christian Formon, tem um bufê que eu já conhecia e admirava. Lembro uma vez que ajudei a organizar uma festa de aniversário e, já de madrugada, após o último convidado ter saído, resolvi ir até a cozinha ver se os funcionários do bufê (cozinheiros e garçons) precisavam de alguma ajuda com a arrumação do lugar ou minimização do estrago que supunha ter havido por lá. Estava preparada para encontrar o lugar de cabeça para baixo, como um campo de batalha após um combate sangrento! Boquiaberta, encontrei uma cozinha imaculadamente arrumada, sem o menor sinal da festança. Apesar de todo espumante que tinha tomado, lembrava claramente que, para a preparação, os funcionários tinham montado um restaurante/acampamento na cozinha (levaram panelas, talheres, pratos, copos, fogão e até botijão de gás); entretanto, não via nada disso ali – já tinham saído sem deixar nenhum indício. Na geladeira, tudo que não foi consumido durante a festa estava guardado impecavelmente em vasilhas de plástico. Nunca esqueci! Desde então, essa cena, de chegar ao portal da cozinha e ver tudo tão arrumado, se transformou no exemplo, que repito à exaustão, de que o batido e irritante mantra de todo marqueteiro chato, que é “surpreender o cliente”, pode acontecer mesmo!

Ao apresentar o professor, a diretora da escola cita que a culinária brasileira deve muito às mulheres de nosso país – inúmeros chefs franceses escolheram o Brasil para morar graças às suas mulheres brasileiras. É o caso do convidado da noite. Christian Formon está no Brasil há mais de 20 anos, mas, no decorrer da aula, observo que todo esse tempo não erradicou o indefectível sotaque francês, denunciado ao falar “geladerrá”, “assaderrá” etc.

Os pratos demonstrados na noite são alguns dos baluartes da cozinha de terroir – pelo menos na minha cabeça –, como Quiche Lorraine, o Coq au vin (galo ao vinho) e a Tarte Tartin (aquela torta de maçã de cabeça para baixo). O chef já tem a seqüência de atividades organizada para que os pratos fiquem prontos na ordem correta sem demorar um montão de horas. Ele, por exemplo, coloca para assar as 36 metades de maçã em pé em uma assadeira com um pouco de caramelo, feito com açúcar e manteiga, e cobertas com um papel-alumínio. Ele tinha encaixado quase todas as metades, uma ao lado da outra, bem apertadas. As poucas que sobraram foram empilhadas em cima da primeira fileira.

Foi também logo no início da aula que o chef decidiu fazer a massa da quiche, uma patê sablée. Faz a massa sem problemas, dobra em quatro e tenta colocar sobre a fôrma redonda de fundo falso. Ops, a fôrma era maior que o que o chef esperava e a massa fica curta. Ele volta a massa para a mesa e abre mais um pouco. Tenta de novo e nada; a massa ainda estava pouca e pequena para a fôrma. Ao enxergar outra fôrma menor, com uma torta dentro, percebe que a fôrma que tinha usado pela manhã estava ocupada com outro prato. Sem aparentar nenhuma frustração, ele tenta abrir uma terceira vez, mas a massa meio que se quebra. O chef, avisando que estava manipulando a massa em excesso, resolve juntá-la toda em uma bola e recomeçar todo o processo de abertura. Se fosse eu já teria jogado a bola de massa contra a parede ou no lixo! Para mim, pelas poucas e nem sempre bem-sucedidas experiências que tive, fazer torta é como fazer baliza com carro – não dá para consertar, tudo tem que dar muito certo desde o início. Pois é, o chef abre a massa de torta mais uma vez, agora um pouco mais fina, e põe sobre a fôrma, com o cuidado de separar uma bolinha com a sobra de massa para remendar a massa assada, pois desconfia que essa irá rachar em alguns lugares. Dessa vez dá tudo certo e foi possível ainda deixar um pouco de massa sobrando pelas bordas para cortar depois de pronta. Voilá, penso, olha só como é bom não desistir de um prato quando algum imprevisto atrapalha a nossa vida!

Atônita, ouço o chef, completamente rubro, dizer que estava suando frio, de tão preocupado que ficou em conseguir montar a base da quiche. Reconhece que estava com medo de errar! O quê? Imagine só você, um chef experiente, montando um prato que provavelmente poderia fazer de olhos fechados, preocupado com um bando de simplórios aprendizes de cozinheiro! Se já o admirava pela competência do bufê, agora ainda mais pela espontaneidade e singeleza.

Ao fazer steak tartare, o chef explica que é um prato de origem russa e que, por isso, usará filé mignon. Limpa completamente o pedaço de filé e depois corta em cubinhos bem pequenos. Mistura todos os ingredientes e avisa que não coloca nem alho nem azeite para ser fiel à receita original. Em duplas fazemos um pouquinho de steak tartare; meu colega e eu decidimos colocar um pouco de azeite. Hummmm, original ou não, acho que fica ótimo também.

Massa da quiche assada e nota-se que realmente trincou em alguns lugares. O chef mistura a bolinha de massa que tinha separado com um pouco de creme de leite do recheio e remenda todos os trincados que encontra. Coloca o bacon e o queijo gruyère no fundo e leva para o forno por poucos minutos. Tira e vai colocando o creme feito com ovos, leite e creme de leite aos poucos, para esquentar e assar mais rápido e assim não vazar da fôrma. Depois de pronta, a quiche fica linda e deliciosa. Mais de um colega de classe comenta comigo que nunca tinha comido uma quiche igual, tão cremosa, untuosa e macia! Realmente estava fantástica e penso que, depois de comer uma quiche fresquinha, não é fácil encarar uma quiche ressecada, feia e aquecida em microondas que a gente encontra São Paulo afora. Penso que é similar a comer jabuticaba embaixo do pé e depois tentar comer aquele “negócio” esquisito e meio fermentado, comprado em feira! São coisas completamente diferentes!

Veja só, quando a gente pensa que está tudo perdido e quer desistir, as coisas tomam outro rumo... Vou tentar me lembrar disso depois – ou deveria dizer antes? – de sair da minha dieta!

Para o Coq au vin, o chef usa coxas e sobrecoxas de frango, pois as considera mais saborosas que os demais cortes. Comenta que, logo depois que tinha mudado para o Brasil, tentou fazer um Coq au vin original, com galo mesmo. Com o assombro dos comensais por causa do tamanho dos cortes, resolve “tropicalizar” a receita e usa partes de frango mesmo (não galo).

Por curiosidade, pergunto ao chef quais as vantagens de trabalhar com um bufê, em vez de um restaurante. O fato de ter que montar o tal do acampamento em casas que você nunca viu me parecia uma grande desvantagem. Ele menciona três vantagens que achei bastante interessantes:
a) Você muda de lugar o tempo todo, não fica sempre numa mesma cozinha.
b) Você muda o cardápio completamente e com muita freqüência, coisa impraticável em um restaurante.
c) Você negocia e tem apenas um cliente pagador, os demais são todos convidados. Essa negociação simplificada facilita muito o dia-a-dia.

Continuando a fazer a torta de maçãs, depois de assar por um tempão as metades de maçã, o chef põe a fôrma sobre uma chama do fogão e seca o excesso de caldo que tinha se criado. Abre a massa que preparou, põe como uma camada por cima das maçãs, assa e vira de ponta-cabeça. Não estou acostumada com tarte tartin feita de metades de maçã, apenas com fatias de maçã. Assim fica bem mais exuberante, mas igualmente gostosa.

Tenho um amigo que adora me provocar, enumerando situações em que a Itália parece ser um país muito melhor que a França. Ele explica, por exemplo, que até a culinária a França deve à Itália e Catarina de Médici! Sei não... Considero o melhor dos dois países o que estiver desfrutando no momento e há, se houver, para meu paladar poucos desfrutes melhores que uma tarte tartin!

>> Postado por Aprendiz 16:18

Quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Aula 68

Aula 68

Por Silvia

Era o ano 1999 e faltava pouco para o tão temido bug do milênio. Eu estava numa viagem que começou em Singapura, se estendeu pela Malásia, teve um pit stop em Bangcoc e tinha como destino final Suzuka, uma cidade do interior do Japão que, além de ter um parque de diversões (com atrações para quem tem um parafuso a menos), hospedava as corridas de Fórmula 1.

Naquela época, meu paladar não era tão afiado, mas sempre gostei de comer; estava ansiosa para conhecer os costumes do outro lado do mundo. E por estar habituada a comer comida japonesa aqui no Brasil, imaginei que não enfrentaria problemas com a alimentação. Doce ilusão....

Com hábitos alimentares tão diferentes, não consegui acertar um café-da-manhã na Malásia! Era um tal sei-lá-o-quê coberto por um monte de cebolas cruas... Em Bangcoc, até que comi razoavelmente bem, mas não me esqueço do dia em que tomei uma sopa com camarões quase crus que me embrulhou o estômago. Lembro ainda que, na Tailândia, avistei um quiosque de coco verde e, mais que depressa, ávida por um produto familiar, comprei um. E não é que a água tinha sabor totalmente diferente?

Fiquei pouquíssimo tempo em Tóquio, mas lembro-me de que não era nada apetecedor olhar as vitrines dos restaurantes com réplicas dos pratos oferecidos pela casa. Não tive coragem de experimentar os tradicionais doces de feijão. Em Suzuka, fomos acolhidos por brasileiros que residiam por lá. Um restaurante chinês foi o point de todas as noites durante o fim de semana do GP. Mas como não sou de ferro, contemplava meu estômago com um pouco de comida ocidental nos motor-homes do circo da Fórmula 1. Foram três semanas viajando, a primeira vez no oriente e também a primeira viagem que voltei mais magra ao Brasil. Na época, dizia para as minhas amigas: quer emagrecer? Vá para a Malásia e coma as comidas típicas...

Justiça seja feita: acredita que, justamente num trecho interno de avião, comi um dos melhores camarões da minha vida?

De qualquer modo, quando voltei ao Brasil, percebi que peguei um certo “bode” de comida japonesa e fiquei quase meio ano sem pisar os pés em restaurantes orientais. Essas lembranças todas foram reavivadas na minha mente porque a aula de hoje foi recheada de sushis e sashimis. O excelente professor, de calma e paciência típicas dos orientais, mostrou que fazer um jantar japonês em casa não é tão difícil assim: basta ter os apetrechos e os ingredientes certos.

Os peixes usados pelo chef eram muito frescos, com cores vivas, que apeteciam os olhos e aguçavam o paladar.

Numa oportunidade de ser sushiwoman (existe alguma?) por um dia, pude aprender as técnicas de enrolar temakis, califórnias e também de preparar o molho agri-doce, que acompanha pratos orientais. Aproveitei para comer muito atum, que na minha opinião é o peixe mais delicioso para se comer cru e comprovar que a comida japonesa é mesmo muito saudável (e bem menos gordurosa que a chinesa, dada pelo mesmo professor na aula anterior).

Depois de tanta comilança, fiquei pensando: será que se eu voltasse para o Japão, agora que meu paladar está mais receptivo a sabores e aromas incomuns, minha reação seria diferente? Acho que sim...

>> Postado por Aprendiz 19:35

Sábado, 13 de dezembro de 2008

Aula 67

Aula 67

Por Iná

Tenho impaciência com estrangeiros que consideram a América Latina toda igual, que pensam que todos os países “são a mesma coisa”. Essas pessoas parecem não se importar ou se dar conta de que, por exemplo, a gente aqui no Brasil fala português, não espanhol, e tem uma história muito diferente dos outros países da região. Sabe aquela situação de presidente americano chegar aqui e saudar o povo da Bolívia? Isso para mim é coisa de ignorante. Ignorante mesmo, pois é na medida em que não se conhece que não se diferencia.

Isso dito, eu sei “teoricamente” que a Ásia é muito diferente, que a China mesmo tem regiões diferentes, mas por ignorância (ignorante, moi?) eu imagino tudo igual – exótico e esquisito. E isso vale para a comida, penso que é tudo meio parecido.

Na aula de hoje, o chef convidado, filho de chineses com formação pela CIA em Nova York (CIA aqui não é agência de inteligência, mas Culinary Institute of America), explica que na China existem (subdividas em várias sub-regiões) quatro grandes regiões culinárias, que, se não confundi ou misturei completamente, são as seguintes:

1 – Norte. Culinária imperial; a culinária mais sofisticada da China, por estar na região que sediava a capital do Império. Com a sucessão de inúmeras dinastias que consumiam comida sofisticada, feita por chefs treinados, a cozinha do norte foi ficando mais e mais requintada e elaborada. É de lá o pato laqueado, ou pato de Pequim, por exemplo. No norte também, por ser frio, cultivam o trigo, que é um dos ingredientes básicos. Vale lembrar que, mesmo com o protesto dos italianos, o macarrão tem sua origem no norte da China, há mais de 5.000 anos.

2– Interior, na região de Sichuan. É a culinária campesina da China, mais tradicional, condimentada e apimentada. Por ser uma região geograficamente mais isolada, não sofreu muitas influências das demais.

3 – Litoral ou Xangai. Culinária apimentada, que utiliza muitos legumes e peixes como ingredientes principais. Temperos adocicados também são característicos dessa região.

4 – Cantão, antiga colônia portuguesa. Culinária com influência de todas as outras regiões, com os pratos de cozimento rápido, feitos em woks e, muitas vezes, em barraquinhas nas ruas. O professor explicou que, na mudança da dinastia Ming, muitos chefs do norte migraram para essa região, também influenciando o estilo. Nessa região encontramos ainda alguns acepipes mais exóticos, como os feitos com cachorro, além dos temperos agridoces. Assim como a região de Xangai, o arroz é um ingrediente importante.

Os pratos mais famosos da China provavelmente são o pato laqueado, a sopa de ninho de andorinha e sopa de barbatana de tubarão. Essas duas sopas, muito caras, são consideradas iguarias até na China. O ninho das andorinhas é feito com algas que elas recolhem do mar e depois, com a saliva, vão grudando umas nas outras. Os passarinhos fazem os ninhos em penhascos muito difíceis de alcançar.

O chef usa uma panela wok que observo ser mais profunda (mais alta) e com um diâmetro menor do que as que eu estava acostumada a ver nas barraquinhas de comida japonesa (yakisoba). Ele explica que a dele é chinesa mesmo, feita de ferro. Por isso, ele tem que temperar (curar) a panela toda vez, antes de usar e antes de guardar, e evitar que enferruje. A wok atinge temperaturas muito altas; por isso, não tem um cabo de madeira, que queimaria. O chef recomenda que a gente use uma luva ou pegador de panela de silicone para segurar o cabo quando quente.

Dos pratos demonstrados na aula, os que mais me chamam a atenção são o rolinho primavera e a banana empanada e caramelizada.

Para o rolinho primavera, o chef, com a wok extremamente quente, começa salteando os camarões muito rapidamente. Acho que não dá 1 minuto! Depois ele salteia todos os vegetais, que devem ser cortados em tamanhos similares. Ele avisa que, se quisermos trocar alguns dos vegetais, devemos lembrar de trocar por algum que não solte muita água, para não encharcar os rolinhos. Os ingredientes são temperados só no final, quando são todos agrupados, para que não tenhamos chance de temperar demais ou de menos. Depois de frio, o recheio é enrolado numa massa muito fina, com o lado lisinho para fora para, de novo, não encharcar. A massa, como é mais comum, tinha sido comprada e não feita em casa.

A banana não dá muito trabalho para empanar e fritar, mas para caramelizar... É necessário ter bastante caramelo, no ponto certo, para mergulhar a banana frita, uma por uma. Depois são dispostas em uma fôrma untada, para não grudar, até que esfriem um pouco. Ótimas! Definitivamente vou continuar comendo banana caramelizada com sorvete de creme em restaurante chinês; nada de fazer em casa!

O chef dá aulas em várias partes do País, está sempre viajando, de segunda à quinta. Nos fins de semana, trabalha em seu restaurante em São Francisco Xavier, uma cidade em região serrana de São Paulo, uns 200 km da capital. Ele transita muito bem entre teoria e prática, oriente e ocidente. Usa, por exemplo, termos técnicos como brunoise e brinca sobre pratos que brasileiros achariam esquisito comer. Todos, eu inclusa, parecem gostar muito da aula e se simpatizam com o convidado.

Fico imaginando a riqueza e diversidade da culinária da China e a vida muito diferente que as pessoas devem ter por lá. Pensei também como cada pessoa faz arranjos de vida para adequar todas as suas necessidades, anseios e desejos. Imagine só, viajar toda semana até São Paulo (cidade), pegar avião, dar aulas durante a semana para fazer todo o trajeto de volta para cozinhar o fim de semana inteiro?!

Além de ignorante, estou me sentindo preguiçosa: sabe quando que eu me habilitaria a um trampo desses?!

>> Postado por Aprendiz 22:33

Terça-feira, 09 de dezembro de 2008

Aula 66

Aula 66

Ora pois, aula portuguesa, com certeza!

Por Silvia

Ao entrar na escola, deparei-me com uma senhora que estava dando os últimos retoques no batom em frente ao espelho e colocando dentro da touca alguns fios de cabelo que insistiam em ficar soltos. Como nunca a havia visto ali antes, deduzi que ela seria a professora da aula de hoje.

A elegante senhora, de postura ereta, tem muito a nos ensinar, sim, e logo se adianta em dizer que não é chef coisa nenhuma, é cozinheira e ponto. Nascida em Portugal, suas especialidades giram em torno da culinária lusitana, mas aos poucos vamos entendendo que o universo de Mirene Reis é muito mais amplo e transcende as fronteiras de seu país. Desculpa-se antecipadamente se algo não der certo, pois diz que ela não “funciona” muito bem antes do meio-dia. É boemia assumida.

O menu do dia tem receitas tipicamente portuguesas e, por isso, bacalhau, caldo verde e sobremesa com muitos ovos farão parte dos pratos desenvolvidos pela chef, ops, cozinheira da terra de Cabral. Mirene diz que o aproveitamento da comida em Portugal é quase religioso. São inventivos quando o assunto é reaproveitar as sobras. Não aceitam desperdício de maneira alguma; faz parte da cultura do povo.

Começa a demonstrar seus dotes culinários com os dois belíssimos lombos de bacalhau que estão à nossa frente. Recomenda bastante cuidado na demolha do bacalhau, uma vez que tempo demasiado do peixe na água terá como conseqüência sua perda de sabor. Sugere também que compremos o bacalhau inteiro e que o limpemos em casa. Diz que o aproveitamento é muito maior e que normalmente a qualidade é superior aos encontrados em bandejas nos supermercados.

Para a receita do bacalhau que será assado no forno, Mirene utiliza ainda batatas, cebola e alho, pimentões e bacon. E azeite. Muuuuuito azeite. Para ter uma idéia, em 1,5 kg de bacalhau, Mirene usou aproximadamente 800 ml de azeite!

Metódica ao extremo, corta as batatas uma a uma, para que fiquem todas exatamente do mesmo tamanho, ajeita a travessa de bacalhau minuciosamente e aproveita para brincar com os pimentões verdes e vermelhos da receita, formando uma imaginária bandeira portuguesa. Pronto, tudo está em seu lugar. Travessa com permissão para decolar... Opa! Para ir ao forno.

Hora então de conhecermos os segredos do caldo verde. E o gostoso é que a gente descobre que caldo verde não tem segredos, quase não leva tempero, mas nem por isso deixa de ser delicioso. Essa sopa de batatas e couve-manteiga, que é muito típica de Portugal, tem sabor suave e é finalizada com deliciosas rodelas de chouriço. O chouriço da sopa, aliás, estava divino e sumiu rapidinho da panela.

Enquanto o bacalhau não fica pronto, Mirene se volta para a última receita do dia, a sobremesa. Fala sobre a charcada, sobremesa típica da região de Coimbra, “difícil” de fazer, dada a variedade de ingredientes que a receita exige. Ela leva ovo, ovo e ovo. Ah, sim, esqueci-me do açúcar e do açúcar, e também do açúcar. Por último, um copo de água. Deu para entender? O resultado é um consistente e amarelo doce de ovos decorado com açúcar caramelado e que provaremos logo mais, após o bacalhau, que, por sinal, já está saindo do forno.

A degustação se inicia e as criações da senhourinha não desapontam. Bacalhau úmido e saboroso, batatas macias, nadando em azeite, é verdade, mas que estão divinas. Todo mundo repete. A Mirene “funciona” de manhã, sim!

Pequeno break e então avançamos na charcada, que surpreende por não ter um gosto agressivo de ovos. Mas é bem doce, beirando ao melado. Boa opção para um doce de última hora, para aquele jantar bacaninha.

Almoço nobre o de hoje e que chega ao fim. Mirene despede-se, ora pois. E está com cara de quem vai tirar um providencial cochilinho. Afinal de contas, hoje ela foi tirada da cama cedo demais...

>> Postado por Aprendiz 19:28

PERFIL
  • Iná é executiva. Silvia é mãe de dois filhos. Elas não se conheciam, mas tiveram a mesma idéia: fazer um curso de formação de chef de cozinha. Durante um ano, frequentaram a mesma escola, em horários diferentes. A convite do Panelinha, as moças escreveram juntas esse blog, contando suas experiências na cozinha.

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