Terça-feira, 06 de janeiro de 2009
A última aula
Por Iná
Era o último dia de aula e eu com um monte de coisas para fazer no escritório... Não gosto nem um pouco de despedidas e penso em faltar, mas aí lembro que deverá ser uma aula bem tranqüila e festiva, e que provavelmente será a última vez que verei alguns dos colegas. Decido ir. Passo em um supermercado e compro duas garrafas de vinho, já pensando em terminar o meu trabalho no escritório de bem com a vida e com o álcool...
Nessa aula, já tinha sido informada, irão os três professores e teremos que fazer pratos utilizando alguns ingredientes sorteados por eles. Eu, já em clima de férias, decido adotar o meu lado contemplativo: só olhar os colegas cozinharem. Lado este que se sobressaiu durante todo o ano, por sinal.
Chego atrasada e escuto o Carlos (o professor das cinco primeiras aulas do curso) dando explicações, com seu português preciso, sobre como poderíamos expor cada um dos pratos no final: “Sirvam em um prato, para uma pessoa. Mas cuidado, que não é para ficar parecendo um PF, hein...”. Oh céus, a aula parece ser mais séria e menos festiva do que estava preparada. Bom, mas pelo menos, penso, vou fazer parte do meu grupo costumeiro e mais beber que cozinhar. Esse plano vai por água abaixo quando grupos são montados por Carole (a professora auto-intitulada “cruel”, com carinha sóbria, mas que deve manguaçar bem - brincadeira! é que ela tem um rostinho de Barbie e sempre me surpreendo vê-la fumar no terraço da escola). Ih, caí com colegas que nunca tinha feito grupo antes. Ih, não vai dar para adotar o meu estilo contemplativo. Ih, por que eu vim hoje mesmo?
Meu grupo é sorteado com os seguintes ingredientes: um peixe inteiro e bem fresco (acho que um robalo), farinha de milho, pimentões vermelhos, batatas, lentilhas, cogumelos shiitake, beterrabas e maçãs. Ao discutirmos quais pratos faríamos, sugiro, por estar tão bonito, fazer o peixe inteiro, recheado e assado. Ih, por que eu dei esse palpite mesmo? Imagina quem também acaba se habilitando a descamar, abrir pelas costas e limpar o peixe? Adivinhão! Pois é, tenho que mostrar algum trabalho no último dia de aula. Pego o bicho e fico tentando me lembrar da aula de peixes, por onde devia começar. A sorte é que a Gabi (Gabriela, a professora tim-tim por tim-tim) também estava lá e ela é quem tinha dado a aula de peixes. "Como é que eu faço mesmo, Gabi? Ah, posso cortar fundo mesmo, pelas costas, só tomar cuidado para não furar do outro lado? E as barbatanas, devo deixá-las ou não? E esses espinhos todos, como é que faço para tirar?"
Depois de um tempão (bem maior que qualquer peixeiro noviço levaria), lá estou eu com um peixe mal descamado e com vários espinhos que não consegui tirar, mas aliviada por ter feito alguma coisa. Com a ajuda das colegas, temperamos, recheamos (outra colega tinha feito um recheio saboroso com a farinha de milho e pimentões), amarramos e colocamos para assar.
As colegas também fazem purê de batatas e cogumelos grelhados. Nosso jantar fica assim:
Entrada: salada verde (podíamos usar folhas verdes à vontade) com beterraba e lentilhas.
Prato principal: um pedaço do peixe recheado, com purê de batatas e cogumelos.
Sobremesa: uma espécie de carpaccio de maçã com vinho tinto.
Ao ver o prato de peixe sem nenhum verde, achei que a gente tinha que pôr algum... Sugiro jogarmos um pouco de salsa picada sobre o prato. Ih, mais uma vez esqueci que menos é mais! É claro que essa decoração burlesca não passou despercebida pelos professores: "O que essa salsinha acrescenta ao prato? Será que não gera uma poluição visual? Será que o prato não fica mais parecendo sujo que decorado?"
A parte boa é que o peixe ficou ótimo, o recheio estava delicioso!
Paro e penso no meu objetivo neste curso, de pôr o pé na cozinha: a idéia agora é simplesmente fazer. Busco ação e realizar algo de concreto. Aprender a cozinhar bem ou fazer novos amigos podem ser conseqüências agradáveis, mas não são o meu objetivo principal no curso preparatório para chef que resolvi fazer.
Sabe que até que fiz?! Fiz um monte de jantares aos domingos em casa, sempre com a boa vontade de amigos-cobaias, fiz/escrevi outro monte de textos, com muito blablablá que sobrou para você destrinchar!
E definitivamente pus o pé na cozinha!
Será que já mereço usar o uniforme de chef, aquele que comprei no começo do curso? Certamente que não! Sinto que cheguei ao fim de uma picada, que me deparei com uma mata densa, um mundo desconhecido, rico e convidativo, o mundo da gastronomia. Dei uns passinhos, melhor, engatinhei por essa picada este ano e termino o curso ciente de que sei pouco, muito pouco ainda. Haja cobaias em 2009!
E por falar nisso, um ano novo DELICIOSO para você!
>> Postado por Aprendiz 13:11
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Iná é executiva. Silvia é mãe de dois filhos. Elas não se conheciam, mas tiveram a mesma idéia: fazer um curso de formação de chef de cozinha. Durante um ano, frequentaram a mesma escola, em horários diferentes. A convite do Panelinha, as moças escreveram juntas esse blog, contando suas experiências na cozinha.











